terça-feira, fevereiro 26, 2008

"tua velha criança"

Tenho tido, nos últimos meses, o privilégio de um convívio mais estreito com a vida e a obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900). Isso devido a um trabalho de tradução de que estou encarregado.
Entre as maiores recompensas pessoais que extraio deste processo, destaco a leitura, que ontem encerrei, do livro Despojos de uma Tragédia, coletânea de cartas escritas por Nietzsche entre setembro de 1863 e dezembro de 1888 –portanto, até poucos dias antes do colapso mental que, decorrente de sífilis, mergulhou o filósofo nas trevas da loucura, de janeiro de 1889 até a morte.
Não deixa de ressoar com triste ironia, aliás, o desfecho da última carta do livro:
"Adeus, minha boa mãe. Recebe, no final do ano [de 1888], os meus mais cordiais votos, e deseja-me tu um ano que corresponda em tudo às grandes coisas que há-de suceder.
TUA VELHA CRIANÇA"


Tua velha criança... São palavras reveladoras. Os junguianos veriam aqui sintoma de um complexo do puer aeternus (jovem eterno, em latim): a inadaptação psíquica do sujeito ao mundo dos adultos. Inadaptação não quer dizer, ao contrário do que as psicologias reacionárias desejam, que o "certo" seria o ajustamento automático, inquestionado, da pessoa "desviante" às convenções sociais vigentes. Esse tipo de conformismo, tão freqüente, é para Nietzsche coisa para gado humano, não para o Übermensch (Além-Homem), para quem suporta o ser excessivo e o ser exceção, para o indivíduo autêntico, criatura, cria-dor de si.

Os deuses se transformaram em doenças, disse sabiamente Jung: vivências que outrora podiam significar contato com o divino, transe místico, ampliação da personalidade, foram condenadas à marginalidade e à patologia pela Razão prisional e manicomial do capitalismo tecnocientífico. Tais fatores históricos provavelmente tiveram seu papel para o destino trágico deste genial adepto de Dionísio, o deus da embriaguez, do êxtase , do prazer - hoje em dia meros itens de consumo banalizados e massificados, isto é, tão reprimidos quanto o eram nos tempos do criador de Assim Falou Zaratustra, poema filosófico depois musicado por Richard Strauss .
Começo agora a leitura de um livro sobre o último ano de vida lúcida do filósofo: Nietzsche em Turim, da ensaísta Lesley Chamberlain. E , sobretudo, me aventuro a encarar o Doutor Fausto, de Thomas Mann.
Um dos maiores romances do século XX, retoma o pacto lendário entre Fausto e Mefistófeles, fazendo referências críticas à rendição da Alemanha, baluarte da sofisticação civilizatória, à barbárie nazista -o livro é de 1947, escrito em plena Segunda Guerra Mundial.
Mas meu interesse pelo livro, nesse momento, se deve mais ao fato de Mann ali retomar, para a construção do personagem principal -o compositor Adrian Leverkühn-, elementos da biografia de Nietzsche, como a fatídica ida do filósofo a um bordel, onde, em relação sexual com uma prostituta, ele teria sido infectado pela doença que viria a lhe roubar a sanidade mental anos depois.
"Não existem filosofias, somente filósofos", disse Nietzsche certa vez. Para ele, toda obra é uma confissão mais ou menos inconsciente da pessoa por detrás de tal ou qual idéia, argumentação.
Se é já fascinante por suas obras, a trajetória de Nietzsche impressiona ainda mais se consideramos também seu pano de fundo existencial. Ambos os aspectos, vida e pensamento, nele se confundem numa só e imensa aventura, comparável à dos grandes heróis trágicos da antiga Grécia -aliás tão adorada por ele , ao lado do Renascimento italiano, como períodos de uma grandeza e de uma altivez humanas raras na nossa dolorosa História de ilusões e opressões.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

