Sunday, November 30, 2008

bruxos e broxas, 'escre-ver' e viver

"Escrever é muito bom, eu adoro. mas viver é ainda mais legal. Até porque não
não dá pra escrever sem viver, ou só vamos escrever sobre o escrever".
Pensamento que o vento ruah me ventilou na tarde de ontem, dito por um jovem escritor gaúcho, perdoe-me não recordar teu nome, estava no burburinho da Livraria Cultura, durante uma espécie de "Virada Cultural", e o escritor falando (de) sua arte e (da) de outros.
No mesmo evento, um leitor que se animou a tomar a palavra e o microfone, disse versos de autoria também incerta (hoje me faltam nomes, não quero nomes, quero coisas.....), mas que diziam que é tempo de sermos bruxos, não broxas rsrs.
bruxos e não broxas! sensacional! quando o artista, o homem, é plenamente bruxo?
uma amiga querida disse-me numa noite inesquecível: tens olhos de bruxo! ainda hoje isso me ressoa um desafio provocativo. conheço bruxas de um poder espetacular, e que acionam em mim vontade profunda de trilhar a Senda no que tem também de obscuro, mágico e para além do entendimento monástico. Mas o monástico tampouco é apenas entendimento. Monástico é também o monádico: é o Uno, a unidade profunda no di-verso.
mas a qualidade da Senda e do Sendeiro, sinto, dependerá sempre, como me disse ruah ontem na livraria, justamente da intensidade do viver, da "escrita" do viver, escrita enquanto ato, mas também destino que age em nosso agir. afinal, quem age e quem é "agido" na ação autêntica? no viver pleno, inter-esse (entre seres), Ser nos seres, pra além da separatividade medrosa do ente encapsulado?

Friday, November 28, 2008

para além do teorema de Pitágoras


**O triângulo da Tetraktys - Número sagrado e fundamental dos pitagóricos pelo qual juravam fidelidade. Simboliza a unidade origem e principio, a dualidade das oposicoes e as complementaridades e o triunfo da trindade, que finalmente se desprende no universo do quatro. 1 + 2 + 3 + 4 = 10, a unidade expandida na manifestação, = 1 + 0 = 1, o retorno à unidade de origem.


