Tuesday, July 31, 2007

gaia ciência

Imagem do "Espírito Brincalhão" do Tarô Zen de Osho
Um dos conceitos mais fascinantes da psicologia de Jung é o de sincronicidade . Trata-se de "um princípio de conexões acausais": abrange as coincidências "inexplicáveis" entre fatos que têm entre si uma relação de significado, sem que um tenha sido causado pelo outro; o conceito se refere em especial à confluência de sentido entre um estado psíquico do observador e algum acontecimento externo, simultâneo e independente.
Noutras palavras, a sincronicidade consiste naquilo que, no dia-a-dia, pode nos ocorrer na forma daquela surpresa: "Affff, se tivéssemos planejado não teria dado tão certo".
Acabo de ter um pressentimento da sincronicidade –digo assim porque essas coisas são mais da ordem da intuição do que de uma certeza racional, já que estamos nos referindo a uma "lógica" não-consciente, portanto para além dos limites do cognoscível, no limiar da coisa-em-si kantiana que é explorada por Jung segundo a noção de inconsciente coletivo.
A "coincidência" em questão veio de um hábito que me é caro, a consulta ao tarô zen de Osho. Ele já me propiciou resultados interessantíssimos, verdadeiras fotografias da minha situação interna no instante respectivo (sim, pois somos não uma coisa fixa, mas sim fluxo incessante; "eu sou eu e minhas circunstâncias", segundo Ortega).

E não foi diferente desta vez. A carta que tirei: Espírito Brincalhão, com uma mulher vestida de palhaço, em postura dançante e celebrativa. Muito interessante, primeiramente, que se trate de uma mulher: o feminino que habita o homem, a "anima", é a porta de entrada por excelência para o inconsciente. A mãe é a primeira portadora da anima na vida do menino, e a tendência, com a evolução pessoal (estudada por Freud ao pensar o "Complexo de Édipo"), é que ela se desloque dessa primeira projeção e encontre novas formas, criativas, de expressão. Jung diz que o homem aprisionado na anima materna padece de infantilismo, mas que aquele que perde contato com a anima corre risco ainda mais grave, o de esterilidade espiritual.
O fato de ser a figura do tarô ser uma palhaça é pra mim também algo rico de significado. Hoje mesmo, numa comuna de Vampira Olímpia no orkut, eu recordava o mestre Michelangelo Antonioni (morto ontem), e em especial a cena final do filme Blow Up, quando o fotógrafo assiste a um "jogo" de tênis de palhaços – um jogo sem bola! Magnífica alegoria da falta, do vazio no qual os homens constroem, pela iMAGIAção (a magia da imaginação, segundo termo cunhado num mosteiro que fica aqui no reino Unzuhause), o lúdico, o prazer.
Minha carta traz afirmações como: "No momento em que você começa a enxergar a vida como uma coisa não-séria, como uma brincadeira, toda a pressão sobre o seu coração desaparece. Todo o medo da morte, da vida, do amor – tudo desaparece". Resta então o vácuo. Resta então brincar, a exemplo dos palhaços de Antonioni, e celebrar a vida, à imagem e semelhança da palhacinha do tarô.

Nem preciso dizer o quanto tal carta, assinada pelo Inconsciente (ou o que os antigos chamavam de "deuses"), encontrou endereço divinamente (in) certo ao chegar à soleira de minha consciência!

Saturday, July 28, 2007

Manuel e meu Manual de primeiros-socorros


Oh! Signore, fa' di me un istrumento della tua pace:
Dove è odio fa ch' io porti l'Amore,
Dove è offesa, ch' io porti il Perdono,
Dove è discordia, ch' io porti l' Unione
Dov'è dubbio, ch' io porti la Fede,
Dov' è errore, ch' io porti la Verità
Dov'è disperazione, ch' io porti la Speranza,
Dov' è tristezza, ch' io porti la Gioia
Dove sono le tenebre, ch' io porti la Luce.
Oh! Maestro, fa' che io non cerchi tanto:
Ad essere consolato, quanto a consolare,
Ad essere compreso,quanto a comprendere,
Ad essere amato,quanto ad amare
Poichè
Si è:Dando, che si riceve;
Perdonando che si è perdonati;
Morendo, che si risuscita a Vita eterna.
(San Francesco d'Assisi, PREGHIERA SEMPLICE)
Oh Senhor, faze de mim um instrumento da tua paz:
Onde há ódio, faze que eu leve Amor;
Onde há ofensa, que eu leve o Perdão;
Onde há discórdia, que eu leve União;
Onde há dúvida, que eu leve a Fé;
Onde há erros, que eu leve a Verdade;
Onde há desespero, que eu leve a Esperança;
Onde há tristeza, que eu leve a Alegria;
Onde há trevas, que eu leve a Luz.
Oh Mestre, faze que eu procure menos
Ser consolado, do que consolar;
Ser compreendido, do que compreender;
Ser amado, do que amar...
Porquanto
É dando, que se recebe;
É perdoando, que se é perdoado;
É morrendo, que se ressuscita para a Vida Eterna.
ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS
tradução por Manuel Bandeira

