Tenho tido, nos últimos meses, o privilégio de um convívio mais estreito com a vida e a obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900). Isso devido a um trabalho de tradução de que estou encarregado.Entre as maiores recompensas pessoais que extraio deste processo, destaco a leitura, que ontem encerrei, do livro Despojos de uma Tragédia, coletânea de cartas escritas por Nietzsche entre setembro de 1863 e dezembro de 1888 –portanto, até poucos dias antes do colapso mental que, decorrente de sífilis, mergulhou o filósofo nas trevas da loucura, de janeiro de 1889 até a morte.
Não deixa de ressoar com triste ironia, aliás, o desfecho da última carta do livro:
"Adeus, minha boa mãe. Recebe, no final do ano [de 1888], os meus mais cordiais votos, e deseja-me tu um ano que corresponda em tudo às grandes coisas que há-de suceder.
TUA VELHA CRIANÇA"
Tua velha criança... São palavras reveladoras. Os junguianos veriam aqui sintoma de um complexo do puer aeternus (jovem eterno, em latim): a inadaptação psíquica do sujeito ao mundo dos adultos. Inadaptação não quer dizer, ao contrário do que as psicologias reacionárias desejam, que o "certo" seria o ajustamento automático, inquestionado, da pessoa "desviante" às convenções sociais vigentes. Esse tipo de conformismo, tão freqüente, é para Nietzsche coisa para gado humano, não para o Übermensch (Além-Homem), para quem suporta o ser excessivo e o ser exceção, para o indivíduo autêntico, criatura, cria-dor de si.
Os deuses se transformaram em doenças, disse sabiamente Jung: vivências que outrora podiam significar contato com o divino, transe místico, ampliação da personalidade, foram condenadas à marginalidade e à patologia pela Razão prisional e manicomial do capitalismo tecnocientífico. Tais fatores históricos provavelmente tiveram seu papel para o destino trágico deste genial adepto de Dionísio, o deus da embriaguez, do êxtase , do prazer - hoje em dia meros itens de consumo banalizados e massificados, isto é, tão reprimidos quanto o eram nos tempos do criador de Assim Falou Zaratustra, poema filosófico depois musicado por Richard Strauss .
Começo agora a leitura de um livro sobre o último ano de vida lúcida do filósofo: Nietzsche em Turim, da ensaísta Lesley Chamberlain. E , sobretudo, me aventuro a encarar o Doutor Fausto, de Thomas Mann.
Um dos maiores romances do século XX, retoma o pacto lendário entre Fausto e Mefistófeles, fazendo referências críticas à rendição da Alemanha, baluarte da sofisticação civilizatória, à barbárie nazista -o livro é de 1947, escrito em plena Segunda Guerra Mundial.
Mas meu interesse pelo livro, nesse momento, se deve mais ao fato de Mann ali retomar, para a construção do personagem principal -o compositor Adrian Leverkühn-, elementos da biografia de Nietzsche, como a fatídica ida do filósofo a um bordel, onde, em relação sexual com uma prostituta, ele teria sido infectado pela doença que viria a lhe roubar a sanidade mental anos depois.
"Não existem filosofias, somente filósofos", disse Nietzsche certa vez. Para ele, toda obra é uma confissão mais ou menos inconsciente da pessoa por detrás de tal ou qual idéia, argumentação.
Se é já fascinante por suas obras, a trajetória de Nietzsche impressiona ainda mais se consideramos também seu pano de fundo existencial. Ambos os aspectos, vida e pensamento, nele se confundem numa só e imensa aventura, comparável à dos grandes heróis trágicos da antiga Grécia -aliás tão adorada por ele , ao lado do Renascimento italiano, como períodos de uma grandeza e de uma altivez humanas raras na nossa dolorosa História de ilusões e opressões.
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