
Essas são palavras do grande Marcel Proust em um ensaio chamado "Sobre a Leitura". Acho-as extremamente válidas e atuais, ainda mais em se tratando de um país como o nosso, em que se lê tão pouco e tão mal, e onde as mídias eletrônicas tomam tanto espaço na vida das pessoas, afastando-as dos livros. Muitos dirão, ah, mas a garotada lê e escreve muito mais do que quando havia só televisão e videogame, e justamente por causa dos sites, orkut, msn, blogs.
A formação do indivíduo, a formação que realmente importa, no limite, é o desenvolvimento integral como ser humano, e isso sobretudo passa pelo cultivo da vida interior. Daí os livros serem indispensáveis, como alimento cotidiano e mesmo como remédio para as aflições e padecimentos da alma, conforme mostrado por Proust.. Não creio, ou não quero crer, que algum dia os livros desapareçam devido aos avanços tecnológicos. Se morrerem, levarão junto para o túmulo a própria civilização.
Isso tudo me parece bastante óbvio, mas, como sempre, há um outro lado na questão. Nietzsche, em sua denúncia da doença moderna do "homem teórico", mostra que o saber livresco é muitas vezes sintoma da atrofia do instinto. A psicanálise de Lacan me parece ir, admiravelmente, nessa linha crítica, sobretudo em sua chamada "segunda clínica", ou clínica do Real. Nela, já não se trata de resgatar um sentido perdido ou censurado da história do sujeito; a transformação da pessoa não se faz por um acúmulo de "mais saber" sobre o inconsciente, mas sim pelo Ato, pela responsabilidade ética de quem assume seu próprio desejo ante o sem-sentido da vida e da morte, inscrevendo sua singularidade nas páginas em branco do existir, num caminhar solto, leve, libertado dos sentidos e identidades impostos pela cartilha do Big Brother / Big Other (o Grande Outro) da sociedade repressora.
Isso não tira importância do livro, mas redimensiona o peso da leitura. Lacan era contra o "penser" (pensar) que seja subordinado ao interesse de "panser" (curativo). Penser e panser são palavras com idêntica pronúncia em francês, e igualmente nocivas enquanto anestésico limita-dor. A vida é uma ferida em aberto, sábio é sofrê-la e "pensá-la" de peito aperto [notem o ato falho, eu quis escrever peito "aberto" rs] , nó na garganta mas olhos tão serenos quanto possível. Para isso também as grandes obras estão do nosso lado. Não como auto-ajuda ortopédica, band-aid alienante, mas sim para escancarar a aberração das coisas, ruínas com as quais podemos recriar o mundo e a nós mesmos.

