Friday, December 26, 2008

dez motivos para estar vivo em 2009

Aprendi esse exercício com um importante site cultural, o Trópico, e o acho interessante, ao menos como mentalização, primeiro passo, ao meu ver, para um futuro à feição de nossos desejos. Lá vão, sem ordem de importância a não ser nas Três prioridades iniciais, algumas das tais "razões" pra estar vivíssimo em 2009.

1)Amar
2)Amar
3)Amar

4) Avançar o doutorado
5) Não ser menos "espiritual", mas saber ser "material" o suficiente para proteger o espírito (inclusive, sim, quanto a dinheiro, esse tabu católico convertido em tara capitalista)
6) Quebrar rotinas, queimar acomodações no fogo da transformação
7) Viajar - diversificando paisagens e estados de consciência; não por acaso na nossa língua o viajar tem também a conotação do devaneio, andança da imaginação inclusive nas searas do equívoco

8) Ver o Coringão voltar a ser campeão na Primeira Divisão rs; ah, a propósito, tô me lixando pra pergunta de quem conquistou tantos títulos quanto o São Paulo, esse time nerd e chato; eu pergunto é quem é capaz de conquistar um título como o Corinthians, essa paixão desastrosa, gloriosa, incurável
9) Ler e / ou reler amores da minha vida, como Jung, Nietzsche, Goethe etc etc, mas não deixar o ato da leitura se degradar num mero "conhecer" por ouvir dizer; que o conhecimento seja ação, e a ação, conhecimento, e que ambos sejam um só em trindade íntima com o Ser
10) Ser surpreendido por outras e ainda mais deliciosas razões e irrazões da graça de estar vivo, enquanto for -dizendo em linguagem mitológica- da vontade do Misericordioso e da necessidade de meu carma

Amém / Amem

Wednesday, December 24, 2008

ave, cheia de graça



Hino Akathistos
(século V, autor desconhecido, um dos hinos mais importantes da tradição cristã oriental)

O mais excelso dos anjos foi enviado do Céu para dizer ‘Ave’ à Mãe de Deus. Ao transmitir sua saudação incorpórea, vendo o Senhor fazendo-se homem nela, o anjo, extasiado, deste modo a aclamou:

Ave, por vós resplandecem os gozos,
Ave, por vós se dissolve a dor,
Ave, resgate do pranto de Eva,
Ave, saúde do Adão que caiu
Ave, sois o cimo sublime do intelecto humano,
Ave, sois o abismo insondável ao olhar de um anjo
Ave, levais Aquele que a tudo sustém
Ave, sois a sede do Trono Real
Ave, ó estrela que ao Astro precede,
Ave, morada do Deus que se encarna,
Ave, por vós se renova o criado,
Ave, por vós se faz menino o Senhor!
Ave, Virgem e Esposa!
Bem sabia Maria que era uma Virgem Santa, e por isso respondeu a Gabriel: “Vossa singular mensagem se mostra incompreensível a meu intelecto, pois anunciais um parto virginal em meu seio, exclamando: Aleluia!”
Aleluia, Aleluia, Aleluia!
Ansiava a Virgem compreender o mistério, e perguntava ao Mensageiro divino: “Poderá meu seio virginal dar á luz um filho? Dizei-me!” E aquele, reverente, a respondeu aclamando-a:
Ave, presságio de excelsos desígnios,
Ave, sois a prova de arcano mistério,
Ave, prodígio primeiro de Cristo
Ave, compêndio de toda a verdade.
Ave, ó Escada celeste em que desce o Eterno
Ave, ó Ponte que leva os homens ao Céu,
Ave, cantado portento de coros celestes
Ave, ó açoite que afugenta a horda infernal.
Ave, a Luz inefável haveis portado
Ave, não contásteis a ninguém o ‘modo’
Ave, transcendeis a Ciência dos sábios,
Ave, vós incendiais o coração fiel
Ave, Virgem e Esposa!
A Virtude do Altíssimo a cobriu com sua sombra e fez mãe à Virgem que não conhecia varão: aquele seio, feito fecundo desde o Alto, se converteu em campo ubérrimo para todos os que querem alcançar a Salvação, cantando desta maneira: Aleluia!
Aleluia, Aleluia, Aleluia!
Com o Senhor em seu seio, apressada, Maria subiu à montanha e conversou com Isabel. O pequeno João, no ventre de sua mãe, ouviu a saudação virginal e exultou; saltando de alegria, cantava à Mãe de Deus:
Ave, videira do mais Santo Broto,
Ave, ramo de um Fruto sem mancha
Ave, dais vida ao Autor da vida
Ave, cultivais o Vosso Agricultor.
Ave, sois o campo que mostra as mais ricas graças,
Ave, sois altar em que se oferecem os melhores dons,
Ave, um refúgio aos fiéis preparais,
Ave, um pasto agradável fazeis brotar.
Ave, sois o incenso agradável de súplicas
Ave, do mundo suave perdão,
Ave, clemência de Deus pelo homem,
Ave, confiança do homem em Deus.
Ave, Virgem e Esposa!
Com o coração turbado e pensamentos discordantes, o sábio José se agitava na dúvida; admirando-vos intacta, suspeita esponsais secretos, ó Imaculada! E quando soube que éreis Mãe por obra do Espírito Santo, exclamou: Aleluia!
Aleluia, Aleluia, Aleluia!
Os pastores ouviram os coros de anjos que cantavam a Cristo, baixado entre nós. Correndo para ver o Pastor, o contemplaram como Cordeiro inocente, que se nutre ao seio da Virgem, e cantam assim:
Ave, sois a Mãe do Pastor-Cordeiro,
Ave, recinto do rebanho fiel,
Ave, defesa das feras malignas,
Ave, guardiã da Eternidade
Ave, por vós com a terra exultam os céus
Ave, por vós com os céus rejubila-se a terra,
Ave, sois perene voz dos Santos Apóstolos,
Ave, de Mártires fortes invicto valor.
Ave, potente sustento de Fé,
Ave, de graça esplêndido pendão,
Ave, por vós foi espoliado o Inferno,
Ave, por vós nos vestimos de honra.
Ave, Virgem e Esposa!
Observando a Estrela que guiava ao Eterno, os Magos seguiram seu fulgor. Foi luminária segura para ir em busca do Poderoso, o Senhor.
E alcançando o Deus inalcançável, O aclamaram felizes: Aleluia!
Aleluia, Aleluia, Aleluia!
Os Magos contemplaram em braços maternos Aquele que fez o homem. Sabendo que era o Senhor, ainda que sob a aparência de servo, premurosos o ofereceram seus presentes, dizendo á Mãe bem-aventurada:
Ave, ó Mãe do Astro perene,
Ave, aurora do místico dia,
Ave, os fornos de erros apagais,
Ave, conduzis com vosso brilho a Deus.
Ave, ao odioso tirano afastastes do trono,
Ave, vós Cristo nos dais, clemente Senhor,
Ave, sois o resgate de ritos nefandos,
Ave, sois quem salva do opressor
Ave, destruístes o culto ao fogo,
Ave, extinguis a chama do vício,
Ave, ensinais a ciência ao crente,
Ave, alegria de todas as gentes
Ave, Virgem e Esposa!
Anunciando a Deus foram os Magos, no caminho de volta. Cumpriram Vosso vaticínio e Vos predicavam, ó Cristo, a todos, sem se preocupar com Herodes, o néscio, que era incapaz de cantar: Aleluia!
Aleluia, Aleluia, Aleluia!
Iluminando o Egito com o Esplendor da Verdade, Vós afastastes as trevas do erro, porque os ídolos de então, Senhor, debilitados pela força divina, caíram. E os homens, salvos, aclamaram à Mãe de Deus;
Ave, desquite do gênero humano,
Ave, derrota do reino infernal,
Ave, vós venceis mentiras e erros,
Ave, mostrais a grande falsidade.
Ave, sois o mar que devora o Faraó,
Ave, sois a rocha de que brota a Água da Vida,
Ave, coluna de fogo que guias à noite,
Ave, refúgio do mundo qual nuvem sem par
Ave, vós doais o maná celeste
Ave, ama dos santos júbilos,
Ave, vosso místico lar prometido,
Ave, de leite e de mel manancial.
Ave, Virgem e Esposa!
O velho e inspirado Simeão estava a ponto de deixar este mundo enganoso. Foste dado a ele como uma criancinha, mas em Vós ele reconheceu o perfeito Senhor; e, estupefato, admirando a divina Sabedoria, exclamou: Aleluia!
Aleluia, Aleluia, Aleluia!

