sábado, dezembro 30, 2006

Smells Like Teen Spirit


Antes de se revelar como nudez da alma ante suas falsas identificações, o nirvana foi em mim vestimenta pro corpo: a vestimenta grunge de um fã ensandecido de Kurt Cobain e seu grupo de rock rs. Essa semana matei um pouco a saudade dessa época, graças a um excelente documentário do canal a cabo GNT. Imagens raras, depoimentos dos ex-companheiros de Cobain (que se matou em 1994), comentários de especialistas, nada faltou. E eu, cá com meus botões, fui curtindo em tudo aquilo uma deliciosa viagem no tempo e um reencontro dos tempos: uma misteriosa sinfonia de síntese e harmonia entre as notas musicais de um e outro dos "nirvanas". Pois a trajetória, som e poesia de Cobain exprimem uma estética de revolta, estética autêntica, para além dos clichês de um jovem encucado com o "sistema". E o nirvana filosófico é, também ele, uma re-volta: re-torno às fontes primeiras da vida, um alegre, jovem e "grunge" resgate da Superalma (Atmã) que vive nas águas profundas do Ser, a muitas léguas seja da praia do recreio, seja da cidade da labuta. O Nirvana do Atmã é a Criança Eterna nadando livre no oceano do inconsciente coletivo, criança ainda não fisgada pela ditadura do dinheiro, como na capa do clássico "Nevermind" do Nirvana de Cobain.

O Ser e o Tempo



Senhor do tempo, dançarino dos ciclos implacáveis de criação e destruição do mundo, fogo do desejo, criador mítico da Ioga. Ele é Shiva, avatar indiano de Dionísio. Como Dionísio, é a desgraça dos que o rejeitam, e a bênção dos que o reconhecem dentro de si.
"Se vocês descobrirem aquilo que está dentro de vocês, aquilo que descobrirem os salvará. Se não descobrirem o que está no seu interior, aquilo que vocês não descobrirem os matará" (Evangelho gnóstico de Tomé).

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Sabá!


"Ainda conheço a natureza? conheço-me a mim mesmo? -Chega de palavras. Sepultei os mortos no meu ventre. Gritos, tambor, dança, dança, dança! Nem sequer vejo a hora em que, os homens brancos desembarcando, cairei no vazio.
Fome, sede, gritos, dança, dança, dança, dança."

Arthur Rimbaud
Uma Temporada no Inferno

quarta-feira, dezembro 27, 2006

O Grão-Mestre da Fraternidade Liudvikiana rs


Vampira Olímpia foi um encontro importantíssimo na minha vida. Ou, como me parece mais lógico, um reencontro precioso nessa curva de nossa longa via de encarnações. Muito aprendo com ela. Entre outras coisas, como tentar inserir fotos neste blog rs -a vontade de retomar o Unzu, aliás, tem tudo a ver com a abertura do Castelo blogosférico da Vampira, cuja visita recomendo a todos (http://casteloolimpia.blogspot.com/)!
Obrigado Vampira Olímpia Nita Nietzsche Nyx!

A primeira imagem que escolhi não podia ser outra, senão do Grande Mestre que, também conhecido por mim de eras, ensolara e ensombreia minha presente existência, e minhas buscas gnósticas e agnósticas, com sua escrita misteriosa e profunda. Dele sou adepto apaixonado e por isso mesmo rebelde: JUNG!

retorno

Eis que, praticamente um ano depois, me disponho a voltar a essses rabiscos. Ar-risco? Ora, viver é muito perigoso (Guimarães Rosa) e todo ser-no-mundo é risco, a escrita não deixaria de sê-lo- risco físico no mudo inerte da matéria, riscos do mundo ermo da alma.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

emocione-se

"O conflito gera o fogo dos afetos e das emoções e como todo o fogo, possui dois aspectos, o de queimar e o de produzir luz... A emoção é a fonte principal de realização da consciência. Sem emoção não há transformação da obscuridade em luz e da inércia em movimento".

CARL GUSTAV JUNG

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O jovem poder da manhã

Poema enviado (em resposta a meu texto anterior, "o Sol no porão") por uma nova e já queridíssima amiga, Patrícia, terapeuta e xamã que sabe deixar seu profundo coração sair pela boca:

"Contempla o sol
Na hora da meia-noite
Com pedras edifica
No fundamento sem vida

Acha então na decadência
E na noite da morte
O reinício da criação,
O jovem poder da manhã

Deixa as alturas revelarem
O verbo eterno dos deuses;
As profundezas devem conservar
O tesouro repleto de paz.

Vivendo das trevas,
Cria um sol,
Tramando na matéria
Reconhece o gozo do espírito."

