Wednesday, December 30, 2009

ébrios de egos


O sujeito marcou com o amigo às dez da noite, na casa deste. Chega na hora marcada, animado pra balada de logo mais, porém o amigo antecipou a festa numa bebedeira solitária, literalmente afogando as mágoas (e sua alma naquela noite era um secreto corpo de mágoa pedindo pra vomitar-se). Estirado no chão da sala, entre várias garrafas vazias de vodka, o bebum escuta a campainha, repetida e cada vez mais irritada, que vinha da porta, a alguns passos de onde ele estava. Esquecido de tudo que marcara, impossibilitado de levantar-se agora, grita: -Quem éeee, caraio. Vocês não me deixam em paz nunca??!!!!!!!! E o amigo, de fora, puto: -Como quem é!!!!!! Sou eu, porra! O homem do corpo caído no chão, com reflexos retardados e alucinando, reagiu com essa pérola, quase um koan zen-bebum involuntário: -Como asssssim, "sou eu"!!?? EU sou eu!!

Tuesday, December 29, 2009

o funesto esplendor


"Oh, Fabrício [cônsul romano do século III a. C, um exemplo de virtude e austeridade na Roma republicana] ! Que pensaria vossa grande alma, se, para vossa infelicidade de volta à vida, vísseis a face pomposa dessa Roma salva por vossos braços e que vosso nome respeitável ilustrara mais do que todas as suas conquistas? 'Deuses!', diríeis, 'em que se transformaram aquelas choupanas e aqueles lares rústicos em que outrora moravam a moderação e a virtude? Que funesto esplendor sucedeu à simplicidade romana? Que linguagem estranha é essa? Que costumes efeminados são esses? O que significam essas estátuas, esses quadros, esses edifícios? Insensatos, o que fizestes? Vós, os senhores das nações, vós vos tornastes os escravos dos homens frívolos que vencestes? (...) Romanos, apressai-vos em derrubar esses anfiteatros; quebrai esses mármores; queimai esses quadros; expulsai esses escravos que vos subjugam e cujas funestas artes vos corrompem."

JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Discurso sobre as Ciências a as Artes

