Cena de O Sétimo Selo, de Ingmar BergmanA angústia é o afeto que não mente, bem disse Jacques Lacan.
A angústia é um apelo por um atravessamento e saída do campo do Instituído, frase quebrada que involuntariamente põe travessão entre nós e a alienação sob as narrativas que nos narram, que nos dão nome, endereço, documento, emprego e time de futebol.
O Instituído é a cotidianidade opaca, máscaras de cimento feitas pra nos esconder a estrangeira rostidade de nosso rosto próprio. A angústia é a luz sombria em que essa rostidade emerge.
É a descida para o "isto" que nos constitui. É o Hermes mensageiro da notícia inaudita, esquisita, única, de nossa autenticidade, de nossa condição crucificada entre a liberdade e a finitude, mas sem ressurreição à vista. Jogo de xadrez bergmaniano com o Nada.
Nesse cenário, não há possibilidade de, parafraseando Maimônides, algum"guia dos perplexos". Pelo menos não para mim. Perplexidade sem guia.
Nenhuma resposta.
E quanto mais as saídas rareiam, mais forte retorna, de quando em quando, a tentação de uma saída, e mais dolorosa, para as mãos que batem por socorro, é a porta trancada. É quando percebo que sou eu próprio o cadeado, a porta, a escada, o ar puro.
Não um eu fantasmagórico, etéreo, tocado em harpas celestiais.
O eu, os eus, o d-eus que é carne da minha carne, sangue do meu sangue, meu tormento, minhas tormentas, meu Sol, minha Noite, minha paixão.
O corpo é uma sombra da Alma? E se for o contrário?
"Há mais razão em teu corpo do que na tua melhor sabedoria".. Ah, Zaratustra, ah Zaratustra! Como seria mais "fácil" a vida se não tivesse te dado ouvidos. Mas, como dizem, o discípulo está pronto e então é que surge o mestre..
Basta de felicidades "calça 56", inchadas do mais estúpido vazio.
Basta desse festim de perucas existenciais com que se camufla a calvície das crenças desgastadas, dos escapismos manjados.
Ou, na bela formulação de uma pessoa que me é muito cara:
"Muletas 'ideáticas abstrativas' e muletas metafísicas são feitas de materiais muito frágeis e nem sempre suportam o peso da realidade..."
3 comments:
Alô Unzuhause,
Quanta intensidade hein!
Belo post. Parabéns!
Abraços apressados...
belissimo....post acrescento com
Remoer as mesquinharias, as mediocridades e as insignificâncias humanas é alimentar-se de cadáveres de conceitos sem fundamentos; e desprovidos de lógica plausível!
bjooo
Ah! A Angústia... A Falta da falta, já nos alertara Lacan.
Quando a falta falta ascende a angústia...
Então, devemos não deixar a falta faltar? ;-)
Beijoooooooooos
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