Friday, November 09, 2007

de mulheres, sintomas e seguro de vida

Jacques Lacan profere um de seus seminários

Medéia mata seus filhos

Começou nesta sexta, e vai até a tarde de amanhã, um congresso de psicanálise aqui em São Paulo, organizado pela instituição lacaniana em que faço formação. O tema, "Mulher-Sintoma, Homem-Devastação", é extraído de uma formulação teórica feita por Jacques Lacan em seu Seminário 23, dedicado a James Joyce.
Estão previstas mesas-redondas sobre casos clínicos, além de conferências da argentina Graciela Brodsky, um dos mais importantes nomes da cena psicanalítica contemporânea. Uma das conferências dela foi esta noite.
Ela falou sobre um dos pólos em questão no título, o "homem-devastação", ou seja, as maneiras como um homem pode representar uma devastação psíquica para uma mulher.
Excetuando-se a forma como foi realizada a tradução da palestra –a tradutora quebrava muito o ritmo da conferencista, ao interrompê-la para traduzir frase por frase, e muitas vezes sem necessidade, até por se tratar da língua espanhola-, o evento foi muito interessante. Graciela começou fazendo um mapeamento da palavra "devastação" ao longo da obra de Lacan, em seus diferentes níveis.
Um parênteses aqui: do meu ponto de vista, ser lacaniano é, ao invés de macaquear um estilo hermético -o que muitas vezes resulta em discurseira chata e vazia-, fazer jus à capacidade daquele mestre para causar desconcerto.
Ele o causava, aliás, inclusive por criticar fortemente a figura do mestre, a alienação intrínseca ao discurso do mestre, daquele que sabe e impõe seu saber goela abaixo de seus pupilos. O discurso do mestre é, segundo Lacan, o oposto do discurso do psicanalista, este seguidor moderno daquilo que o pensador religioso Nicolau de Cusa chamou de "douta ignorância", isto é, o saber não saber, para assim deixar emergir o novo, o singular, o inaudito da verdade de cada sujeito que vem a nós com pedido de análise.
E Graciela se revelou ontem bastante "lacaniana", nesse sentido, ao desmontar estereótipos e surpreender. Por exemplo, ao dizer que a mulher, enquanto mãe, ocupa uma posição masculina, a posição do ter (ter o seu filho e, mais tarde, ter o seu neto, experiências com as quais ela sonha em tamponar a ferida da castração e enfim obter o falo que a anatomia, a mãe, o pai, o marido não lhe deram); vide a paixão proprietária com que a mãe lida por toda vida com "seus filhinhos", mesmo os marmanjões, fato bem conhecido pelas pobres noras..
Um dos momentos mais sugestivos (e até engraçados) foi quando Graciela explorou dois exemplos extremos de vingança de mulheres pela frustração matrimonial: o mito grego de Medéia –a feiticeira que mata seus filhos após ter sido abandonada por Jasão- e a história do escritor André Gide com sua esposa Madeleine: esta queimou as cartas de amor que lhe haviam sido escritas pelo marido, e o fez em represália por ele ter se apaixonado por um dos jovens que costumava seduzir no transporte público de Paris . O detalhe é que a mulher conhecia e aceitava essa, como disse Graciela, "pequena perversão" (em sentido clínico, não moral) de Gide, o que não suportou foi a rivalidade propriamente amorosa...Gide, por sua vez, diz que este gesto da mulher foi um golpe fatal contra sua motivação e inspiração existencial enquanto escritor.
Assim como no caso dos filhos de Medéia, a mulher, privada do falo, parte aqui para a denúncia do semblante fálico, do poder masculino (falo) enquanto ilusão, e o faz do modo mais virulento possível, pela escolha de objetos do mais alto valor para a consumação da vingança.
Lacan -na esteira do próprio Freud, que acreditava numa "inveja do pênis" pela menina- foi bastante acusado de falocentrismo, e até de machismo, pela maneira como formula a questão homem/mulher. Não entrarei nesta seara hoje. Acabo pela menção ao arremate precioso que a psicanalista argentina deu aos casos de Madeleine e Medéia. Gerando risos na platéia, mas falando em tom sério, Graciela afirmou: "Pois bem, isso mostra como é preciso fazer um seguro de vida antes de se relacionar com uma verdadeira mulher"...

1 comments:

suzuca said...

Bom Congresso pra vc! Beijo no coração