OS VERSOS DE OURO DE PITÁGORAS
(filósofo grego, século VI a.C)
01. Honra em primeiro lugar os deuses imortais, como manda a lei.
02. A seguir, reverencia o juramento que fizeste.
03. Depois os heróis ilustres, cheios de bondade e luz.
04. Homenageia, então, os espíritos terrestres e manifesta por eles o devido respeito.
05. Honra em seguida a teus pais, e a todos os membros da tua família.
06. Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.
07. Aproveita seus discursos suaves, e aprende com os atos dele que são úteis e virtuosos.
08. Mas não afasta teu amigo por um pequeno erro.
09. Porque o poder é limitado pela necessidade.
10. Leva bem a sério o seguinte: Deves enfrentar e vencer as paixões.
11. Primeiro a gula, depois a preguiça, a luxúria, e a raiva.
12. Não faz junto com outros, nem sozinho, o que te dá vergonha.
13. E, sobretudo, respeita a ti mesmo.
14. Pratica a justiça com teus atos e com tuas palavras.
15. E estabelece o hábito de nunca agir impensadamente.
16. Mas lembra sempre um fato, o de que a morte virá a todos.
17. E que as coisas boas do mundo são incertas, e assim como podem ser conquistadas, podem ser perdidas.
18. Suporta com paciência e sem murmúrio a tua parte, seja qual for.
19. Dos sofrimentos que o destino determinado pelos deuses lança sobre os seres humanos.
20. Mas esforça-te por aliviar a tua dor no que for possível.
21. E lembra que o destino não manda muitas desgraças aos bons.
22. O que as pessoas pensam e dizem varia muito; agora é algo bom, em seguida é algo mau.
23. Portanto, não aceita cegamente o que ouves, nem o rejeita de modo precipitado.
24. Mas se forem ditas falsidades, retrocede suavemente e arma-te de paciência.
25. Cumpre fielmente, em todas as ocasiões, o que te digo agora.
26. Não deixa que ninguém, com palavras ou atos,
27. Te leve a fazer ou dizer o que não é melhor para ti.
28. Pensa e delibera antes de agir, para que não cometas ações tolas.
29. Porque é próprio de um homem miserável agir e falar impensadamente.
30. Mas faze aquilo que não te trará aflições mais tarde, e que não te causará arrependimento.
31. Não faze nada que sejas incapaz de entender.
32. Porém, aprende o que for necessário saber; deste modo, tua vida será feliz.
33. Não esquece de modo algum a saúde do corpo.
34. Mas dá a ele alimento com moderação, o exercício necessário e também repouso à tua mente.
35. O que quero dizer com a palavra moderação é que os extremos devem ser evitados.
36. Acostuma-te a uma vida decente e pura, sem luxúria.
37. Evita todas as coisas que causarão inveja.
38. E não comete exageros. Vive como alguém que sabe o que é honrado e decente.
39. Não age movido pela cobiça ou avareza. É excelente usar a justa medida em todas estas coisas.
40. Faze apenas as coisas que não podem ferir-te, e decide antes de fazê-las.
41. Ao deitares, nunca deixe que o sono se aproxime dos teus olhos cansados,
42. Enquanto não revisares com a tua consciência mais elevada todas as tuas ações do dia.
43. Pergunta: "Em que errei? Em que agi corretamente? Que dever deixei de cumprir?"
44. Recrimina-te pelos teus erros, alegra-te pelos acertos.
45. Pratica integralmente todas estas recomendações. Medita bem nelas. Tu deves amá-las de todo o coração.
46. São elas que te colocarão no caminho da Virtude Divina.
47. Eu o juro por aquele que transmitiu às nossas almas o Quaternário [Tetraktys**] Sagrado.
48. Aquela fonte da natureza cuja evolução é eterna.
49. Nunca começa uma tarefa antes de pedir a bênção e a ajuda dos Deuses.
50. Quando fizeres de tudo isso um hábito,
51. Conhecerás a natureza dos deuses imortais e dos homens,
52. Verás até que ponto vai a diversidade entre os seres, e aquilo que os contém, e os mantém em unidade.
53. Verás então, de acordo com a Justiça, que a substância do Universo é a mesma em todas as coisas.
54. Deste modo não desejarás o que não deves desejar, e nada neste mundo será desconhecido de ti.
55. Perceberás também que os homens lançam sobre si mesmos suas próprias desgraças, voluntariamente e por sua livre escolha.
56. Como são infelizes! Não vêem, nem compreendem que o bem deles está ao seu lado.
57. Poucos sabem como libertar-se dos seus sofrimentos.
58. Este é o peso do destino que cega a humanidade.
59. Os seres humanos andam em círculos, para lá e para cá, com sofrimentos intermináveis,
60. Porque são acompanhados por uma companheira sombria, a desunião fatal entre eles, que os lança para cima e para baixo sem que percebam.
61. Trata, discretamente, de nunca despertar desarmonia, mas foge dela!
62. Oh Deus nosso Pai, livra a todos eles de sofrimentos tão grandes.
63. Mostrando a cada um o Espírito que é seu guia.
64. Porém, tu não deves ter medo, porque os homens pertencem a uma raça divina.
65. E a natureza sagrada tudo revelará e mostrará a eles.
66. Se ela comunicar a ti os teus segredos, colocarás em prática com facilidade todas as coisas que te recomendo.
67. E ao curar a tua alma a libertarás de todos estes males e sofrimentos.
68. Mas evita as comidas pouco recomendáveis para a purificação e a libertação da alma.
69. Avalia bem todas as coisas,
70. Buscando sempre guiar-te pela compreensão divina que tudo deveria orientar.
71. Assim, quando abandonares teu corpo físico e te elevares no éter.
72. Serás imortal e divino, terás a plenitude e não mais morrerás.