Friday, December 19, 2008

sobre super-homens e super-losers




Deus meuuuuu, como é engraçado esse filme "Queime depois de ler", dos irmãos Coen, em cartaz em São Paulo. Seus atrativos vão muito além do elenco estelar - nomes consagrados como John Malkovitch, George Clooney e Brad Pitt, entre outros.
A inteligência da história e da forma como é contada. A ironia do mais ácido quilate, num humor negro com relação aos filmes de suspense e espionagem.
Sátira do método paranóico de existência que se alastra não só nos EUA pós-11 de setembro, mas neste vasto palco de medos, taras e voracidades cegas que é o nosso mundo.
Também a referência ao estereótipo dos "losers" é impressionantemente engraçada. E o chiste mais potente é, sem dúvidas, o que faz ferinas sinapses e latentes ritos de esconjuro entre o conhecido e o "estranho" (Unheimlich), o consciente e o inconsciente, a fachada e o temido.
Como a galeria de losers do filme dos Coen acerta o alvo nesse sentido! Affffffe, e como é assustador o espírito loser, quiçá como a sombra do beco, a ameaça escura de "ficar de fora", o fedido estar "out" e à margem das alegrias solares e perfumadas dos shopping centers da existência alienadamente feliz e obrigada ao sucesso.

Há um momento do filme em que a funcionária da academia, à caça de encontros amorosos, e que é louca para, como repete obsessivamente, se "reinventar" com cirurgias estéticas do dedo do pé à última ruga da testa, vai passando por uma série de fotos num site de candidatos potenciais a amante, e decretando e descartando, um a um: loser! loser! loser! Como se ela também não fosse a própria loser! Mas o pior é que, de fato, esse fenômeno existencial, o loser, é o que mais se pode depreender-com maldade, é claro (e que humor não se nutre de maldade? rs)- daquelas fisionomias em procissão na tela inerte!
O ser loser não é algo impalpável feito o éter, não é algo invisível feito as pulgas de um cão sarnento. Ele se corporifica em gestos, discursos, rostos, em suma, numa certa maneira concreta de estar no mundo, sendo o corpo o veículo e retrato por excelência da nossa travessia, que aliás para o loser não é travessia mas o atravessado, é o estagnado que se move apenas como o atolado nas areias movediças.
Dos fundos da memória infantil, me vem uma metáfora e síntese da fisionomia do loser: a cara desse antigo personagem televisivo Fofão! rsrs Representação da idiotia de nossos tempos, para retomar frase do personagem de Malkovitch no filme.
Imagem de tudo quanto há de fraco, otário, passivo, carente e pidão, nos últimos homens (Nietzsche), nessas entidades temíveis e risíveis que habitam dentro e fora de nós. Que não nos falte também o chamamento de Zaratustra para a vinda , em espírito e corpo, em Verbo tornado carne, para, eu dizia, a vinda redentora do Super-Homem! Um alerta a que não rebaixem sobretudo o winner divino e doloroso que é o Nascido em Belém à caricatura idiota dos papais noéis de saco cheio e alegrias vazias do assim chamado Natal da carneiragem.

Thursday, December 18, 2008

a poética bipolar



SIMULTANEIDADE

- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver! - Você é louco? - Não, sou poeta.

Mario Quintana, A vaca e o hipogrifo

Sunday, December 14, 2008

enquanto isso, no reino das sombras..

A atriz inglesa Rachel Weisz


Cena de Batman Begins

Boatos apontam Rachel Weisz como Mulher-Gato no novo BatmanPor Arthur Melo
14/12/2008


O YahooMovies divulgou uma notícia em que aponta Rachel Weisz ("A Múmia", "O Jardineiro Fiel") como possível Mulher-Gato no terceiro filme do Batman. Isso confirmaria de fato a vilã no próximo longa e tiraria Angelina Jolie, favorita pelos fãs ao papel, da corrida ao papel. Mas ainda há outro ponto interessante: segundo a mesma notícia, a Mulher-Gato não será vilanizada noterceiro longa da nova série cinematográfica do Batman.

A Mulher-Gato já deu as caras nos filmes do Homem-Morcego em "Batman - O Retorno", produção de 1992 do diretor Tim Burton, sendo interpretada por Michelle Pfeiffer. Já em 2005, a personagem ganhou um filme próprio (massacrado pela crítica e esquecido pelo público) protagonizado por Halle Berry.

A continuação de "Batman - O Cavaleiro das Trevas" ainda não tem uma previsão para estréia.

Saturday, December 13, 2008

touros e fardos do cansaço

Mitra e o sacrifício do touro, após o "transitus" (o animal carregado nas costas pelo deus) até a caverna




"O velho desta carta irradia uma satisfação de criança. Há uma atmosfera de graça à sua volta, indicando que ele está bem consigo mesmo, e com o que a vida lhe proporcionou. Parece que ele está conversando alegremente com o louva-a-deus em seu dedo, como se os dois fossem os maiores amigos. As flores cor-de-rosa que cascateiam em torno dele representam um tempo de deixar-acontecer, de relaxamento e doçura. Elas são uma resposta à sua presença, um reflexo de sua própria natureza. * A inocência que advém de uma profunda experiência de vida é semelhante à de uma criança, sem ser infantil. A inocência das crianças é bela, mas ignorante. Ela será substituída por desconfiança e dúvida à medida que a criança for crescendo e aprendendo que o mundo pode ser um lugar perigoso e ameaçador. A inocência, porém, de uma vida plenamente vivida tem um quê de sabedoria e da aceitação do milagre da vida em eterna mudança".

"O Zen diz que se você abandonar o conhecimento -e dentro do conhecimento inclui-se tudo: seu nome, sua identidade, tudo...-porque tudo isso lhe foi dado pelos outros - se você abandonar tudo o que lhe foi dado pelos outros, , você adquirirá uma qualidade totalmente diferente de ser - a inocência.

Isso será uma crucificação da persona, da personalidade, e haverá uma ressurreição da sua inocência; você se tornará outra vez uma criança, renascida".


Tarô Zen de Osho, carta Inocência


"Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve"

Mt 11, 28-30






Wednesday, December 10, 2008

a caminho do Natal



Oração do Pai-nosso
Frei Betto
www.amaivos.com.br - 10 dez 2008

Pai-nosso que estais no céu, e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim,
Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa,
Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação,
Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no vôo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões,
Assim na Terra como no céu, e também no âmago da matéria escura e na garganta abissal dos buracos negros, no grito inaudível da mulher aguilhoada e no próximo encarado como dessemelhante, nos arsenais da hipocrisia e nos cárceres que congelam vidas.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e também o vinho inebriante da mística alucinada, a coragem de dizer não ao próprio ego e o domínio vagabundo do tempo, o cuidado dos deserdados e o destemor dos profetas,
Perdoai as nossas ofensas e dívidas, a altivez da razão e a acidez da língua, a cobiça desmesurada e a máscara a encobrir-nos a identidade, a indiferença ofensiva e a reverencial bajulação, a cegueira perante o horizonte despido de futuro e a inércia que nos impede fazê-lo melhor,
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e aos nossos devedores, aos que nos esgarçam o orgulho e imprimem inveja em nossa tristeza de não possuir o bem alheio, e a quem, alheio à nossa suposta importância, fecha-se à inconveniente intromissão,
E não nos deixeis cair em tentação frente ao porte suntuoso dos tigres de nossas cavernas interiores, às serpentes atentas às nossas indecisões, aos abutres predadores da ética,
Mas livrai-nos do mal, do desalento, da desesperança, do ego inflado e da vanglória insensata, da dessolidariedade e da flacidez do caráter, da noite desenluada de sonhos e da obesidade de convicções inconsúteis,
Amemos.

