
Salvador Dalí,
Criança geopolítica assistindo ao nascimento do novo homem
Nietzsche certa vez definiu a vaidade como "a pele da alma". Como de hábito, estava inspirado ao fazê-lo. Quem disser que não é vaidoso ou bem está se enganando, ou tentando nos enganar, ou talvez -como ensina a bela definição nietzschiana- esteja com a alma e a auto-estima feridas.
Pois um bom motivo para mim de envaidecimento sadio , este ano, foi a publicação de meu livro: Sartre e o Pensamento Mítico, pela editora Loyola. E, até pela minha falta de tempo, nesta semana, para maiores escrevinhações por aqui, terei de me permitir outra "vaidade" rs, a de citar uma passagem do meu livro, a propósito do Ano Novo que se aproxima, ao invés de articular uma reflexão ampla noutras e novas palavras.
Trata-se de um trecho do capítulo 4, onde eu exploro o significado antropológico e religioso das festas de Ano Novo a partir do contexto nas culturas arcaicas. A linguagem é acadêmica, inevitavelmente, mas a idéia por detrás é clara, ao meu ver: o Ano Novo é uma das expressões mais importantes do desejo dos homens de abolir, periodicamente, o tempo profano (decadente, desgastante, corruptível) e voltar às Origens míticas, ao marco zero sagrado, a uma espécie de "Fonte da Juventude" que faça novas todas as coisas e que deixe reluzir uma vez mais as esperanças que foram pouco a pouco empoeiradas pelo cotidiano.
Em muitas sociedades ditas primitivas, a celebração do Ano Novo implicava uma momentânea "regressão" do Mundo ao Caos original, e um combate entre o deus ou herói civilizador com o monstro que quis no princípio, e que quer de novo, impedir o mundo de se fazer e de perdurar. Goethe, a propósito, chama o demônio Mefistófeles, no Fausto, de der Vater aller Hindernisse, “o pai de todos os impedimentos”.
Penso que tais representações e símbolos são parte do nosso inconsciente coletivo, estando vivos, ainda hoje, de formas mais ou menos explícitas.
Que, para além dos tediosos clichês que povoam a mídia e as ruas nesse período, cada um de nós faça uma experiência profunda de "renovatio" do mundo, do nosso próprio mundo pessoal -o que certamente favorecerá as tão urgentes transformações do mundo externo, do mundo compartilhado. Se preciso, que revisitemos, como faziam os povos arcaicos, nossos próprios "demônios" , o lado escuro da alma, as águas caóticas no fundo sem-fundo do Ser, numa viagem, mergulho, batismo que permitirão o advento de um Cosmos-consciência renascido e fortalecido.
Feliz 2008 a todos.
(...) O Ano Novo é considerado um reinício do tempo, portanto uma repetição da cosmogonia. Concretiza, ritualmente, a “abolição do tempo” e a restauração do tempo forte dos Primórdios, da passagem do Caos ao Cosmos.
Vejamos, rapidamente, o exemplo, fartamente explorado por [Mircea] Eliade, do Ano Novo babilônico. Durante os 12 dias da celebração, recitava-se solenemente, várias vezes, o épico babilônico da Criação, o Enûma elis, no templo de Marduque: “Dessa maneira era reatualizado o combate entre Marduque e Tiamat, o monstro do mar –combate que tinha sido realizado in illo tempore e colocara um fim ao caos graças à vitória final do deus. Marduque teria criado o Cosmo com os fragmentos do corpo dilacerado de Tiamat, e procedido à criação do homem a partir do sangue do demônio Kingu, ao qual Tiamat tinha confiado as Lâminas do Destino (Enûma elis, VI, 33, apud Eliade, M., Mito do Eterno Retorno, p. 58).
A gesta de Marduque era não apenas rememorada, mas sim revivificada, como se vê pelos rituais e pelas fórmulas recitadas durante as cerimônias: dois grupos de atores “atuam” e “atualizam” o combate entre Tiamat e Marduque; o celebrante, a certa altura, exclama: “Que ele [Marduque] continue a vencer Tiamat e a encurtar seus dias!”. Para Eliade, isso sinaliza que se considerava que “o combate, a vitória e a Criação aconteciam naquele preciso instante” .
Um dos momentos da trajetória de Marduque no Ano Novo é sua “descida aos infernos”: o deus era feito prisioneiro da montanha, isto é, das regiões infernais, o que correspondia ao um período de luto e jejum para toda a comunidade e de “humilhação” para o rei. O ciclo se fechava com uma hierogamia [casamento sagrado] do deus com Sarpanitu, evento que o rei mimetizava com uma escrava no templo da câmara da deusa, simultaneamente à ocorrência de uma orgia coletiva.
LIUDVIK, Caio, Sartre e o Pensamento Mítico - Revelação arquetípica da liberdade em As Moscas. S. Paulo: ed. Loyola, 2007.