fidel, fidelidade e esquecimento da política

Fidel Castro e Che Guevara

Este 19 de fevereiro entra para a história pela renúncia de Fidel Castro ao poder em Cuba , após 49 anos da revolução socialista que, junto com Che Guevara, ele comandou naquele país.
Quem assume por ora é seu irmão Raúl Castro, que na prática já vinha governando desde que, meses atrás, Fidel se afastou por problemas de saúde.
Pode ser que, como diz o teólogo Frei Betto –entusiasta de longa data do regime cubano-, não estejamos assistindo a uma espécie de efeito dominó retardado do fim da URSS. Cuba é o único país socialista do Ocidente e assim deverá persistir por um tempo maior ou menor.
Mas a política, como a vida, não se faz só de "realidades", mas também de símbolos. Melhor dizendo, a realidade humana é ela mesma essencialmente simbólica. E aqui está o significado possivelmente inquietante da renúncia de Fidel: trata-se do fim de uma mitologia que incendiou de sonhos e esperanças toda uma geração, como possibilidade de fim da sujeição da América Latina aos interesses dos EUA e à alienação capitalista.
Che Guevara há tempos virou garoto-propaganda da Bombril. E agora é Fidel quem melancolicamente se retira, combalido, deixando atrás de si um legado contraditório: grandes conquistas no campo da educação, saúde, saneamento básico, qualidade de vida em geral, e, por outro lado, graves restrições à liberdade e outros direitos civis e políticos típicos da democracia burguesa. Para Marx, o comunismo haveria de ser uma superação dialética das limitações da sociedade capitalista, não um retrocesso em relação às conquistas desta.
Não quero agora detalhar esse debate ou tomar esta ou aquela posição ideológica nele. O que me entristece é ver, no episódio da renúncia de Fidel, mais uma vez a História devorar resíduos de utopia que ainda restavam, deixando o campo das idéias e práticas sociais aberto exclusivamente ao trator devastador do neoliberalismo selvagem, da globalização prepotente e injusta.
Mais grave que isso, com o ocaso dos seus heróis, a História cai num marasmo perpétuo, numa anestesia política generalizada. Sim, pois assim como a memória pessoal se faz de fantasias (ficções), a memória coletiva também se costura não tanto de fatos, mas de arquétipos que dão sentido aos fatos e mantêm viva a chama do afeto e da fidelidade e da energia da transformação.
Sem Fidel, sem "fidel-idade" nenhuma ao sonho de uma sociedade mais generosa (lembremos que "generosidade" é o senso de pertencimento a um "gênero", no caso, o humano), sobra o cada um por si e o demônio por todos! A humanidade se esfacela em milhares de pequenas parcelas iradas de egotismo, materialismo vulgar e destrutividade.
Como afirma a filósofa da USP Marilena Chauí, dá-se hoje, em escala mundial, um processo de esquecimento da política, decorrente de vários fatores, entre eles:
1) encolhimento do espaço público e alargamento do espaço privado, sob a ação da economia e dos governos neoliberais
2) destruição da esfera da opinião pública e do debate público, por conta dos interesses da mídia, do marketing político, da sociedade de consumo e do espetáculo
É essa amnésia -terrível por chancelar a barbárie capitalista- que tende a se agravar com a perda do que o presidente Lula chamou hoje de o "último mito vivo" da história, Fidel Castro.

domingo, fevereiro 17, 2008

Filêmon e Báucis

Johann Carl Loth, Júpiter e Mercúrio hospedados por Filêmon e Báucis (1678)

Certo dia, Zeus (Júpiter), o rei do Olimpo, acompanhado de seu fiel e misterioso servo e mensageiro Hermes (Mercúrio), veio visitar o rude mundo dos homens. Mais especificamete, eles foram à Frigia, disfaçados como meros andarilhos.
Bateram de porta em porta, esperando ser acolhidos com uma das maiores virtudes da Grécia antiga, a hospitalidade. Não foi o que aconteceu: os frígios os trataram com indiferença, desprezo, hostilidade.
Quase já desistindo da empreitada, chegaram a uma pobre cabana, morada, há muito tempo, de um casal de velhinhos. Ele, Filêmon. Ela, Báucis.
Ao contrário dos demais, os dois anciãos foram muito atenciosos com os forasteiros, sem saber que se tratava de deuses. Ofereceram água, pão, bolachas e repouso, dizendo que podiam lá ficar quanto quisessem, se, é claro, não se incomodassem com a pobreza do lugar.
Zeus e Hermes então se transfiguraram diante dos olhos atônitos dos velhinhos. E revelaram a condição divina ocultada. E lhes deram, em retribuição, uma oferta: podiam fazer um pedido, qualquer que fosse.
Como se amavam e como sentiam que, mortais, o tempo deles na Terra estava acabando, Filêmon e Báucis pediram apenas isso: que ficassem juntos até o fim, e que morressem juntos, para assim nenhum deles ter o desgosto da morte do outro e da solidão.
Os deuses então os transformaram em duas árvores, que se erguiam, lado a lado, diante do templo em que –por obra dos deuses também- foi convertida a pobre cabana.