Saturday, December 26, 2009

a Queda do "mal-uf" de Roma


Quantas vezes não ouvimos a dica: "vai reclamar com o bispo", no caso de uma queixa que todo mundo sabia impossível de ser contemplada? E óbvio, "os bispos", no contexto desta frase popular, significa o inacessível, o inócuo, o estéril. E quão pior é quando se quer reclamar "do bispo"?? Deve ser o caso de Susanna Maiolo, a moça que levou o "bispo" Ratzinger à lona em plena Missa do Galo, anteontem. Parece que ela já tinha tentado a mesma proeza no ano passado. E só agora "conseguiu"... Conseguiu o quê? Nada. Saciamento de um impulso imediato, com o bônus de quinze minutos de glória na mesma máquina imbecil de produção e destruição de celebridades que se inventam e se esfarelam ao primeiro sopro. A moça reclamou "do bispo" (não se sabe bem qual é sua queixa, a assessoria do bispo se apressou em rotulá-la de débil mental, eita solução fácil...). Mas reclamou de um modo muito rudimentar. Não só porque não lhe acertou um bom soco na cara -nisso o agressor do Berlusconi foi mais feliz- ou uma joelhada no saco (longe de mim acalentar esses desejos anticristãos!!) Mas porque sua contestação se limitou à pessoa física do bispo, patética, sim, naquelas fantasias de czar - e que se diz representante do Maltrapilho que morreu como um criminoso na cruz!! Czar patético, porém institucionalizado, sólido como uma rocha, assim como os traficantes da favela do Rio. Mata um e no dia seguinte tem outro, igualzinho ou pior, no mesmo lugar. E nem adianta ir reclamar pro bispo...
Assim como a política de segurança pública, a revolta política precisa hoje de mais inteligência. Escolher bem os alvos, os modos e as justificativas de suas ações. Não se bastar ao alívio de um impulso vago. Não se deixar seduzir pela máquina do brilhareco traveco, que te monta hoje pra te desmontar amanhã, depois de teu show ridículo, sob a alegação de que teu número já tá passadinho, de que já tem outro melhor na praça, ou motivo de economia, ou por outra desculpa qualquer..
Eu me lembro, quando da campanha política de 98, que demorei até umas 3 da manhã pra dormir, tamanha a emoção que tive em ver Paulo Maluf (franco favorito ao governo de SP) ser derrotado, destroçado, jogado à lona, no debate da Bandeirantes pelo querido e saudoso Mário Covas. Foi naquele instante glorioso que o cenário da campanha começou a se reverter, e uma derrota quase inevitável se transformou em vitória épica de Covas, nas urnas, uma semana depois.
Hoje, o maluf (putz, tem mal até no nome) anterior tá bem passadinho, há outros que, embora nascidos calvos de velhice, não de bebê, estão mexendo o rabinho satânico para as negas deles. Malufs da política, da teologia, do Papado. As mesmas paixões de outrora se acendem em mim, daí por exemplo a alegria de ver aquela "vitória de Mário Covas" ressurgir por exemplo no êxito de Obama, de Lula e, ano que vem, de Dilma.
Sei que fazer da política uma tela de projeções de si mesmo, do Bem e do Mal, do Tudo ou Nada, do maniqueísmo do desejo, é pouco, muito pouco, diante da complexidade do mundo real. Mas o homem se move a paixões, é pastor da Vontade, quando não é um gado do real nem um idiota da objetividade (Nelson Rodrigues). Que a paixão, ao invés de reprimida na a-patia (a-pathos) da aceitação de que o mundo "é" assim ou assado (os idiotas da natureza humana), seja conduzida com a rédea e músculos fortes da decisão pessoal e coletiva de matar não o pecador, mas o pecado, matar o mal pela raiz, quebrar a Instituição do Mal, não seus "mal-ufs" passageiros.Não ficar em casa assistindo a tudo, mas tampouco sair na rua pra fazer um gesto vão. Embora um bom acte gratuit (Gide) por vezes seja bem interessante, desde que mais eficaz.
Em suma, é de falta de razão política, não de razão mental, que sofre a "desequilibrada" que desequilibrou o bispo romano e o jogou no chão (João Paulo II pelo menos beijava o chão por querer).
Revoltados do mundo todo, uni-vos! Não numa única contestação, os malufs a desmascarar são de vários tipos, cores, orientações sexuais etc. Mas numa mesma chama, chamada porém a não ser gasta à toa no brilhareco midiático, mas convertida em combustível de programas revolucionários, que saibam destruir de verdade pra poder criar a Verdade.

Thursday, December 24, 2009

renasce em nós Libertador





Livro de Isaías 9,1-6.

O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles. Multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo; alegram-se diante de ti como os que se alegram no tempo da colheita, como se regozijam os que repartem os despojos. Pois Tu quebraste o seu jugo pesado, a vara que lhe feria o ombro e o bastão do seu capataz, como na jornada de Madian. Porque a bota que pisa o solo com arrogância e a capa empapada em sangue serão queimadas e serão pasto das chamas. Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz. Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites, sobre o trono de David e sobre o seu reino. Ele o estabelecerá e o consolidará com o direito e com a justiça, desde agora e para sempre. Assim fará o amor ardente do SENHOR do universo.
***

Evangelho segundo S. Lucas 2,1-14.
Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria. Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.»
***
S. Leão Magno, homilia para a Natividade do Senhor
«O Verbo, a Palavra de Deus, que é Deus, Filho de Deus, que estava junto de Deus no princípio, por quem tudo foi feito e sem o qual nada foi feito, tornou-se homem para libertar o homem de uma morte eterna. Humilhou-se para tomar a nossa condição, sem que a Sua majestade fosse diminuída. Permanecendo o que era e assumindo o que não era, uniu a nossa condição de escravos à Sua condição de igual ao Pai… A majestade reveste-se de humildade, a força de fraqueza, a eternidade de mortalidade: verdadeiro Deus e verdadeiro homem.»

