sábado, dezembro 29, 2007

sabedoria andarilha


"Se percorrermos todos os caminhos, não haveremos de encontrar os limites da alma, tão profunda é sua razão".
HERÁCLITO

quarta-feira, dezembro 26, 2007

renovação

Salvador Dalí, Criança geopolítica assistindo ao nascimento do novo homem
Nietzsche certa vez definiu a vaidade como "a pele da alma". Como de hábito, estava inspirado ao fazê-lo. Quem disser que não é vaidoso ou bem está se enganando, ou tentando nos enganar, ou talvez -como ensina a bela definição nietzschiana- esteja com a alma e a auto-estima feridas.
Pois um bom motivo para mim de envaidecimento sadio , este ano, foi a publicação de meu livro: Sartre e o Pensamento Mítico, pela editora Loyola. E, até pela minha falta de tempo, nesta semana, para maiores escrevinhações por aqui, terei de me permitir outra "vaidade" rs, a de citar uma passagem do meu livro, a propósito do Ano Novo que se aproxima, ao invés de articular uma reflexão ampla noutras e novas palavras.
Trata-se de um trecho do capítulo 4, onde eu exploro o significado antropológico e religioso das festas de Ano Novo a partir do contexto nas culturas arcaicas. A linguagem é acadêmica, inevitavelmente, mas a idéia por detrás é clara, ao meu ver: o Ano Novo é uma das expressões mais importantes do desejo dos homens de abolir, periodicamente, o tempo profano (decadente, desgastante, corruptível) e voltar às Origens míticas, ao marco zero sagrado, a uma espécie de "Fonte da Juventude" que faça novas todas as coisas e que deixe reluzir uma vez mais as esperanças que foram pouco a pouco empoeiradas pelo cotidiano.
Em muitas sociedades ditas primitivas, a celebração do Ano Novo implicava uma momentânea "regressão" do Mundo ao Caos original, e um combate entre o deus ou herói civilizador com o monstro que quis no princípio, e que quer de novo, impedir o mundo de se fazer e de perdurar. Goethe, a propósito, chama o demônio Mefistófeles, no Fausto, de der Vater aller Hindernisse, “o pai de todos os impedimentos”.
Penso que tais representações e símbolos são parte do nosso inconsciente coletivo, estando vivos, ainda hoje, de formas mais ou menos explícitas.
Que, para além dos tediosos clichês que povoam a mídia e as ruas nesse período, cada um de nós faça uma experiência profunda de "renovatio" do mundo, do nosso próprio mundo pessoal -o que certamente favorecerá as tão urgentes transformações do mundo externo, do mundo compartilhado. Se preciso, que revisitemos, como faziam os povos arcaicos, nossos próprios "demônios" , o lado escuro da alma, as águas caóticas no fundo sem-fundo do Ser, numa viagem, mergulho, batismo que permitirão o advento de um Cosmos-consciência renascido e fortalecido.
Feliz 2008 a todos.
(...) O Ano Novo é considerado um reinício do tempo, portanto uma repetição da cosmogonia. Concretiza, ritualmente, a “abolição do tempo” e a restauração do tempo forte dos Primórdios, da passagem do Caos ao Cosmos.
Vejamos, rapidamente, o exemplo, fartamente explorado por [Mircea] Eliade, do Ano Novo babilônico. Durante os 12 dias da celebração, recitava-se solenemente, várias vezes, o épico babilônico da Criação, o Enûma elis, no templo de Marduque: “Dessa maneira era reatualizado o combate entre Marduque e Tiamat, o monstro do mar –combate que tinha sido realizado in illo tempore e colocara um fim ao caos graças à vitória final do deus. Marduque teria criado o Cosmo com os fragmentos do corpo dilacerado de Tiamat, e procedido à criação do homem a partir do sangue do demônio Kingu, ao qual Tiamat tinha confiado as Lâminas do Destino (Enûma elis, VI, 33, apud Eliade, M., Mito do Eterno Retorno, p. 58).
A gesta de Marduque era não apenas rememorada, mas sim revivificada, como se vê pelos rituais e pelas fórmulas recitadas durante as cerimônias: dois grupos de atores “atuam” e “atualizam” o combate entre Tiamat e Marduque; o celebrante, a certa altura, exclama: “Que ele [Marduque] continue a vencer Tiamat e a encurtar seus dias!”. Para Eliade, isso sinaliza que se considerava que “o combate, a vitória e a Criação aconteciam naquele preciso instante” .
Um dos momentos da trajetória de Marduque no Ano Novo é sua “descida aos infernos”: o deus era feito prisioneiro da montanha, isto é, das regiões infernais, o que correspondia ao um período de luto e jejum para toda a comunidade e de “humilhação” para o rei. O ciclo se fechava com uma hierogamia [casamento sagrado] do deus com Sarpanitu, evento que o rei mimetizava com uma escrava no templo da câmara da deusa, simultaneamente à ocorrência de uma orgia coletiva.
LIUDVIK, Caio, Sartre e o Pensamento Mítico - Revelação arquetípica da liberdade em As Moscas. S. Paulo: ed. Loyola, 2007.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