Sunday, November 30, 2008

bruxos e broxas, 'escre-ver' e viver

"Escrever é muito bom, eu adoro. mas viver é ainda mais legal. Até porque não
não dá pra escrever sem viver, ou só vamos escrever sobre o escrever".
Pensamento que o vento ruah me ventilou na tarde de ontem, dito por um jovem escritor gaúcho, perdoe-me não recordar teu nome, estava no burburinho da Livraria Cultura, durante uma espécie de "Virada Cultural", e o escritor falando (de) sua arte e (da) de outros.
No mesmo evento, um leitor que se animou a tomar a palavra e o microfone, disse versos de autoria também incerta (hoje me faltam nomes, não quero nomes, quero coisas.....), mas que diziam que é tempo de sermos bruxos, não broxas rsrs.
bruxos e não broxas! sensacional! quando o artista, o homem, é plenamente bruxo?
uma amiga querida disse-me numa noite inesquecível: tens olhos de bruxo! ainda hoje isso me ressoa um desafio provocativo. conheço bruxas de um poder espetacular, e que acionam em mim vontade profunda de trilhar a Senda no que tem também de obscuro, mágico e para além do entendimento monástico. Mas o monástico tampouco é apenas entendimento. Monástico é também o monádico: é o Uno, a unidade profunda no di-verso.
mas a qualidade da Senda e do Sendeiro, sinto, dependerá sempre, como me disse ruah ontem na livraria, justamente da intensidade do viver, da "escrita" do viver, escrita enquanto ato, mas também destino que age em nosso agir. afinal, quem age e quem é "agido" na ação autêntica? no viver pleno, inter-esse (entre seres), Ser nos seres, pra além da separatividade medrosa do ente encapsulado?

Friday, November 28, 2008

para além do teorema de Pitágoras


**O triângulo da Tetraktys - Número sagrado e fundamental dos pitagóricos pelo qual juravam fidelidade. Simboliza a unidade origem e principio, a dualidade das oposicoes e as complementaridades e o triunfo da trindade, que finalmente se desprende no universo do quatro. 1 + 2 + 3 + 4 = 10, a unidade expandida na manifestação, = 1 + 0 = 1, o retorno à unidade de origem.


OS VERSOS DE OURO DE PITÁGORAS
(filósofo grego, século VI a.C)
01. Honra em primeiro lugar os deuses imortais, como manda a lei.
02. A seguir, reverencia o juramento que fizeste.
03. Depois os heróis ilustres, cheios de bondade e luz.
04. Homenageia, então, os espíritos terrestres e manifesta por eles o devido respeito.
05. Honra em seguida a teus pais, e a todos os membros da tua família.
06. Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.
07. Aproveita seus discursos suaves, e aprende com os atos dele que são úteis e virtuosos.
08. Mas não afasta teu amigo por um pequeno erro.
09. Porque o poder é limitado pela necessidade.
10. Leva bem a sério o seguinte: Deves enfrentar e vencer as paixões.
11. Primeiro a gula, depois a preguiça, a luxúria, e a raiva.
12. Não faz junto com outros, nem sozinho, o que te dá vergonha.
13. E, sobretudo, respeita a ti mesmo.
14. Pratica a justiça com teus atos e com tuas palavras.
15. E estabelece o hábito de nunca agir impensadamente.
16. Mas lembra sempre um fato, o de que a morte virá a todos.
17. E que as coisas boas do mundo são incertas, e assim como podem ser conquistadas, podem ser perdidas.
18. Suporta com paciência e sem murmúrio a tua parte, seja qual for.
19. Dos sofrimentos que o destino determinado pelos deuses lança sobre os seres humanos.
20. Mas esforça-te por aliviar a tua dor no que for possível.
21. E lembra que o destino não manda muitas desgraças aos bons.
22. O que as pessoas pensam e dizem varia muito; agora é algo bom, em seguida é algo mau.
23. Portanto, não aceita cegamente o que ouves, nem o rejeita de modo precipitado.
24. Mas se forem ditas falsidades, retrocede suavemente e arma-te de paciência.
25. Cumpre fielmente, em todas as ocasiões, o que te digo agora.
26. Não deixa que ninguém, com palavras ou atos,
27. Te leve a fazer ou dizer o que não é melhor para ti.
28. Pensa e delibera antes de agir, para que não cometas ações tolas.
29. Porque é próprio de um homem miserável agir e falar impensadamente.
30. Mas faze aquilo que não te trará aflições mais tarde, e que não te causará arrependimento.
31. Não faze nada que sejas incapaz de entender.
32. Porém, aprende o que for necessário saber; deste modo, tua vida será feliz.
33. Não esquece de modo algum a saúde do corpo.
34. Mas dá a ele alimento com moderação, o exercício necessário e também repouso à tua mente.
35. O que quero dizer com a palavra moderação é que os extremos devem ser evitados.
36. Acostuma-te a uma vida decente e pura, sem luxúria.
37. Evita todas as coisas que causarão inveja.
38. E não comete exageros. Vive como alguém que sabe o que é honrado e decente.
39. Não age movido pela cobiça ou avareza. É excelente usar a justa medida em todas estas coisas.
40. Faze apenas as coisas que não podem ferir-te, e decide antes de fazê-las.
41. Ao deitares, nunca deixe que o sono se aproxime dos teus olhos cansados,
42. Enquanto não revisares com a tua consciência mais elevada todas as tuas ações do dia.
43. Pergunta: "Em que errei? Em que agi corretamente? Que dever deixei de cumprir?"
44. Recrimina-te pelos teus erros, alegra-te pelos acertos.
45. Pratica integralmente todas estas recomendações. Medita bem nelas. Tu deves amá-las de todo o coração.
46. São elas que te colocarão no caminho da Virtude Divina.
47. Eu o juro por aquele que transmitiu às nossas almas o Quaternário [Tetraktys**] Sagrado.
48. Aquela fonte da natureza cuja evolução é eterna.
49. Nunca começa uma tarefa antes de pedir a bênção e a ajuda dos Deuses.
50. Quando fizeres de tudo isso um hábito,
51. Conhecerás a natureza dos deuses imortais e dos homens,
52. Verás até que ponto vai a diversidade entre os seres, e aquilo que os contém, e os mantém em unidade.
53. Verás então, de acordo com a Justiça, que a substância do Universo é a mesma em todas as coisas.
54. Deste modo não desejarás o que não deves desejar, e nada neste mundo será desconhecido de ti.
55. Perceberás também que os homens lançam sobre si mesmos suas próprias desgraças, voluntariamente e por sua livre escolha.
56. Como são infelizes! Não vêem, nem compreendem que o bem deles está ao seu lado.
57. Poucos sabem como libertar-se dos seus sofrimentos.
58. Este é o peso do destino que cega a humanidade.
59. Os seres humanos andam em círculos, para lá e para cá, com sofrimentos intermináveis,
60. Porque são acompanhados por uma companheira sombria, a desunião fatal entre eles, que os lança para cima e para baixo sem que percebam.
61. Trata, discretamente, de nunca despertar desarmonia, mas foge dela!
62. Oh Deus nosso Pai, livra a todos eles de sofrimentos tão grandes.
63. Mostrando a cada um o Espírito que é seu guia.
64. Porém, tu não deves ter medo, porque os homens pertencem a uma raça divina.
65. E a natureza sagrada tudo revelará e mostrará a eles.
66. Se ela comunicar a ti os teus segredos, colocarás em prática com facilidade todas as coisas que te recomendo.
67. E ao curar a tua alma a libertarás de todos estes males e sofrimentos.
68. Mas evita as comidas pouco recomendáveis para a purificação e a libertação da alma.
69. Avalia bem todas as coisas,
70. Buscando sempre guiar-te pela compreensão divina que tudo deveria orientar.
71. Assim, quando abandonares teu corpo físico e te elevares no éter.
72. Serás imortal e divino, terás a plenitude e não mais morrerás.

Wednesday, November 26, 2008

vale de lágrimas

Minha solidariedade ao povo catarinense, nesses dias de calamidade pública decorrente do excesso das chuvas.
Mortes, perdas, destruição: o homem que mais uma vez se des-cobre nu, cobertas que se vão com as águas violentas e impassíveis.
A senhora que desabafa, ante a casa do vizinho que racha e histórias e memórias que desabam: "Jesus amado"... Palavrório do velório das palavras.
E afundando, afundando, o meu escafandro, sem cor nem incolor, do mais pesado dos pesos das leves quimeras azuladas de um arcaico Sol de harmonias.