Sunday, July 22, 2007

Angelus Novus

Paul Klee, Angelus Novus (1932)


"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso".WALTER BENJAMIN, Teses sobre o conceito de história

As manchetes não tardarão a indicar isso: mais uma catástrofe se escoa no ralo do esquecimento e da "banalidade do mal" (Hannah Arendt). Os homens voltam a se embasbacar com seus Pans e tamponar o seu pus.
Os templos de novo lotados de aleluias ao desejo reprimido, e os shoppings, de aleluias ao desejo degradado em consumismo. As fofocas das celebridades, as reviravoltas emocionantes das novelas. O novo escândalo em Brasília e o respeitável público do circo esbravejando, as autoridades prometendo rigorosa apuração dos fatos. O Corinthians dando mais vexame, os pobres torcedores se esgoelando de implorar que, ao menos no futebol, pudessem se sentir campeões de alguma coisa na vida. E, feriado após feriado, o Réveillon está logo aí, e vestiremos branco e comeremos lentilhas fazendo fé em um 2008 repleto de alegrias e paz. Ordem e progresso!
A história, como disse Walter Benjamin, é a história dos vencedores. E dos acomodados, com a honrosa exceção dos inconformistas que tentam "ser" já por si sós o mundo u-tópico (sem lugar) que gostariam que tivesse lugar no mundo. Já os derrotados, os que infortunadamente são "pegos" -próximas peças do dominó da lógica social mortífera vigente-, estes se acumulam como entulho carbonizado na fogueira inquisitorial da Estupidez de todos os podres poderes. O "céu" autoritário da sublimação exige que os perdedores do mundo sejam deixados para trás, na poeira e na fuligem do tempo, esmagador como a catástrofe de Congonhas, sarcástico como as autoridades do governo do relaxa e goza e do gesto do "vocês se fuderam, não nós".
Os pilatos deste mundo impõem suas tábuas de lei e de alienação, de esquecimento e de traição, fazendo as tragédias virarem retratos chorados por alguns e estatística vazia para o resto.
Hipnotizados pela ilusão do progresso, da felicidade sempre adiada, do sempre lá fora, do sempre mais, olhos fixos nas névoas do amanhã, quase não temos espaço para nós, quase não temos tempo para o tempo: desaprendemos a cuidar das delicadezas e possibilidades do presente, nos acumpliciamos com as injustiças que se arrastam desde o passado remoto. Fazemos do céu, ao invés de horizonte de contemplação da vida, passarela de aviões frenéticos, cegos e temerários.
Não surpreende que só nos recordemos de nossa pequena altura e de nosso chão, de nossa fragilidade e finitude, nas horas do enguiço da vida mecânica e do choque traumático do corpo e da alma, mas nessas horas, infelizmente, o chão não é casa nem cultivo, é buraco e túmulo.
Impotente para resistir à tempestade do progresso, o anjo da história se afasta do incêndio e dos cadáveres, bate as asas e se vai. E não só ele: tem momentos em que parece que até o demônio se cansou da gente e partiu, nos deixando nas garras de idiotas bem menos sedutores e menos humanistas do que o Senhor das Trevas foi capaz de ser , por exemplo no Éden, ao oferecer a Adão o fruto do "pecado" -a consciência- ou ainda, séculos depois, na conversa com Deus no Fausto de Goethe. Ali, ao invés de reforçar o coro dos contentes, dos anjos chapa-branca que louvavam a pretensa perfeição da obra do Criador, Mefistófeles chegou falando grosso, com sinceridade e certa revolta:
"De mundo, sóis, não tenho o que dizer,
Só vejo como se atormenta o humano ser.
Da terra é sempre igual o mísero deusito,
Qual no primeiro dia, insípido e esquisito.
Viveria ele algo melhor, se da celeste
Luz não tivesse o raio que lhe deste;
De Razão dá-lhe o nome, e a usa, afinal,
Para ser feroz mais que todo animal".

