domingo, janeiro 15, 2006

andarilho no vale da angústia

A bruma, o frio, a escuridão dificultam a caminhada. Imagens ainda mais hostis provêm dos confins da recordação e do desejo. Os frutos esmagados pelo chão seriam os banquetes que agora me dilaceram de fome e sede. Mas eu prossigo. Tento não incorrer nas pistas falsas de outrora, tenho muitas vezes a sensação de andar pelas mesmas reentrâncias e voltar sempre ao mesmo nada. Não há mapas que garantam o caminho reto, tampouco o desespero, a vontade de um golpe de sorte ou de um feitiço podem resolver. Resta andar. Dar passo por passo, firme, concentrado no que estou fazendo. O instante é o que existe, pleno, evidente, imperioso como a rocha. O ambiente é áspero, é rua, mas precisa ser acolhido como se fosse casa. Como se tantos desvios, buracos, miragens, cavernas, desfalecimentos, fossem um só Caminho, como se o tracejar mais densamente convicto pudesse provir do pontilhado mais incerto, errático e abstruso. Talvez nisso uma pequena diferença em relação às promessas das "bíblias", se lidas com demasiado pé na letra, pé que esmaga o verde, pé insensível que arrasta e se arrasta, pé que se machuca a si próprio por culpa (?) de um coração que vagueia sem saber para onde, buscando os "sudários" mais santos nos panos de chão mais escrotos... Não é esse vale da morte o meu coração? Mas o andarilho precisa prosseguir. Ou, que se deite, repouse e sonhe, sob profunda serenidade, um sonho lúcido em que as coisas se mostrem sem os véus da "realidade" aceita de todos os dias, realidade mais turva e daninha -porque "habitual" - do que estes abismos dantescos de Doré, embora sem Virgílios talvez para conduzi-me, e sem Beatriz que não aquelas que animam os fantasmas mais cálidos, as quimeras mais gélidas, a precisão imprecisa de meus ardores e ideais. Que o andarilho se faça escavador, e que suas grutas de medo se abram em seu magma "escal-dante", na poesia viva da carne liberta.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Narciso com seus botões

Narciso acreditava que o mundo era uma marcha no compasso de seus passos: um brinquedo que ele podia repelir ou trazer pra si ao seu bel-prazer: que podia ir fazendo o que quisesse, na companhia calada e compreensiva da tão amada solidão, e, quando cansado de si, podia chamar Genésio, Claudemar e Fabrício pra jogar e o alegrar. Mas foi descobrindo que não era bem assim: que jogar com seus botões, esporte que praticava desde a infância, inclusive debaixo da mesa da sala (enquanto os parentes conversavam e festejavam no "andar de cima") , não era sempre, a todo e qualquer momento do dia e da noite, tão bom que não aparecessem outras vontades, mas, quando estas apareciam, Narciso não tinha outros botões, humanos, tão caros que não podia comprar, pra arrastar pro tabuleiro e mexer e remexer em jogos de auto-saciamento. Mas, teme, não descobriu isso tarde demais?