Friday, September 28, 2007

Romeu e Julieta além da vida e da morte

Romeu e Julieta, de Auguste Rodin

Chegam-me aqui no reino Unzuhause, diretamente da superfície da terra, notícias a respeito da morte de André Gorz, intelectual francês de renome– sociólogo e filósofo, autor de livros importantes, como Trabalho e Alienação. Os pesquisadores brasileiros foram muito influenciados por ele.
Mas o impacto do fato vai além da perda em si deste grande pensador. As circunstâncias de sua morte são especialmente notáveis.
Ao que tudo indica, Gorz faleceu por causa de uma "enfermidade" fatal, a mais humana, demasiado humana, de todas: amor. Não aquela forma fake de amor que é a fúria do infeliz que mata e se mata por ciúmes ou outra patologia qualquer. Não. Ele se matou, aos 84 anos, juntamente com e por causa da esposa de 83, que sofria de uma doença degenerativa irreversível.
Um tema como o suicídio é sempre muito controverso. Não pretendo dissertar academicamente sobre isso hoje. Quero apenas registrar a grandeza trágica do ato de Gorz: "Pra que preciso viver, nessa altura do que já vivi e sei sobre a vida, se é para estar sem você, ou pra te assistir sofrer assim?" – é assim que o escuto sussurrando ao ouvido de sua esposa (de nome Dorine, que ironicamente traz o termo dor dentro de si) nos instantes em que deliberaram o ato.
Como que uma versão octogenária de Romeu e Julieta, a história de André e Dorine nos diz de um amor maior que a fragilidade da vida, maior que a estupidez da morte - só um amor assim pode reconciliar vida e morte num e por um sentido possível. Sentido da existência humana, errante, pecante, falante, imprecante. Sentido no não-sentido, pois com o homem advém no mundo um valor "humanizado" para o desenrolar bruto, belo e cruel dos acontecimentos da Natureza desumana.
A louca profundeza do Ser está toda na dor e no sublime do ocaso de André e Dorine. Acordes wagnerianos tocam neste instante no meu reino Unzuhause (ópera Tannhäuser, minha favorita na obra de Richard Wagner, ao lado de Tristão e Isolda). São minha singela homenagem a vós, que partistes juntos nos deixando lição maior do que todos os livros de sociologia jamais poderiam fazer.
Amém – Amem- Amai-vos para sempre onde quer que estiverdes.

-Unzuhause-


3 comments:

Castelo da Vampira Olímpia said...

Caius,

Fiquei aqui a imaginar o que é um amor fake ou um fake amor...

e ri... ;-))

receba minhas solidariedades por sua perda.
Beijooooooooooooooos

sarah k said...

oi Caio Unzu ,.... rs!

Gostei demais do post, da abordagem. O que é o homem diante da morte? Essa forma de "se dar a morte" nos diz muito deste mito ocidental, do pavor pela morte, do apego à vida de uma forma, que em casos como o dele, não faz mais sentido. Acho que em situações como esta todo ser humano tem direito à escolha livre de querer morrer ... Estranho vontade aos olhos da nosa civilização.

Sou apaixonada por tragédias ... adorei ler Tristão e Isolda.

Agora uma coisinha:
fiz uma brincadeira lá no blog e te incluí... Se quiser ver passa por lá ... se gostar, adote ... rs

beijos
;-)

Veronica Damasceno said...

Alô Unzuhause,

Não sabia que o suicído era por causa da doença de sua amada! Que trágico...

Abraços,
Veronica