Thursday, July 19, 2007

tragédia em Congonhas




"tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu..."
(Chico Buarque)
"Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma
partícula do CONTINENTE, uma parte da TERRA; se um
TORRÃO é arrastado para o MAR, a EUROPA fica
diminuída, como se fosse um PROMONTÓRIO,
como se fosse o SOLAR dos teus AMIGOS ou
o TEU PRÓPRIO; a MORTE de qualquer
homem ME diminui, porque sou
parte do GÊNERO HUMANO.
E por isso não perguntes
por quem os
SINOS dobram;
eles dobram
por TI"

(John Donne)

Monday, July 16, 2007

sobre ratos e pratos do inconsciente


o ratinho aspirante a chef do filme Ratatouille

Não por acaso Dostoiévski chama de Recordações da Casa dos Mortos o romance em que relata os horrores de uma penitenciária na Sibéria. Entre estes, um "detalhe" especialmente chocante: os pedaços de barata que bóiam no prato de sopa dos prisioneiros. Não sei o que choca mais: o fato em si ou a indiferença com que muitos prisioneiros reagiam a isso... Depois nos surpreendemos com as realizações monstruosas daqueles que voltam "mortos" (do ponto de vista de dignidade e decência humanas) da escola do crime e da barbárie que é um sistema prisional como o brasileiro...
A capacidade de sentir nojo, nesse sentido, separa a morte e a vida da civilização, é sinal de transição humanizadora do bicho conhecido como "Homo sapiens" - que tantas vezes mereceria ser chamado sim é de "Homo demens" .
E é esse nojo civilizatório que sem dúvida a maioria de nós teria ao deparar com um rato, ainda mais se estivesséssemos num restaurante. Esse é um dos ingredientes que tornam tão interessante o filme Ratatouille, que assisti neste final-de-semana no cinema. É um filme de animação que focaliza as peripécias de um rato que, paradoxalmente, tem um dom fantástico justamente para o quê? Para a cozinha! Não, não para roubar restos, mas para criar pratos: o ratinho tem dom para ser chef. Mais que isso, para ser o melhor chef do melhor restaurante da capital gastronômica do mundo, Paris! Conseguirá realizar tal proeza? Deixo-vos a tarefa de verificar por vós mesmos, detesto críticas estraga-prazeres rs.
Aliás, a questão da crítica é central no filme. Um famosíssimo crítico de culinária cujo sobrenome, não por acaso, é "Ego" rs, chega a ser em dado momento provocado:"Você parece magro demais para gostar de comida". De fato, ele era esquálido, além de dotado de enorme olheira, mal-humorado e arrogante. Em suma: a despeito de um comentador da arte do comer, era ele mesmo um mau comedor ou mal-comido, sabe-se lá rs...
O que eu queria destacar por ora é o rico valor simbólico dessa circunstância proposta pelo filme: um rato que aspira a ser chef, com mil obstáculos a superar para realizar tal vocação. O filme evita passar uma imagem excessivamente "fofa" do bicho, o que enfraqueceria o argumento. Há cenas realmente nojentas rs, como quando o ratinho e sua turma correm pelas cozinhas. Mesmo assim, nossa simpatia é despertada... Ambivalências!
E na psique, muitas vezes é o "rato" – a sombra, o lado reprimido, aquilo que gera medo ou repugnância- que guarda consigo as receitas mais criativas para o banquete do nosso desenvolvimento pessoal. Por isso Ratatouille, além de muito divertido e bem realizado, é uma espécie de conto de fadas que, como próprio desse gênero de histórias, traz à tona, sob a forma de símbolos, verdades profundas do humano: é um convite, sempre urgente, à reconciliação do Ego ranzinza, ilusoriamente onipotente, com a vastidão do inconsciente, que quando apequenado para caber em esgotos e cadeias mal-planejados transborda com mais fúria ainda contra a cidade que treme na superfície.
Unzuhause

Sunday, July 15, 2007

asas do desejo


Que a arvorezinha da colina, de que fala Rilke no poema a seguir, dê o ar de sua graça e floresça, se perfume, se permute e se povoe de aves e cantos. E que os temporais do temporário não a destruam na mente asfaltada de falta e de carência, e sim a fertilizem na alma semeada de desejo e de potência. Assim quem sabe, para além do desespero do poeta, o Terrível seja apenas o grau que ainda não podemos suportar do Sublime que ainda não podemos compreender - Anjo da guarda que aguarda e paira, silencioso, nas lonjuras íntimas do Ser. Boa semana.

