Cena de L' Âge des TenèbresNão é tão bom quanto Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras, seus filmes anteriores. E ainda recebe um título absurdo em português. Mas em L' Âge des Tenèbres (A Idade das Trevas, que um iluminado resolveu "traduzir" por A Era da Inocência, matando inclusive a alusão irônica, essencial, à Idade Média), o canadense Denis Arcand confirma seu mérito como um dos cineastas mais provocativos e interessantes da atualidade.
Neste desfecho do que podemos chamar de a trilogia da decadência, Arcand retoma, de outro modo, o tema da falência das ideologias. O espectador lembrar-se-á ainda da célebre cena de As Invasões Bárbaras na qual todas as personagens, enfileiradas, diziam um a um todos os “ismos” que abraçaram e depois se arrependeram: socialismo, comunismo, feminismo, existencialismo, homossexualismo, maoísmo, trostkismo etc etc.
Uma vez falida a engrenagem dos sonhos coletivos -e instaurado o niilismo neoliberal-, o olhar crítico de Arcand investiga este deserto de idéias numa escala mais individual. Põe em cena um everyone, um homem sem qualidades, como diria Robert Musil. Um funcionário público (Jean-Marc Leblanc, vivido por Marc Lebrèche) que passa seus dias entre a escuta, no trabalho, às misérias da população que recorre à assistência social do Estado e, em casa, o completo embotamento afetivo de suas relações com a insuportável esposa -que não larga do telefone, à caça do sucesso profissional- e com as filhas, que não largam do i-pod e dos joguinhos eletrônicos.
Para suportar tamanho horror, barata kafkiana esmagada pelo cotidiano, Leblanc se refugia na imaginação.
No reino da fantasia, fantasia-se de rei, por exemplo: em determinada cena, vira um imperador romano que faz o que quer de uma escrava que, na vida real, é sua opressiva superiora hierárquica na repartição.
Ele também recorre sistematicamente a revistas pornográficas como meio de aliviar a esterilidade conjugal; tem devaneios em que se projeta como um político poderoso, intelectual reconhecido e sedutor irresistível, a que lindas repórteres se entregam hipnotizadas.
Se, nos filmes anteriores, predominava um elemento negativo, da corrosão dos ideais, esse processo aqui é exacerbado mas, ao final, sutilmente subvertido. Arcand acaba por mostrar que, por mais inóspitas as circustâncias sociais -simbolizadas inclusive pelas máscaras de proteção que toda a população da cidade usa, contra uma terrível epidemia, em nova alusão às pestes da outra idade das trevas-, o indivíduo é, em última instância, cúmplice de seu cativeiro. E responsável pela possibilidade de mudança, desde que a imaginação deixe de operar como narcótico conformista, para impulsionar o sujeito ao risco de morrer para o velho -veja-se o simbolismo da mãe do protagonista, no filme- e nascer para o novo e o desconhecido.
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