"Dizia Donne que ninguém dorme na carreta que o conduz do cárcere para o patíbulo e que, no entanto, todos dormimos desde a matriz até a sepultura, ou não estamos inteiramente despertos. Uma das missões da grande literatura: despertar o homem que viaja com destino ao patíbulo".
Comungo inteiramente com essas palavras de Ernesto Sabato, e nelas reconheço a atitude que me (co) move à literatura. Mais do que acúmulo de erudição vazia, trata-se de uma busca existencial, uma ruptura com o que chamo de a fal-ânsia cotidiana (ânsia de falatório, impulso verborréico de vomitar irrelevâncias, falência da linguagem). Trata-se de uma abertura às vozes e silêncios com os quais a experiência humana imemorial vem à tona em cada grande obra de arte. Pra mim, o discurso da literatura pode transcender a fal-ânsia na medida em que incorpora o silêncio de que trata Camus nesta passagem de A Peste: "No começo dos flagelos e quando eles terminam, faz-se sempre um pouco de retórica. No primeiro caso, não se perdeu ainda o hábito, e no segundo, ele já retornou. É no momento da desgraça que a gente se habitua à verdade, quer dizer, ao silêncio. Esperemos".
A experiência literária me parece se situar neste intervalo entre as retóricas, intervalo no qual a verdade do silêncio, solidão e tragédia humanas pode vir à tona, como que um instante de surpreendente nudez, ante o espelho, de um ator que esquecera do próprio corpo após centenas de ensaios e apresentações com seus mil figurinos e máscaras...
Mas minhas considerações, contrárias à fal-ânsia cotidiana, não devem pender para uma outra forma de mistificação –a velha quimera falastrã de uma "Literatura" grandiloqüente, soberba. É assim que muitos jovens são afastados das boas obras na sala de aula, quando , com olhos atônitos ou já viciados pelo cinismo e indiferença, se sentem esmagados ou chantageados pelos habituais elogios pomposos que seus professores, esses auto-complacentes sacerdotes do Saber, adoram entoar aos gênios inalcançáveis que escreveram "monumentos" enigmáticos também conhecidos como: romances, poemas. Histórias. Experiências humanas. Um garoto de quinze anos vai topar digerir um abacaxi enorme e matusalâmico (certamente de sabor duvidoso) desses, ou preferirá o hambúrguer e o joguinho de computador com os amigos?
A mais autêntica e frutífera rebelião pela cultura está em resgatar o mais difícil, na escrita de nossa própria história e na escuta de histórias "alheias": a simplicidade.
Pensei nessas coisas ontem, por ocasião de mais um delicioso papo com a "pequena" grande Thaila, esse ser iluminado que cruzou o meu caminho há alguns meses, e que, mais ou menos uma vez por semana rs, compartilha comigo momentos –ao menos para mim rs- extraordinários de reflexão, troca, alegria pelo conhecimento, cumplicidade. Linda, sensível e inteligentíssima, além de futura colega farmacêutica de minha mãe, ela só tem um defeito: não torcer pelo Corinthians! (e sim pelo Atlético Paranaense, esse auto-considerado Furacão que está mais para brisa ultimamente rs.)
A Thaila me disse estar acompanhando esses meus rascunhos de blog e, mais ainda, disse que tem gostado!!!! rs Pelo grau de franqueza e exigência -a despeito da pouca idade- dessa paranaense esclarecidíssima (mais um motivo para a minha admiração pelo povo do Sul do Brasil), só posso ficar muito orgulhoso. E comentei com ela, mais ou menos nesses termos: "Escrever no blog me tem sido possível, e prazeroso, por eu conseguir baixar a bola da auto-censura e da pretensão excessivas. Quero simplesmente contar coisas, espelhar sentimentos, da forma turva como eles me acontecem". Thaila então me lembrou exemplos como Hemingway, Camus, Tchekhov, em apoio à tese dela (e minha tb rs) de que, como ela disse, "a simplicidade é um dos grandes segredos da escrita".
Eu completei com uma lembrança de meus tempos de estudante de teatro: " quando menos estou me preocupando em representar, mais atuo... penso que isso tem a ver com a escrita. Esquece que estás escrevendo, e escreverás".

