Wednesday, November 19, 2008

mathesis universalis


Como é habitual nos alunos que se davam melhor nas "humanas", a matemática pra mim foi, quase sempre, uma MÁ- temática rs, temática sinônima de frio na espinha, suor de pânico e profunda inveja (não me venham com o eufemismo de dizer "inveja no bom sentido", inveja é inveja, ponto rs) dos "japonesinhos" e suas irritantes máquinas de calcular mentais, que decifravam em segundos o que pra mim demandava séculos de elocubração angustiada.
O que eu sentia falta era de aulas que fossem mais fundo na lógica implícita a tanto número e tabela. O que eu mais queria era que a matemática pudesse fazer algum sentido na vida real, o que aqui e acolá alguns bons professores de física conseguiam deixar entrever, com raciocínios em que a matemática dava suporte ao processo do pensamento, não à idiotia decorebenta.
Tudo isso me veio à tona esses dias, ao reabrir as páginas do Discurso do método, de Descartes, agora na edição clássica com os comentários de Etiènne Gilson (lançada no Brasil pela editora Martins Fontes).
O senso comum –e alguns charlatães esotéricos ressentidos- gosta de apelidar de "cartesiano" tudo o que não se encaixa em seus próprios achismos preguiçosos.
Ouvi nesta semana -e em sala de aula, e de um professor!- uma barbaridade do gênero, um comentário preconceituoso de que não só o cartesianismo, pior, a filosofia toda, deve ser "destruída", e dar lugar à "sabedoria que vem de dentro".
Oras, filosofia, cabe lembrar o óbvio, é por definição o amor pela sabedoria. Mas é importante, ressalta Descartes, lembrar que sabedoria é oposta não tanto à ignorância -Sócrates, genial ignorante!-mas sobretudo ao pseudo-saber, essa forma de ignorância que se auto-ignora mediante o acúmulo atabalhoado de saberes, curativos desbotados feitos para tapear e tapar a pele podre da mentira e da ilusão.
Importa menos a quantidade de coisas sabidas do que a qualidade do pensamento que as pensa. O filósofo autêntico se interessa não tanto pelo conteúdo fornecido pelo mundo quanto pela perfeição do seu próprio espírito, isto é, pelo aperfeiçoamento pessoal que nos confere inteligência para discernir o verdadeiro (teoria) e vontade de seguir o bem (prática). Sábio é quem alcançou estas dimensões, filosófico é trabalhar para alcançá-las.
A erudição se preocupa com as coisas; a sabedoria reside unicamente no pensamento, enquanto matriz geradora de conhecimentos úteis à vida feliz. Em termos de hoje, seria essa a diferença entre a autêntica formação e a mera informação, entre a inquietação de pesquisar e o dar-se por satisfeito com as wikipédias.
Muito se fala na importância que Descartes atribuía à matemática como paradigma do pensamento em geral. Não que a ética, a metafísica ou mesmo as ciências pudessem sempre serem reduzidas a equações. Mas elas poderiam ser sempre tratadas matematicamente. O cálculo é apenas o instrumento de que a álgebra ou a aritmética lançam mão para lidar com problemas que lhes são próprios. O espírito adota o procedimento do cálculo em caso de necessidade, mas é o cálculo que se põe a serviço do espírito, e não o espírito, a serviço do cálculo.
O que confere então às verdades matemáticas o grau de certeza absoluta que deveria inspirar toda a filosofia? Não é necessariamente serem produto de cálculo, mas sim desdobramento do raciocínio rigoroso, bem encadeado e que se vale de evidências, as famosas "idéias claras e distintas".
Claro que não podemos ler hoje Descartes fingindo que não houve a revolução freudiana, tão bem sintetizada na fórmula -esta assim anti-cartesiana no melhor e mais honesto sentido do termo- proposta por Lacan: ao invés de penso, logo existo, diria Lacan que quando penso, não sou, quando sou, não penso.
Isso não impediu porém Lacan de fazer jus à racionalidade instaurada por Descartes , e não só à razão mas também ao sonho, sonho "pitagórico" de uma mathesis universalis (matemática universal).
A matemática como linguagem do espírito humano e espelho da natureza, como forma de diálogo de amor -amor à sabedoria- do homem com a vida.

Sunday, November 09, 2008

sermão, ação, coração

Ícone do Sagrado Coração de Jesus Cristo

"Kyrie eleison"
a oração do coração, exercício meditativo no cristianismo ortodoxo russo
***
"O coração é esta faculdade que vai transformar o impulso cego da pulsão em energia de amor. A dimensão animal do homem não é negada, mas é no coração que ela se personaliza. O homem não é apenas um animal dotado de razão, ele é também um animal capaz de amor, ou seja, capaz de respeito, e é no coração que a libido tem acesso a essa dimensão. Se o coração estiver ausente, o amor não passará de atrito entre duas epidermes, um êxtase doloroso entre dois cães e não um encontro entre duas pessoas"

JEAN-YVES LELOUP
sacerdote ortodoxo e escritor
***
Lembro-me, em domingos como hoje, de domingos de outrora que eram preenchidos pelo sermão forte, claro e envolvente do meu querido Padre Pedro, que se foi ano passado. Foram os sermões que mudaram ou fui eu? Não sei dizer.. mas há muito que não me sinto em casa em templo algum. Sina, sem dúvidas, de "Unzuhause": a palavra que me batizou alude ao sentimento do não-estar-em-casa da angústia, no dizer de Heidegger; e desde esse "batismo", minha igreja está no vazio, sendo eu o sacerdote de mim mesmo. Eremita nos desertos egípcios do mistério, do sentido em suspenso e da solidão.
E esse sacerdote de mim mesmo, que sou eu, tem dogma nenhum, ou se os têm, são menores do que meu desejo permanente de evoluir e de me transformar. Aprender idiomas alheios, as falas "estranhas" (Freud: unheimlich), as questões que me põem em questão, as extimidades, as ovelhas tinhosas da vida sem conformismo.
Minhas ovelhas tinhosas são todas nascidas e rebeladas nos rincões do coração, este terreno inóspito, vietnã hostil às tentativas planificadoras do engenheiro fáustico que é o intelecto imperialista.
Outro dia, saindo da terapia, peguei um táxi que deveria me deixar na PUC. Eu estava na Paulista, portanto um caminho muito simples. Mas o cara foi de uma teimosia espantosa, não escutando a minha orientação, se deixando guiar por um GPS que não só o tirou da rota mais simples, como o ia dando comandos que cada vez mais o afastaram do endereço.
Eu me senti esse taxista, esse GPS e esse destino perdido, esse caminho confuso. Um ego guiado pelos e refém dos automatismos cegos da passividade. E que só na errância poderia reencontrar a humildade que, ufa!, o taxista teve ao final, me cobrando o preço do que teria sido a corrida correta, e se desculpando pela inexperiência.
Não me devo desculpas; me devo ação.

Wednesday, November 05, 2008

o dia mais lindo do novo milênio

O novo presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama

Obama diz que mudança chegou à América, terra onde tudo é possível; leia íntegra do discurso da vitóriada Folha Online

Barack Obama, 47, foi eleito o primeiro presidente negro e o 44º da história dos Estados Unidos, nesta quarta-feira.
"Se pessoas ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as coisas são possíveis, que ainda acreditam que o sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é a sua resposta", afirmou Obama em seu discurso de vitória, a milhares de partidários, em Chicago, Illinois --Estado pelo qual Obama é senador.
Leia abaixo a íntegra do discurso:


"Oi, Chicago.
Se alguém ainda duvida que a América é um lugar onde tudo é possível, ainda pergunta se o sonho dos pioneiros ainda estão vivos em nossos tempos, ainda questiona o poder da nossa democracia, esta noite é sua resposta.
É a resposta das filas que cercaram escolas e igrejas em números que essa nação nunca havia visto. Das pessoas que esperaram três horas e quatro horas, muitas pela primeira vez em suas vidas, porque acreditavam que desta vez precisava ser diferente, que as suas vozes podiam fazer diferença.


