Monday, February 04, 2008

semeando ao Sol solitário

Vincent Van Gogh, O Semeador (1888)

Krishna ensina a Arjuna a ação desapegada, não dependente da fruição de seus próprios frutos.Assim é o escritor. O semeador que saiu a semear no silêncio solitário ao Sol. Agir como quem cumpre seu dharma, seu drama. Sacrifício de si. O Verbo se fez carne sem perder nada de sua divindade, que a carne se faça verbo assim também, em júbilo, doloroso êxtase. Do grande místico sapateiro: "Na linguagem sensual (die sensualische Sprache), todos os espíritos conversam entre si, não têm necessidade de nenhuma outra linguagem, pois é a linguagem da natureza". Barthes, séculos depois, revelando o que a palavra tem de mortuária, de antecipação do silêncio final: "Saber que não escrevemos para o outro, saber que essas coisas que vou escrever jamais me farão amado de quem amo, saber que a escrita não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente ali onde você não está –é o começo da escrita". Gratuidade do fazer (-se) sentido no que não tem sentido. Alegria do artista que subiu sete mil pés para deixar sua marca devota no cume da catedral, para ser vista por ninguém. O crime compensa, a escrita não. O big brother diz com a boca escancarada cheia de dentes: "nunca fui de ler livro, graças a deus". Sorte dele. Deus o livrou de boa. Terrível cicuta do pensamento. Pesada cruz da liberdade. Porco feliz ou Sócrates infeliz? Vain écrivain..

2 comments:

Fada Laís said...

Lindo, já anunciei no meu blog, na parte do bolo de aniversário, que o seu níver é agora em fevereiro. =)
bjux

Clementine said...

Pois é... a escrita começa bem antes do gráfico; a maldição do pensamento já acomete o indivíduo antes do ato. E assim o artista, o escritor, o filósofo são divinizados, não sei se positiva ou negativamente, extraídos de sua condição de sobreviventes para viventes; e descobrem que a vida é maldita e expressam, mas é um grito calado, sempre. Abraço, Clementine.
OBS: acho que o nome deve ter vindo daí mesmo...do filme!