Monday, December 21, 2009

assim falou Madame Satã (I)

Recebi esse recado nefasto da Marvada hoje de manhã, ao abrir os portais de minha choupana monástica para fazer minha oração matinal (Hegel), isto é, pegar e ler meus jornais. Indignado, traduzo o mais próximo possível do original, claro que sem alcançar plenamente, em meu pobre português, a polifonia que os comentadores minimamente decentes respeitam em todo clássico, e, sim, Madame Satã é uma clássica. Clássica Gada.
-Unzuhause-


Eu se posso polemizar, "causar", eu causo mesmo, que é meu jeito de me sentir, hmmm, "cravada" bem fundo pelo ódio alheio. Afinal, amo o Mal, óoooh Mal amado meu.......ah, artimanhas de gostar de não se gostar de si mesma.....isso não é pra qualquer um, é preciso ser o Eleito pra isso. Mas hoje venho assombrar meu irmão Unzuhause, no deserto profundo, com palavras mais natalinas: tenha mais caridade e bondade no coração, cabrito! Seus textos andam muito irritados e irônicos comigo, não é isso que se espera de um santo.... E, afinal, antes de santo, seja sensato: sou a imperatriz filosófica do Brasil, terás de me aturar por muitos e muitos anos, exibindo meu rabinho pra ti e pra todos aqueles que eu quero deixar vermelhinhos de raiva, pois o ódio alheio me faz aparecer, ser visível, existir, é um punho fundo nos fundilhos de minha alma!!!!!!!! Ohhh, meu instinto é provocar, já quase perco a aura natalina, e nesses dias quero ser uma cristã, uma genuína cristã-nova, novíssima, ainda que passadinhaaaa...meu reino não teu idade, bobinho! Nada crio, tudo repito, já me chamaram de parasita, até de vagabundo, eu de fato vago mundo, adoro passar a mão no que não é meu, adoro mais ainda que passem a mão no que é meu, mas desde que o mundo é mundo estou aqui, vivinha da silva, no meu santo "trono", sentada no trono, devolvendo pra baixo, nossa, ia escrevendo bixa, o que me enfiaram embaixo, nem precisei ler Darwin ( ler não é meu forte) pra cumprir à letra o que ele disse. Aiiiiii, aliás, amo, e como amo uma boa letra ereta comprida dentro de mim, sou mais da letra que do espírito, que é impalpável e não dá dinheiro!!
Bom, a ti, meu irmão, e a todos os visitantes deste Monastério no deserto, fica então meu feliz Natal, e não esqueçam de mim em suas preces, pois já dizia Nelson Rodrigues, que seria da luz sem a sombra de um dark room da Loca!!!!! uiiiiiiiiii

-Madame Satã-

Thursday, December 17, 2009

rumo ao Natal (II) - o arquétipo da Criança Divina

Carl Gustav Jung

"A criança é o futuro em potencial. Por isto a ocorrência do motivo da criança na psicologia do indivíduo significa em regra geral uma antecipação de desenvolvimentos futuros, mesmo que pareça tratar-se à primeira vista de uma configuração retrospectiva. A vida é um fluxo, um fluir para o futuro e não um dique que estanca e faz refluir. Não admira portanto que tantas vezes os salvadores míticos são crianças divinas. Isto corresponde exatamente às experiências da psicologia do indivíduo, as quais mostram que a 'criança' prepara uma futura transformação da personalidade. No processo de individuação antecipa uma figura proveniente da síntese dos elementos conscientes e inconscientes da personalidade. É portanto um símbolo de unificação dos opostos, um mediador, ou um portador de salvação, um propiciador de completitude. (...) Designei esta inteireza que transcende a consciência com a palavra si-mesmo (Selbst). A meta do processo de individuação é a síntese do si-mesmo".

C. G. JUNG

Wednesday, December 16, 2009

rumo ao Natal (I) - na manjedoura interior


"Evita, quanto puderes, o bulício do mundo; porque o comércio do mundo causa muitos embaraços ainda quando se trata com intenção sincera.
Bem depressa somos manchados e cativos da vaidade.
Muitas vezes quisera ter-me calado e não ter estado entre os homens.
Porém, qual é a causa porque de tão bom grado falamos e praticamos uns com os outros, vendo quão poucas vezes voltamos ao silêncio sem dano de consciência?
A razão disto é porque pretendemos ser consolados uns pelos outros com semelhantes conversações, e desejamos aliviar o coração cansado de sensações diversas.
E de boa vontade nos detemos em falar ou pensar das coisas que amamos ou desejamos, ou das adversas que sentimos".