É a resposta de jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, índios, gays, heterossexuais, deficientes e não-deficientes. Americanos que enviaram uma mensagem ao mundo de que nós nunca fomos somente uma coleção de indivíduos ou uma coleção de Estados vermelhos e azuis.
Nos somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.
É a resposta que recebeu aqueles que ouviram --por tanto tempo e de tantos-- para serem cínicos, medrosos e hesitantes sobre o que poderiam realizar para que coloquem a mão no arco da história e torçam-no uma vez mais, na esperança de dias melhores.
Faz muito tempo, porém, nesta noite, por causa do que fizemos nesse dia de eleição, nesse momento decisivo, a mudança chegou à América.
Um pouco mais cedo nesta noite, recebi um telefonema extraordinariamente gracioso do senador McCain. Ele lutou muito e por muito tempo nesta campanha. Ele lutou ainda mais e por ainda mais tempo por esse país que ele ama. Ele enfrentou sacrifícios pela América que a maioria de nós nem pode começar a imaginar. Nós estamos melhores graças ao serviços desse líder bravo e altruísta.
Eu o parabenizo e parabenizo a governadora Palin por tudo que eles conquistaram. Eu estou ansioso por trabalhar com eles e renovar a promessa dessa nação nos próximos meses.
Eu quero agradecer meu parceiro nessa jornada, um homem que fez campanha com o coração e que falou para os homens e mulheres com os quais cresceu, nas ruas de Scranton, e com os quais andou de trem a caminho de Delaware, o vice-presidente eleito dos EUA, Joe Biden.
E eu não estaria aqui nesta noite sem a compreensão e o incansável apoio da minha melhor amiga dos últimos 16 anos, a rocha da nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira-dama dessa nação, Michelle Obama. Sasha e Malia [filhas de Obama] eu as amo mais do que vocês podem imaginar. E vocês mereceram o cachorrinho que irá morar conosco na nova Casa Branca.
E, embora ela não esteja mais entre nós, eu sei que minha avó está assistindo, ao lado da família que construiu quem eu sou. Eu sinto falta deles nesta noite. Eu sei que minha dívida com eles está além de qualquer medida.
Para minha irmã Maya, minha irmã Alma, todos os meus irmãos e irmãs, muito obrigado por todo o apoio que me deram. Sou grato a eles.
E agradeço ao meu coordenador de campanha, David Plouffe, o herói anônimo da campanha, que construiu o que há de melhor --a melhor campanha política, penso, da história dos EUA.
Ao meu estrategista-chefe David Axelrod, que tem sido um companheiro em todos os passos do caminho. À melhor equipe de campanha reunida na história da política --você fizeram isso acontecer, e eu serei sempre grato pelo que vocês sacrificaram para conseguir.
Mas, acima de tudo, eu nunca esquecerei a quem essa vitória realmente pertence. Isso pertence a vocês. Isso pertence a vocês.
Eu nunca fui o candidato favorito na disputa por esse cargo. Nós não começamos com muito dinheiro ou muitos endossos. Nossa campanha não nasceu nos corredores de Washington. Nasceu nos jardins de Des Moines, nas salas de Concord e nos portões de Charleston. Foi construída por homens e mulheres trabalhadores que cavaram as pequenas poupanças que tinham para dar US$ 5, US$ 10 e US$ 20 para essa causa.
Ela [a campanha] cresceu com a força dos jovens que rejeitaram o mito de apatia da sua geração e deixaram suas casas e suas famílias por empregos que ofereciam baixo salário e menos sono.
Ela tirou suas forças de pessoas não tão jovens assim que bravamente enfrentaram frio e calor para bater às portas de estranhos e dos milhões de americanos que se voluntariaram e se organizaram e provaram que, mais de dois séculos mais tarde, um governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra.
Essa é a nossa vitória.
E eu sei que vocês não fizeram isso só para ganhar uma eleição. E eu sei que vocês não fizeram tudo isso por mim.
Vocês fizeram isso porque entendem a grandiosidade da tarefa que temos pela frente. Podemos comemorar nesta noite, mas entendemos que os desafios que virão amanhã serão os maiores de nossos tempos --duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira do século.
Enquanto estamos aqui nesta noite, nós sabemos que há corajosos americanos acordando nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para arriscar suas vidas por nós. Há mães e pais que ficam acordados depois de os filhos terem dormido se perguntando como irão pagar suas hipotecas ou o médico ou poupar o suficiente para pagar a universidade de seus filhos. Há novas energias para explorar, novos empregos para criar, novas escolas para construir, ameaças para enfrentar e alianças para reparar.
O caminho será longo. Nossa subida será íngreme. Nós talvez não cheguemos lá em um ano ou mesmo em um mandato. Mas, América, nunca estive mais esperançoso do que chegaremos lá. Eu prometo a vocês que nós, como pessoas, chegaremos lá.
Haverá atrasos e falsos inícios. Muitos não irão concordar com todas as decisões ou políticas que eu vou adotar como presidente. E nós sabemos que o governo não pode resolver todos os problemas. Mas eu sempre serei honesto com vocês sobre os desafios que enfrentar. Eu vou ouvir vocês, especialmente quando discordarmos. E, acima de tudo, eu vou pedir que vocês participem do trabalho de refazer esta nação, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos --bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada.
O que começamos 21 meses atrás no inverno não pode terminar nesta noite de outono. Esta vitória, isolada, não é a mudança que buscamos. Ela é a única chance para fazermos essa diferença. E isso não vai acontecer se voltarmos ao modo como as coisas eram. Isso não pode ocorrer com vocês, sem um novo espírito de serviço, um novo espírito de sacrifício.
Então exijamos um novo espírito de patriotismo, de responsabilidade, com o qual cada um de nós irá levantar e trabalhar ainda mais e cuidar não apenas de nós mesmos mas também uns dos outros. Lembremos que, se essa crise financeira nos ensinou uma coisa, foi que não podemos ter uma próspera Wall Street enquanto a Main Street sofre.
Nesse país, nós ascendemos ou caímos como uma nação, como um povo. Resistamos à tentação de voltar ao bipartidarismo, à mesquinhez e à imaturidade que envenenou nossa política por tanto tempo.
Lembremos que foi um homem deste Estado que primeiro carregou a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre valores de autoconfiança, liberdade individual e unidade nacional.
Esses são valores que todos compartilhamos. E enquanto o Partido Democrata obteve uma grande vitória nesta noite, isso ocorre com uma medida de humildade e de determinação para curar as fissuras que têm impedido nosso progresso.
Como [o ex-presidente Abraham] Lincoln [1861-1865] afirmou para uma nação muito mais dividida que a nossa, nós não somos inimigos, e sim amigos. A paixão pode ter se acirrado, mas não pode quebrar nossos laços de afeição. E àqueles americanos cujo apoio eu ainda terei que merecer, eu talvez não tenha ganho seu voto hoje, mas eu ouço suas vozes. E eu preciso de sua ajuda. Eu serei seu presidente também.
E a todos aqueles que nos assistem nesta noite, além das nossas fronteiras, de Parlamentos e palácios, àqueles que se reúnem ao redor de rádios, nas esquinas esquecidas do mundo, as nossas histórias são únicas, mas o nosso destino é partilhado, e uma nova aurora na liderança americana irá surgir.
Àqueles que destruiriam o nosso mundo: nós os derrotaremos. Àqueles que buscam paz e segurança: nós os apoiamos. E a todos que questionaram se o farol da América ainda ilumina tanto quanto antes: nesta noite nós provamos uma vez mais que a verdadeira força da nossa nação vem não da bravura das nossas armas ou o tamanho da nossa riqueza mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança.
Esse é o verdadeiro talento da América: a América pode mudar. Nossa união pode ser melhorada. O que já alcançamos nos dá esperança em relação ao que podemos e ao que devemos alcançar amanhã.
Essa eleição teve muitos "primeiros" e muitas histórias que serão contadas por gerações. Mas há uma que está em minha mente nesta noite, sobre uma mulher que votou em Atlanta. Ela seria como muitos dos outros milhões que ficaram em fila para ter a voz ouvida nessa eleição não fosse por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.
Ela nasceu apenas uma geração após a escravidão; uma época na qual não havia carros nas vias nem aviões nos céus; quando uma pessoa como ela não podia votar por dois motivos --porque era mulher ou por causa da cor da sua pele. Nesta noite penso em tudo que ela viu neste seu século na América --as dores e as esperanças, o esforço e o progresso, a época em que diziam que não podíamos, e as pessoas que continuaram com o credo: Sim, nós podemos.
Em um tempo no qual vozes de mulheres eram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela viveu para vê-las se levantar e ir às urnas. Sim, nós podemos.
Quando havia desespero nas tigelas empoeiradas e a depressão em toda parte, ela viu uma nação conquistar seu New Deal, novos empregos, um novo senso de comunidade. Sim, nós podemos.
Quando bombas caíam em nossos portos e a tirania ameaçava o mundo, ela estava lá para testemunhar uma geração chegar à grandeza, e a democracia foi salva. Sim, nós podemos.
Ela estava lá para ver os ônibus em Montgomery, as mangueiras em Birmingham, a ponte em Selma e um pregador de Atlanta que disse "Nós Devemos Superar". Sim, nós podemos.
Um homem chegou à Lua, um muro caiu em Berlim, um mundo foi conectado por nossa ciência e imaginação. Neste ano, nesta eleição, ela tocou o dedo em uma tela e registrou o seu voto porque, após 106 anos na América, através dos melhores e dos mais escuros dos tempos, ela sabe que a América pode mudar. Sim, nós podemos.
América, nós chegamos tão longe. Nós vimos tanto. Mas há tantas coisas mais para serem feitas. Então, nesta noite, devemos nos perguntar: se nossas crianças viverem até o próximo século, se minhas filhas tiverem sorte suficiente para viver tanto quanto Ann Nixon Cooper, quais mudanças elas irão ver? Quanto progresso teremos feito?
É nossa chance de responder a esse chamado. É o nosso momento.
Esse é nosso momento de devolver as pessoas ao trabalho e abrir portas de oportunidade para nossas crianças; de restaurar a prosperidade e promover a paz; de retomar o sonho americano e reafirmar a verdade fundamental de que, entre tantos, nós somos um; que, enquanto respirarmos, nós temos esperança. E onde estamos vai de encontro ao cinismo, às dúvidas e àqueles que dizem que não podemos. Nós responderemos com o brado atemporal que resume o espírito de um povo: Sim, nós podemos.
Obrigado. Deus os abençoe. E Deus abençoe os Estados Unidos da América.
Tradução de GABRIELA MANZINI

