"Oi, eu sou o Zén"
Wagner Moura em espetacular atuação como Capitão Nascimento, do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro), no filme Tropa de EliteOntem foi para Zén (Zé Ninguém) um grande dia: voltou a se aventurar pelas sendas do banal. Nos últimos meses seu cansaço com a rotina, e a opção pelo recolhimento, fizeram com que até mesmo os gestos corriqueiros tomassem, ao serem praticados, um peso, uma dificuldade adicionais, como que se ele fosse um carneiro sem pele e assim desprotegido para o convívio habitual com as coisas da vida.
É que ficara claro para Zén, a partir de certo instante, a desagradável obviedade de seus scripts, e o invisível número que se gravara em seu peito e costas desde que a mãe lhe trouxera ao mundo, o número de carneiro a mais do pasto do "Todo mundo". O que Todo mundo pensa, o que Todo mundo gosta, o que Todo mundo quer, o que Todo mundo sonha, o que Todo mundo acha um absurdo, o que Todo acha um luxo: era esse o cobertor quentinho que agasalhava o Zén nos prados da segurança de existir.
Mas Zén se indignou e se afastou. Dir-se-ia que o calor da massa ficou quente demais, com perdão da redundância. Até o céu parecia a seus olhos acometido de certa prisão de ventre, sem umidade outra senão a do suor pela chuva travada que ele não conseguia descarregar, Sol impiedoso, verão ano inteiro. O tempo, em suma, foi ficando um inferno. "Aqui é o inferno para pensamentos de eremitas; aqui, os grandes pensamentos são refogados vivos e cozidos picadinhos", ouviu o Todo Mundo dizer. Era uma citação dessas que Todo Mundo gosta de (se) fazer para aparentar que quer que tudo mude desde que tudo fique como está. Zén gostou da citação, sentiu nela um ventinho que por contraste acentuou o abafado das cobertas. E então ele as tirou e se retirou. Pensou que acharia esse frio e neblina e chuva do verso de Nietzsche em algum canto ainda poupado pelo meio-dia universal do Todo Mundo.
Mas ontem não resistiu, até o frio pode às vezes também matar de calor. E a reestréia de Zén foi em grande estilo, resolveu logo encarar a mais óbvia das obviedades hoje em cartaz, o filme Tropa de Elite, hit parade do Todo Mundo, filme destes que você pode tranquilamente dizer que amou ou odiou sem ter ido ao cinema (nem pirateado), tantas são as opiniões divergentes prontinhas na prateleira.
Zén particularmente (se esse advérbio ainda cabe na gramática do Todo Mundo) gostou do filme. E mais, saiu encantado pela performance de Wagner Moura, ator que faz de uma pessoa possivelmente escrota -o Capitão Nascimento, virulento homem do Bope, polícia de elite do Rio de Janeiro-, um personagem complexo, humanizado e, inclusive, capaz de despertar simpatias perversas em nós, assim como o Hannibal Lecter de Anthony Hopkins.
Tirando os vinte minutos de trailer ("que absurdo esse Espaço Unibanco, vou reclamar para o jornal", ruminou alguém ao lado), tirando a lotação das ruas, o aperto geral, a prisão do ventre do céu e da terra - ameaçava e só ameaçava chover alívio no deserto-, tirando a necessidade de pagar táxi a poucos metros de chegar em casa, devido a tipos suspeitos no meio do caminho.. tirando tudo isso, a aventura de Zén foi muito legal, sempre bom saber que o pasto do (Todo) mundo segue na santa ordem, nem que à base de muita polícia de choque e sedativo, e que a caravana passa e a carneiragem fica.
2 comments:
Estimado Unzuhause,
Sinto ares de um poeta em você. Uma poesia que se aproxima do que eu chamaria de devir-nietzscheano, perturbado e incomodado com nosso mundo contemporâneo, mesmo que Nietzsche tenha se autodefinido como um "pensador do futuro". Mas o futuro dele é nosso presente e você soube captar essa intempestividade. Parabéns pelo post!
Abraços,
Veronica
Minha prezada Veronica,
Obrigado pelas palavras. Nossos papos têm sido muito inspiradores pra mim, os bons encontros que a vida nos propicia são grande alívio para os fardos do mundo atual. beijos
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