Imitação de Cristo

Tuesday, December 08, 2009

o super-homem na UTI

Mário Bortolotto
Não escrevi nada desde que soube do acontecido contigo neste sábado. Preferi remoer calado e dependurado na internet à procura de notícias minuto a minuto.
Uma que estou com o saco literalmente na Lua, para além do ponto ótimo da angústia que dá vontade de escrever. Outra que meu desânimo só cresce ao imaginar certos lixos humanos (?) que têm acesso a meu endereço deste Monastério, e a vontade é mínima de jogar pérolas às porcas. Embora eu saiba, embora eu sinta também a presença dos companheiros monges, gauches, solitários buscadores, errados eremitas errantes como eu.
Minha fobia social só tem piorado nesses dias de blecautes e enchentes, e minha impressão da humanidade, com base no que vejo em suas piores espécimes (e a depressão nos faz fixar justamente esses rostos podres), é a de uma espécie de lixos bípedes que nem aterro sanitário suportaria abrigar, ganharia pernas e braços de lata e sairia correndo.
Pois saber que você está entre a vida e a morte numa cama de UTI, por conta de uma tentativa de assalto resultante em 3 tiros em você, só piorou este meu quadro. Você numa UTI, eu também, minha velha UTI da descrença em tudo, da esterilidade absoluta. Dos rostos da morte, enxofres do Nada.
Pois você há anos é pra mim um dos rostos do contrário de tudo isso: rosto da alegria, da força, virilidade, da dignidade humanista, criatividade, do tesão de viver. Lembro dos nossos sórdidos botecos, você com sua galerinha de artistas, eu como jornalista, sobretudo como fã de carteirinha, tendo, é claro, de me conter, em nome da "liturgia do cargo", mas me sentindo, no plano sincronístico, um neófito em teus mistérios, tímido e fascinado, fingindo trocar idéias quando o que eu mais queria era te ouvir, adoro teu jeitão, voz grossa, modos de malaco underground, sem precisar afetar ser o que naturalmente é, sem precisar fazer ecos numa cacofonia de "citações-perucas" das pobres almas carecas; sobretudo me realizava aprendendo e gargalhando contigo e por tua causa, Mario meu pai, nome de meu pai. Mais que pai, eu te vejo como o irmão mais velho, como te disse quase aos berros, te brindando, eu pra lá de Badgá, naquele bar na saída do teatro no Centro Cultural Vergueiro (aliás, que merda está o CCSP não? abandonado, sem peças, precisa de você urgente, de outra de tuas mostras , ou melhor ainda, você assumindo o espaço como diretor cultural).
Você é o brother malucão que eu gostaria de ter tido desde a infância, um mestre moleque pra me ensinar tudo da vida escrota e esplêndida, o "véio" (por que justamente os jovens gostam de se chamar uns aos outros de "véios"?) que me defenderia e estimularia nas brigas de rua, me daria os truques de "catar as minas" que eu quisesse na balada, de beber sem ter enjôo depois. Que me faria crescer menos confuso, ou ao menos com a glória de ser contigo dois perdidos na noite suja tão bem versejada em sangue e pus e poesia por Plínio Marcos, teu ancestral mais direto no teatro paulistano.

Ah Mario, não vou destilar aqui o ódio que me assedia, verbalizando o que sinto sobre aqueles fascínoras que -como que saídos de alguma de tuas peças, melhor dizendo, de teus tratados poéticos sobre a noite escura dos submundos da metrópole, nosso longo blecaute na barbárie-, fascínoras, eu dizia, que subiram, não da arte, subiram do esgoto do Real e vieram pra rua, e invadiram e profanaram o teatro, e te machucaram desse jeito. Não, eu renuncio a pôr mais ódio nesse mundo já tão saturado de ódio quanto a Marginal Tietê fica transbordante de água e lama num dia como hoje. Ou tento renunciar, que a carne, a alma inferior, é fraca e às vezes é preciso pedir socorro pra voltar ao caminho da evolução, socorro que, na falta de homens de verdade (que vão escasseando nessa era de covardes e omissos), resta buscar junto aos super-homens da minhas bíblias, e antes disso de meus gibis, minha primeira escola da paixão pelos seres excepcionais. Você é sem dúvida um desses heróis de minhas bíblias e gibis, e herói encarnado. Brincando com um termo caro a seu amado Kerouac, você é um desses "vagabundos iluminados " que procuram Deus na noite erma nas placas de neon de uma railway (pra lembrar um trecho de teu inesquecível monólogo "Kerouac", primeira vez que te vi nos palcos, e fui às lágrimas). Bodissatva à la Bukowski, bardo beatnik da Roosevelt, praça do descaso dos políticos, do desamparo e violência, mas que você e sua turma de sátiros e parlapatões souberam revitalizar de cultura e reconverter em altar de Baco, embora hoje de novo altar ameçado pelo lodo ácido da brutalidade.
Você, um bêbado de Deus, brilhando entre bares e teatros em pleno inferno da cidade grande nanica de espírito. Super-homem. Ah Mário.. É tão seu, tão nobre e tão temerário, esse gesto que agora pode te custar (e nos custar) tanto. Ter reagido ao canalha que deu uma coronhada na tua amiga... Super-homem.
Força, Mario. Não vai embora. Precisamos de você. Os blecautes e as enchentes ficariam ainda menos suportáveis se eu não tivesse gente como você em quem pensar nas horas de desespero, de UTI espiritual, de naufrágio na escuridão e na cegueira sem bíblia nem gibi.