rumo ao Natal


"O drama da vida de Cristo nos dá uma descrição, através de imagens simbólicas, daquilo que se passa tanto na vida consciente como na vida que está além da consciência do homem, o qual é transformado por seu destino mais alto"
C. G. JUNG
in: Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade
Até mesmo um ateu ferrenho como Jean-Paul Sartre, quando prisioneiro dos nazistas, em 1940, reconheceu a força do simbolismo natalino: criou uma versão pessoal do nascimento de Jesus, com a qual pôde camuflar e alegorizar o sentido político que tinha em mente, isto é, seu protesto contra a ocupação "romana" (alemã) da terra dos judeus (a França), e seu chamado à Resistência. Assim escreveu, dirigiu e atuou na montagem, em pleno campo de prisioneiros, do seu primeiro texto teatral, Bariona.
A emoção que Sartre viu estampada no rosto de seus companheiros de prisão, cristãos e não-cristãos, o convenceu de que o teatro autêntico é um ritual, segundo ele, "religioso" - uma re-ligação de todos com todos, para além das diferenças de cada um, num Todo que celebra e con-sagra a experiência da liberdade.
Esse acontecimento foi crucial para os rumos tomados por Sartre ao voltar do cativeiro, tanto na vida como na obra, que, nele, não se dissociavam. Sartre deixou de lado o antigo individualismo e indiferença política, percebeu que de nada vale o homem ser essencialmente livre, se não concretiza essa liberdade historicamente, se a História persiste sendo o reino da alienação e da opressão.
Liberdade não é um estado dado de uma vez por todas, mas sim contínuo processo de se libertar. Processo que implica, por um lado, certa separação dos outros -só com independência pessoal descobrimos quem somos ou queremos vir a ser-, mas, por outro lado, nos leva ao engajamento público, "político" (não necessariamente partidário). Em termos técnicos, diríamos: o sujeito é Para-si, mas também Para-Outro, sendo ambas as dimensões um só e igual chamamento à libertação radical. E igualdade das liberdades é fraternidade, o que nos traz de volta à tríade da Revolução Francesa, este salto de consciência da história da humanidade.
Ao meu ver, o episódio que contei sobre Sartre ilustra também a diferença entre um culto cristão apenas convencional e reservado aos "bonzinhos, " e a experiência do Cristo interior, de mil nomes possíveis e inominável, a Luz divina que quer sempre de novo nascer, no centro de nós mesmos e nas periferias marginalizadas do mundo- portanto, nas manjedouras da existência humana, mas não em meio a vaquinhas de presépio, e sim como inspiração de sujeitos fortes, singulares, conscientes de si e crentes de todos os credos (sempre cremos em algo, ainda que em nada). Cristo, como Buda, ou Krishna, ou tantos outros deuses imaginados pelo gênio religioso da espécie humana, é símbolo da Individuação, isto é, do congraçamento entre consciente e inconsciente na auto-realização, na evolução rumo ao Ser que somos.
Que o Bom Velhinho das crianças nos alegre e nos presenteie muito rs, mas não esqueçamos da Criança que, ela sim, vem para as crianças de todas as idades, como o presente adulto e maior: o amor e crescimento existencial. Feliz Natal para todos.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

homenagem ao dia de São João da Cruz, 14/12

"O Cristo de São João da Cruz", por Salvador Dalí

luminosa fontescuridão
CANTAR DA ALMA QUE SE ALEGRA EM CONHECER A DEUS PELA FÉ (1578)
São João da Cruz