Unzuhause

"Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha

destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo

do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,

a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu. (...)"
Rainer Maria RilkeELEGIAS DE DUÍNO

Monday, July 09, 2007

padre Pedro


Padre Pedro

Este reino Unzuhause está de luto. Recebi a notícia do falecimento, na terça-feira passada, de Pedro Sbalquiero Neto, bispo da cidade de Vacaria (RS) e ex-pároco, em São Paulo, da Igreja Nossa Senhora da Salette.
"Padre Pedro", como sempre o chamei, mesmo depois da ordenação como bispo "dom Pedro", foi uma pessoa fundamental na minha vida, como em tantas outras vidas. Era dinâmico, dotado de uma personalidade marcante e de um carisma raríssimo, sabia empolgar e engajar as pessoas em suas mil idéias e iniciativas em prol de uma Igreja atuante no mundo.
Eu o conheci na cerimônia religiosa de minha colação de primeiro grau, na Salette. Desde então notei tratar-se de alguém diferente. Quando voltei à paróquia, tempos depois, à procura de aconselhamento, fiquei imediatamente cativado pela maneira séria e amiga com a qual ele me escutou e me acolheu.
Adolescente perdido na confusão de meus poucos anos e muitos sonhos, recebia das palavras, da energia e do olhar de padre Pedro a força de que precisava pra prosseguir fiel a mim mesmo e, como ele dizia, a "meus projetos de vida".
Embora talvez tivesse secretas expectativas de me tornar padre rs, ele me dava dicas pra encarar um dos mais difíceis vestibulares de minha vida: não tanto o das fuvests, mas sim o de como me apresentar para uma menina de que eu gostasse. A timidez era (é) uma verdadeira cruz nos meus ombros rs, que ele soube aliviar, ao me fazer confiar mais em mim mesmo, e ao me apresentar para gente da minha idade, lá do grupo de jovens da paróquia, desse modo me tornando menos "adulto precoce", menos nerd, e mais sociável.
Quando o conheci, eu ainda não havia namorado. Aliás, inesquecível o sorriso meio maroto dele, quando, numa festa junina na paróquia, me pegou aos beijos com uma amiga, nos fundos do pátio, junto, acho eu, ao pára-choque de um fusca azul rs.
Ele foi o pai que deixei de ter muito cedo. Foi o mestre que me ensinou a ler a Bíblia, ao me recomendar as leituras semanais em preparação para minha Primeira Comunhão, que veio de suas mãos.
Eu, antes disso, havia começado algumas vezes a ler a Bíblia sozinho, e achava que o jeito certo de fazê-lo era em linha reta, do primeiro versículo do Gênesis até o último do Apocalipse. Claro que logo me cansava e parava. Com Padre Pedro e a turma, tudo se tornou muito mais gostoso e fecundo. As sementes do Evangelho puderam assim frutificar junto com minhas outras descobertas, a do primeiro namoro, a do rock, a da universidade. E ele sempre perto.
Nas missas, me emocionava vê-lo descer os degraus e vir para mais perto do público, com microfone em mãos, na hora da homilia,ao invés de se manter no alto de uma autoridade catedrática.
Eu vibrava com aquela figura alta, forte, envolta na batina toda branca, com aquele rosto concentrado, por vezes até bravo rs, e com aquelas palavras firmes -temperadas, nas horas certas, pelo gracejo que ele sabia fazer com uma indescritível ternura. Quando não era ele que presidia a celebração, muitas vezes chegava nos minutos finais, entrava por uma porta lateral, trajando um elegante terno e calça social, vinha dar algum recado no púlpito ou simplesmente passava direto, acenando pra um ou outro. E eu sorria luz dentro de mim.
Com ele, me encorajei a participar de visitas a doentes no hospital, e a distribuir alimento junto aos pobres. Com ele, aprendi sobre a importância da mente de compaixão -para usar um termo do budismo, outra grande descoberta espiritual que fiz mais tarde, que estou fazendo-, e essa mente é que quero pôr em prática em todos os "meus projetos de vida", como chefe de família, como terapeuta, como ser humano.
Padre Pedro, eu amo o senhor. Muito obrigado por tudo. Descanse em paz.

