
Boa notícia! Estão sendo relançadas, agora em edições de luxo, as primeiras histórias de super-heróis da Marvel. Entre eles, o Homem-Aranha, que sempre foi o meu favorito. Gostava demais de suas aventuras, e mais que isso, de seu perfil psicológico: a fragilidade emocional de Peter Parker, sua orfandade, seu jeito isolado e mal-compreendido na faculdade. Isso tudo falava muito a mim, embora eu até tenha sido um colegial e universitário bem relacionado, pelo menos no nível epidérmico.
Sim, pois um sentimento de abismo muitas vezes vem me chamar e exigir que eu faça minhas mesuras gentis -como o ator que se despede do público ao fim do espetáculo-, peça licença e dê o fora. Tire o uniforme do ajustamento social, me vista de minha nudez, lance minha teia ao longe mais alto e saia voando pelos ares. Assim era o Homem-Aranha, e seu "a menos" de adaptação mundana era a contrapartida do seu "a mais" de poderes e de missão. Ah, então me idealizo como um super-herói?
Não, não é isso, mas a centelha do Homem Interior, daquilo que nos faz ir além de nosso personagem cotidiano, o Heróico de cada um e de todos -o Self, arquétipo do inconsciente coletivo-, nada disso dura muito sob a ventania erosiva de mediocridade do rebanho, da falação do zé-ninguém parasita, da maldade dos pobres-diabos agarrados a mesquinharias e pequenas vontades de potência. Peter Parker vive a contradição de uma força que é, necessariamente, fraqueza solitária ante a "força" opressiva da manada ingrata e sem graça. E esta contradição se desdobra em outra, uma divisão interna do espírito do herói entre a compaixão e a aversão. Tudo isso é expresso metaforicamente em superseres como o Aranha, tanto mais poderosos quanto mais humanizados. Luminosos e sombrios.
Mas o Homem-Aranha me marcou também em outro aspecto: o de sua fatídica troca de uniforme. Alguma mente brilhante resolveu, certa vez, não me lembro mais o ano (efeito do trauma, talvez rsrs), mexer no tradicionalíssimo figurino vermelho e azul do herói, e o trocou por uma coisa horrenda e "fashion", uma roupa toda negra com uma aranha branca na altura do peito.
Sei que parei de imediato de ser o colecionador e devorador assíduo e apaixonado que era das histórias do Aranha. Deixei inclusive de criar meus próprios desenhos, em que ele era um dos grandes protagonistas . Senti-me, em suma, traído rs. Nunca mais o amor voltou a ser o mesmo rs.
Hoje, vejo aquele episódio como uma antecipação ainda infantil, ingênua, do que nunca mais deixei de sentir e investigar: a corrosividade do Tempo, a corrupção inevitável de tudo, inclusive de nossos objetos de apego mais intenso. Coisas, hábitos, contatos, relacionamentos, nada resiste, só nós é que resistimos ao que é inerente à vida: o fluxo criador e destruidor.
-Unzuhause-