1. Aquela eterna fonte está escondida.
mas bem sei onde tem sua guarida,
mesmo de noite.
2. Sua origem não a sei, pois não a tem,
mas sei que toda a origem dela vem,
mesmo de noite.
3.Sei que não pode haver coisa tão bela,
E que os céus e a terra bebem dela,
mesmo de noite.
4. Eu sei que nela o fundo não se pode achar,
E que ninguém pode nela a vau passar,
mesmo de noite.
5. Sua claridade nunca é obscurecida,
E sei que toda a luz dela é nascida,
mesmo de noite.6.Sei que tão caudalosas são suas correntes,
Que céus e infernos regam, e as gentes,
mesmo de noite.7.A corrente que desta fonte vem
É forte e poderosa, eu sei-o bem,
mesmo de noite.8. A corrente que destas duas procede,
Sei que nenhuma delas a precede,
mesmo de noite.9.Aquela eterna fonte está escondida
Neste pão vivo para dar-nos vida
mesmo de noite.10.De lá está chamando as criaturas
Que nela se saciam às escuras,
mesmo de noite.
11. Aquela viva fonte que desejo,
Neste pão de vida já a vejo,
mesmo de noite.


ÁGUA VIVA

Raul Seixas / Paulo Coelho


Eu conheço bem a fonte

Que desce daquele monte

Ainda que seja de noite

Nessa fonte está escondida

O segredo dessa vida

Ainda que seja de noite

Êta fonte mais estranha,

que desce pela montanha

Ainda que seja de noite

Sei que não podia ser mais bela

Que os céus e a terra bebem dela

Ainda que seja de noite

Sei que são caudalosas as correntes

Que regam céus, infernos

Regam gentes

Ainda que seja de noite

Aqui se está chamando as criaturas

Que desta água se fartam mesmo às escuras

Ainda que seja de noite

Ainda que seja de noite...

Eu conheço bem a fonte

Que desce daquele monte

Ainda que seja de noite

Porque ainda é de noite

No dia claro dessa noite

Porque ainda é de noite

No dia claro dessa noite

domingo, dezembro 09, 2007

o bruxo de Viena

Com a jornada de debates que ocorreu ontem na minha instituição de psicanálise, está encerrado mais um ano de meu processo de formação nesta área. Encerrado, pelo menos, em termos acadêmicos, pois o essencial para todo analista em formação é seu próprio divã, sua vivência pessoal de analisando. E minha análise ainda prossegue nos próximos dias.
De todo modo, fica já o sentimento de grande satisfação pelo que pude aprender e formular sobre a ciência de Freud ao longo do ano. A ponto de eu ter podido cometer a ousadia de, em meu trabalho de conclusão do ano, ter me voltado para meu próprio mentor, Carl Gustav Jung, transformando-o em tema de estudo psicanalítico.
Jung, como se sabe, foi uma das figuras principais na história da psicanálise, até a dramática ruptura com Freud em 1913. A partir de então seguiu rumo próprio e fundou a chamada psicologia analítica, com outras bases teóricas, metodológicas e terapêuticas.
Não o abordei porém por estes papéis e títulos já muito conhecidos. Estudei a experiência de vida de Jung, que muito me é cara e inspiradora, até porque nela se revela um homem tempestuoso, contraditório, errático, que nada tem a ver com os estereótipos da indústria da auto-ajuda esotérica.

