Tuesday, January 22, 2008

guerra dentro da gente


Dica de leitura:

Leminski, Paulo, GUERRA DENTRO DA GENTE . S. Paulo: Scipione, 1997 [texto de 1987]

Sob a aparência de uma fábula infanto-juvenil, o grande poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989) nos conta a história -bela e sugestiva para todas as idades- de Baita, um pobre filho de lenhadores, desde sua infância tímida e mal-tratada (sofria com um pai truculento e uma mãe frágil) até a velhice como grande chefe militar de um reino.
A primeira das guinadas radicais da vida de Baita se dá numa ponte entre a aldeia em que ele morava com a família e a floresta -ou seja, na fronteira, no ponto de transição entre o habitual e o estranho, o familiar e o desconhecido, o consciente e inconsciente.

Ali o garoto conheceu um misterioso ancião, de nome Kutala, que lhe propõe aprender a "arte da guerra". Vale dizer, a arte da vida: "A guerra faz parte da vida. Se você quiser aprender mesmo a arte da guerra, você tem de conhecer a vida. E a vida só se aprende vivendo".
Serão, de fato, duríssimas vivências para Baita, como se tornar escravo, alimentar animais de circo, noites inóspitas, comida escassa.
Segundo Buda, a sabedoria é a canoa que serve para nos transportar pelo rio da existência e ser deixada para trás ao se chegar à outra margem. Assim também, na lenda de Leminski, o aprendizado da arte da guerra culminará numa instigante reviravolta, afirmadora do amor e da paz como valores supremos. Mas isso sem prescindir dos benefícios da experiência do guerreiro: força, fibra, dureza, virilidade, atenção. "A guerra é o pai e o rei de todas as coisas" (Heráclito). A agressividade é inerente e preciosa demais à vida humana, à luta pela preservação e expansão vital, para que seja relegada a manifestações vulgares, como o ódio e a violência. Se bem canalizada, é potência de vida, não de morte.
Em tempos de violência desenfreada e de "soluções" frouxas, como a estéril discussão da idade mínima da maioridade penal, esta é uma leitura que vale a pena. Mais que um simples entretenimento, é um convite ao discernimento quanto ao significado do bom combate a ser combatido: o da evolução interior e coletiva do ser humano .

2 comments:

Fada Laís said...

Guerra dentro da gente.. essa é a mais difícil.. rs
bjux

Santina Rodrigues said...

Oi Caio,

humm, tantas coisas me vêem à boca para serem ditas sobre teu blog... a começar pelo nome dele... como será que se pronuncia, hein? Fiquei curiosa pela sonoridade da palavra... e como já disse o poeta, as palavras não são tolas! Alguma feliz coincidência com a premissa básica do inconsciente para Lacan?
Bem, adorei os textos, as imagens! Particularmente a cena do filme "O sétimo selo" me é muito cara! Sempre fico muito impressionada com esse filme. Bergman realmente é de uma profundidade assustadora... talvez tanto quanto a angústia... tem emoção/sensação, seja lá como se possa chamar esse estado de alma -, mais próximo do que acabamos por chamar de "alteridade" do que este? Sei não...
Bem, peço desculpas mais uma vez por ter desmarcado nosso café. Estou ansiosa para te encontrar, ler teu livro e conversar mais longamente.
Um beijo,
Santina