Monday, December 07, 2009

o ocaso de Madame Satã


UFAAAAAAAA! Todo visitante, dos fedidos aos bem-vindos, deste Monastério vesuvial estava CARECA de saber de meu apoio, na reta final do Brasileirão, ao Flamengo, torcida declarada aqui há mais de um mês. E me dei bem, como aliás foi a regra nesse ano vitorioso para nós corintianos, campeões de tudo o que nos interessava (Paulista, Copa do Brasil com vaga pra Libertadores). Valeu Dennis! Valeu amigos todos da imensa nação rubro-negra, a segunda do país depois da nossa amada massa corintiana. Ano que vem, porém, esse pacto de paz acaba: a gente se encontra na Libertadores, aí o bicho vai pegar ... Que lindo seria uma final Corinthians e Flamengo, por incrível que pareça os dois maiores times brasileiros jamais disputaram um título, uma final.
Por ora, MUITO OBRIGADO por, dispensando qualquer Viagra, essa panacéia universal dos impotentes, ter tido a coragem de enfiar (com camisinha) o cacete no cú até sair pela boca da Madame Satã, que era até ontem, por 3 longos anos, a imperatriz "filosófica" do Brasil (a grande filosofia concreta deste país, enquanto meditação autêntica, original e sem peruca sobre a existência, se escreve espontânea, bela e brutal no e em torno do quatérnio alquímico de um campo de futebol, como tão bem o sabia nosso mestre Nelson Rodrigues). Foi o fim do reinado satânico da monstrenga arrogante, bicha véia, bicha loka que só ela. Mais patética ainda quando tenta falar como hominho. Ahhhhh "me engana que eu gosto".. tu é gay,tu é gay que eu sei, homem pra lá de insuficiente.......
AQUELE ABRAÇO, TORCIDA DO FLAMENGO..!!

Wednesday, December 02, 2009

novo nocaute nos falcões do atraso


02/12/2009 - 15h57
EUA autorizam pesquisa com células-tronco embrionárias de humanos
da Folha Online