Já para os outros frígios, a furiosa recompensa divina foi um dilúvio destruidor, que só poupou aquele novo templo e aquelas duas árvores, sinais do amor eterno de Filêmon e Báucis.

sábado, fevereiro 09, 2008

tornar-se filósofo

"Tornar-se filósofo era praticar uma mudança profunda, pactuada, voluntária, em sua maneira de ver o mundo. Era uma conversão paciente e contínua, que engajava todo o indivíduo, uma maneira de viver que implicava um longo e constante exercício sobre si. Era um trabalho, tão afetivo quanto intelectual, para se despojar da angústia, das paixões, do ilusório e do insensato. A tarefa do filósofo era mudar de vida"Roger Pol-Droit

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

semeando ao Sol solitário

Vincent Van Gogh, O Semeador (1888)

Krishna ensina a Arjuna a ação desapegada, não dependente da fruição de seus próprios frutos.Assim é o escritor. O semeador que saiu a semear no silêncio solitário ao Sol. Agir como quem cumpre seu dharma, seu drama. Sacrifício de si. O Verbo se fez carne sem perder nada de sua divindade, que a carne se faça verbo assim também, em júbilo, doloroso êxtase. Do grande místico sapateiro: "Na linguagem sensual (die sensualische Sprache), todos os espíritos conversam entre si, não têm necessidade de nenhuma outra linguagem, pois é a linguagem da natureza". Barthes, séculos depois, revelando o que a palavra tem de mortuária, de antecipação do silêncio final: "Saber que não escrevemos para o outro, saber que essas coisas que vou escrever jamais me farão amado de quem amo, saber que a escrita não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente ali onde você não está –é o começo da escrita". Gratuidade do fazer (-se) sentido no que não tem sentido. Alegria do artista que subiu sete mil pés para deixar sua marca devota no cume da catedral, para ser vista por ninguém. O crime compensa, a escrita não. O big brother diz com a boca escancarada cheia de dentes: "nunca fui de ler livro, graças a deus". Sorte dele. Deus o livrou de boa. Terrível cicuta do pensamento. Pesada cruz da liberdade. Porco feliz ou Sócrates infeliz? Vain écrivain..

domingo, fevereiro 03, 2008

"folie" da transformação




"O ser humano é suficientemente dotado para preocupar-se consigo mesmo, uma vez que possui na alma o germe de sua transformação. Vale a pena observar pacientemente o que se processa em silêncio na alma. A maioria das transformações e as melhores ocorre quando não se é regido pelas leis vindas de cima e do exterior"
Carl Gustav JUNG, Psicologia e Alquimia
Desejo a todos um feliz Carnaval, efetivo Carnaval de aval à carne, como diria a cara Vampira Olímpia rsrs. Aos que se sentem, como eu, congenitamente "fora de casa" (Unzuhause) em ambientes de massa e de barulho, desejo que esse significado profundo, de amor ao corpo e à Natureza, de alegria e festa, possa ser realizado por vias outras: pela folia (folie, em francês, é loucura) da viagem rumo a si mesmo, travessia dos fantasmas (Lacan), baile de fantasias, serpentes e serpentinas da pulsão e do desejo.
Viagem a si, que é sempre também viagem para fora de si: interioridade e exterioridade, assim como sujeito e objeto -e carne e espírito- são dicotomias metafísicas que não dão conta da existência concreta, que é sempre nossa mas no e do mundo, eu é um Outro (Rimbaud), o Espírito se faz corpo.
Amém / Amem