Wednesday, November 26, 2008

vale de lágrimas

Minha solidariedade ao povo catarinense, nesses dias de calamidade pública decorrente do excesso das chuvas.
Mortes, perdas, destruição: o homem que mais uma vez se des-cobre nu, cobertas que se vão com as águas violentas e impassíveis.
A senhora que desabafa, ante a casa do vizinho que racha e histórias e memórias que desabam: "Jesus amado"... Palavrório do velório das palavras.
E afundando, afundando, o meu escafandro, sem cor nem incolor, do mais pesado dos pesos das leves quimeras azuladas de um arcaico Sol de harmonias.

Wednesday, November 19, 2008

mathesis universalis


Como é habitual nos alunos que se davam melhor nas "humanas", a matemática pra mim foi, quase sempre, uma MÁ- temática rs, temática sinônima de frio na espinha, suor de pânico e profunda inveja (não me venham com o eufemismo de dizer "inveja no bom sentido", inveja é inveja, ponto rs) dos "japonesinhos" e suas irritantes máquinas de calcular mentais, que decifravam em segundos o que pra mim demandava séculos de elocubração angustiada.
O que eu sentia falta era de aulas que fossem mais fundo na lógica implícita a tanto número e tabela. O que eu mais queria era que a matemática pudesse fazer algum sentido na vida real, o que aqui e acolá alguns bons professores de física conseguiam deixar entrever, com raciocínios em que a matemática dava suporte ao processo do pensamento, não à idiotia decorebenta.
Tudo isso me veio à tona esses dias, ao reabrir as páginas do Discurso do método, de Descartes, agora na edição clássica com os comentários de Etiènne Gilson (lançada no Brasil pela editora Martins Fontes).
O senso comum –e alguns charlatães esotéricos ressentidos- gosta de apelidar de "cartesiano" tudo o que não se encaixa em seus próprios achismos preguiçosos.
Ouvi nesta semana -e em sala de aula, e de um professor!- uma barbaridade do gênero, um comentário preconceituoso de que não só o cartesianismo, pior, a filosofia toda, deve ser "destruída", e dar lugar à "sabedoria que vem de dentro".
Oras, filosofia, cabe lembrar o óbvio, é por definição o amor pela sabedoria. Mas é importante, ressalta Descartes, lembrar que sabedoria é oposta não tanto à ignorância -Sócrates, genial ignorante!-mas sobretudo ao pseudo-saber, essa forma de ignorância que se auto-ignora mediante o acúmulo atabalhoado de saberes, curativos desbotados feitos para tapear e tapar a pele podre da mentira e da ilusão.
Importa menos a quantidade de coisas sabidas do que a qualidade do pensamento que as pensa. O filósofo autêntico se interessa não tanto pelo conteúdo fornecido pelo mundo quanto pela perfeição do seu próprio espírito, isto é, pelo aperfeiçoamento pessoal que nos confere inteligência para discernir o verdadeiro (teoria) e vontade de seguir o bem (prática). Sábio é quem alcançou estas dimensões, filosófico é trabalhar para alcançá-las.
A erudição se preocupa com as coisas; a sabedoria reside unicamente no pensamento, enquanto matriz geradora de conhecimentos úteis à vida feliz. Em termos de hoje, seria essa a diferença entre a autêntica formação e a mera informação, entre a inquietação de pesquisar e o dar-se por satisfeito com as wikipédias.
Muito se fala na importância que Descartes atribuía à matemática como paradigma do pensamento em geral. Não que a ética, a metafísica ou mesmo as ciências pudessem sempre serem reduzidas a equações. Mas elas poderiam ser sempre tratadas matematicamente. O cálculo é apenas o instrumento de que a álgebra ou a aritmética lançam mão para lidar com problemas que lhes são próprios. O espírito adota o procedimento do cálculo em caso de necessidade, mas é o cálculo que se põe a serviço do espírito, e não o espírito, a serviço do cálculo.
O que confere então às verdades matemáticas o grau de certeza absoluta que deveria inspirar toda a filosofia? Não é necessariamente serem produto de cálculo, mas sim desdobramento do raciocínio rigoroso, bem encadeado e que se vale de evidências, as famosas "idéias claras e distintas".
Claro que não podemos ler hoje Descartes fingindo que não houve a revolução freudiana, tão bem sintetizada na fórmula -esta assim anti-cartesiana no melhor e mais honesto sentido do termo- proposta por Lacan: ao invés de penso, logo existo, diria Lacan que quando penso, não sou, quando sou, não penso.
Isso não impediu porém Lacan de fazer jus à racionalidade instaurada por Descartes , e não só à razão mas também ao sonho, sonho "pitagórico" de uma mathesis universalis (matemática universal).
A matemática como linguagem do espírito humano e espelho da natureza, como forma de diálogo de amor -amor à sabedoria- do homem com a vida.

