De todo modo, fica já o sentimento de grande satisfação pelo que pude aprender e formular sobre a ciência de Freud ao longo do ano. A ponto de eu ter podido cometer a ousadia de, em meu trabalho de conclusão do ano, ter me voltado para meu próprio mentor, Carl Gustav Jung, transformando-o em tema de estudo psicanalítico.
Jung, como se sabe, foi uma das figuras principais na história da psicanálise, até a dramática ruptura com Freud em 1913. A partir de então seguiu rumo próprio e fundou a chamada psicologia analítica, com outras bases teóricas, metodológicas e terapêuticas.
Não o abordei porém por estes papéis e títulos já muito conhecidos. Estudei a experiência de vida de Jung, que muito me é cara e inspiradora, até porque nela se revela um homem tempestuoso, contraditório, errático, que nada tem a ver com os estereótipos da indústria da auto-ajuda esotérica.
Falando em esoterismo, ou melhor, na magia enquanto autêntica concepção de mundo, descobri uma interessantíssima referência que Freud faz a ela, em palavras de 1890, tempo em que ainda chamava de Seelenbehandlung, "tratamento da alma", o que depois batizou de psicanálise.
São palavras com que Freud deixa muito claro o caráter libertador da ciência que estava por inventar. O caráter de crítica radical por parte de uma obra que, como a de Marx, veio não destruir a razão, mas exigir seu cumprimento mais amplo, justo e adequado aos anseios profundos do humano.
Freud é um convite à travessia de nós mesmos, pela admissão de que "minha casa não é minha", como diz a música de Milton Nascimento. De que não se é dono, mas hóspede, de um corpo de afetos que vai sempre além do que concebemos de nós mesmos.
Freud é o despertar para a dura realidade de que somos atravessados por vetores não só de criação, de luz, mas também de noite escura e dissolução: Eros e Tânatos. Freud é a sabedoria da palavra e do silêncio. Palavra que nos faz acessar e dar voz a dimensões internas antes represadas; silêncio que nasce do encontro com o não sentido, com o Real (Lacan), o vazio - a Falta que faz o Outro uma vez que somos lançados no mundo, arrancados do ventre paradisíaco do Ser.
Mas se é ruptura, Freud, assim como Jung, é também religação: reatamento dos laços do homem moderno com suas Origens, pessoais e coletivas; daí o aceno simpático que o "bruxo de Viena" pode fazer a essa forma ancestral de conhecimento e prática que é a magia:
"'Tratamento psíquico' significa "tratamento que tem origem na alma, tratamento –de perturbações psíquicas ou corporais- com a ajuda de meios que agem primeiro e imediatamente sobre a alma do homem. Tal meio é antes de tudo a palavra, e as palavras são o instrumento essencial do tratamento psíquico. O profano achará, sem dúvida, dificilmente concebível que perturbações mórbidas do corpo ou da alma possam ser dissipadas pela 'simples' palavra do médico. Ele pensará que lhe pedimos para acreditar em magia, no que não está totalmente errado: as palavras de nossos discursos cotidianos são nada além de magia sem cor"
SIGMUND FREUD
1 comments:
Penso que todo gênio é bruxo, mas nem todo bruxo é gênio..
e todo bom analista tem um pouco de bruxaria na alma..
parabéns pelo encerramento!
bjux
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