Thursday, October 04, 2007

clara-idade da escrita

Krankheit ist wohl der letzte Grund
Das ganzen Schöpferdrangs gewesen;
Erschaffend konnte ich genesen,
Erschaffend wurde ich gesund.

[Imagina-se Deus dizendo: 'A doença foi sem dúvida a causa final de todo anseio de criação. Criando, pude recuperar-me; criando, tornei-me saudável']
HEINE, citado por Sigmund FREUD

Interessante que, em nossa língua, o termo ESCRITA tenha também uma conotação de destino ou tabu. Um exemplo futebolístico, evidente e infelizmente impossível de se concretizar: no próximo domingo, o Corinthians tentará "quebrar a escrita" de só perder para o São Paulo nos últimos anos (aliás, se não tomar mais uma goleada vergonhosa já me darei por satisfeito rs..)
Pois essa ambigüidade entre escrita-ação (de escrever) e escrita-destino me toca de modo especial neste momento. Foi este um dia propício para tanto, talvez pela sessão analítica -sempre um encontro vertiginoso com a linguagem e o aquém- , talvez pelo cansativo e tumultuado transitar, ao longo das horas, por diversos papéis, que no meu caso são diversas (e exigentes) formas de trabalhar com palavras - do nascer ao pôr do sol, fui hoje, sucessivamente, jornalista, tradutor, analisante, estudante, agora blogueiro rs.... Ufaaaa! rs Cansaço, mas felicidade de ter combatido o bom combate, como diria o Apóstolo.

Na palavra -tentando, nunca bem o bastante, exercê-la ou recebê-la na profundidade que ela merece-, sinto-me menos falho, menos falto. Quase diria que, com e na escrita-ação, me sinto "em casa". Mas não digo, pois, como Unzuhause de batismo, sou um não-estar em casa irremediável, é essa minha escrita-destino, minha escrita-sortilégio. O que aliás é errância só agravada pela palavra certeira, palavra re-bela-da. Bela e revoltada. Palavra que queima e que sangra, forma que não me con-forma.
Aquele que retiver sua vida, perdê-la-á, e o que entregá-la por mim, esse viverá eternamente. Assim falou a Palavra, o Logos encarnado.
A palavra me solicita por inteiro na pira sacrificial impiedosa com os extravios. Chamas que me chamam a um banquete à luz de velas no trem-fantasma em disparada. Clara-idade de sair do ventre opaco da passividade iletrada ou encharcada de letras vazias.
Criando, meus vãos não são em vão.

1 comments:

sarah k said...

O que gosto nas palavras é a propriedade que elas possuem, elas nos tomam qdo escrevemos, é quase impossível tomá-las, nos apropriarmos delas ... Prá mim, este é o grande barato da escrita ... este eterno transformar a que elas nos remetem.

;-)
beijos