domingo, novembro 25, 2007

outro céu não esperes


Recomendo aos caros visitantes deste reino a peça Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Belíssima montagem para um dos textos fundamentais da dramaturgia do século XX.
Esperando Godot (1948) subverteu os padrões estéticos do teatro ocidental, por exemplo os cânones lógico-verbais do discurso e a estrutura dramática, até então baseada em ações e acontecimentos que evoluem rumo a um desenlace definido. E explicitou como poucas obras o dilaceramento trágico da condição humana num mundo hostil, sem deuses, sem valores, sem projetos, sem amanhã que não seja a morte e a eterna repetição do mesmo hoje absurdo. Há críticos que chegaram a falar, aliás, num gênero de "teatro do absurdo", em alta em meados do século XX e que teria nesta peça de Beckett uma de suas expressões mais radicais.
Dois vagabundos de traços clownescos, Vladimir e Estragon, vivem, numa estrada qualquer, desoladora e deserta, a infinita espera pelo misterioso Godot, e enquanto isso compartilham migalhas de comida e de palavra e despistam o tédio e o vazio de suas existências, apelando a mil e um subterfúgios, quase que números circenses, os "divertimentos" (Pascal) com que o homem camufla de si mesmo sua miséria.
Das muitas interpretações já tentadas para o nome "Godot", uma das mais plausíveis é a que aponta o radical inglês God (Deus) mais o sufixo francês "ot", diminutivo de intimidade, como em Charles-Charlot (Carlos-Carlitos). Alusão, talvez, à falsa familiaridade do homem com seus deuses, à tentativa melancólica de tornar a existência menos estranha ao lhe doar um significado forjado à nossa própria imagem e semelhança narcísicas.
A montagem em cartaz no Centro Cultural é do grupo Boa Companhia -de egressos das Artes Cênicas da Unicamp. E faz jus à riqueza e dificuldades do texto beckettiano, num trabalho que revela muita pesquisa, maturidade e competência técnica. Atores com grande expressividade, jogo cênico ágil e bem integrado e capacidade de explorar as ambivalências de um tipo de teatro que Beckett chamava de comitrágico. O riso não como artifício alienante, mas como alívio e "celebração" da angústia. Há momentos do espetáculo verdadeiramente memoráveis, um dos quais, neste sábado, foi saudado pelo público com aplauso em cena aberta.
A montagem consegue assim salientar a atualidade do texto de Beckett, a força de seu chamamento não tanto ao derrotismo auto-complacente, mas à responsabilidade humana pela construção de nossos próprios caminhos, ao invés de agonizar nas encruzilhadas da ilusão, da expectativa por um "Outro" -deuses, coisas ou pessoas- que viesse nos redimir do fardo e da ventura de sermos quem somos.

EL INSTANTE
(Jorge Luis Borges)

? Dónde estarán los siglos, dónde el sueño
De espadas que los tártaros soñaron,
Dónde los fuertes muros que allanaron,
Dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?
El presente está solo. La memória
Erige el tiempo. Sucesión y engano
Es la rutina del reloj. El año
No es menos vano que la vana historia.
Entre el alba e la noche hay un abismo
De agonias, de luces, de cuidados.
El rostro que se mira en los gastados
Espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
Otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.

(El otro, el mismo)



O INSTANTE
(trad. José Neumanne Pinto
)

Onde estarão os séculos, onde o sonho
De espadas que os tártaros sonharam,
Onde os fortes muros que aplainaram,
Onde a Árvore de Adão e o outro Lenho?
O presente está só. A memória
Erige o tempo. Sucessão e engano
É a rotina do relógio. O ano
Não é menos vão que a vã história.
Entre a alva e a noite há um abismo
De agonias, de luzes, de cuidados.
O rosto que se mira nos gastos
Espelhos da noite não é o mesmo.
O hoje fugaz é tênue e é eterno,
Outro Céu não esperes, nem outro Inferno.
(O outro, o mesmo)

