O escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), autor de Memórias do Subsolo e Crime e Castigo, entre outrosFui mediador, nesta semana, de uma mesa-redonda na USP sobre Literatura e Filosofia. O evento foi parte do XI Encontro Nacional de Pesquisa na Graduação em Filosofia. Teria muito a dizer sobre o encontro em si, tamanha a riqueza dos conteúdos debatidos. Mas o que me contentou em particular foi a disposição de todos para a reflexão séria, aprofundada, sobre temas complexos como o eterno retorno em A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera), a culpa em Dostoiévski, a alienação moderna em Franz Kafka.
Em todos esses casos, a sombra imensa de Friedrich Nietzsche pairando ao fundo, confirmando uma vez mais minha impressão de que se trata do pensador mais influente sobre a juventude de hoje, conscientemente ou não: os gênios que modificam a História, com seus atos e pensamentos, fazem-se atmosfera tanto mais crucial quanto menos perceptível.
É o caso de Nietzsche, que com seu apelo ao júbilo dionisíaco -mesmo na dor e na privação- tornou-se spiritus rector das esperanças e dos impasses de nosso tempo pós-cristão.
Cristão ainda era Dostoiévski, mas cristão de um modo singularíssimo, que muito me atrai; outro dia volto a este tema.
Quero tratar hoje de um outro aspecto do evento desta quarta-feira, mais subjetivo.
Ser pesquisador em nível de pós-graduação implica mais liberdade para fazer seu próprio trabalho, mas também, por isso mesmo, muito mais responsabilidade e mais angústia, devido a certa solidão necessária e inevitável. A turma da graduação se desfez pelo caminho, temos agora carreiras solo, nosso trabalho é silencioso embora não monologal, pois pressupõe intenso diálogo, mas com os autores e problemas de nossa própria pesquisa. Prenúncio do destino que aguarda os que enveredem pela vida de mãos dadas com o Espírito: na leitura, na escrita, na contemplação, o encontro consigo é cada vez mais desencontro do mundo.
Até por isso usufruí, neste debate, de uma alegria estranha, como se fosse resíduo de um passado que não volta mais: embora coordenador, portanto numa posição hierárquica distinta, ainda assim me senti muito próximo dos debatedores e do público, até por não gostar do estilo monopolizador e pedante infelizmente freqüente.
Desse modo, curti, ainda como estudante, algo que cada vez mais poderei experimentar apenas na posição (ela própria muito ambígua, pois pública mas profundamente individual) de professor: a sabedoria enquanto comunhão, troca, diálogo.
Aliás, uma sociedade como a nossa multiplica conhecimentos e sufoca a sabedoria não por acaso: o capitalismo afasta e hierarquiza, a sabedoria, ainda que construída ao preço e peso da solidão, frutifica (se não morrer no solo da carreira solo) em união, é via Unitiva, é centelha espiritual do Unus Mundus na matéria múltipla.
3 comments:
Ah!!!! Como sinto falta de participar desses e-ventos que desde sua idealização já fura a ação normaliza-dora dos mortais...
Esses dias participei de um Colóquio em Literatura sobre W. Yeats e Thomas Mann... Fiquei tentada a pensar com mais profundidade sobre a problemática do suicídio. Recorri aos clássicos conhecidos e agora leio seu livro que não é propriamente sobre isso, mas que dá um excelente respaldo sobre a Existência.
Obrigada pelo presente! Devoro-o com afinco.
beijoooooooooooooooooooos
Com mais de um século de existência, o livro permanece impressionando pela magnífica capacidade descritiva e narrativa das contradições humanas: “Quiseram falar, mas não lhes foi possível. Havia lágrimas nos seus olhos. Estavam ambos pálidos e abatidos...” (p.310) assim também eu estava quando finalizava as últimas páginas dessa experiência que me rendeu alguns pesadelos durante as madrugadas e uns escritos.
Parabéns. Realmente me impressionou, você tem uma forma clássica de escrever; que é falar de algo sem deixar a essência natural do mesmo se esvair por suas idéia.
Amo você, bjooo
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