Tuesday, March 18, 2008

Jacques Lacan e o analista cidadão

O psicanalista Jorge Forbes

O que é a "orientação lacaniana"? Esse questionamento foi a mola propulsora de uma bela conferência de Jorge Forbes, quarta-feira passada (12 /03/ 08), no Centro Clínico Pinheiros; o evento marcou a abertura do Seminário da Orientação Lacaniana de 2008, promovido pela seção paulista da Escola Brasileira de Psicanálise.
O seminário versará sobre o curso ministrado atualmente em Paris por Jacques-Alain Miller , o grande difusor mundial da psicanálise lacaniana após a morte de Lacan, de quem aliás é também genro.

Forbes, por sua vez, é um dos mais conhecidos e qualificados expoentes da psicanálise brasileira, foi analisado por Lacan e é colega, parceiro intelectual e amigo pessoal de Miller. Diretor do Instituto da Psicanálise Lacaniana (Ipla), ele tem portanto as credenciais privilegiadas de um partícipe, testemunha ocular e continuador da revolução psicanalítica representada por Lacan.
Uma revolução, alerta Forbes, que não pode se deixar capturar por enclausuramentos e padronizações conceituais rígidas. Daí a importância de voltar sempre às perguntas supostas "triviais", de ousar perguntar o "básico", de modo a descompletar o saber já sabido e desestabilizar as torres de marfim dos especialistas agarrados a verdades eternas e a chichês que parecem querer se validar "cientificamente" quanto mais forem confusos e alheios à vida e à linguagem cotidianas.
Por isso a importância da pergunta sobre o que faz do adjetivo lacaniano algo mais que um termo rotineiro e desgastado, desses tanto mais usados quanto menos compreendidos em sua fonte originária, tal como ocorre com kafkiano, dantesco, maquiavélico, entre tantos outros exemplos.
A orientação lacaniana, tal como entendida por Miller e apresentada por Forbes em sua palestra, reúne qualidades aparentemente paradoxais, como o extremo rigor lógico, por um lado, e a abertura ao diálogo com a vida corrente, o frescor da conversação contínua entre pares , com o grande público e, claro, com o "acontecimento Freud".
Não é a repetição automática de termos ou fórmulas –inclusive a célebre noção do"inconsciente estruturado como linguagem"- o que legitima e dá sentido à orientação lacaniana. Nenhuma concessão ao lacanês ou ao "estado avançado" dele, a lacanagem, disse Forbes, arrancando gargalhadas da platéia. Nenhum dogma, nenhum sistema totalizante e totalitário.
Trata-se da aventura, do risco de confrontar o arcabouço conceitual e metodológico com a realidade que se apresenta.
Trata-se de um discurso vivo, dinâmico, que descompleta e subverte certas tendências hegemônicas na nova ordem mundial, marcada pela chamada sociedade do controle.
Aqui se entrevê outra marca forte da fala de Forbes. Indo bem além de um comentário acadêmico protocolar, sua fala fez vibrar os imperativos éticos e políticos que se colocam ao analista lacaniano de hoje, enquanto analista cidadão. O próprio Miller, aliás, começou o atual curso em Paris três dias depois (14/11/2007) do lançamento de uma nova campanha "antidepressão" do governo Sarkozy, calcada na promoção dos interesses da indústria farmacêutica e das terapias cognitivo-comportamentais. Mais que um detalhe menor, esse dado de contexto foi então muito enfatizado pelo psicanalista francês, como exemplo dos desafios e ameaças que a psicanálise enfrenta numa época de "serial killers e serial lovers", disse Forbes, uma época em que o objeto do desejo dá lugar à proliferação dos objeto de gozo, com sua lógica compulsiva, quantitativa, massificante .
Mas Forbes não faz concessões a quaisquer lamentações elegíacas ou nostalgias reacionárias. Nisso está, mostrou ele, outra faceta fundamental da orientação lacaniana. A orientação para o futuro, para a construção do devir. A psicanálise, seja enquanto experiência no divã ou movimento cultural, é mais que uma mera rememoração do passado, é a possibilidade de fazer de uma história um passado.
Para além também do clichê do "Freud explica", o analista de orientação lacaniana "desexplica", rompe a série das certezas dadas, não acrescenta sentido e sim o esvazia, desvelando e resgatando a falta que é precípua à criatividade existencial e ao desejo. Conforme Forbes mostrou, Freud fez o diagnóstico do mal-estar na civilização moderna; Lacan apontou seus desdobramentos e exacerbações até o limiar da pós-modernidade; ser seu discípulo, hoje, é sobretudo estar comprometido com a ação: seu basta à ilimitação gozosa da sociedade de massas provém da capacidade de chamamento do sujeito à responsabilização por si mesmo, pelo sustentar-se no insustentável da leveza de seu singular modo de ser.

1 comments:

suzuca said...

Oi, Cordeiro de D'us (rs),
vim desejar boa páscoa, né? (rs)
falou em Cristão, primeiro que vem em minha cabecinha tonta é vosmicê (rs).
beijo no coração