domingo, novembro 18, 2007

mente obesa, espírito livre


A imagem acima corresponde à carta "O Criador", do Tarô Zen de Osho, tirada por mim na tarde deste domingo. Retrata um mestre zen que aprendeu a arte de dominar o fogo e utilizá-lo para fins criativos, superando o potencial para a cega destruição.
Ontem à noite, em conversa com uma amiga, pouco antes de entrarmos no teatro, eu falava sobre a ironia que é, muitas vezes, constatar que determinados tipos de mal-estar derivam do emprego ruim ou descontrolado de uma qualidade positiva que temos. Do ser usado por um recurso, ao invés de usá-lo em benefício da vida.
Ambos estudiosos de filosofia, nossa conversa girava em torno do poder que o pensamento tem de criar mundos paralelos, o que pode propiciar descobertas magníficas, mas também isolamento e delírio.
O louco vive de uma triste maneira o que o gênio também experimenta na carne e na alma: o sofrimento de ter razão sozinho. Metaforicamente, eis o fogo que pode ser arte criadora ou monstro devorador.
E o que vale no âmbito pessoal se estende ao plano sócio-cultural. O Fausto de Goethe - que comecei a reler estes dias, na nova e excelente edição de Marcus Mazzari- é um dos "dossiês" essenciais a quem queira investigar o Ocidente, o que somos e como viemos a ser o que somos. E, não por acaso, o livro conta a tragédia do intelecto insaciável, arrogante e desconectado das coisas, expõe as agruras e vícios da mente obesa de elefantíase conceitual: um "antro vil" , "maldito e abafado covil", como Fausto chama seu próprio quarto de trabalho. Lugar apertado, obscuro e suarento, com vidros foscos que embaçam a luz e rechaçam a chuva e o sopro do Real. Treva de carência e frustração. Início da Noite Histórica que estamos vivendo até hoje, neste cenário tétrico de crescente miséria, violência, inchaço demográfico, piora da qualidade de vida e desastre ecológico que nos vitima e que preparamos para as futuras gerações.
Que o Ser esquecido, com sua fragrância e frescor, com sua estrela da manhã, umidade de orvalho, raiar de desejos, faça cessar a Noite Histórica, ilumine, suavize e restaure o quarto e o tempo dos homens e cure o elefante mental das palavras sem vida, tão sem vida quanto o deserto que este ânimo-animal decadente pisoteia e alastra em escala mundial.
"O espelho é totalmente despersonalizado e desprovido de razão. Se surge diante dele uma flor, ele a reflete; se é um pássaro, ele também o reflete. O belo diante dele é belo, o feio nos aparece como feio. Tudo ele revela como de fato o é. Não possui poder de discriminação, nem consciência própria. Se alguma coisa se aproxima, ele a reflete; quando se afasta, ele se limita a deixar que o objeto se afaste... sem que fique um só vestígio. Essa total indiferença, essa ausência mental, ou a livre existência do espelho, pode ser aqui comparada à pura e lúcida sabedoria de Buda"
Zenkei Schibayama, moderno escritor zen
"Não pense: olhe!"
Ludwig Wittgenstein, filósofo austríaco
"Há mais de um limiar, em nossa vida, que o pensamento, apenas entregue a si mesmo, jamais nos permitirá transpor. Requer-se uma experiência –uma experiência de pobreza e de enfermidade..."
Gabriel Marcel, filósofo existencialista francês

terça-feira, novembro 13, 2007

mandamentos do evangelho de Nietzsche

Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche

Anos depois, reencontro em meu caminho o livro O Anticristo de Friedrich Nietzsche. Muitas vivências entre o agora e a primeira tentativa de lê-lo. "Tentativa", digo, devido ao fato de naquela época eu estar muito imerso no cristianismo eclesial, a ponto de mais me irritar do que aprender com as marteladas nietzscheanas. E Nietzsche, quando bem lido, ou seja, quando escutado na mesma sintonia de coração que a dele, não me irrita, pode no máximo me desestabilizar e convidar ao movimento.
Hoje, como naquela vez, o leio sem estar ideologicamente de seu lado em várias coisas. Mas isso aconteceu mesmo quando de minhas grandes e apaixonadas leituras de Nietzsche. E não creio que isso seja um empecilho, e sim um fator enriquecedor e intrínseco à experiência de diálogo e confrontação com esse pensador. O tempo todo seu discurso supõe uma alteridade radical, a diferença, a provocação por e a quem lhe é diferente..
No caso presente, a diferença que estrutura meu campo de leitura provém de Cristo, sim, mas também de outro "íntimo" adversário de Nietzsche: Arthur Schopenhauer. Vivo afetos schopenhauerianos por exemplo na admiração que tenho a este tipo de genialidade que é a do santo, o santo como gênio moral e metafísico, gênio enquanto superador das misérias da Vontade cega.

