Narciso Gautama não resistiu e caiu em profundo sono. Que parece ter durado séculos. Quando acordou, ainda aturdido, notou que seus trajes de servente estavam encharcados de chuva. Era início de um novo dia, embora entre o Sol dos homens –Narciso Gautama- e o Sol do céu houvesse agora a espessura escura das árvores e folhas.Confuso, Narciso Gautama tenta se levantar, ainda num cansaço pétreo. Toca no rosto e repara em algumas rugas que nunca percebera. Encontra à esquerda quatro nozes espalhadas no chão, que lhe atenuam um pouco a fome.
Passavam-lhe pela retina do espírito, repetidamente, imagens vagas de uma mulher vestida de azul claro, tiara rósea e dourada, de um sorriso angelical, que subitamente despenca no vazio, e que enquanto cai grita uma agonia geradora de monstros.
Agora silêncio. Mais silêncio, naqueles instantes, do que talvez em toda sua vida de alegrias e festas e versos no palacete.
Mas eis que o silêncio se quebra pelo som de tambores, a princípio tênues, e cada vez mais intensos. Narciso Gautama, já em farrapos, calvo, ancião–a despeito dos 30 anos que comemorava no dia da partida- se levanta e caminha coxeando, com dificuldades, em direção do ruído.
Recosta-se junto a uma árvore, cai de novo, extenuado pelos poucos passos que dera, quase pega no sono novamente, olhos inertes. Os tambores então tocam mais alto. Ele, num esforço supremo, se põe (pateticamente) a engatinhar, abrindo caminho como pode, em meio aos bichos e plantas. Percebe uma encosta, que dali a alguns metros conduz, lá embaixo, a uma cena que o deixa perplexo. Um rito bizarro, comandado por um ser sinistro, de nome "Satur", em vestes e chapéu negro, numa mão um cajado com uma caveira na ponta, tocha de um brilho violáceo na outra mão, e que repetia, com sua voz gutural, o mantra: "Kama, Namuci, papiyan" ; Satur, percebia Narciso Gautama, era o vulto que o rei vira pouco antes de des-acordar.
Ainda mais bizarras são as formas que, batendo palmas, dançam ao som agora frenético dos tambores.A festa chega ao êxtase no momento em que as formas bizarras abriram espaço para que um cortejo de formas similares, mas de cores de roupa distintas, se aproximasse de Satur. Um cortejo que trazia uma criança: era o próprio Narciso Gautama!
Sim, o cacheado loiro de seus cabelos, a pintinha no braço esquerdo e o sorriso largo do menino não deixavam dúvidas! O velho rei, agachado e debilitado, em suas vestes de servente, não entendia o que se passava, mas estava hipnotizado, transido.
A criança é trazida no colo para junto do palco central. É então tomada por Satur, levantada como uma taça, e mergulhada por ele numa bacia repleta de um líquido ácido do qual sai muito vapor; conforme é mergulhada, a criança alterna o sorriso largo e gritos de desespero, similares ao da mulher do sonho do velho Narciso. Que então tentou, ele também, gritar, mas seu grito foi abortado pela fragilidade que agora lhe roía de vez cada osso e carne, e também os olhos, que viam cada vez menos nítido. Mas viam ainda o suficiente para perceber, a poucos metros, um papel em cima de um arbusto. Um papel amarelecido e esburacado.
Sim, era o papel caído na sala do palacete! Com a diferença de que agora Narciso Gautama pôde, miraculosamente, e num último suspiro antes do sono eterno, compreender os dizeres, assinados apenas "C. B.", sendo que de cada uma das letras da sigla despontava um chifre:
Vida anterior
"Muito tempo habitei sob átrios colossais
Que o sol marinho em labaredas envolvia,
E cuja colunata majestosa e esguia
À noite semelhava grutas abissais.
O mar, que do alto céu a imagem devolvia,
Fundia em místicos e hieráticos rituais
As vibrações de seus acordes orquestrais
À cor do poente que nos olhos meus ardia.
Ali foi que vivi entre volúpias calmas,
Em pleno azul, irmão das vagas, dos fulgores
E dos escravos nus, impregnados de odores,
Que a fronte me abanavam com as suas palmas
E cujo único intento era o de aprofundar
O oculto mal que me fazia definhar".
FIM