Em decisão inédita, a administração de Barack Obama aprovou 13 pesquisas com células-tronco embrionárias de humanos para experimentos científicos. Pesquisadores serão financiados pelo governo dos EUA, sob uma nova política designada para expandir o apoio governamental para um dos mais promissores --e controversos-- campos da pesquisa biomédica. As informações são da edição on-line do jornal "Washington Post" desta quarta-feira (2).
Em março, Obama já havia revertido
a medida de seu antecessor, George W. Bush (2001-2008), por meio de um decreto liberando o uso de dinheiro público para o estudo.
Agora, o Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês) autorizou 11 linhas de pesquisa com células pelos cientistas do Hospital Infantil de Boston e duas linhas criadas por pesquisadores da Universidade Rockefeller, em Nova York. Todas as células foram obtidas de embriões congelados, deixados por casais que procuraram tratamentos de infertilidade.
É uma mudança real no panorama", disse o diretor do NIH, Francis Collins. "É o primeiro investimento no que virá a ser uma lista muito longa, que vai dar poder à comunidade científica para explorar o potencial da pesquisa com células-tronco embrionárias."
Ainda de acordo com o "Post", o movimento foi aclamado por todos os apoiadores da pesquisa como uma longa espera, um divisor de águas que finalmente permitirá que cientistas usem milhões de dólares arrecadados pelos impostos para estudar centenas de linhas de células-tronco --algo que foi limitado e restrito pelo antecessor de Obama, George W. Bush, cujo impedimento se sustentou sob o argumento moral.
"Era isso o que estávamos esperando", disse a cientista Amy Comstock Rick, da Coalizão para Avanço da Pesquisa Médica, grupo que lidera os esforços de lobby para desamarrar as restrições federais na pesquisa. "Estamos muito animados."
Na era Bush, a verba federal para cientistas era limitada para determinadas linhas de pesquisa com células-tronco, que foram muito criticadas como improdutivas e deficientes. As regras de financiamento na separação de financiamento público e privado foram erigidas de forma "burocrática e desajeitada", diz o jornal --o que acabava por frustrar diversas formas de verba.
Agora, embora as pesquisas com células-tronco embrionárias poderão ser elaboradas a partir de financiamento privado e público, que permitirão experimentos em uma variedade de linhas, expandindo o número de cientistas e tipos de experimentos.
Reação moral
O anúncio, entretanto, foi condenado por opositores das pesquisas, cujo argumento principal se fundamenta na falta de ética e no suposto fato de que o trabalho é desnecessário, porque há disponibilidade de células-tronco adultas e outras alternativas recentemente identificadas.
"Eticamente, nós não acreditamos que qualquer contribuinte de impostos tem que financiar as pesquisas que destroem a vida humana em qualquer estágio", disse Richard M. Doerflinger, da Conferência de Bispos Católicos dos EUA. "Mas a tragédia disso é multiplicada pelo fato de que ninguém pode pensar que tipo de problema pode ser resolvido por estas células."
O diretor da NIH, cristão evangélico que descarta o conflito entre ciência e religião, defende o trabalho. "Acho que há um argumento que pode fazer que isso seja eticamente aceitável", disse Collins. "Se você acreditar na inerente santidade do embrião humano."
Muitos cientistas acreditam que as células-tronco embrionárias vão permitir conhecimento fundamental nas causas de muitas doenças, e que poderão ser usadas para curar diabetes, mal de Parkinson, paralisias e outras enfermidades. A extração das células, contudo, destrói embriões com poucos dias de idade.

Sunday, November 29, 2009

com a mão mal-assombrada de Deus (pelo primeiro domingo do Advento)

Clarice Lispector

"Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar. Essa coisa corajosa que será entregar-me, e que é como dar a mão à mão mal-assombrada de Deus, e entrar por essa coisa sem forma que é um paraíso. Um paraíso que não quero!"
Clarice Lispector,
A Paixão segundo G. H.

Monday, November 23, 2009

prolegômenos para uma clínica trágica do cu dado e do pau murcho (desabafo de um compagnon de route da Revolução vermelha de novo traída)




Peruca filosófica para carnaval javanês; Madame Satã, a princesa metafísica deste mundo mau

Porra, Bambizona recalcada, vc é rabuda hein? Perdeu feio e nem assim largou o osso.. Porra Urubu, negar fogo justo na hora de comer a bicha, faltou Viagra?? Mesmo com aquela torcida maravilhosa que lotou o Maracanã, -Maracanã, meu Maracanã, a Jerusalém brasileira, de realidade conflitual, contraditória mas de realidade sonhada que é uníssona no fervor, templo sagrado que os vendilhões imbecis, aliás, estão esperando gulosos pra fechar em dezembro, por TRÊS ANOS!!!!!!!!! É, dizem, para "melhorias", no bolso dos safados, em prol da famigerada Copa do Mundo de 2014. Ah, vão fazer cocô e comê-lo de merenda, vão.. vcs, cartolas biscateiros, vcs jogadores pipoqueiros, vcs são o retrato da anemia brasileira, do zero a zero da inércia, do pau mole na hora de dar alegria pra Massa, vcs são o pau murcho da Elite parasita, vcs são o sintoma podre e contaminado de um Brasil que frustra o povo, veta as Diretas, interdita os Maracas, assanha as Maricas, deixa a Massa na mão na hora do clímax, coito interrompido, e reelege pra rei-momo tupiniquim, pra princesa da Sapucaí de suas farsas vagabundas, sempre os mesmos viados aburguesados, cristãos-novos do fascismo de careca morena, sem nada de cristão, e menos ainda de novos, bem velhinhos e velhacos, macunaímas que escondem a careca na peruca de dotô, amarram o focinho em máscara de malévolo jason (ou melhor, de jasonarva marvada), que negam a cor se lavando de sua maldição, arrotam em bibliografias pomposas e falsificadas o "russo" e o "grego" que não entendem, porque o que entendem mesmo é de javanês. Ah meus caros lixos humanos (caros sem puxa-saquismos baratos, que tô cagando pra vcs e não preciso ficar "dando tudo" em prol de agradar o patrão superego que se proíbe o amor maldito na vida e o posterga e o "apostila" pra tema de palestra patética, pra fazer dinheiro, velha compulsão intelectu-anal), vão todos, com todo respeito e consideração que merecem de mim, vão todos dar e tomar no anelzinho dos seus cús!