Sunday, November 09, 2008

sermão, ação, coração

Ícone do Sagrado Coração de Jesus Cristo

"Kyrie eleison"
a oração do coração, exercício meditativo no cristianismo ortodoxo russo
***
"O coração é esta faculdade que vai transformar o impulso cego da pulsão em energia de amor. A dimensão animal do homem não é negada, mas é no coração que ela se personaliza. O homem não é apenas um animal dotado de razão, ele é também um animal capaz de amor, ou seja, capaz de respeito, e é no coração que a libido tem acesso a essa dimensão. Se o coração estiver ausente, o amor não passará de atrito entre duas epidermes, um êxtase doloroso entre dois cães e não um encontro entre duas pessoas"

JEAN-YVES LELOUP
sacerdote ortodoxo e escritor
***
Lembro-me, em domingos como hoje, de domingos de outrora que eram preenchidos pelo sermão forte, claro e envolvente do meu querido Padre Pedro, que se foi ano passado. Foram os sermões que mudaram ou fui eu? Não sei dizer.. mas há muito que não me sinto em casa em templo algum. Sina, sem dúvidas, de "Unzuhause": a palavra que me batizou alude ao sentimento do não-estar-em-casa da angústia, no dizer de Heidegger; e desde esse "batismo", minha igreja está no vazio, sendo eu o sacerdote de mim mesmo. Eremita nos desertos egípcios do mistério, do sentido em suspenso e da solidão.
E esse sacerdote de mim mesmo, que sou eu, tem dogma nenhum, ou se os têm, são menores do que meu desejo permanente de evoluir e de me transformar. Aprender idiomas alheios, as falas "estranhas" (Freud: unheimlich), as questões que me põem em questão, as extimidades, as ovelhas tinhosas da vida sem conformismo.
Minhas ovelhas tinhosas são todas nascidas e rebeladas nos rincões do coração, este terreno inóspito, vietnã hostil às tentativas planificadoras do engenheiro fáustico que é o intelecto imperialista.
Outro dia, saindo da terapia, peguei um táxi que deveria me deixar na PUC. Eu estava na Paulista, portanto um caminho muito simples. Mas o cara foi de uma teimosia espantosa, não escutando a minha orientação, se deixando guiar por um GPS que não só o tirou da rota mais simples, como o ia dando comandos que cada vez mais o afastaram do endereço.
Eu me senti esse taxista, esse GPS e esse destino perdido, esse caminho confuso. Um ego guiado pelos e refém dos automatismos cegos da passividade. E que só na errância poderia reencontrar a humildade que, ufa!, o taxista teve ao final, me cobrando o preço do que teria sido a corrida correta, e se desculpando pela inexperiência.
Não me devo desculpas; me devo ação.

Wednesday, November 05, 2008

o dia mais lindo do novo milênio

O novo presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama

Obama diz que mudança chegou à América, terra onde tudo é possível; leia íntegra do discurso da vitóriada Folha Online

Barack Obama, 47, foi eleito o primeiro presidente negro e o 44º da história dos Estados Unidos, nesta quarta-feira.
"Se pessoas ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as coisas são possíveis, que ainda acreditam que o sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é a sua resposta", afirmou Obama em seu discurso de vitória, a milhares de partidários, em Chicago, Illinois --Estado pelo qual Obama é senador.
Leia abaixo a íntegra do discurso:


"Oi, Chicago.
Se alguém ainda duvida que a América é um lugar onde tudo é possível, ainda pergunta se o sonho dos pioneiros ainda estão vivos em nossos tempos, ainda questiona o poder da nossa democracia, esta noite é sua resposta.
É a resposta das filas que cercaram escolas e igrejas em números que essa nação nunca havia visto. Das pessoas que esperaram três horas e quatro horas, muitas pela primeira vez em suas vidas, porque acreditavam que desta vez precisava ser diferente, que as suas vozes podiam fazer diferença.


