Tuesday, November 13, 2007

mandamentos do evangelho de Nietzsche

Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche

Anos depois, reencontro em meu caminho o livro O Anticristo de Friedrich Nietzsche. Muitas vivências entre o agora e a primeira tentativa de lê-lo. "Tentativa", digo, devido ao fato de naquela época eu estar muito imerso no cristianismo eclesial, a ponto de mais me irritar do que aprender com as marteladas nietzscheanas. E Nietzsche, quando bem lido, ou seja, quando escutado na mesma sintonia de coração que a dele, não me irrita, pode no máximo me desestabilizar e convidar ao movimento.
Hoje, como naquela vez, o leio sem estar ideologicamente de seu lado em várias coisas. Mas isso aconteceu mesmo quando de minhas grandes e apaixonadas leituras de Nietzsche. E não creio que isso seja um empecilho, e sim um fator enriquecedor e intrínseco à experiência de diálogo e confrontação com esse pensador. O tempo todo seu discurso supõe uma alteridade radical, a diferença, a provocação por e a quem lhe é diferente..
No caso presente, a diferença que estrutura meu campo de leitura provém de Cristo, sim, mas também de outro "íntimo" adversário de Nietzsche: Arthur Schopenhauer. Vivo afetos schopenhauerianos por exemplo na admiração que tenho a este tipo de genialidade que é a do santo, o santo como gênio moral e metafísico, gênio enquanto superador das misérias da Vontade cega.

Ao contrário do que diria Nietzsche, a compaixão débil não cabe a esse gênio.. nem o fingimento de que se é amigo de tudo e de todos, ou a sustentação imaginária de sentimentos por "amigos" ex-amigos, como se fossem membros-fantasma do amputado.
A santidade é, ao contrário, uma integridade faltosa, precária, o fragmentário corpo íntegro do Sim à vida e do não à mediocridade contagiosa que nos ronda em nós e fora de nós. Em termos nietzscheanos, é uma perspectiva própria, uma maneira peculiar de se ter o pathos da distância e da seletividade -maneira bem conhecida dos monges, ascetas, eremitas, e que não exclui uma compaixão ativa e altiva pela tragédia do mundo, que afinal é a tragédia de nós mesmos.
Como diriam os indianos, tat-tvam-asi: "isto é tu". O outro ser humano, mesmo e sobretudo o mais humilhado, não é um "não-eu" em relação ao forte: é, diríamos com Schopenhauer, um "eu mais uma vez" .
Mas isso é papo pra outro dia.
Quero registrar os princípios que Nietzsche estabelece, no Anticristo, para o entendimento do que seu texto diz. Requisitos válidos, segundo o filósofo, para quem queira vivenciar as coisas do espírito de um modo geral.
Mandamentos, por assim dizer, que são muito reveladores de que a experiência-Nietzsche não é assim tão incompatível com a dos grandes mestres morais e religiosos da humanidade. Eis os princípios:

-ser honesto até a dureza, para suportar "a minha seriedade, a minha paixão"
-estar habituado a viver nos montes – a ver abaixo de si a deplorável tagarelice atual da política e do egoísmo de nações
-haver se tornado indiferente
-jamais perguntar se a verdade é útil, se ela vem a ser uma fatalidade para alguém...
-uma predileção, própria da força, por perguntas para as quais ninguém tem a coragem
-a coragem para o proibido
-a predestinação ao labirinto
-uma experiência de sete solidões
-novos ouvidos para nova música
-novos olhos para o mais distante
-uma nova consciência para verdades que até agora permaneceram mudas.
-a vontade para a economia de grande estilo
-manter junta sua força, seu entusiasmo...
-a reverência a si mesmo
-o amor a si
-a incondicional liberdade ante si mesmo

-isso implica falar não a todos, mas a alguns, os poucos preparados a nos escutar.. o resto é resto, o resto é a humanidade.. e ler Nietzsche, segundo o próprio, é ter a "fisiologia" anímica apta para se estar acima da humanidade banal pela força, pela altura da alma – pelo desprezo...



3 comments:

Veronica Damasceno said...

Meu caro Unzuhause,

Definitivamente, você entrou no devir-nietzschiano da escrita.
Há uma certa propriedade e também uma liberdade, na sua escrita, para falar de nosso Mestre, que somente os "espíritos livres" portam.
Bom post!
Grande abraço

Fada Laís said...

Sempre que leio a palavra Nietzsche me lembro da tia Nita..
é incrível isso!!!
e agora lendo sua visão quanto ao Superman rs, vejo que naum me engano.. tem mta semelhança msm.
estava como Rimbaud, numa temporada no inferno, estou de volta.
bjux.

suzuca said...

Penso que deve ser positivo ter esse entendimento da vida..
beijo no coração