
Cena de Amarcord, de Federico Fellini
Redonda como uma matriarca de Fellini
Fértil e feroz como Gaia,a mãe terra de mil tetas e crias
Olhos ariscos, desafiadores
Castanhos como teu cabelo liso
Castanhos como teu jeito escuro e esfíngico
Irreverência ferina e felina
Eu te admirava à distância
Meio que com medo de meus complexos de adolescente nerd
E ria, chorava de rir com teus sarros e armações
Me fazias voltar a face para trás,
Para ver coisas bem mais alegres do que aquela lousa chata
Lideravas a turma do fundão
Pois és tu mesma enviada da profundeza
Tua inteligência não admitia cabrestos
Nem precisava de atestados de bom comportamento
De provas de que eras uma garota exemplar
És exemplar justamente por ser única
E vives ainda em minha memória
De quando em vez imagino te ver em algum rosto na rua
Mas não, não eras tu ainda
Não sei onde estás
Mas sei que estás em mim
Rio contigo a cada vez que rio de mim
Sempre que me permito ir além
Diva, vida que ainda busco nos meus divãs
Tentando reviver o que me ensinaste
Filha de Abraxas indomável, o que me ensinaste?
Não eras pedante o bastante para bancar a pedagoga
Mas o que (pobre de mim, pretensioso mortal!) acho que aprendi contigo
É o que depois li no verso do imortal Blake
Verso arrebatador que uns lêem, e outros fazem ser
Quem sabe um dia eu o faça ser e seja:
Que o caminho do excesso leva ao templo da sabedoria

