
Recomendo aos caros visitantes deste reino a peça Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Belíssima montagem para um dos textos fundamentais da dramaturgia do século XX.
Esperando Godot (1948) subverteu os padrões estéticos do teatro ocidental, por exemplo os cânones lógico-verbais do discurso e a estrutura dramática, até então baseada em ações e acontecimentos que evoluem rumo a um desenlace definido. E explicitou como poucas obras o dilaceramento trágico da condição humana num mundo hostil, sem deuses, sem valores, sem projetos, sem amanhã que não seja a morte e a eterna repetição do mesmo hoje absurdo. Há críticos que chegaram a falar, aliás, num gênero de "teatro do absurdo", em alta em meados do século XX e que teria nesta peça de Beckett uma de suas expressões mais radicais.
Dois vagabundos de traços clownescos, Vladimir e Estragon, vivem, numa estrada qualquer, desoladora e deserta, a infinita espera pelo misterioso Godot, e enquanto isso compartilham migalhas de comida e de palavra e despistam o tédio e o vazio de suas existências, apelando a mil e um subterfúgios, quase que números circenses, os "divertimentos" (Pascal) com que o homem camufla de si mesmo sua miséria.
Das muitas interpretações já tentadas para o nome "Godot", uma das mais plausíveis é a que aponta o radical inglês God (Deus) mais o sufixo francês "ot", diminutivo de intimidade, como em Charles-Charlot (Carlos-Carlitos). Alusão, talvez, à falsa familiaridade do homem com seus deuses, à tentativa melancólica de tornar a existência menos estranha ao lhe doar um significado forjado à nossa própria imagem e semelhança narcísicas.
A montagem em cartaz no Centro Cultural é do grupo Boa Companhia -de egressos das Artes Cênicas da Unicamp. E faz jus à riqueza e dificuldades do texto beckettiano, num trabalho que revela muita pesquisa, maturidade e competência técnica. Atores com grande expressividade, jogo cênico ágil e bem integrado e capacidade de explorar as ambivalências de um tipo de teatro que Beckett chamava de comitrágico. O riso não como artifício alienante, mas como alívio e "celebração" da angústia. Há momentos do espetáculo verdadeiramente memoráveis, um dos quais, neste sábado, foi saudado pelo público com aplauso em cena aberta.
A montagem consegue assim salientar a atualidade do texto de Beckett, a força de seu chamamento não tanto ao derrotismo auto-complacente, mas à responsabilidade humana pela construção de nossos próprios caminhos, ao invés de agonizar nas encruzilhadas da ilusão, da expectativa por um "Outro" -deuses, coisas ou pessoas- que viesse nos redimir do fardo e da ventura de sermos quem somos.
EL INSTANTE
(Jorge Luis Borges)
? Dónde estarán los siglos, dónde el sueño
De espadas que los tártaros soñaron,
Dónde los fuertes muros que allanaron,
Dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?
El presente está solo. La memória
Erige el tiempo. Sucesión y engano
Es la rutina del reloj. El año
No es menos vano que la vana historia.
Entre el alba e la noche hay un abismo
De agonias, de luces, de cuidados.
El rostro que se mira en los gastados
Espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
Otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.
(El otro, el mismo)
O INSTANTE
(trad. José Neumanne Pinto)
Onde estarão os séculos, onde o sonho
De espadas que os tártaros sonharam,
Onde os fortes muros que aplainaram,
Onde a Árvore de Adão e o outro Lenho?
O presente está só. A memória
Erige o tempo. Sucessão e engano
É a rotina do relógio. O ano
Não é menos vão que a vã história.
Entre a alva e a noite há um abismo
De agonias, de luzes, de cuidados.
O rosto que se mira nos gastos
Espelhos da noite não é o mesmo.
O hoje fugaz é tênue e é eterno,
Outro Céu não esperes, nem outro Inferno.
(O outro, o mesmo)
? Dónde estarán los siglos, dónde el sueño
De espadas que los tártaros soñaron,
Dónde los fuertes muros que allanaron,
Dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?
El presente está solo. La memória
Erige el tiempo. Sucesión y engano
Es la rutina del reloj. El año
No es menos vano que la vana historia.
Entre el alba e la noche hay un abismo
De agonias, de luces, de cuidados.
El rostro que se mira en los gastados
Espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
Otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.
(El otro, el mismo)
O INSTANTE
(trad. José Neumanne Pinto)
Onde estarão os séculos, onde o sonho
De espadas que os tártaros sonharam,
Onde os fortes muros que aplainaram,
Onde a Árvore de Adão e o outro Lenho?
O presente está só. A memória
Erige o tempo. Sucessão e engano
É a rotina do relógio. O ano
Não é menos vão que a vã história.
Entre a alva e a noite há um abismo
De agonias, de luzes, de cuidados.
O rosto que se mira nos gastos
Espelhos da noite não é o mesmo.
O hoje fugaz é tênue e é eterno,
Outro Céu não esperes, nem outro Inferno.
(O outro, o mesmo)
6 comments:
Alô Unzu,
Seu post desperta vontade de assistir a peça. E essa música basta para o deleite dionisíaco!
Super beijo,
Veronica
Estou ausente dos teatros, das peças, das cenas...
enfim...
beijooooooos
Outro céu não espere e venha me encontrar agora rsrs
Saudades! Luz
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eu estou de um jeito que não tenho esperado nada também, só correndo atrás do que quero (rs)
é bom, né?
beijo no coração.
vc gosta da bonequinha? eu tbem adoro!!! descobri um monte de coisas para colocar em blogs =)
E sempre que dá, enfeito o meu.. sou exagerada, adoro uma poluição visual que dê um tom bacana ahahaha
love,
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