Sunday, November 02, 2008

filosofia na alcova

Scarlett Johansson e Penelope Cruz, em cena do filme Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, que entra em cartaz este mês em SP


"O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem.Se nos não damos conta disso, é porque o erotismo busca incessantemente fora dele um objeto de desejo. Esse objeto, contudo, corresponde à interioridade do desejo.
A escolha de um objeto depende sempre dos gostos pessoais de cada qual. Mesmo quando recai sobre uma mulher que teria sido escolhida pela maior parte dos homens, o que intervém não é uma qualidade objetiva dessa mulher, mas frequentemente, um aspecto inalcançável da sua personalidade. Se ela não atingisse o nosso ser íntimo, provavelmente nada haveria a forçar-nos a preferência. Ou seja, mesmo quando igual à da maior parte, a escolha do homem difere ainda da do animal, pois apela para uma mobilidade interior, infinitamente complexa, que é específica do homem. (...) O erotismo do homem difere da sexualidade animal exatamente porque envolve e implica a vida interior. O erotismo é, na consciência do homem, o que o leva a pôr o seu ser em questão. A sexualidade animal também produz um desequilíbrio, esse desequilíbrio também lhe ameaça a vida; mas o animal não o percebe. Nada nele se abre, que se assemelhe a um pôr em questão."


Georges Bataille
O Erotismo

Monday, October 20, 2008

pesadelo e espetáculo


"Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação."
GUY DEBORD
A Sociedade do Espetáculo (1967)
O pesadelo acontecido em Santo André na última semana, consumado na morte da jovem Eloá nas mãos de seu ex-namorado, depois de mais de cem horas de cativeiro transmitido como big brother em cadeia nacional, é retrato fiel da "sociedade do espetáculo" descrita por Guy Debord há mais de quarenta anos. Sociedade do espetáculo à brasileira, portanto imitação real, em versão de filme de terror, para lixos culturais como um programa Márcia ou Ratinho da vida (ou da morte..).
Muito haveria a ser dito sobre a incompetência da polícia, sobre a que ponto de miséria moral um ser humano (?) pode decair etc. Sobre a farsa de um suposto "amor" que, na verdade, acoberta a alma de bagaço de quem ousa se considerar dono do outro, de quem vê no outro uma parte narcísica de si, um jeito de fugir da própria fraqueza.
Mas particularmente me chocou -por mais difícil que seja a gente ainda se chocar com alguma coisa- o tratamento de pop star conferido ao marginal. Ele chegou a gritar, em algum momento, que era o "príncipe do gueto". Teve direito a entrevistas exclusivas, para três emissoras de televisão. Mandou e desmandou naqueles policiais atônitos, mais preocupados em zelar pela imagem do governador presidenciável do que em preservar vidas inocentes.
Pelo menos o vagabundo sobreviveu. Queria, pelo que se diz, ter se suicidado. Tenho minhas dúvidas, tamanha a covardia de sujeitos desse naipe. De todo modo, está aí, vivinho da silva, com tempo de sobra para, enjaulado, pensar (?) no que fez, até quem sabe para se arrepender. Sobretudo, pra cair no pior dos castigos da sociedade do espetáculo: o anonimato. Voltar à condição de zé-ninguém, apenas um assassino a mais, já usado e descartado pela indústria midiática da violência. Bagaço podre.
Só espero, contudo, que esse show de horrores não tenha um próximo capítulo, já tão conhecido de nós brasileiros: a impunidade típica desse país de pimentas neves, pimentas que ardem sem refresco no olho dessa cambada de carneiros perplexos ou semi-homens bestializados que ou dão audiência ou fazem a festa deste circo tétrico.

Saturday, October 11, 2008

auto-desajuda

-Mestre, viajei milhas e milhas no deserto, com uma garrafinha de água e um pedaço de pão, mas a pior fome e sede eram outras: de vossa sabedoria! És conhecido em meu povoado como um grande sábio. Embora pouco queiras aparecer, todos falam de ti, versões as mais contraditórias correm sobre teus ditos e feitos. Por favor, me ...
-Não.
-Por favor,apenas...
-Não.
-Mestre, é tudo o que mais quero, daria minha vida, todos os meus bens, comeria esterco de cavalo... mas preciso de ti!
-O que queres?
-Apenas isso: saber qual é o caminho da sabedoria.
-Quem disse que há a saber um caminho para a sabedoria?
-Não há caminho??!!
-Sim, há.
-E qual é?
-Posso dizer o meu: comer quando tenho fome, dormir quando estou cansado, trepar quando quero trepar.
--Mas... mas... desculpe venerável mestre, mas todos dizem fazer isso; então elas seguem o mesmo caminho que tu?
-Não é o mesmo caminho. Adeus!
-Espereee! Por que não?????!
-Quando comem, não comem, imaginam coisas. Quando dormem, não dormem, dão livre curso a mil pensamentos ociosos. Quando trepam, não trepam, não estão lá, não há relação sexual.
-Mestre, li isso num livro... quem foi que disse? segundo quem mesmo??
-Boa viagem de volta... de volta a ti mesmo, meu jovem.

Wednesday, October 08, 2008

des-cio sombrio do vazio




vazio agudo

ando meio

cheio de tudo


PAULO LEMINSKI
*******
des-cio
sombrio
do vazio
psiu!
-Unzuhause-


Minha carta de hoje no Tarô Zen, de Osho: simplicidade..

Friday, October 03, 2008

melô do inconsciente


Mosca na sopa
Raul Seixas
Composição: Raul Seixas
Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...(3x)
Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Eu sou a mosca
No seu quarto a zumbizar...(2x)
E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar...
Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...(2x)
-"Atenção, eu sou a mosca
A grande mosca
A mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto
A zum-zum-zumbizar
Observando e abusando
Olha do outro lado agora
Eu tô sempre junto de você
Água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura
Quem, quem é?
A mosca, meu irmão!
"Eu sou a mosca
Que posou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...(2x)
E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar...
Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...(2x)
Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Eu sou a mosca
No seu quarto a zumbizar...(2x)
Mas eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...