Friday, July 06, 2007

barulho

Ainda criança, certa vez cheguei a escrever uma longa redação escolar tentando captar o sentido (ou falta de sentido) do barulho odioso que um vizinho costumava fazer com seu aparelho de som, tarde da noite, sem a menor consideração pelo sono do bairro inteiro.
Mas, nos últimos dias, essa redação me voltou à lembrança, agora por causa de outro vizinho, fanático por "reformas" -e, mais uma vez, todo santo dia lá vêm os pedreiros, marretadas e o diabo a quatro, antes das oito. Roubando a serenidade do amanhecer e, em particular, afetando meu hábito de dormir tarde - adoro aproveitar a noite para o estudo, a escrita etc. Fico na obrigação de escolher entre tais prazeres e uma boa olheira de sono encurtado rs.
São os decibéis do mal-estar na civilização, para lembrar Freud, o sonoro preço do convívio forçado, que exige um "quantum" maior ou menor de renúncia a desejos e privacidades. E, falando em psicologia, as seguintes palavras de Jung vêm bem a calhar nesse caso. Quando as li pela primeira vez, num volume de cartas de Jung, comprovei novamente que minha simpatia por esse autor vai além de uma concordância com conceitos, é uma afinidade de ânimo, de modo de sentir o mundo, de "humeur" ou "Stimmung". Isso é crucial para a escolha dos referenciais de quem quer trabalhar com algo que é mais arte do que ciência, como a terapêutica.
O mestre suíço mostra, há exatos 50 anos, e com a habitual profundidade, a "utilidade" psíquica do barulho numa sociedade de massas, tão inóspita que esta é à cultura ("cultivo") de indivíduos em paz consigo mesmos, em sintonia com suas vozes e silêncios internos.

"Eu pessoalmente detesto barulho e fujo dele sempre que possível, porque ele me perturba a concentração necessária ao meu trabalho e me obriga a fazer um esforço adicional para impedir que entre. A gente se acostuma a ele como ao excesso de bebida alcoólica, mas no final a gente paga este com uma cirrose hepática e aquele com um desgaste nervoso por esgotamento prematuro da substância vital. Mas o barulho é apenas um dos males de nosso tempo, ainda que o mais chocante. (...) A amedrontadora poluição da água, a radioatividade aumentando aos poucos e a sombria ameaça da superpopulação com suas tendências genocidas levaram a um medo amplamente difundido, ainda que não conscientizado em geral: ama-se o barulho porque ele impede este medo de manifestar-se. O barulho é bem-vindo porque abafa o alarme instintivo interior. Quem sente medo procura companhia barulhenta e pandemônio, que espantam os demônios. (Os meios primitivos correspondentes são a gritaria, música, tambores, pirotecnia estrondosa, sinos, etc.). O barulho dá uma sensação de segurança, como a multidão de pessoas (...). O barulho nos protege da meditação dolorosa, dispersa sonhos ansiosos, assegura-nos de que formamos um todo unido e produzimos tal estrondo, que ninguém jamais ousará atacar-nos. (...) Se houvesse silêncio, o medo levaria as pessoas a refletir, e não se pode prever quantas coisas viriam à superfície da consciência. "

CARL GUSTAV JUNG, carta de setembro de 1957

Tuesday, July 03, 2007

fio de prata no negrume da agonia

O escritor russo Leon Tolstói (1828-1920)

