Imagem do "Espírito Brincalhão" do Tarô Zen de OshoUm dos conceitos mais fascinantes da psicologia de Jung é o de sincronicidade . Trata-se de "um princípio de conexões acausais": abrange as coincidências "inexplicáveis" entre fatos que têm entre si uma relação de significado, sem que um tenha sido causado pelo outro; o conceito se refere em especial à confluência de sentido entre um estado psíquico do observador e algum acontecimento externo, simultâneo e independente.
Noutras palavras, a sincronicidade consiste naquilo que, no dia-a-dia, pode nos ocorrer na forma daquela surpresa: "Affff, se tivéssemos planejado não teria dado tão certo".
Acabo de ter um pressentimento da sincronicidade –digo assim porque essas coisas são mais da ordem da intuição do que de uma certeza racional, já que estamos nos referindo a uma "lógica" não-consciente, portanto para além dos limites do cognoscível, no limiar da coisa-em-si kantiana que é explorada por Jung segundo a noção de inconsciente coletivo.
A "coincidência" em questão veio de um hábito que me é caro, a consulta ao tarô zen de Osho. Ele já me propiciou resultados interessantíssimos, verdadeiras fotografias da minha situação interna no instante respectivo (sim, pois somos não uma coisa fixa, mas sim fluxo incessante; "eu sou eu e minhas circunstâncias", segundo Ortega).
E não foi diferente desta vez. A carta que tirei: Espírito Brincalhão, com uma mulher vestida de palhaço, em postura dançante e celebrativa. Muito interessante, primeiramente, que se trate de uma mulher: o feminino que habita o homem, a "anima", é a porta de entrada por excelência para o inconsciente. A mãe é a primeira portadora da anima na vida do menino, e a tendência, com a evolução pessoal (estudada por Freud ao pensar o "Complexo de Édipo"), é que ela se desloque dessa primeira projeção e encontre novas formas, criativas, de expressão. Jung diz que o homem aprisionado na anima materna padece de infantilismo, mas que aquele que perde contato com a anima corre risco ainda mais grave, o de esterilidade espiritual.
O fato de ser a figura do tarô ser uma palhaça é pra mim também algo rico de significado. Hoje mesmo, numa comuna de Vampira Olímpia no orkut, eu recordava o mestre Michelangelo Antonioni (morto ontem), e em especial a cena final do filme Blow Up, quando o fotógrafo assiste a um "jogo" de tênis de palhaços – um jogo sem bola! Magnífica alegoria da falta, do vazio no qual os homens constroem, pela iMAGIAção (a magia da imaginação, segundo termo cunhado num mosteiro que fica aqui no reino Unzuhause), o lúdico, o prazer.
Minha carta traz afirmações como: "No momento em que você começa a enxergar a vida como uma coisa não-séria, como uma brincadeira, toda a pressão sobre o seu coração desaparece. Todo o medo da morte, da vida, do amor – tudo desaparece". Resta então o vácuo. Resta então brincar, a exemplo dos palhaços de Antonioni, e celebrar a vida, à imagem e semelhança da palhacinha do tarô.
Nem preciso dizer o quanto tal carta, assinada pelo Inconsciente (ou o que os antigos chamavam de "deuses"), encontrou endereço divinamente (in) certo ao chegar à soleira de minha consciência!








