Saturday, October 27, 2007

transfiguração gloriosa

Ressurreição de Jesus Cristo: símbolo arquetípico de uma redenção do espírito e da carne

Isaac Newton segundo o olhar de William Blake: ambivalência entre a atenção do espírito e o encapsulamento do corpo


"Em profunda escuridão caem aqueles que seguem a ação. Em profunda escuridão caem aqueles que seguem o conhecimento".
Esse verso dos Upanixades pode ser iluminador para aqueles que se debatem com a difícil relação entre teoria e prática na vida de todos nós, e dos intelectuais em especial.
Tanto a ação quanto o conhecimento, se isolados, são caminhos estéreis, de "profunda escuridão". A ação sem conhecimento se move na ignorância repetitiva, o conhecimento sem ação se degrada numa erudição vazia.
Em nível metafísico, conhecer, para os hindus, implica a negação do mundo, na medida em que os pólos opostos se anulam e o véu de Maya se rompe. Ora, agir é sempre agir no mundo, e nesse sentido é uma afirmação de algo e de si.

De modo que temos aqui uma unidade paradoxal entre a renúncia e a participação no mundo. Como ensina a Tradição, o Samsara (mundo ilusório, a roda das reencarnações) já é o Nirvana (cessação, extinção, beatitude atemporal), e o Nirvana já é o Samsara. No mar sem se emaranhar. Estar no mundo sem mais esquecer que não se é do mundo.
Nesta tensa relação repousa a possibilidade de evitar, entre outras coisas, as idolatrias que coreografam na forma de símbolos alienantes uma Unidade ainda não vivenciada por inteiro, uma evolução sempre invisível e duvidosa, sempre a caminho e posta em questão.

Daí que meu espanto com as graves denúncias (pedofilia) que foram levantadas esta semana, contra Júlio Lancelotti - uma figura importantíssima da Igreja Católica de São Paulo e um dos padres mais ligados à causa da promoção dos excluídos- possa trazer um aprendizado já válido em si, ainda que ao final se comprove a inocência do acusado.
Aprendizado de certas obviedades fáceis de se esquecer, por exemplo, a fragilidade brutal de todo ser humano, sobretudo dos funcionários papais do Bem absoluto; assim também a felicidade e a urgência de uma redenção espiritual que não represente a negação , e sim transfiguração gloriosa, do corpo, pois violência só gera violência: não são só os menores de rua de Júlio Lancelotti que viram criminosos numa sociedade agressiva e injusta, também os nossos "menores" inconscientes -as pulsões desnutridas, esfomeadas, largadas na esquina do deus-não-dará- se armam até os dentes para se vingarem de um estilo de vida repressivo, unilateral, inatural, caso desta regra eclesiástica do celibato obrigatório.

Tais impasses teriam, provavelmente, melhor encaminhamento se a teoria e a prática estivessem mais irmanadas: desse modo a renúncia ao mundo, pela graça de Jesus Cristo, pelo estado búdico, pelo êxtase do xamã, ou como quisermos chamá-la, alcançaria a nobreza que merece, não se confundiria com um tolo, hipócrita, moralista e, subterraneamente, criminoso embotamento dos sentidos.

-Unzuhause-

4 comments:

Mariana Gatto said...

Gostoso ver que o que você me conta vc escreve, é bom saber que você dá realmente importancia para as coisas q fala.

Unzuhause said...

Mariana,

Nosso papo sobre a necessidade de que as pessoas se escutem mais (a si mesmas e umas às outras), que desliguem um pouco seus walkmen mentais, foi muito importante para esse texto. Continuei "escutando" nossas palavras por muito tempo, e elas frutificaram aqui.

suzuca said...

acho complicado comentar seus textos, são bem religiosos..
mesmo assim, registro minha visita e deixo meu beijo no coração.

Unzuhause said...

Suzuca,

Sempre uma honra recebê-la por aqui. Penso que não escolhemos tanto nossas questões quanto ELAS nos escolhem rs. beijos