
Cena do "Inferno" de Dante, segundo William Blake
Daqui a poucos meses o Brasil será brindado com a primeira visita do papa Bento XVI. Este reino Unzuhause, que mantém relações diplomáticas in-tensas com a Santa Madre Igreja rs, quer desde já celebrar o evento, hoje com uma pitada de história. Vai aqui, sem nenhuma intenção de provocação à monarquia vaticana de Roma (em que aliás tenho excelentes relações com outro soberano, Caius Magus Caligulae rs), um alerta sobre os limites de um dos principais dogmas da Igreja, a "infalibilidade papal".
Em meio a leituras sobre Dante Alighieri, pude ver como o mundo do gênio florentino (a Itália da virada do século XIII ao XIV) era capaz de dar inveja ao demônio, tamanho o caos político (rixas entre as cidades, entre os partidos, dentro deles etc) e a crise moral generalizada, dentro e fora dos muros eclesiais. E foi dentro destes que ocorreu uma história que, de certo modo, resume o período: com a morte do papa Nicolau IV, a coroa da Igreja ficou vaga dois anos, pois ninguém se entendia sobre a escolha do sucessor. Estando já a situação insustentável, buscou-se então um nome que gerasse o mínimo de discórdia possível. A escolha recaiu sobre um eremita, Pietro da Morrone, que levava uma vida como às vezes sonho ter rs: para além de todas as facções e barulhos do mundo, em total recolhimento e meditação, em errâncias ermas e quietas.
Morrone, o "escolhido pelo Espírito Santo" (que é como a Igreja diz que ocorrem as eleições do sucessor de São Pedro rs) tentou como pôde fugir dessa enrascada –literalmente, inclusive, tendo sido capturado e coroado à força, com o nome de Celestino V.
Já avesso, por natureza, àquele tipo de poder, o pobre papa Celestino se viu logo enredado numa trama insuportável de intrigas, mesquinharias, ambições. E não foi só a voz da consciência que insistiu que ele fugisse ; ele passou a escutar também, toda noite, vozes do "Além" lhe pedindo pra fazer a mesma coisa! Era, acreditou ele , a voz de um anjo enviado de Deus...Engano! Era, isto sim, a voz de um cardeal, que havia sido cotadíssimo para assumir o trono quando da morte de Nicolau, e que, para atingir o objetivo agora, parece ter instalado um tipo de auto-falante rudimentar na parede do quarto de dormir de Celestino. Para lhe cochichar a vontade do Altíssimo... E não deu outra, Celestino voltou a ser o simples Pietro da Morrone, retirado do mundo, e esse cardeal, de nome Caetani, se tornou o papa Bonifácio VIII. A primeira medida do novo "Santo Padre", sabem qual foi? Mandar encarcerar num mosteiro o frade Pietro, que logo veio a morrer. Podem imaginar como terá sido o restante de seu papado... de fato, Bonifácio declarava abertamente descrer de todos os valores sagrados, e cultivou "religiosamente" a luxúria, a gula, a avidez pelas riquezas e inclusive (e nesse ponto até que ele não deixava de ser interessante) a prática da magia! rs. Notem a ironia das coisas: Dante teria tido a inspiração para escrever a Divina Comédia -que é também um dos maiores espelhos do ideal moral cristão- ao presenciar a grande festa do Jubileu da virada do século, em 1300, quando todos os fiéis da Europa foram convocados pelo papa a uma peregrinação a Roma, onde receberiam a chamada "indulgência plenária" (remissão plena dos pecados) em troca, claro, de módicas contribuições financeiras.
Dante teria sido um desses milhares de peregrinos, e a imponência do espetáculo –organizado pelo papa também como um golpe de marketing para lhe reabilitar a imagem, desgastada após denúncias de adultério, assassinato etc- teria insuflado no poeta a idéia de escrever a Divina Comédia. E, nela, aliás, o pobre Pietro da Morrone recebeu menção nada honrosa: foi parar no Inferno dantesco por ter incorrido no crime do gran rifiuto (a grande recusa) ao deixar o papado! Vejam, se nem Dante, que era Dante, pôde evitar incorrer em tal injustiça, que outros papas, de quaisquer outras esferas da cultura, estariam a salvo do pecado? rs
E o pobre Nazareno que morreu semi-nu preso a um madeiro ignóbil nas terras áridas da Palestina, o que pensaria de papas como este Bonifácio (não raros na história da Igreja), o que pensaria, crucificado outrora, crucificado sempre de novo, em silêncio, nos confortáveis palacetes de seus bem vestidos e bem alimentados porta-vozes na Terra?
Pra encerrar, fica minha já longínqua, mas fervorosa, saudação à memória deste grande unzuhause que fostes vós, frei Pietro!