Sunday, November 22, 2009

o que faz você feliz (fora do supermercado)


Chico Xavier

"Trabalha -não ao jeito de pião consciente enrolado ao cordel da ambição desregrada, aniquilando-se sem qualquer proveito. Age construindo.
Ganha - não para reter o dinheiro ou os recursos da vida na geladeira da usura. Possui auxiliando.
Estuda - não para converter a personalidade num cabide de condecorações acadêmicas sem valor para a Humanidade. Aprende servindo.
Prega - não para premiar-se em torneios de oratória e eloquência, transfigurando a tribuna em altar de suposto endeusamento. Fala edificando.
Administra - não para ostentar-se nas galerias do poder, sem aderir à responsabilidade que lhe pesa nos ombros. Dirige obedecendo.
Instrui - não para transformar os aprendizes em carneiros destinados à tosquia constante, na garantia de propinas sociais e econômicas. Ensina exemplificando.
Redige - não para exibir a pompa do dicionário ou render homenagens às extravagâncias de escritores que fazem da literatura complicado pedestal para o incenso a si mesmos. Escreve enobrecendo.
Cultiva a fé - não com o intento pretensioso de escalar o céu teológico pelo êxtase inoperante, na falsa idéia de que Deus se compara a tirano amoroso, feito de caprichos e privilégios. Crê realizando".
Francisco Cândido Xavier & Waldo Vieira,
Opinião Espírita

Tuesday, November 17, 2009

alma em estado de prece (post 97)


Estava em alegria pela chegada iminente ao post 97, que representaria a quebra do recorde de textos por ano desde a fundação deste Monastério, em 2005. Mas indeciso sobre o que escrever, pois meus dias estão sobrecarregados de tarefas que não me deixavam muita margem para vir falar senão pelo silêncio. Foi quando, ontem, em meio ao vento e ao verde de um oásis de paz, em que enfim minha alma se sentia em condições de prece, depois de horas tensas de travessia de uma cidade que me asfixia, recebi, em páginas logo gotejadas pela chuva que chegava (mas sem a violência hominídea que contaminou até o tempo nestes tempos de ruína ecológica da alma e do mundo), recebi, eu dizia, uma linda supresa poética de mestre Fernando Pessoa - e que linda poesia não é surpresa, e que linda surpresa não é poesia?
-Unzuhause-

"Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte!
O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!
Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também.
Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar.
Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu.
Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos.
Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
Minha vida seja digna da tua presença.
Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim;
e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu.
Senhor, livra-me de mim.

Prece
-Fernando Pessoa-

Monday, November 16, 2009

peladius em sanctius


Santo Antão

Tédio mortal
Tudo um lixo
Tudo cocô
Acídia
Preguiça
Raiva, nojo
Tumulto de túmulos

Dentes amarelados
Ternos desbotados
Leite envenenado
A goteira de mijo
Nau dos loucos sambando peladius em sanctius
Socorroooooooo

"Assim como os peixes em terra seca, os monges perecem se, afastados de suas celas, residirem com os homens do mundo, ou perderem a determinação em perseverar na oração solitária. Portanto, assim como os peixes voltam para o mar, nós devemos voltar para nossas celas; dessa maneira, não ficamos no exterior e não nos esquecemos de cuidar do nosso interior".

Santo Antão


Oração a Santo Antão

Ó Deus, que permitistes que, mesmo na solidão de uma gruta, no deserto, o demônio perturbasse Santo Antão com violentas tentações,
mas lhe destes força de vencê-las,
enviai-me, do céu, o vosso socorro,
porque eu vivo num ambiente minado de tentações que me agridem, pelo rádio, televisão, novelas, bailes, cinemas, revistas, propagandas e maus companheiros. Santo Antão, ficai sempre ao meu lado;
vós que vencestes o demônio,
na aparência de um bicho imundo,
me dareis força na tentação.
Na hora da tentação, socorrei-me Santo Antão.