Sugestão da noite: A Morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói. Acabei de ler há poucos instantes. Belíssima meditação sobre o desamparo existencial do homem condenado à morte. Condenado a muitas mortes: pois a extinção definitiva, no contexto da sociedade moderna, é, em muitos casos, só a última estação de uma verdadeira via-crúcis do indivíduo despersonalizado, desumanizado, perdido numa civilização selvagem, inchada, burocrática, racionalizada, com espaço cada vez mais reduzido para a comunicação e o afeto autênticos.
Tudo isso transparece na novela de Tolstói. Tudo isso se condensa na figura de Ivan Ilitch, importante juiz de instrução que, como o alferes do conto de Machado de Assis, faz da sua posição profissional uma máscara para camuflar a miséria interior, no caso, um casamento e uma vida familiar emocionalmente paupérrimos.
O relato das dores que acompanham sua doença é comovente. Dores de vários tipos. Dor física, claro, mas também a dor moral do abandono pelos parentes e colegas, da frieza dos médicos e, mais intimamente, de uma vida mal vivida, desperdiçada, vida arrastada tão absurda quanto a morte iminente. "Talvez eu não tenha vivido como se deve", descobre, tarde demais. E ainda a dor metafísica, a perplexidade pelo silêncio divino diante do brado humano por alívio, ou ao menos por uma justificativa para tanto suplício. A indagação do Cristo crucificado está nas entrelinhas das aflições do juiz que é réu de sua própria vida: Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Mas não é por acaso esse subtexto bíblico: cristão, e imbuído de um senso profundo do mistério de um Deus torturado no abjeto madeiro da cruz - síntese de todos os sofrimentos da encarnação da alma no plano material-, Tolstói deixa um sentido oculto, tal como sutil fio de prata, perpassar o negrume da agonia. Um mesmo fio que Fernado Pessoa entretece na tessitura de seu texto "Iniciação". Quem ler ou leu a novela de Tolstói talvez pressinta ali, como eu, a mesma sabedoria hermética que permeia estes versos do poeta português:
Iniciação
(Fernando Pessoa)

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
....................................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa :
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
....................................................
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não 'stás morto, entre ciprestes.
....................................................
Neófito, não há morte.

Sunday, July 01, 2007

paradigma ou paradogma?

Em meio a um estudo que venho desenvolvendo sobre a questão da fobia na psicanálise, deparei com uma interessante observação de Walter Trinca, professor de psicologia da USP:
"(...) considero adequadas as teorias de Freud às neuroses, de Kohut ao narcisismo e de Melanie Klein aos distúrbios psicóticos referidos a objetos internos. Ninguém hoje acredita em teorias psicológicas universalmente válidas para tudo. Tanto quanto o mundo externo, a mente se constitui como um universo de situações diferenciáveis entre si, aplicando-se a cada situação os meios de compreensão condizentes com determinados objetos de estudo. Não sendo panacéias universais, as teorias psicológicas devem ser empregadas com todo o cuidado e rigor relativo a uma matéria extremamente complexa, variável e sutil".
Claro que é preciso cuidado com os ecletismos. A psicologia, como todo campo de estudo que se pretenda científico, e não dogmático, requer respeito aos limites de seus respectivos paradigmas.

Mas o paradigma, ao invés do paradogma (que seria o dogma religioso em versão laica, para me apropriar de uma expressão usada pelo amigo Paulo Tempestini em conversa essa semana) , renuncia à pretensão imaginária da Totalidade. Fazer ciência, para mim, tem algo do heroísmo trágico do homem que reconhece seus limites e ainda assim realiza alguns metros de sentido na vastidão do incógnito. Mas não no espírito baconiano do saber é poder, do homem que domina a natureza ao aprender com ela, assim como o senhor colonial que aprende com os índios o melhor jeito de subjugá-los; penso mais como Schopenhauer, no saber que é uma réstia de inteligibilidade graças à qual a Vontade sombria, soberana nos reinos da matéria densa, e de onde o próprio saber provém, se "especula" (especulação vem de espelho, olhar no espelho), se des-cobre e evolui.
Como diz a querida Vampira Olímpia, nunca é possível dizer tudo... Impossível pela limitação intrínseca a toda linguagem. Limitação e militação, para aproveitar o erro de digitação que eu ia cometendo rs. Sim, militação, pois todo discurso milita, luta em favor de um ponto de vista, contra muitos outros pontos de vista rivais. E nisso o que milita limita e se limita. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Toda determinação é uma negação (Espinosa).
O dogma e o paradogma levam ao unilateralismo fanático, e daí ao fundamentalismo e à guerra. Já o paradigma, ao meu ver, deve levar à abertura, humildade intelectual e respeito à complexidade da realidade–ainda mais quando se trata da mente humana-, que não é monopólio de nenhuma doutrina, seja científica, filosófica ou religiosa.

O mundo e o homem estão já por demais aprisionados para que o conhecimento (gnose), via de libertação, se converta no contrário do que poderia ser, se degrade em represa antropocrática (antropo=homem, cratos=poder, governo) , que desvia nossa energia para nomenclaturas babélicas e em guerra entre si, a léguas do marulhar uníssono e tenebroso do Grande Oceano.

Unzuhause