Sunday, April 22, 2007

A terapia de Marcel Proust


"Há, no entanto, certos casos patológicos, por assim dizer, de depressão espiritual em que a leitura pode se tornar uma espécie de disciplina curativa e ser encarregada, por incitações repetidas, de reintroduzir perpetuamente um espírito preguiçoso na vida do espírito. Os livros desempenham então, em relação a ele, um papel análogo ao dos psicoterapeutas no que diz respeito a certos neurastênicos".
Essas são palavras do grande Marcel Proust em um ensaio chamado "Sobre a Leitura". Acho-as extremamente válidas e atuais, ainda mais em se tratando de um país como o nosso, em que se lê tão pouco e tão mal, e onde as mídias eletrônicas tomam tanto espaço na vida das pessoas, afastando-as dos livros. Muitos dirão, ah, mas a garotada lê e escreve muito mais do que quando havia só televisão e videogame, e justamente por causa dos sites, orkut, msn, blogs.
É verdade. Não é absurdo dizer que as novas gerações têm acesso a uma quantidade de informação maior, por mês, do que talvez Sócrates, na antiga Grécia, talvez tenha acumulado a vida toda. Mas me ocorre aqui a frase de Carlos Drummond de Andrade: "O mais difícil não é fazer mil gols como Pelé, e sim fazer UM GOL como Pelé" . Assim também, mil, um milhão de informações empilhadas na cabeça não garantem uma formação como a apontada por Sócrates e pelos mestres de todos os tempos. Não digo formação em termos de currículos acadêmicos; há um clichê que, na voz rouca e afetuosa de meu avô, era delicioso e profundo aos meus ouvidos: "O que vale é a escola da vida".
A formação do indivíduo, a formação que realmente importa, no limite, é o desenvolvimento integral como ser humano, e isso sobretudo passa pelo cultivo da vida interior. Daí os livros serem indispensáveis, como alimento cotidiano e mesmo como remédio para as aflições e padecimentos da alma, conforme mostrado por Proust.. Não creio, ou não quero crer, que algum dia os livros desapareçam devido aos avanços tecnológicos. Se morrerem, levarão junto para o túmulo a própria civilização.
Isso tudo me parece bastante óbvio, mas, como sempre, há um outro lado na questão. Nietzsche, em sua denúncia da doença moderna do "homem teórico", mostra que o saber livresco é muitas vezes sintoma da atrofia do instinto. A psicanálise de Lacan me parece ir, admiravelmente, nessa linha crítica, sobretudo em sua chamada "segunda clínica", ou clínica do Real. Nela, já não se trata de resgatar um sentido perdido ou censurado da história do sujeito; a transformação da pessoa não se faz por um acúmulo de "mais saber" sobre o inconsciente, mas sim pelo Ato, pela responsabilidade ética de quem assume seu próprio desejo ante o sem-sentido da vida e da morte, inscrevendo sua singularidade nas páginas em branco do existir, num caminhar solto, leve, libertado dos sentidos e identidades impostos pela cartilha do Big Brother / Big Other (o Grande Outro) da sociedade repressora.
Isso não tira importância do livro, mas redimensiona o peso da leitura. Lacan era contra o "penser" (pensar) que seja subordinado ao interesse de "panser" (curativo). Penser e panser são palavras com idêntica pronúncia em francês, e igualmente nocivas enquanto anestésico limita-dor. A vida é uma ferida em aberto, sábio é sofrê-la e "pensá-la" de peito aperto [notem o ato falho, eu quis escrever peito "aberto" rs] , nó na garganta mas olhos tão serenos quanto possível. Para isso também as grandes obras estão do nosso lado. Não como auto-ajuda ortopédica, band-aid alienante, mas sim para escancarar a aberração das coisas, ruínas com as quais podemos recriar o mundo e a nós mesmos.

