
A imagem acima corresponde à carta "O Criador", do Tarô Zen de Osho, tirada por mim na tarde deste domingo. Retrata um mestre zen que aprendeu a arte de dominar o fogo e utilizá-lo para fins criativos, superando o potencial para a cega destruição.
Ontem à noite, em conversa com uma amiga, pouco antes de entrarmos no teatro, eu falava sobre a ironia que é, muitas vezes, constatar que determinados tipos de mal-estar derivam do emprego ruim ou descontrolado de uma qualidade positiva que temos. Do ser usado por um recurso, ao invés de usá-lo em benefício da vida.
Ambos estudiosos de filosofia, nossa conversa girava em torno do poder que o pensamento tem de criar mundos paralelos, o que pode propiciar descobertas magníficas, mas também isolamento e delírio.
O louco vive de uma triste maneira o que o gênio também experimenta na carne e na alma: o sofrimento de ter razão sozinho. Metaforicamente, eis o fogo que pode ser arte criadora ou monstro devorador.
E o que vale no âmbito pessoal se estende ao plano sócio-cultural. O Fausto de Goethe - que comecei a reler estes dias, na nova e excelente edição de Marcus Mazzari- é um dos "dossiês" essenciais a quem queira investigar o Ocidente, o que somos e como viemos a ser o que somos. E, não por acaso, o livro conta a tragédia do intelecto insaciável, arrogante e desconectado das coisas, expõe as agruras e vícios da mente obesa de elefantíase conceitual: um "antro vil" , "maldito e abafado covil", como Fausto chama seu próprio quarto de trabalho. Lugar apertado, obscuro e suarento, com vidros foscos que embaçam a luz e rechaçam a chuva e o sopro do Real. Treva de carência e frustração. Início da Noite Histórica que estamos vivendo até hoje, neste cenário tétrico de crescente miséria, violência, inchaço demográfico, piora da qualidade de vida e desastre ecológico que nos vitima e que preparamos para as futuras gerações.
Que o Ser esquecido, com sua fragrância e frescor, com sua estrela da manhã, umidade de orvalho, raiar de desejos, faça cessar a Noite Histórica, ilumine, suavize e restaure o quarto e o tempo dos homens e cure o elefante mental das palavras sem vida, tão sem vida quanto o deserto que este ânimo-animal decadente pisoteia e alastra em escala mundial.
"O espelho é totalmente despersonalizado e desprovido de razão. Se surge diante dele uma flor, ele a reflete; se é um pássaro, ele também o reflete. O belo diante dele é belo, o feio nos aparece como feio. Tudo ele revela como de fato o é. Não possui poder de discriminação, nem consciência própria. Se alguma coisa se aproxima, ele a reflete; quando se afasta, ele se limita a deixar que o objeto se afaste... sem que fique um só vestígio. Essa total indiferença, essa ausência mental, ou a livre existência do espelho, pode ser aqui comparada à pura e lúcida sabedoria de Buda"
Zenkei Schibayama, moderno escritor zen
"Não pense: olhe!"
Ludwig Wittgenstein, filósofo austríaco
"Há mais de um limiar, em nossa vida, que o pensamento, apenas entregue a si mesmo, jamais nos permitirá transpor. Requer-se uma experiência –uma experiência de pobreza e de enfermidade..."
Gabriel Marcel, filósofo existencialista francês
4 comments:
Oi, Anjo! Faça parte do movimento: queremos ler a Oly em algum blog velho ou novo JÁ rsrs.
Luz
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Atendendo a "inúmeros" pedidos, cá estou eu com meu novo endereço da blogos-fera:
http://bemmequer-o.blogspot.com/
beijoooooooooooooooooooooooos
Oi, lindo! Sabia que sempre te achei muito próximo da minha concepção da carta O Louco do tarot de Marselha?
love,
Ah! Vou querer ler o texto sobre o Louco, hein?
Ei, apaixonei em Augusto dos Anjos.. viciei, eu acho rs.
Love,
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