Ao contrário do que diria Nietzsche, a compaixão débil não cabe a esse gênio.. nem o fingimento de que se é amigo de tudo e de todos, ou a sustentação imaginária de sentimentos por "amigos" ex-amigos, como se fossem membros-fantasma do amputado.
A santidade é, ao contrário, uma integridade faltosa, precária, o fragmentário corpo íntegro do Sim à vida e do não à mediocridade contagiosa que nos ronda em nós e fora de nós. Em termos nietzscheanos, é uma perspectiva própria, uma maneira peculiar de se ter o pathos da distância e da seletividade -maneira bem conhecida dos monges, ascetas, eremitas, e que não exclui uma compaixão ativa e altiva pela tragédia do mundo, que afinal é a tragédia de nós mesmos.
Como diriam os indianos, tat-tvam-asi: "isto é tu". O outro ser humano, mesmo e sobretudo o mais humilhado, não é um "não-eu" em relação ao forte: é, diríamos com Schopenhauer, um "eu mais uma vez" .
Mas isso é papo pra outro dia.
Quero registrar os princípios que Nietzsche estabelece, no Anticristo, para o entendimento do que seu texto diz. Requisitos válidos, segundo o filósofo, para quem queira vivenciar as coisas do espírito de um modo geral.
Mandamentos, por assim dizer, que são muito reveladores de que a experiência-Nietzsche não é assim tão incompatível com a dos grandes mestres morais e religiosos da humanidade. Eis os princípios:

-ser honesto até a dureza, para suportar "a minha seriedade, a minha paixão"
-estar habituado a viver nos montes – a ver abaixo de si a deplorável tagarelice atual da política e do egoísmo de nações
-haver se tornado indiferente
-jamais perguntar se a verdade é útil, se ela vem a ser uma fatalidade para alguém...
-uma predileção, própria da força, por perguntas para as quais ninguém tem a coragem
-a coragem para o proibido
-a predestinação ao labirinto
-uma experiência de sete solidões
-novos ouvidos para nova música
-novos olhos para o mais distante
-uma nova consciência para verdades que até agora permaneceram mudas.
-a vontade para a economia de grande estilo
-manter junta sua força, seu entusiasmo...
-a reverência a si mesmo
-o amor a si
-a incondicional liberdade ante si mesmo

-isso implica falar não a todos, mas a alguns, os poucos preparados a nos escutar.. o resto é resto, o resto é a humanidade.. e ler Nietzsche, segundo o próprio, é ter a "fisiologia" anímica apta para se estar acima da humanidade banal pela força, pela altura da alma – pelo desprezo...