É a resposta de jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, índios, gays, heterossexuais, deficientes e não-deficientes. Americanos que enviaram uma mensagem ao mundo de que nós nunca fomos somente uma coleção de indivíduos ou uma coleção de Estados vermelhos e azuis.
Nos somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.
É a resposta que recebeu aqueles que ouviram --por tanto tempo e de tantos-- para serem cínicos, medrosos e hesitantes sobre o que poderiam realizar para que coloquem a mão no arco da história e torçam-no uma vez mais, na esperança de dias melhores.
Faz muito tempo, porém, nesta noite, por causa do que fizemos nesse dia de eleição, nesse momento decisivo, a mudança chegou à América.
Um pouco mais cedo nesta noite, recebi um telefonema extraordinariamente gracioso do senador McCain. Ele lutou muito e por muito tempo nesta campanha. Ele lutou ainda mais e por ainda mais tempo por esse país que ele ama. Ele enfrentou sacrifícios pela América que a maioria de nós nem pode começar a imaginar. Nós estamos melhores graças ao serviços desse líder bravo e altruísta.
Eu o parabenizo e parabenizo a governadora Palin por tudo que eles conquistaram. Eu estou ansioso por trabalhar com eles e renovar a promessa dessa nação nos próximos meses.
Eu quero agradecer meu parceiro nessa jornada, um homem que fez campanha com o coração e que falou para os homens e mulheres com os quais cresceu, nas ruas de Scranton, e com os quais andou de trem a caminho de Delaware, o vice-presidente eleito dos EUA, Joe Biden.
E eu não estaria aqui nesta noite sem a compreensão e o incansável apoio da minha melhor amiga dos últimos 16 anos, a rocha da nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira-dama dessa nação, Michelle Obama. Sasha e Malia [filhas de Obama] eu as amo mais do que vocês podem imaginar. E vocês mereceram o cachorrinho que irá morar conosco na nova Casa Branca.
E, embora ela não esteja mais entre nós, eu sei que minha avó está assistindo, ao lado da família que construiu quem eu sou. Eu sinto falta deles nesta noite. Eu sei que minha dívida com eles está além de qualquer medida.
Para minha irmã Maya, minha irmã Alma, todos os meus irmãos e irmãs, muito obrigado por todo o apoio que me deram. Sou grato a eles.
E agradeço ao meu coordenador de campanha, David Plouffe, o herói anônimo da campanha, que construiu o que há de melhor --a melhor campanha política, penso, da história dos EUA.
Ao meu estrategista-chefe David Axelrod, que tem sido um companheiro em todos os passos do caminho. À melhor equipe de campanha reunida na história da política --você fizeram isso acontecer, e eu serei sempre grato pelo que vocês sacrificaram para conseguir.
Mas, acima de tudo, eu nunca esquecerei a quem essa vitória realmente pertence. Isso pertence a vocês. Isso pertence a vocês.
Eu nunca fui o candidato favorito na disputa por esse cargo. Nós não começamos com muito dinheiro ou muitos endossos. Nossa campanha não nasceu nos corredores de Washington. Nasceu nos jardins de Des Moines, nas salas de Concord e nos portões de Charleston. Foi construída por homens e mulheres trabalhadores que cavaram as pequenas poupanças que tinham para dar US$ 5, US$ 10 e US$ 20 para essa causa.
Ela [a campanha] cresceu com a força dos jovens que rejeitaram o mito de apatia da sua geração e deixaram suas casas e suas famílias por empregos que ofereciam baixo salário e menos sono.
Ela tirou suas forças de pessoas não tão jovens assim que bravamente enfrentaram frio e calor para bater às portas de estranhos e dos milhões de americanos que se voluntariaram e se organizaram e provaram que, mais de dois séculos mais tarde, um governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra.
Essa é a nossa vitória.
E eu sei que vocês não fizeram isso só para ganhar uma eleição. E eu sei que vocês não fizeram tudo isso por mim.
Vocês fizeram isso porque entendem a grandiosidade da tarefa que temos pela frente. Podemos comemorar nesta noite, mas entendemos que os desafios que virão amanhã serão os maiores de nossos tempos --duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira do século.
Enquanto estamos aqui nesta noite, nós sabemos que há corajosos americanos acordando nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para arriscar suas vidas por nós. Há mães e pais que ficam acordados depois de os filhos terem dormido se perguntando como irão pagar suas hipotecas ou o médico ou poupar o suficiente para pagar a universidade de seus filhos. Há novas energias para explorar, novos empregos para criar, novas escolas para construir, ameaças para enfrentar e alianças para reparar.
O caminho será longo. Nossa subida será íngreme. Nós talvez não cheguemos lá em um ano ou mesmo em um mandato. Mas, América, nunca estive mais esperançoso do que chegaremos lá. Eu prometo a vocês que nós, como pessoas, chegaremos lá.
Haverá atrasos e falsos inícios. Muitos não irão concordar com todas as decisões ou políticas que eu vou adotar como presidente. E nós sabemos que o governo não pode resolver todos os problemas. Mas eu sempre serei honesto com vocês sobre os desafios que enfrentar. Eu vou ouvir vocês, especialmente quando discordarmos. E, acima de tudo, eu vou pedir que vocês participem do trabalho de refazer esta nação, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos --bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada.