Tuesday, September 30, 2008

obscura claricexistência

Clarice Lispector
"Ontem no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra- como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?"
CLARICE LISPECTOR
A paixão segundo G.H.
********
.......enclaves do semântico na desordem do somático, diá-logos de diá-bolos, os farrapos e cacos, arco teso de atos que não há. Furos alvos. Lentes de fumaça, cores e rabiscos esparsos. Exaustão. Gaiolas invisíveis, canto do estar exilado em lugar nenhum. Quinquilharias de explicação, palavras de mormaço, mordaça, mordida, serpente gorda de um paraíso tedioso.
-Unzuhause-

Thursday, September 25, 2008

não sou petista, mas vou de Marta

A candidata à prefeitura de São Paulo pelo PT, Marta Suplicy

Desde meu tempo de graduação em Ciências Sociais na USP, eu era nota destoante, entre meus colegas, devido à nítida simpatia por figuras como Mário Covas, Montoro, Fernando Henrique Cardoso. Sim, ligação a figuras, a individualidades atraentes sob um prisma intelectual e / ou administrativo. Embora tivesse também interesse no ideário social-democrata, tal como concebido na Europa e trazido ao Brasil, em termos de plataforma, pelo PSDB.
Eu reconhecia, em silêncio e a contragosto, que na prática o partido foi cada vez mais desfigurando esse ideário, construindo ou "tirando do armário" sua vocação elitista e conservadora, do agrado de velhas e novas direitas - daí a aliança que se firmou com o PFL, em franca agressão à tendência (que seria bem mais saudável e compreensível) de aproximação ao PT ou, no mínimo, de um melhor diálogo com as forças progressistas da sociedade civil e da política. Por sinal, a atual briga de foice entre tucanos e demos (!), shakespeariana rixa de irmãos em torno do trono e da grana, só escancara a pequenez de horizontes dessa "família" desde a sua origem.
Já o PT, em seus primeiros tempos de governo federal, radicalizou traços que me causam total irritação - uma certa postura de "sindicalista novo-rico" que quer esfregar na cara dos outros sua superioridade. "Vejam, eu vim de baixo e olhem onde estou agora, seus babacas". Show de arrogância, de esperteza, de desprezo pelo recato político.
O primeiro governo de Lula teve, ao meu ver, essa marca. Exemplos disso? O mensalão e os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e da Casa Civil, José Dirceu. Mas sobretudo a conduta do próprio presidente, que "de nada soube" sobre o que se passava perto dele, e que, sempre que apertado, culpava a "herança maldita" de seu predecessor, Fernando Henrique, a quem, aliás, deu continuidade em muitas coisas boas.
Tais excessos, erros mais de forma que de conteúdo, mais de postura que de prática efetiva, têm sido atenuados após a reeleição de Lula, talvez pelo susto da "derrota" que foi ter havido um segundo turno com Geraldo Alckmin na última eleição presidencial, quando todos esperavam vitória esmagadora do candidato petista.
Por outro lado, em São Paulo o governo de Erundina, primeiro, e de Marta primaram pelo que o PT tem de mais bacana: o compromisso com a inclusão social e com a participação popular e o apoio maciço à educação e cultura. Não é pra qualquer um ter entre seus secretários de governo gente como Paulo Freire e Marilena Chaui.
Pesando tudo isso, e sem prejuízo de minha antigas simpatias tucanas-sobretudo de natureza individual, insisto -, merecidas também por Alckmin, eu quero declarar minha convição de que o melhor pra cidade de São Paulo, nessa eleição, é a vitória de MARTA SUPLICY! Meu voto é dela.

Monday, September 22, 2008

o mestre bad boy

O jovem Friedrich Nietzsche

"Assim sou eu, assim mesmo eu quero ser: − e ide ao diabo vós todos!"
Nietzsche
A Vontade de Poder, parágrafo 349
***
O dia de hoje marca o desfecho, para mim, de um difícil e forte período de absorção na vida e obra de Friedrich Nietzsche -acabo de traduzir um dos primeiros e mais significativos livros em língua inglesa escritos sobre ele, no início do século XX -autoria de H.L. Mencken, jornalista e ensaísta que marcou época pelo talento da escrita e verve crítica do olhar.
Quis registrar no reino Unzuhause esse abençoado instante de meu ego profano com a citação acima, colhida num dos livros mais importantes de Nietzsche.
Nesse pensamento, o filósofo condensa o que considero talvez a essência de uma experiência psicanalítica autêntica. Tornar-se o que se é, descobrir os eus que eu quero, não os eus que eu devo. Aliás, mostra Nietzsche na Genealogia da Moral que a noção de dever enquanto culpa provém da noção (econômica) de dever enquanto dívida.
Os eus que eu quero: nem sempre os eus de que gosto, mas certamente os eus que fruo, os eus pelos quais aceito o que der e vier, o dito e o inaudito, o viver, morrer, gozar, negar, afirmar, sangrar, sagrar. Amor fati!
Condenados à liberdade. Responsáveis pela delícia e fardo de sermos o que somos. Nome próprio. Rostidade do nosso rosto, face que tínhamos antes de nascer.
Caminho para poucos, e que certamente desagradará a muitos. Somos incômodos para o rebanho. Damos água na boca (a baba mole e venenosa) dos ressentidos e imbecis. Só tenhamos cuidado para não sermos pisoteados pelas patas dos falsos. Que se lixem.
Não esperes no caminho de ti próprio a bajulação dos covardes e oportunistas. Não esperes, fora do círculo dos teus amados, muita festa e muita cerveja (de que aliás Nietzsche, o dionisíaco, curiosamente não gostava ). Não esperes, nada esperes - a esperança é um afeto irmão siamês do medo, ensina Espinosa.
A frase de Nietzsche também encanta pelo ar adolescente que sopra sobre os seus leitores, melhor dizendo, seus cúmplices. Adolescente no melhor sentido da revolta, do inconformismo, da necessária porta fechada com força quando nossos pais, escola, sociedade, Estado se excederem no direito (?) de encher nosso saco com suas cobranças e "impostos" (imposições).
Falando nisso.......Affffffffffeeeeeee, tantos cursos picaretas de psicanálise, caça-níqueis, com professores burros, medíocres e gatunos.........anos de "formação" que não valem a beleza e potência de uma linha de Nietzsche, ou melhor dizendo, de um verso de Nietzsche, mestre dos mestres Freud, Lacan, Jung, primeiro "psicanalista" em espírito, ainda que não em termos de uma prática clínica mediada pela transferência.

Tuesday, September 16, 2008

oscar de factóide cultural 2008


Por enquanto o maior candidato à nobre estatueta de principal bobagem "cult" do ano é o filme Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, que assisti neste domingo . Frio, insosso, chato; um desperdício do talento de um bom diretor, de grandes atores, de um forte argumento -o livro de José Saramago-, e da potência da palavra originária de um Nobel de literatura, infelizmente orgulho tão escasso para nós falantes desta pobre e linda última flor do Lácio. Tendo diretor brasileiro, baseado em magistral romance português, com cenas rodadas em São Paulo, é vertido para a língua ianque, em clara jogada comercial. E vejam, estou longe de alguma ranzinzice patrioteira, de qualquer espírito policarpo-quaresmento. Apenas vejo nisto um sinal, não dos menores, do artificialismo da coisa toda.

Tuesday, September 09, 2008

veneno antimelancolia



"RASKÓLNIKOV não estava habituado a multidões e, como já foi dito, vinha evitando qualquer tipo de companhia nos últimos tempos. Agora, porém, alguma coisa o impelira de repente para o convívio humano. Alguma coisa de aparentemente novo se passava dentro dele, e ao mesmo tempo experimentava certa sede de gente. Estava tão cansado de todo aquele mês de melancolia consumidora e excitação obscura que queria passar ao menos um minuto respirando em outro mundo, fosse lá qual fosse, e era com satisfação que ia ficando na taberna, apesar de toda a sujeira."
Dostoiévski - Crime e Castigo. Primeira Parte, cap. II

Thursday, September 04, 2008

espelho, espelho... meu?

