
"Eu te procurava fora de mim e não te achava, porque estavas em mim mesmo".
Apesar da advertência de Santo Agostinho –um dos pais fundadores da cultura cristã-, penso que o homem ocidental acabou por desenvolver, desde suas raízes religiosas, um modo de vida, uma mentalidade e uma espiritualidade por demais "extrovertidas", isto é, voltadas para fora. Vide o preconceito empirista segundo o qual a mente é uma página em branco que só vem a "conhecer" o que recebe do mundo externo, nada haveria no intelecto que não tivesse passado antes pelos sentidos... Disso é um pulo para o fetichismo consumista e capitalista que diz que você é o que você tem.
Apesar da advertência de Santo Agostinho –um dos pais fundadores da cultura cristã-, penso que o homem ocidental acabou por desenvolver, desde suas raízes religiosas, um modo de vida, uma mentalidade e uma espiritualidade por demais "extrovertidas", isto é, voltadas para fora. Vide o preconceito empirista segundo o qual a mente é uma página em branco que só vem a "conhecer" o que recebe do mundo externo, nada haveria no intelecto que não tivesse passado antes pelos sentidos... Disso é um pulo para o fetichismo consumista e capitalista que diz que você é o que você tem.
Também nossa concepção de Deus é a de um "Outro" transcendente, que nada tem a ver com nossas fragilidades e imperfeições, um totem a ser cultuado com ritos, credos e dízimos. Por mais que compremos livros de auto-ajuda que citem palavreados "orientais" e técnicas de ioga, meditação etc, o fato é que estamos ainda distantes da experiência ensinada por Buda, ou pelos Upanixades, da Iluminação como processo interior, em que sacrifício, sacrificador e Deus a quem se sacrifica revelam-se como Um.
Na história do pensamento ocidental moderno, Espinosa –que não por acaso foi excomungado e, pouco tempo antes, talvez fosse mandado à fogueira- é uma das poucas exceções a nos apontar para um caminho alternativo, ao enunciar a célebre fórmula "Deus sive Natura": Deus, ou seja, a Natureza; Deus como a Substância única,de que todas as coisas são modos ou variações, o Criador que não criou e deu as costas para o mundo, num céu de perfeições e barbas brancas, pois é um Criador presente em todas as suas criaturas.
Esses pensamentos me ocorreram nesta madrugada, numa situação bem "prosaica": faltou luz em casa! Eu sou de dormir tarde, separo essas horas da noite para o sagrado hábito das leituras, navegações internéticas, filmes.. olha, foi complicado suportar a privação de tudo isso.. e o mais patético era eu apertando, váaaaarias vezes, o botão do celular, e não só para fins práticos (não dar canelada em nada ao caminhar, por exemplo) – não, parecia sorver de meu gesto algum significado de "consolação", de amparo.
Na história do pensamento ocidental moderno, Espinosa –que não por acaso foi excomungado e, pouco tempo antes, talvez fosse mandado à fogueira- é uma das poucas exceções a nos apontar para um caminho alternativo, ao enunciar a célebre fórmula "Deus sive Natura": Deus, ou seja, a Natureza; Deus como a Substância única,de que todas as coisas são modos ou variações, o Criador que não criou e deu as costas para o mundo, num céu de perfeições e barbas brancas, pois é um Criador presente em todas as suas criaturas.
Esses pensamentos me ocorreram nesta madrugada, numa situação bem "prosaica": faltou luz em casa! Eu sou de dormir tarde, separo essas horas da noite para o sagrado hábito das leituras, navegações internéticas, filmes.. olha, foi complicado suportar a privação de tudo isso.. e o mais patético era eu apertando, váaaaarias vezes, o botão do celular, e não só para fins práticos (não dar canelada em nada ao caminhar, por exemplo) – não, parecia sorver de meu gesto algum significado de "consolação", de amparo.
Como urbanóide viciado nos confortos tecnológicos, e perdido sem eles, eu inconscientemente usei das pobres baterias do meu celular numa espécie de micro-rito tipicamente ocidental, extrovertido, em honra e súplica da Luz que "está fora", que está ali, e não na escuridão de si.
4 comments:
Lindo, esse foi seu texto mais lindo que já li.. fiquei emocionada com tuas palavras e escrevi em meu blog sobre isso!
Vai lá ler?
love,
De fato... concordo com a Lalá que seu texto é muito bonito.
Eu, por muitas vezes nas trevas Transilvânicas, usei a luz da Lua como lanterna. Abro as cortinas e janelas e deixo a luz - que dizem ser artificial - da Lua entrar e iluminar a escuridão... Fiat Lux!
que bom que vc gostou do meu texto.. fiquei com medo de postar pq sabia que jamais conseguiria hoje escrever tão belamente como vc..
love,
Alô Unzu...
Não sabia que você tinha essa leitura de Spinoza. Me permita uma pequena observação: se fosse possível tornar o "príncipe dos filósofos", como disse Deleuze, um pouco menos cristão, eu diria que essa substância da qual você fala é a própria imanência da filosofia, plano de natureza ou de univocidade, no qual o diferente já se diz da própria diferença.
Abraços,
Veronica
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