O que começamos 21 meses atrás no inverno não pode terminar nesta noite de outono. Esta vitória, isolada, não é a mudança que buscamos. Ela é a única chance para fazermos essa diferença. E isso não vai acontecer se voltarmos ao modo como as coisas eram. Isso não pode ocorrer com vocês, sem um novo espírito de serviço, um novo espírito de sacrifício.
Então exijamos um novo espírito de patriotismo, de responsabilidade, com o qual cada um de nós irá levantar e trabalhar ainda mais e cuidar não apenas de nós mesmos mas também uns dos outros. Lembremos que, se essa crise financeira nos ensinou uma coisa, foi que não podemos ter uma próspera Wall Street enquanto a Main Street sofre.
Nesse país, nós ascendemos ou caímos como uma nação, como um povo. Resistamos à tentação de voltar ao bipartidarismo, à mesquinhez e à imaturidade que envenenou nossa política por tanto tempo.
Lembremos que foi um homem deste Estado que primeiro carregou a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre valores de autoconfiança, liberdade individual e unidade nacional.
Esses são valores que todos compartilhamos. E enquanto o Partido Democrata obteve uma grande vitória nesta noite, isso ocorre com uma medida de humildade e de determinação para curar as fissuras que têm impedido nosso progresso.
Como [o ex-presidente Abraham] Lincoln [1861-1865] afirmou para uma nação muito mais dividida que a nossa, nós não somos inimigos, e sim amigos. A paixão pode ter se acirrado, mas não pode quebrar nossos laços de afeição. E àqueles americanos cujo apoio eu ainda terei que merecer, eu talvez não tenha ganho seu voto hoje, mas eu ouço suas vozes. E eu preciso de sua ajuda. Eu serei seu presidente também.
E a todos aqueles que nos assistem nesta noite, além das nossas fronteiras, de Parlamentos e palácios, àqueles que se reúnem ao redor de rádios, nas esquinas esquecidas do mundo, as nossas histórias são únicas, mas o nosso destino é partilhado, e uma nova aurora na liderança americana irá surgir.
Àqueles que destruiriam o nosso mundo: nós os derrotaremos. Àqueles que buscam paz e segurança: nós os apoiamos. E a todos que questionaram se o farol da América ainda ilumina tanto quanto antes: nesta noite nós provamos uma vez mais que a verdadeira força da nossa nação vem não da bravura das nossas armas ou o tamanho da nossa riqueza mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança.
Esse é o verdadeiro talento da América: a América pode mudar. Nossa união pode ser melhorada. O que já alcançamos nos dá esperança em relação ao que podemos e ao que devemos alcançar amanhã.
Essa eleição teve muitos "primeiros" e muitas histórias que serão contadas por gerações. Mas há uma que está em minha mente nesta noite, sobre uma mulher que votou em Atlanta. Ela seria como muitos dos outros milhões que ficaram em fila para ter a voz ouvida nessa eleição não fosse por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.
Ela nasceu apenas uma geração após a escravidão; uma época na qual não havia carros nas vias nem aviões nos céus; quando uma pessoa como ela não podia votar por dois motivos --porque era mulher ou por causa da cor da sua pele. Nesta noite penso em tudo que ela viu neste seu século na América --as dores e as esperanças, o esforço e o progresso, a época em que diziam que não podíamos, e as pessoas que continuaram com o credo: Sim, nós podemos.
Em um tempo no qual vozes de mulheres eram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela viveu para vê-las se levantar e ir às urnas. Sim, nós podemos.
Quando havia desespero nas tigelas empoeiradas e a depressão em toda parte, ela viu uma nação conquistar seu New Deal, novos empregos, um novo senso de comunidade. Sim, nós podemos.
Quando bombas caíam em nossos portos e a tirania ameaçava o mundo, ela estava lá para testemunhar uma geração chegar à grandeza, e a democracia foi salva. Sim, nós podemos.
Ela estava lá para ver os ônibus em Montgomery, as mangueiras em Birmingham, a ponte em Selma e um pregador de Atlanta que disse "Nós Devemos Superar". Sim, nós podemos.
Um homem chegou à Lua, um muro caiu em Berlim, um mundo foi conectado por nossa ciência e imaginação. Neste ano, nesta eleição, ela tocou o dedo em uma tela e registrou o seu voto porque, após 106 anos na América, através dos melhores e dos mais escuros dos tempos, ela sabe que a América pode mudar. Sim, nós podemos.
América, nós chegamos tão longe. Nós vimos tanto. Mas há tantas coisas mais para serem feitas. Então, nesta noite, devemos nos perguntar: se nossas crianças viverem até o próximo século, se minhas filhas tiverem sorte suficiente para viver tanto quanto Ann Nixon Cooper, quais mudanças elas irão ver? Quanto progresso teremos feito?
É nossa chance de responder a esse chamado. É o nosso momento.
Esse é nosso momento de devolver as pessoas ao trabalho e abrir portas de oportunidade para nossas crianças; de restaurar a prosperidade e promover a paz; de retomar o sonho americano e reafirmar a verdade fundamental de que, entre tantos, nós somos um; que, enquanto respirarmos, nós temos esperança. E onde estamos vai de encontro ao cinismo, às dúvidas e àqueles que dizem que não podemos. Nós responderemos com o brado atemporal que resume o espírito de um povo: Sim, nós podemos.
Obrigado. Deus os abençoe. E Deus abençoe os Estados Unidos da América.
Tradução de GABRIELA MANZINI