Pablo Picasso- Mulher ao espelho

Manhã de cansaço, ontem trabalho penoso. Encontro tempo para afinal ler um livrinho, Lacan e o Espelho Sofiânico de Boehme, que muito me chamava a atenção há tempos: que relação via ele entre o "estádio do espelho" de Lacan e as especulações místicas de Jacob Boehme sobre a criação do mundo a partir do auto-espelhamento de Deus em suas criaturas?
Como sempre em meus momentos afadigados, a pesquisa esotérica é refúgio, alívio, anseio por aquela forma de conversão existencial que os antigos chamavam de despertar búdico e Jung, de metanóia (meta=além, nous=intelecto).
Mas e as coisas? Elas insistem.. trazem consigo um "resto" material sutil e escabroso, que reaparece aqui, acolá, em todo lugar. Que sobre-cansativo, por assim dizer, é ver estilhaçados os espelhos harmônicos do ego ideal........Pois ao cansaço no mundo se soma o cansaço em relação ao mundo.
Porém os alquimistas bem sabiam das coisas, ou pensavam saber: chamavam purificatio de mundificatio. Mundus enquanto oposto ao imundus....... a autêntica purificação não é lavagem a modo das lavagens cerebrais, essas sim te apresentam um i-mundo coeso de certezas falsas. Purificação é mundificação, molhar as mãos, cabeça, corpo todo na cristalina lama /ama/alma do mundo.
Já o mundo.........espelho em que a parte é o todo e o todo, profusão alucinante de partes que se conciliam -ou não, se Deus estiver em seus dias de Picasso rs.

Saturday, August 30, 2008

I have a dream

Barack Obama

Martin Luther King

Another head hangs lowly,
Child is slowly taken.
And the violence caused such silence,
Who are we mistaken?
But you see, it's not me, it's not my family.
In your head, in your head they are fighting,
With their tanks and their bombs,
And their bombs and their guns.
In your head, in your head, they are crying...
In your head, in your head,
Zombie, zombie, zombie,
Hey, hey, hey.
What's in your head,
In your head,
Zombie, zombie, zombie?
Hey, hey, hey, oh,
Another mother's breakin'
Heart is taking over.
When the vi'lence causes silence,
We must be mistaken.
It's the same old theme since 1916.
In your head, in your head they're still fighting,
With their tanks and their bombs,
And their bombs and their guns.
In your head, in your head, they are dying...
In your head, in your head,
Zombie, zombie, zombie,
Hey, hey, hey.
What's in your head,
In your head,
Zombie, zombie, zombie?
Hey, hey, hey, hey, oh, oh, oh,
Oh, oh, oh, oh, hey, oh, ya, ya-a...
The Cranberries - "Zombie"
*********
Já não tenho idade para papais noéis, coelhinhos da páscoa e outras crenças do gênero, como por exemplo a de que, um dia, os países tenham o que os homens nunca terão: humildade, generosidade, fraternidade. Os Estados Unidos dificilmente deixarão de praticar políticas obtusas e arrogantes, seja eleito quem for, a qualquer tempo.
Porém não me esqueço do feitiço dos símbolos. A existência que se adensa em afetos e potência se converte em mito.
E Barack Obama, na presente eleição presidencial americana, é um símbolo enfeitiçador. Cativa quem como eu está de saco cheio dos anos Bush, este nefasto inimigo da paz mundial, da melhor justiça social e do equilíbrio ecológico.
E, como primeiro negro com chances reais de conquistar o posto político mais importante do planeta, Obama vem não só encantar, mas também fazer lembrar. E que símbolo não toca nas grandes recordações, não aflora e evoca inconscientes fechados pela tarja do esquecimento?
Mas lembrar o quê? Com seu carisma, suas bandeiras ao melhor estilo da tradição do Partido Democrata e seu jeito de sacerdote progressista, teólogo da libertação em versão black power, Obama rememora o sonho do pastor Martin Luther King, o grande sonho de que os homens não sejam discriminados ou julgados pela cor de pele. Sonho da igualdade entre os homens, amortecido com o fim do socialismo real, mas latente em utopias ancestrais que povoam e tornam menos insuportável a história universal.
Sendo o presidente dos EUA mais importante para todos nós do que qualquer outro governante "nacional" -aliás, onde mesmo acabam as fronteiras nacionais, neste mundo global?-, me sinto, eu Unzuhause, do meu reino do sem-lugar, autorizado a dizer para os corações de todos, e os corações são sempre votantes, porque desejantes:
Em 4 de novembro VOTE OBAMA!!!!!!!!!!!!

Thursday, August 28, 2008

clarão de desconhecido

Marc Chagall, A Queda de Ícaro

Da minha idéa do mundo
Cahi...
Vacuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Alli...

Vacuo sem si-proprio, chaos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Visão que se não pode ver...

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...
Fernando Pessoa, "A Queda"

Thursday, August 21, 2008

crítica da razão bêbada


Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo…
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto!…
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!…

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
Augusto dos Anjos,
"Agonia de um Filósofo"
**********
Era uma vez um bêbado que, diante da porta de casa, tarde da noite, voltando da rua, percebe que perdeu suas chaves. Aflito, ele volta para a calçada e se lança à procura com sofreguidão. Rua deserta, quase às escuras, as horas passam e nada. Alguém que passa no local percebe a sua confusão e pergunta o que está havendo. "Perdi minhas chaves", declara o bêbado, entre suores de cansaço e de angústia, antes de voltar a seus movimentos repetitivos, andando em círculo, em torno da mesma estreita faixa da calçada iluminada pelos reflexos do outdoor. "Mas por que procuras só nesse lugar?", indaga o outro. "Ora, tenho certeza de que deve estar aqui".
O "filósofo" de que fala Augusto dos Anjos no poema padece da mesma agonia bêbada: a busca frenética e compulsiva das "chaves" onde a luz do hábito determinar. No caso desse filósofo, o Rig-Veda (antiqüíssimo poema sagrado indiano) e o Phtap-Hotep (escritura egípcia também muito antiga, com ditos de sabedoria moral).
Na nossa existência cotidiana, muitas vezes procedemos assim, nos agarrando à suposição de que só é real o que a estreiteza de nossas "soluções" sacramentais permite que enxerguemos.
Enquanto isso, o Inconsciente assombra, deixando a nós, bêbados e sonâmbulos, ao relento, na rua da amargura e da errância fora de casa, exilados de nós mesmos.

Friday, August 15, 2008

solidão do super-homem


Loucura
Lou-cura
Lou diva

Salomés
Ruínas
do Batista
e do AnticristoPrecipício
PressupostoO suplício
Dionísio

Poeta
Verdade que afeta
Cárcere privado
De chagas per-furado
Sob o manto do profeta
Porta trancada
Teto que desce
A-perto que aquece

Dor que não esquece,
Inferno, as feras
Desarmonia das esferas

A brumaSem rumo
Nem eira
Poeira
À beira
do abismo

ab-surdo
ab-sinto

Sinto?
Santo?

Manto?
Minto?

-Unzuhause-
"Entra ano, sai ano, a falta de um amor humano verdadeiramente renovador e salutar, a solidão absurda que ela traz consigo a ponto de tornar quase todo vínculo remanescente com as pessoas uma causa de novas feridas: tudo isso é a pior coisa possível, e tem sua única justificativa em si mesmo, a justificativa de ser necessário"

NIETZSCHE
carta de 03 de fevereiro de 1888, meses antes do mergulho do filósofo na longa noite final na loucura








NIETZSCHE
(Stefan George)
Escuras nuvens avançam sobre a montanha
Gélidas tempestades fustigam –ainda meio outono
Meio primavera... Eis a muralha
Que encarcerou o Trovejador –era o único
Entre os milhares de pó e névoa ao seu redor?
Ali lançou seus últimos relâmpagos rebotos
Sobre planícies e cidades extintas
Transpondo a longa noite para a noite eterna.
Crassa trota abaixo a massa – não a espantem!
Seria ferir medusa – ceifar erva!
Em instantes impera o silêncio celestial
O animal que o polui com elogios
E se ceva em fumos de mofo sufocando-o
Está prestes ao fim!
E então radiante reinarás através dos tempos
Com a coroa ensangüentada como outros guias.
Tu redentor! De todos o mais infeliz –
Marcado pelo destino atroz
Nunca viste a sede da saudade sorrir?
Criaste deuses para logo despedaçá-los
Nunca uma obra tua te deu alegria ou alívio?
Aniquilaste em ti próprio o próximo
E ao sentires sua falta na absoluta solidão
Soltaste um grito de dor e desespero.
Tarde demais chegou o suplicante para revelar-te:
Não existem caminhos sobre cimos nevados
E pássaros apavorados ouviste –na miséria:
Exilado no círculo onde o amor inexiste..
E quando a implacável e atormentada voz
Soa como canto de louvor em soturnas noites
De luar – assim lamenta-se: devia ter cantado
Essa nova alma e a palavra evitado!