sábado, novembro 10, 2007

de mulheres, sintomas e seguro de vida

Jacques Lacan profere um de seus seminários

Medéia mata seus filhos

Começou nesta sexta, e vai até a tarde de amanhã, um congresso de psicanálise aqui em São Paulo, organizado pela instituição lacaniana em que faço formação. O tema, "Mulher-Sintoma, Homem-Devastação", é extraído de uma formulação teórica feita por Jacques Lacan em seu Seminário 23, dedicado a James Joyce.
Estão previstas mesas-redondas sobre casos clínicos, além de conferências da argentina Graciela Brodsky, um dos mais importantes nomes da cena psicanalítica contemporânea. Uma das conferências dela foi esta noite.
Ela falou sobre um dos pólos em questão no título, o "homem-devastação", ou seja, as maneiras como um homem pode representar uma devastação psíquica para uma mulher.
Excetuando-se a forma como foi realizada a tradução da palestra –a tradutora quebrava muito o ritmo da conferencista, ao interrompê-la para traduzir frase por frase, e muitas vezes sem necessidade, até por se tratar da língua espanhola-, o evento foi muito interessante. Graciela começou fazendo um mapeamento da palavra "devastação" ao longo da obra de Lacan, em seus diferentes níveis.
Um parênteses aqui: do meu ponto de vista, ser lacaniano é, ao invés de macaquear um estilo hermético -o que muitas vezes resulta em discurseira chata e vazia-, fazer jus à capacidade daquele mestre para causar desconcerto.
Ele o causava, aliás, inclusive por criticar fortemente a figura do mestre, a alienação intrínseca ao discurso do mestre, daquele que sabe e impõe seu saber goela abaixo de seus pupilos. O discurso do mestre é, segundo Lacan, o oposto do discurso do psicanalista, este seguidor moderno daquilo que o pensador religioso Nicolau de Cusa chamou de "douta ignorância", isto é, o saber não saber, para assim deixar emergir o novo, o singular, o inaudito da verdade de cada sujeito que vem a nós com pedido de análise.
E Graciela se revelou ontem bastante "lacaniana", nesse sentido, ao desmontar estereótipos e surpreender. Por exemplo, ao dizer que a mulher, enquanto mãe, ocupa uma posição masculina, a posição do ter (ter o seu filho e, mais tarde, ter o seu neto, experiências com as quais ela sonha em tamponar a ferida da castração e enfim obter o falo que a anatomia, a mãe, o pai, o marido não lhe deram); vide a paixão proprietária com que a mãe lida por toda vida com "seus filhinhos", mesmo os marmanjões, fato bem conhecido pelas pobres noras..
Um dos momentos mais sugestivos (e até engraçados) foi quando Graciela explorou dois exemplos extremos de vingança de mulheres pela frustração matrimonial: o mito grego de Medéia –a feiticeira que mata seus filhos após ter sido abandonada por Jasão- e a história do escritor André Gide com sua esposa Madeleine: esta queimou as cartas de amor que lhe haviam sido escritas pelo marido, e o fez em represália por ele ter se apaixonado por um dos jovens que costumava seduzir no transporte público de Paris . O detalhe é que a mulher conhecia e aceitava essa, como disse Graciela, "pequena perversão" (em sentido clínico, não moral) de Gide, o que não suportou foi a rivalidade propriamente amorosa...Gide, por sua vez, diz que este gesto da mulher foi um golpe fatal contra sua motivação e inspiração existencial enquanto escritor.
Assim como no caso dos filhos de Medéia, a mulher, privada do falo, parte aqui para a denúncia do semblante fálico, do poder masculino (falo) enquanto ilusão, e o faz do modo mais virulento possível, pela escolha de objetos do mais alto valor para a consumação da vingança.
Lacan -na esteira do próprio Freud, que acreditava numa "inveja do pênis" pela menina- foi bastante acusado de falocentrismo, e até de machismo, pela maneira como formula a questão homem/mulher. Não entrarei nesta seara hoje. Acabo pela menção ao arremate precioso que a psicanalista argentina deu aos casos de Madeleine e Medéia. Gerando risos na platéia, mas falando em tom sério, Graciela afirmou: "Pois bem, isso mostra como é preciso fazer um seguro de vida antes de se relacionar com uma verdadeira mulher"...

quarta-feira, novembro 07, 2007

lua de prata no céu


Mais um dia faminto, suspira ele ao bater ponto na repartição pública de sua casa, tarde da noite. No caminho até o sofá da sala, ainda tem tempo de retirar o paletó, mas não a camisa, a calça, sapatos. Desaba. Alguns minutos de rostos risonhos na televisão e faz-se o breu. Sono profundo. Ele ronca, e o controle remoto sobre seu peito vai zapeando arbitrariamente, involuntariamente, ao ritmo da respiração.
Ante os olhos fechados dele, uma outra tela se abre, ou melhor, as cortinas roxas de um recinto que se assemelha a um palco de teatro, mas que confusamente remete a cenários de iniciações arcaicas. Incenso, névoas, jasmins por toda parte. Jasmins no cabelo da dançarina. Atabaques. Instrumentos árabes.
O peito dele zapeia dormindo, a barriga dela dança e desperta em ritmo firme e suave, dir-se-ia que uma serpente encantada sai de sua saia vermelha e preta e se ergue, se ergue, até enrolar-se no pescoço da dançarina, descer pelos seios, roçá-los e voltar para dentro da saia. Coxas, quadris, braços, o corpo todo da dançarina é agora uma orquestra corporal una e múltipla, pulsante de graça e desejo em todos os poros. Holofotes emanam luzes também roxas e douradas, que se alternam entre si, realçando a silhueta sombria da dançarina.
Ele então abre os olhos que continuam, por fora, fechados, e se vê face a face com ela. O suor escorre do corpo dela, e começa a escorrer do rosto dele. Olhares. Eles parecem hipnotizados de tesão. Atabaques se aceleram, assim como os movimentos da fêmea, que ri o riso do êxtase. Chamas. Chamados. Agora são os cílios dela que descortinam e abismam a visão por entre portas e portas infinitas que vão se escancarando como que por ordem de uma ventania de aromas.
É alta noite e estão contemplando o luar à beira-mar. Ao lado dele, a bailarina, agora com trajes recatados, mas que mal são capazes de conter a libido irradiada por cada centímetro de seu corpo. A lua cheia e de prata no céu não é páreo em brilho e beleza com relação às duas luas que piscam nos olhos da dançarina. Silêncio. Faltam palavras. Não, o que falta é necessidade de palavras. O homem e a mulher se conheciam há muito, desde pelo menos os sonhos infantis de um e outro, e mal haviam acabado de se apresentar.
A cena quase selvagem do palco mágico agora se transmutou num certo romantismo tímido, mas não ingênuo. Nada ingênuas são as mãos dele,que dançam na dançarina, a acarinham e acariciam, sem pressa, sem ansiedades, mas com alguma insegurança. O acanhamento aumenta quando ele não consegue mais resistir ao impulso de beijá-la. Mas não sabe bem como "pedir". Eis que um buquê de jasmins miraculosamente surge ao seu lado, ele o toma, cheira e a convida a cheirar o delicioso perfume, e põe uma das flores sobre a orelha direita da dançarina, depois de algum sussurro quase incompreensível mas que gera risos em ambos.
E enfim a timidez se desfaz, eles se beijam, a princípio beijos curtinhos, que vão se alongando, crescem em voluptuosidade. Ele, com uma mão, abre o zíper da calça da dançarina, com a outra andarilha por dentro.. movimentos leves.. umidade quente. Ele se reclina sobre o corpo dela, numa intensidade inumana, tem o aspecto de um sátiro com pernas de bode, o que assusta e excita ainda mais a dançarina bacante.. mas eis que, ao se dobrar sobre sua caça suculenta, o que o homem-bode depara é com o chão da sala: sozinho, com sua "roupa-social" , cai do sofá, e com ele o controle remoto espatifa-se no chão. Na tela da TV, o arco-íris típico de fim de programação.
-Unzuhause-