Sunday, November 02, 2008

filosofia na alcova

Scarlett Johansson e Penelope Cruz, em cena do filme Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, que entra em cartaz este mês em SP


"O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem.Se nos não damos conta disso, é porque o erotismo busca incessantemente fora dele um objeto de desejo. Esse objeto, contudo, corresponde à interioridade do desejo.
A escolha de um objeto depende sempre dos gostos pessoais de cada qual. Mesmo quando recai sobre uma mulher que teria sido escolhida pela maior parte dos homens, o que intervém não é uma qualidade objetiva dessa mulher, mas frequentemente, um aspecto inalcançável da sua personalidade. Se ela não atingisse o nosso ser íntimo, provavelmente nada haveria a forçar-nos a preferência. Ou seja, mesmo quando igual à da maior parte, a escolha do homem difere ainda da do animal, pois apela para uma mobilidade interior, infinitamente complexa, que é específica do homem. (...) O erotismo do homem difere da sexualidade animal exatamente porque envolve e implica a vida interior. O erotismo é, na consciência do homem, o que o leva a pôr o seu ser em questão. A sexualidade animal também produz um desequilíbrio, esse desequilíbrio também lhe ameaça a vida; mas o animal não o percebe. Nada nele se abre, que se assemelhe a um pôr em questão."


Georges Bataille
O Erotismo