Falando em esoterismo, ou melhor, na magia enquanto autêntica concepção de mundo, descobri uma interessantíssima referência que Freud faz a ela, em palavras de 1890, tempo em que ainda chamava de Seelenbehandlung, "tratamento da alma", o que depois batizou de psicanálise.
São palavras com que Freud deixa muito claro o caráter libertador da ciência que estava por inventar. O caráter de crítica radical por parte de uma obra que, como a de Marx, veio não destruir a razão, mas exigir seu cumprimento mais amplo, justo e adequado aos anseios profundos do humano.
Freud é um convite à travessia de nós mesmos, pela admissão de que "minha casa não é minha", como diz a música de Milton Nascimento. De que não se é dono, mas hóspede, de um corpo de afetos que vai sempre além do que concebemos de nós mesmos.
Freud é o despertar para a dura realidade de que somos atravessados por vetores não só de criação, de luz, mas também de noite escura e dissolução: Eros e Tânatos. Freud é a sabedoria da palavra e do silêncio. Palavra que nos faz acessar e dar voz a dimensões internas antes represadas; silêncio que nasce do encontro com o não sentido, com o Real (Lacan), o vazio - a Falta que faz o Outro uma vez que somos lançados no mundo, arrancados do ventre paradisíaco do Ser.
Mas se é ruptura, Freud, assim como Jung, é também religação: reatamento dos laços do homem moderno com suas Origens, pessoais e coletivas; daí o aceno simpático que o "bruxo de Viena" pode fazer a essa forma ancestral de conhecimento e prática que é a magia:

"'Tratamento psíquico' significa "tratamento que tem origem na alma, tratamento –de perturbações psíquicas ou corporais- com a ajuda de meios que agem primeiro e imediatamente sobre a alma do homem. Tal meio é antes de tudo a palavra, e as palavras são o instrumento essencial do tratamento psíquico. O profano achará, sem dúvida, dificilmente concebível que perturbações mórbidas do corpo ou da alma possam ser dissipadas pela 'simples' palavra do médico. Ele pensará que lhe pedimos para acreditar em magia, no que não está totalmente errado: as palavras de nossos discursos cotidianos são nada além de magia sem cor"

SIGMUND FREUD

sexta-feira, dezembro 07, 2007

quarta-feira, dezembro 05, 2007

presentes de Natal

Albert Camus

Jean-Paul Sartre
Este reino Unzuhause registra, com felicidade, a notícia de uma dupla floração de minha pa-lavra -lavra da palavra- no mundo das idéias: a tradução que fiz do excelente estudo de Ronald Aronson, Camus e Sartre - O Fim de uma Amizade no Pós-Guerra (editora Nova Fronteira) e meu próprio livro, baseado no mestrado, Sartre e o Pensamento Mítico - Revelação Arquetípica da Liberdade em As Moscas (editora Loyola). A tradução já está circulando; e pelo que fui avisado ontem, meu livro está saindo do forno e chega às livrarias até meados deste mês. Portanto, desde já Boas Festas e boas leituras a todos rs!

