
Dica de leitura:
Leminski, Paulo, GUERRA DENTRO DA GENTE . S. Paulo: Scipione, 1997 [texto de 1987]
Sob a aparência de uma fábula infanto-juvenil, o grande poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989) nos conta a história -bela e sugestiva para todas as idades- de Baita, um pobre filho de lenhadores, desde sua infância tímida e mal-tratada (sofria com um pai truculento e uma mãe frágil) até a velhice como grande chefe militar de um reino.
A primeira das guinadas radicais da vida de Baita se dá numa ponte entre a aldeia em que ele morava com a família e a floresta -ou seja, na fronteira, no ponto de transição entre o habitual e o estranho, o familiar e o desconhecido, o consciente e inconsciente.
Ali o garoto conheceu um misterioso ancião, de nome Kutala, que lhe propõe aprender a "arte da guerra". Vale dizer, a arte da vida: "A guerra faz parte da vida. Se você quiser aprender mesmo a arte da guerra, você tem de conhecer a vida. E a vida só se aprende vivendo".
Serão, de fato, duríssimas vivências para Baita, como se tornar escravo, alimentar animais de circo, noites inóspitas, comida escassa.
Segundo Buda, a sabedoria é a canoa que serve para nos transportar pelo rio da existência e ser deixada para trás ao se chegar à outra margem. Assim também, na lenda de Leminski, o aprendizado da arte da guerra culminará numa instigante reviravolta, afirmadora do amor e da paz como valores supremos. Mas isso sem prescindir dos benefícios da experiência do guerreiro: força, fibra, dureza, virilidade, atenção. "A guerra é o pai e o rei de todas as coisas" (Heráclito). A agressividade é inerente e preciosa demais à vida humana, à luta pela preservação e expansão vital, para que seja relegada a manifestações vulgares, como o ódio e a violência. Se bem canalizada, é potência de vida, não de morte.
Em tempos de violência desenfreada e de "soluções" frouxas, como a estéril discussão da idade mínima da maioridade penal, esta é uma leitura que vale a pena. Mais que um simples entretenimento, é um convite ao discernimento quanto ao significado do bom combate a ser combatido: o da evolução interior e coletiva do ser humano .





