
O psicólogo Rollo May descrevia assim o que considerava ser uma epidemia emocional em alta a partir de meados do século XX: Uma "sensação de vazio", que provém, dizia, "da idéia de incapacidade para fazer algo de eficaz a respeito da própria vida e do mundo em que vivemos. O vácuo interior é o resultado acumulado, a longo prazo, da convicção pessoal de ser incapaz de agir como uma entidade, dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a si mesmo, ou exercer influência sobre o mundo que nos rodeia. Surge assim a profunda sensação de desespero e futilidade que a tantos aflige hoje em dia. E, uma vez que o que a pessoa sente e deseja não tem verdadeira importância, ela em breve renuncia a sentir e a querer. A apatia e a falta de emoções são defesas contra a ansiedade".
Tais palavras bem poderiam ser epígrafe para qualquer uma das três peças curtas do irlandês Samuel Beckett que foram reunidas pelo diretor Rubens Rusche sob o título geral de Crepúsculo, e que vi neste sábado, aqui em São Paulo. As peças são: Solo, Passos e Improviso de Ohio.
A primeira delas, como o nome sugere, é um monólogo. Na calada da noite, um recitante de cabelos longos e desalinhados, envelhecido, profere olhando para o nada uma espécie de ladainha com obsessivas imagens poéticas de decrepitude e aniquilamento, desde a frase inicial: "Seu nascimento foi sua morte".
Esses traços, e o ambiente sombrio –que a montagem concretiza muito bem, graças ao excelente trabalho de iluminação- se mantêm nas outras esquetes. Personagens em vias de decomposição física e espiritual, derrotados pela vida -e tão fracassados que não conseguem sequer acabar de morrer-, perdidos "dentro" de si, se é que resta ainda alguma interioridade, alguma distinção entre o dentro e o fora. Pois o dentro e o fora, a alma e o mundo são, em Beckett, uma só e mesma terra devastada, são o lixo de uma civilização destroçada. Cabe lembrar: o principal da produção de Beckett, assim como de Rollo May, tem por pano de fundo o cenário de ruínas deixado pela Segunda Guerra Mundial.
E o que May diagnosticava na clínica, Beckett expunha no palco: esse vazio abissal que rasga os homens, vazio que ia além, segundo May, do quadro de repressão neurótica dos pacientes vitorianos de Freud. Mesmo com boa parte dos tabus sexuais eliminados, mesmo com a oferta de prazer mais abundante que nunca, carências fundas gritam mal abafadas pela multidão solitária e seus divertimentos de massa.
Beckett assistiu certa vez a uma conferência de Jung, e saiu impressionado pelo que o grande mestre suíço declarou: "Nosso problema não é que vamos morrer, e sim que ainda não nascemos completamente".
Não nascemos completamente nem como indivíduos nem como sociedade, estamos ainda na cruel pré-história, fugindo amedrontados dos perigos da natureza ou daqueles inventados pelo animal mais mortífero que há, o próprio homem. Desperdiçamos muito de nós mesmos com limitações auto-impostas, com mil artifícios e adiamentos do direito a ser feliz já. E isso considero de uma enorme e inquietante atualidade.
Mas tanto em Beckett quanto em May resta uma mesma esperança naquele que é o instrumento vital tanto da arte quanto do divã: a linguagem. Os personagens beckettianos –vide Esperando Godot- não acabam nunca de morrer e tampouco de silenciar, eles perseveram na Palavra, ainda que reduzida a poeira e fiasco, tentam com ela, senão nomear "o Inominável" (título de um romance do autor), ao menos criar brechas de sentido no absurdo. Assim é também na clínica: pela associação livre (entre aspas), com palavras que nem sempre primam pelo revestimento lógico ou belo que se busca na vida cotidiana, o Tempo se levanta do túmulo cronológico e religa (religare=religar=religião) passado, presente e futuro, religa corpo, afetos e representações, religa os sonhos perseguidos pela censura aos sonhos ninados pela Utopia. E quem sabe assim se abram frestas para o novo, para além da ditadura desesperadora da repetição.
Mas não há, em Beckett, qualquer Palavra da Salvação. Ele, e nisso também é profundamente atual, não nos propõe, ao contrário de nossa indústria da auto-ajuda e da fé de (fé demais não cheira bem rs) mercado , quaisquer lavagens cerebrais com duchas de catecismo. O que talvez seus textos dolorosos apontem é a possibilidade de certa Salvação pela Palavra.