segunda-feira, dezembro 03, 2007

queda para o alto


"Agora os homens que convictamente
vêem no grande Zeus o vencedor final
desfrutam do conceito de mais sábios,
pois Zeus sem dúvida foi quem levou os homens
pelos caminhos da sabedoria
e decretou a regra para sempre certa:
'O sofrimento é a melhor lição'"
ÉSQUILO
Agamêmnon
Lembro-me um dia, eu muito criança ainda, que virei pra minha mãe e pai dizendo, com uma seriedade que destoava da minha idade mas não da minha personalidade ou caráter, este é precoce e definitivo: "Não façam tantos planos, eles podem não dar certo".
Nunca abandonei essa certa "cautela" em relação a fazer muitos planos, a contar muito com a sorte. Não se trata de ficar resmungando que tudo vai dar errado, detesto isso. Não: o que desenvolvi, e influencia inclusive meus rumos na filosofia, é um "sentimento trágico da vida" (Unamuno), e o trágico não necessariamente é o triste, às vezes é o oposto disso, é o máximo de alegria gozosa da e pela vida, como Nietzsche mostrou tão bem em O Nascimento da Tragédia.
Tais pensamentos me ocorreram numa longa e silenciosa caminhada pela Avenida Paulista, ontem à noite, após a confirmação do rebaixamento do Corinthians para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.
Seria tolice me gabar disso, mas há tempos eu tinha a certeza íntima de que isso aconteceria. Tanta a esculhambação que dirigentes bandidos e incompetentes, e jogadores ridículos, vinham aprontando. A primeira vez que dei esse prognóstico, creio, foi com a Thaila, essa "pequerrucha" que é ótima companheira de papos futebolísticos, existenciais, culturais etc etc.
Parênteses. Acho que o pessimismo, além de uma certa forma "adulta" de ver a realidade, é também um jeito (infantil?) de se proteger dela. Um rito mágico com essa estranha lógica: não querer ser "surpreendido" por um mundo sabidamente imprevisível e hostil. Querer, como criança mimada, fazer carinha emburrada para que os pais, ou Deus, ou a realidade em si, nos tragam um doce, nos comprem o brinquedo, nos façam ver que a vida é bela, que não precisávamos nos preocupar tanto.
Claro que esse raciocínio é pouco razoável, que acabamos por sofrer demasiado. E teria como, em sendo assim, eu me apaixonar por outro time que não o Corinthians?
Não sei se há outro lugar no Brasil, ou no mundo, em que o cara te pergunta teu time, vc diz que é um "sofredor", e ele imediatamente conclui: "é corintiano" rs.
Nas arquibancadas do Pacaembu, do Morumbi, ou escutando, em casa, José Silvério na rádio Jovem Pan, tive alguns de meus momentos mais sublimes como criança e adolescente: pirando de alegria ou de tristeza com esse time cuja história é tão gloriosa quanto turbulenta, tão vitoriosa quanto "loser".
Síntese dessa contradição foi o longo jejum corintiano de 23 anos sem títulos, quando as humilhações não faziam diminuir, mas sim crescer em número de pessoas e em devoção essa torcida que é a do povão dos tantos Brasis de São Paulo e do país afora. A festa do título que deu fim à agonia, em 13 de outubro de 1977, foi, segundo me contam -eu tinha poucos meses de vida, acho que eu e meu pessimismo mimado rs demos sorte ao Timão, vindo ao mundo naquele mesmo ano-, um dos acontecimentos mais comoventes da história desta cidade.
Mas sempre vem um tempo em que os truques do mágico se esgotam. Já não posso mais me dar ao luxo de emburrar a cara e esperar pelo mimo dos pais. Nem posso contar mais com a voz rouca do meu avô –palmeirense..- dizendo, depois de uma derrota do Corinthians, que aquilo não foi nada, que no final "seríamos" campeões (e de fato fomos várias vezes, nos últimos anos de meu vô, os primeiros de meu corintianismo).
Como ficou dramaticamente claro agora, antever o mal não nos livra de que ele aconteça mesmo, para desconsolo do pessimismo. Aliás, os anos têm me feito aprender a ter mais serenidade estóica -ou talvez budista- do que propriamente pessimismo. Até porque tenho mais responsabilidades, não há tempo a perder com dúvidas ou receios, na luta pelos meus objetivos. Tenho brincado o jogo da vida como o enxadrista que mexe suas peças segundo seus próprios cálculos mas também se adaptando aos lances alheios, no caso da existência, os lances do acaso ou do destino.
Foi com serenidade amarga que encarei o desfecho deste ano horrível da história do Corinthians. Como em tudo na vida, nas piores e nas melhores coisas, vejo nisso uma chance –para cada corintiano e para o clube em si- de aprender e de evoluir.
E o "grand finale" de ontem teve para mim um componente a mais de poesia concreta: minha TV misteriosamente desregulou nos minutos finais do jogo. Não pude ver o apito final que decretou o rebaixamento. Pensei que era coisa da NET, mas não. Devo ter apertado algum botão do meu (des) controle remoto.

sábado, dezembro 01, 2007

caminho do meio

O papa da proibição da camisinha disse ontem que não é a ciência mas sim a "fé" o que salva. O Ocidente é mesmo chegado aos dualismos rígidos e maniqueístas. A boa vida está no caminho do meio, na desarmônica harmonia dos contrários. Por exemplo, ciência E fé. Fé no homem e engajamento nas suas lutas de libertação. A Aids é uma delas. Triste retrato da fragilidade humana inevitável e das muitas injustiças humanas evitáveis -vide o cenário da doença nos lugares mais pobres do mundo, notadamente na África. Mas há o outro lado, sempre. Esse pesadelo nos ajuda a despertar para a sempre urgente necessidade de solidariedade universal. De apoio aos doentes. De investimento maciço na pesquisa de vacinas e na melhoria do acesso aos medicamentos. E de prevenção e responsabilidade, condições não para castrar, mas sim aprofundar a experiência do amor e do desejo. De novo, o caminho do meio: entre o princípio do prazer ilimitado e o princípio da realidade restritivo, advém a via da segurança -concretizada no preservativo e no respeito a si e ao outro.