Sunday, April 27, 2008

monstros


Acontece nesse momento, com a reconstituição do crime pela polícia e perícia, o ato final do que acabou por se tornar um dos maiores espetáculos da atual era dos reality shows e bundamusic: o caso Isabella. Um assassinato brutal, covarde, que deu pretexto à euforia dos corvos do sensacionalismo e deu ração ao rebanho dos que anestesiam sua própria miséria olhando pra desgraça alheia.
Não vou somar meu quinhão de sal à massa de julgamentos e achismos que povoam esse hipermercado de opiniões e sentimentos manipulados. Apenas gostaria de registrar minha perplexidade com a "civilização" que somos nós: feita de monstros com máscara paternal de humanos, e de homens com alma monstruosamente vendida ao demônio do lucro e do sadismo.

Monday, April 07, 2008

ausência presente

Max Ernst, "O Olho do Silêncio" (1943-44)

"Além da Terra e do Infinito
Eu procurava o Céu e o Inferno
Mas uma voz solene disse-me:
-'Procura-os dentro de ti mesmo'"
OMAR KHAYYAM

(tradução Manuel Bandeira)

Passei alguns dias ausente de / no meu reino Unzuhause. Melhor dizendo, preferi a presença de modo ausente, ou ausência de modo presente, no espírito da teoria taoísta de que mais bem se age quando não se age, o que não quer dizer perdição na passividade. Wu-wei: ação pela não-ação. A boa ascese é superação da passio, paixão enquanto passividade , enquanto inércia do estar cativo no Outro, é vitória sobre a alienação, e não renúncia ao desejo, a qual aliás seria impossível -só não se deseja mais no repouso eterno dos cemitérios, ali se é objeto passivo do "desejo" dos vermes. Antes disso, somos sempre desejo desejante e desejado, e por isso mesmo errantes e errados em jogos de espelhos de ausências e presenças.
A linguagem, fenômeno essencial da vida humana, se constitui de signos, e estes o que são, se não forem a presença do ausente? Se não forem a coisa não-coisa, a coisa que sinaliza para outra coisa? Linguagem, verdade, desejo: metáforas. Meta-fora. A meta do fora. Saindo de si. Criança que, como conta lindamente Freud falando de seu neto, no jogo do fort-da, no ioiô da vida, ritualiza a ausência (fort) e retorno (da) da mãe, e assim se prepara para o destino de suportar a ex-sistência, o estar-fora do Corpo Absoluto e Paradisíaco que lhe fora o Seio mítico materno original.

Por mais que os fanáticos resistam e levem tudo ao pé (ou ao rabo) da letra, o dedo que aponta para a Lua jamais é a Lua mesma.. e o mundo, o que é o mundo senão signos que se enviam a outros signos, tragicomédia de sentidos tentados no palco do para sempre absurdo?
Por isso esta minha reaparição, ou este modo outro de minha ausência presente, quis ter por epígrafe as belas palavras de Omar Khayyam, na tradução de Manuel Bandeira. Um singelo convite a convivermos mais com nós mesmos, não que em nós mesmos deixemos de ser signos e desejos, portanto uma meta-fora, mas que sejamos signos desejantes mais conscientes no dentro deste fora, palavra encarnada em lucidez, em meio a nossos céus e infernos -porém nunca definitivos, nunca maniqueístas entre os eternos escolhidos e eternos condenados, como faz crer a crença judaico-cristã exotérica.. Somos perpétuo dinamismo evolutivo, não-linearidade, movimento por entre os reinos sangsáricos da avidez preparatória à genuína paixão e compaixão.