Saturday, April 14, 2007

Hércules na era do vale-tudo

Royce Graice em luta de vale-tudo

Não é de hoje que tenho um sono dos mais bagunçados, mas hoje abusei rs, simplesmente capotei no sofá da sala, lá pelas duas da manhã, com luzes, tv, computador (!) , tudo ligado. E lá pelas cinco da manhã acordei, todo aturdido, e levei um tempo pra pegar no sono de novo. Mas esses minutos de intervalo compensaram: topei no Sportv com um de meus "esportes" típicos das noites de sábado: assistir as lutas de vale-tudo!
Sou, ao menos conscientemente, bastante pacifista, mas confesso que há muito tempo sou fascinado pelas lutas e artes marciais. Não deixa de ser um rito "orgíaco", que tanto interessaria ao sociólogo Michel Maffesoli, esse espetáculo de implosão das fronteiras entre corpo e corpo, entre sangue e sangue, ou seja, entre os cordões sanitários que separam hoje em dia os indivíduos (até mesmo na hora da intimidade suprema, o sexo, neurotizado pela Aids).
Fã de carteirinha de Rocky Balboa, nas suas épicas e ultra-ideológicas jornadas contra os malvados "russos", também fui fanático por Mike Tyson; os tempos mudaram, tudo "evolui", até o grau da violência dentro e fora dos ringues, não por acaso o destaque que as lutas de vale-tudo (nome bastante sintomático sobre os costumes e a ética de nossa época) conquistaram, tirando espaço do boxe e até daquelas antigas disputas circences rs chamadas de luta livre, lembram daquilo?
As lutas desta madrugada foram especialmente divertidas porque combinam com meu gosto rs, muita "trocação", como se diz (os lutadores de pé e se socando sem parar rs), e muitos monstros, como um ex-jogador de futebol americano, que deve ter uns 150 quilos de puro músculo, e uma cara realmente de assustar; o narrador chegou a comentar que o coreano adversário teve uma "visão do Inferno" quando o monstrão veio para cima dele rs: a luta durou uns 3 segundos! O coreano nitidamente foi nocauteado pelo medo!
Uma das coisas que mais me impressionavam nos irmãos Gracie, aliás, era justamente a forma como resistiam a esses gorilas, vencendo-os à base da técnica, inteligência e paciência. Cheguei, anos atrás, a me empolgar em lutar jiu-jitsu (não passei da primeira aula, porém rs) por causa disso:soube que é uma luta muito praticada nos monastérios budistas, talvez tenha sido criada neles, e é de fato uma tradução concreta de toda uma visão de mundo que apregoa que a inteligência está acima da força bruta.
Essa lição, aliás, tive também essa semana noutro lugar: numa palestra sobre o mito de Hércules, na Livraria Cultura. Quem a deu foi o professor Viktor Salis, nascido na Grécia, mas que vive e trabalha aqui no Brasil. Outra hora volto a esse tema com mais detalhes, mas queria apenas registrar a ênfase de Salis em desfazer um mal-entendido: de que Hércules seria o símbolo por excelência da força bruta e burra. Essa visão de Hércules se encaixa bem na nossa realidade atual, quando muitos apostam na grossura e na brutalidade como sinal de "virilidade" e forma de conquistar poder , prestígio e sexo. Ao contrário, os "Doze Trabalhos" do grande herói grego –por exemplo, a luta contra terríveis animais, ou a conquista do cinto de Hipólita- são doze degraus do processo de paidéia, a formação do Homem (anthropos), ou seja, do ser ético, que domina a si mesmo, é senhor de seus vícios e desejos e é iniciado na arte de amar e de viver em benefício próprio e dos outros (sendo isso a Ética, no sentido grego, aquilo que favorece a vida, e a vida feliz). Por isso a importância, nos trabalhos de Hércules, do auxílio da deusa Palas Atena (a minha predileta, na mitologia grega rs), cujos conselhos faziam Hércules conter o instinto cego e cumprir suas tarefas.
"A arte é uma coisa mental", dizia Leonardo da Vinci. As grandes lutas, físicas e espirituais (físico e espírito são dois lados de uma só moeda, do tesouro do Ser) também o são: pois contamos com a mente (não só o intelecto, mas também coração, pois o coração é a sede da sabedoria, no duplo sentido da palavra sede, isto é, moradia e necessidade de beber) para transcender o "vale-tudo" do mundo.

Friday, April 06, 2007

rosa, cruz (Sexta-feira da Paixão)

"Quero ficar com o Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bergson, com Berdiaeff–com Cristo, principalmente" (Guimarães Rosa, em carta a seu tradutor italiano, a 25 de novembro de 1963).

Estar com Cristo esta noite não é estar com princípios metafísicos agasalhadores, mas no gélido opaco do luto. Não é receber consolação e redenção da angústia, é se adensar nela, descer aos infernos dela, e ali velar pelo Bem frágil, indefeso, crucificado, velar por nossos ideais e sonhos derrotados pelo tempo, pela injustiça, pelo desamor.
Estar com Cristo esta noite é velar, na figura do Deus morto, pela humanidade que se aniquila com os tormentos que se impõe, entre eles a própria religião, quando usada para agredir, reprimir, fanatizar, iludir.
Estar com Cristo esta noite é ter a coragem de des-esperar, de indagar ao Cosmos, em serena febre: Por que me abandonastes? Por que estou tão só, num corpo frágil e finito, num mundo doente, cego, enlouquecido? Por que existir neste efêmero segundo entre o nada e o nada, entre o pó e o pó, estátua de mil pós maquiada de alegrias, projetos, dizeres fadados ao mais retumbante fracasso? (Estátua de mil pós e de mil poros, buracos de falta, de culpa, de insuficiência, de exposição, de abertura ao risco).
Estar esta noite com Cristo, como deseja Guimarães Rosa, não é crucificar o desejo, mas vê-lo florescer em rosa na cruz que nos faz transcender todo desejo ao realizá-lo. É contemplar a rosa que nasce no asfalto selvagem, na cosmo-polis crucificante, rosa mística da ressurreição que haverá de vir.