domingo, novembro 04, 2007

fé demais não cheira bem



Reza forte em Jerusalém

Em Jerusalém, uma repórter vai ao Muro das Lamentações para se encontrar com um velho judeu e entrevistá-lo. Chegando, e vendo que ele está rezando, aguarda. Depois de uma hora, o ancião pára de rezar, e ela o aborda:
- Bom dia, senhor! Eu sou a repórter da TV AL JAHZEERA que queria entrevistá-lo.
- Ah, sim, minha filha, não tem problema. Diga-me, o que quer saber?
- Disseram-me ser o senhor a pessoa que vem diariamente rezar aqui no Muro há mais tempo. Há quanto tempo o senhor vem aqui para rezar?
- Ahh... Há uns 80 anos...
- Nossa!... 80 anos! E, nesses 80 anos, o senhor tem rezado pedindo o quê?
- Rezo pedindo Paz no mundo, Paz no Oriente Médio, Paz entre judeus, cristãos e ismaelitas. Rezo para que cessem o ódio e a guerra, e para que nossos filhos cresçam juntos, em Paz e Amizade.
- E como o senhor se sente após 80 anos de orações diárias no Muro?
- Sinto-me como se estivesse falando com uma parede !

sábado, novembro 03, 2007

anseios de peregrino



"Porque nos seus corações a Natureza assim se agita,
As pessoas anseiam partir em peregrinação,
Para vagar em busca de praias distantes,
De remotos e famosos santuários em terras diversas"
Geofrey Chaucer


"Para as pessoas do mundo todo, a peregrinação é um exercício espiritual, um ato de devoção que visa encontrar uma via para a regeneração ou cumprir uma penitência. É sempre uma jornada de risco e de renovação. Porque uma jornada sem desafio não tem significado; e uma sem propósito não tem alma"
Phil Cousineau

Eis a resposta do I Ching (milenar oráculo chinês) à minha pergunta, hoje de manhã, sobre se este é um tempo propício para uma grande viagem:
"Do perigo somente se pode sair como a água de um vale: deixando fluir, adaptando-se à situação em cada instante".
As linhas específicas do hexagrama traziam advertências suplementares, como a de que "o importante é uma atitude completamente sincera e verdadeira", para além de convencionalismos e formalidades; e também: "Quem, em meio ao perigo, perde seu próprio caminho, seus ideais e suas normas morais, atrai sobre si a desgraça. Impõe-se a reflexão".
Se as cascas da metamorfose estão prontas para quebrar, que venha o vôo do novo, nas asas do amor ao que se foi e ao que virá.
Águas cristalinas do devir, purificai-me dos medos tolos, dos fardos ilusórios, das confusões obstrutivas. Limpai-me do suor e da fuligem do espírito da retenção, com seus calores asfixiantes de fingimento e desperdício. Que eu fique embebido e embriagado uma vez mais do sopro refrescante de renascimento que vem de se ir além.
Além. Amém. Amem.