quarta-feira, agosto 31, 2005

Evoé, Roberto Freire!

Foi bonita a palestra de Roberto Freire, o célebre autor de "Sem Tesão Não Há Solução" e criador da Somaterapia, ontem na PUC. Ele continua aquela figura carismática e enamorada da vida, que notamos em seus textos. Aliás, nada me alegra mais do que as pessoas para quem idéia e existência são duas facetas de um mesmo caso de amor pelos mistérios do mundo. Entre tantas reflexões profundas sobre a necessidade de o homem encontrar suas originalidade -o que passa pelo repúdio das engrenagens autoritárias de uma sociedade como a nossa-, algo me chamou a atenção, em especial. Já nos momentos finais da palestra, ele comentou que, após um grave acidente, tem passado momentos difíceis, por causa das insistentes dores físicas. Nada mais irônico, em se tratando de alguém que tanto nos fez (e faz) ver o corpo como fonte de prazer, de felicidade e de comunhão com os outros, com o mundo, com o espírito. Mas Roberto, aos tantos estudantes que nos apinhávamos, ávidos, na sala no quinto andar da universidade, deu mais uma lição preciosa de sua sabedoria tesuda: nada de chororô, e nada de uma pseudo "exultação" alienada e decadente. Lúcido e com ar sério, falou de sua dor como uma realidade, sim, mas que cabia enfrentar com uma "realidade" ainda maior: a do desejo e da arte. Contou de uma recente música que compôs com os filhos, e inclusive a pôs pra tocar. Na canção, de que fez a letra, diz : "Como demora a morrer a juventude em mim" e "Se recomeço a amar, então me afasto do fim". Evoé, Roberto. Em você, como em Zé Celso, vejo "velhos mestres" -um dos arquétipos do inconsciente coletivo, segundo Jung- tão mais jovens do que eu e minha geração... Autênticos avatares do deus Dionisio.

terça-feira, agosto 30, 2005

truco!

À espera da aula da academia, entro na lanchonete, peço um café, sento-me à mesa e abro meu livro. O ritual de sempre. Aliás, o livro, também ele, era sobre rituais das sociedades arcaicas. Mas eis que irrompe a surpresa. Três moças sentam-se ao lado. Bem jovens (vim depois a saber que vinham da aula do cursinho). A princípio, duas delas estavam discutindo. "Ih, já era a minha paz", pensei, vendo, do alto de minhas pomposas meditações, aquela ceninha infantil (uma delas se queixava da pouca atenção que a amiga lhe dispensara em alguma ocasião). Os ânimos serenam um pouco. Posso retomar a leitura. Mas logo viria nova perturbação lá da "planície": desta vez, um chamado dirigido a mim por uma das moças: "Ah, nosso amigo aí tá estudando, né?!". O que ela queria, em resumo, é me chamar pra compor com ela uma dupla para uma partida de truco contra as outras duas. Topei. O problema é que mal sei dizer o que é "cortar o baralho", tamanha minha "experiência" e destreza no jogos de cartas. A moça que me convidou se encarrega de explicações, rapidíssimas, como se se tratasse da coisa mais simples do mundo. Perdido no espaço, mas mantendo a pose, eu sigo todas as instruções da minha parceira e comandante, e encaro também os olhares maliciosos das adversárias, essas safadas que, várias e várias vezes, se aproveitaram de minha ingenuidade pra descobrir todas as minhas cartas e antecipar minhas jogadas! O jogo corria bem (bem mal pro meu lado), quando chega perto de nós um segurança pra lá de ranzinza, espreitando e por fim acabando com a brincadeira. Nos despedimos, eu indo pra academia, elas pensando na "balada" daquela sexta à noite, claro que no maior conflito porque no dia seguinte, sábado de manhã (!) teriam mais uma aula, ou melhor, uma sessão de adestramento, para o vestibular. Como as três fiandeiras gregas do destino, essas três jogadoras, porém, é que me deixaram uma aula , naquela tarde. Aula sobre o jogo, a malícia, a esperteza e a generosidade que fazem a vida valer a pena. Naqueles instantes mágicos que vivemos juntos, foram vocês a montanha, e eu a planície, fui eu a criança, e vocês as mestras. Obrigado.

domingo, agosto 28, 2005

hã???

"Unzuhause"??? Que é isso? Colhi a expressão num livro sobre o filósofo Martin Heidegger. O termo, alemão, se traduziria mais ou menos como "fora de casa". É assim que Heidegger interpreta a condição do homem que descobre em si uma fome e sede de sentido, uma atração pelo "Ser", já não satisfeita pelos comportamentos e idéias enlatados, pelo imaginário domesticado, pelo conformismo do rebanho.
Além disso, é uma palavra bela.