(R. Steiner)

Obrigadíssimo, Patrícia, e que o verbo eterno dos deuses continue tendo em você um vaso tão sensível para florescer . Beijos

terça-feira, fevereiro 14, 2006

o Sol no porão

Uma das mais belas poesias já inventadas pelo gênio religioso do homem se encerra pedindo que não caiamos em tentação e sejamos livres do mal. Enquanto apelo utópico por elevação espiritual e moral, por um ir além da miséria do pecado, é perfeitamente compreensível. Mas na experiência cotidiana estamos longe, santificados ou não, de qualquer imunidade ante os perigos da negatividade. A começar pela própria angústia radical do estar vivo. Do estar suspenso entre esses dois grandes Nadas do que vem antes e depois da efêmera existência. E do estar imerso no Nada da própria existência, este escoar implacável do tempo. O redemoinho das ilusões, ignorâncias e desejos torna difícil todo anseio por beatitude, mal podemos enxergar dentro e fora de nós em meio à tempestade de (pre)ocupações, que tanto obscurecem, atormentam, sobrecarregam. Não temos angústia, a "somos", enquanto criaturas eivadas de desejos e temores. E Cristo não ensina o pedido de que sejamos livres dela. Ao contrário, conviveu com estas sombras ao longo de sua luminosa trajetória, da tentação no deserto ao desespero da cruz. E sua ressurreição, após a descida aos infernos, tampouco propiciou a seus discípulos garantias contra as perseguições e frustrações. O inferno, assim como o céu, está entre nós no aqui-agora da Terra. É pois um dos recantos de nossa moradia existencial. Não pode ser deixado às traças e baratas, e só "descoberto" como uma horrenda habitação a que fôssemos precipitados por cruéis seqüestradores. Tratemos de abrir as portas e janelas deste porão, limpemos as teias de aranha, coloquemos ali um lindo vaso de flores, deixemos a luz do Sol entrar. Como as Erínias da lenda grega, que os monstros da dor sejam também reverenciados em nossas festas e possam assim abençoar a cidade, ou a multidão de "egos" ou forças que nos cindem e requerem nossa atenção e amorização. Se somos angústia, a vivamos plenamente, na "plenitude" falhada de nossa frágil condição humana e de sua iluminação possível. Não nos iludamos com pseudo-"libertações" ante o fundo sem fundo da voragem absurda de que emergem nossos cenários temporários de beleza e sentido. Ao contrário, sob este contraste tais cenários crescem em dignidade e profundidade.

domingo, janeiro 15, 2006

andarilho no vale da angústia

A bruma, o frio, a escuridão dificultam a caminhada. Imagens ainda mais hostis provêm dos confins da recordação e do desejo. Os frutos esmagados pelo chão seriam os banquetes que agora me dilaceram de fome e sede. Mas eu prossigo. Tento não incorrer nas pistas falsas de outrora, tenho muitas vezes a sensação de andar pelas mesmas reentrâncias e voltar sempre ao mesmo nada. Não há mapas que garantam o caminho reto, tampouco o desespero, a vontade de um golpe de sorte ou de um feitiço podem resolver. Resta andar. Dar passo por passo, firme, concentrado no que estou fazendo. O instante é o que existe, pleno, evidente, imperioso como a rocha. O ambiente é áspero, é rua, mas precisa ser acolhido como se fosse casa. Como se tantos desvios, buracos, miragens, cavernas, desfalecimentos, fossem um só Caminho, como se o tracejar mais densamente convicto pudesse provir do pontilhado mais incerto, errático e abstruso. Talvez nisso uma pequena diferença em relação às promessas das "bíblias", se lidas com demasiado pé na letra, pé que esmaga o verde, pé insensível que arrasta e se arrasta, pé que se machuca a si próprio por culpa (?) de um coração que vagueia sem saber para onde, buscando os "sudários" mais santos nos panos de chão mais escrotos... Não é esse vale da morte o meu coração? Mas o andarilho precisa prosseguir. Ou, que se deite, repouse e sonhe, sob profunda serenidade, um sonho lúcido em que as coisas se mostrem sem os véus da "realidade" aceita de todos os dias, realidade mais turva e daninha -porque "habitual" - do que estes abismos dantescos de Doré, embora sem Virgílios talvez para conduzi-me, e sem Beatriz que não aquelas que animam os fantasmas mais cálidos, as quimeras mais gélidas, a precisão imprecisa de meus ardores e ideais. Que o andarilho se faça escavador, e que suas grutas de medo se abram em seu magma "escal-dante", na poesia viva da carne liberta.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Narciso com seus botões

Narciso acreditava que o mundo era uma marcha no compasso de seus passos: um brinquedo que ele podia repelir ou trazer pra si ao seu bel-prazer: que podia ir fazendo o que quisesse, na companhia calada e compreensiva da tão amada solidão, e, quando cansado de si, podia chamar Genésio, Claudemar e Fabrício pra jogar e o alegrar. Mas foi descobrindo que não era bem assim: que jogar com seus botões, esporte que praticava desde a infância, inclusive debaixo da mesa da sala (enquanto os parentes conversavam e festejavam no "andar de cima") , não era sempre, a todo e qualquer momento do dia e da noite, tão bom que não aparecessem outras vontades, mas, quando estas apareciam, Narciso não tinha outros botões, humanos, tão caros que não podia comprar, pra arrastar pro tabuleiro e mexer e remexer em jogos de auto-saciamento. Mas, teme, não descobriu isso tarde demais?