Amém.

Wednesday, November 04, 2009

do cavalo sedado ao complexo do Mal-amado

Sonho [esta noite]- Dois cavalos brancos escondidos sob panos, dormindo (não sei se sedados), sendo levados por algumas pessoas, acho que família, em pleno trem do metrô de SP, eu também estava lá e testemunhei. Um dos cavalos, a certa altura, está acordado, aproxima o rosto de passageiros (assustados), mas não faz senão um gesto de afago (lambida), lembrando mais um cachorrinho. Em dada estação um dos cavalos é descido, acho que o outro demonstra tristeza pela separação.
As pessoas, a seguir, estão já caminhando numa estação (é grande), ao lado do cavalo que restara, elas não aparentam preocupação ou receio de serem admoestadas pela administração do metrô.

Metrô, pra mim, símbolo de sufocação, massa, desconforto, homens transformados em gado, esvaimento de energia, barulho manicomial, tentativa de me refugiar do caos em alguma leitura impossível, "comunicação" nada habermasiana (aquela bobagem da comunidade de agentes racionais em comunicação democrática, bobagem que, morta e desencarnada nos infernos subterrâneos de uma cidade como esta, mostra o que era em vida, ou melhor, no delírio do "homo teoricus" superficial e achista, mera ideologia burguesa, mais uma mentira).
O sonho mostra o choque de opostos. Ou melhor, a unificação dos contrários pela repressão de um dos pólos. O cavalo no sonho dorme ou é sentimental, pacato, "pacato cidadão" (Skank), longe de sua primitividade, impulsividade, criatividade, força, virilidade. Além disso temos o rebaixamento de um veículo de transporte natural, de tempos antigos, marca de individualidade (do cavaleiro), assujeitado agora ao transporte de rebanho, que pasteuriza, mistura, controla, conduz.
Infelizmente a dimensão essencial da violência não é hoje senão motor banalizante do sistema de dominação burocrática "metrô-politana" pesando como o calor ou temporal inumanos sobre o nosso ir, vir, pensar e fazer, estar e ser. A violência está sequestrada pelos canalhas do banditismo, que abastardam a também sagrada energia do Mal.. ou ainda pode virar, como terceira variante patológica, o que poderíamos chamar de um complexo do "Mal-amado", quimera compensatória do nerd loser que sai atirando nos colegas numa universidade americana, ou apenas se vinga dos outros e de si mesmo com o roer calado, abafado como o masturbador escondido no banheiro, remoendo seu ódio a tudo quanto apareça de legal e de bom astral nos coleguinhas odiados da escola, sobretudo nos mais generosos, nos mais "obamas"; é o superpoder do ressentimento, do pessimismo-fetiche, do pessimismo como critério de caráter quando o caráter é mera questão teórica, ismo abstrato, alma oca, o culto do Mal como auto-justificação da mediocridade moral e kriptonita com que se tenta estigmatizar e rebaixar toda utopia revolucionária, que não é boa nem má em si, porque o homem não é nada em si, é o que faz de si, para além do bem e do mal, é quem cria seus valores por suas ações; o complexo do "Mal-amado" é o amor ao Mal dos privados de amor, que não sabem ser maus o suficiente para também reverenciar e lutar pelo amor do Bem.
Vamos cavalgar de volta ao tema do meu sonho, e buscando novas amplificações simbólicas (método de C. G. Jung) do drama nele contado. No Rig-Veda, escritura religiosa arcaica do hinduísmo, não por acaso o "horse" (o termo em inglês faz mais jus, é quase onomatopaico, em relação ao ente que ele designa) é uma das imagens utilizadas em Hino em adoração ao deus do fogo, Agni; o trecho a seguir é em especial uma exaltação da Juventude:
"Como uma abundância agradável,
Como uma rica morada,
Como uma montanha com suas potencialidades,
Como uma onda salutar,
Como um cavalo que se precipita pelo caminho de um só ímpeto,
Como um rio com suas vagas, quem poderia imobilizar-te!"
Juventude - tempestade e ímpeto (Goethe), áurea verde árvore da vida, ao contrário do cinzento cadavérico da mera teoria, do tentar "ler no metrô" quando o mundo, o metrô, esquife de centopéias alucinadas, não pode mais ser lido, e sim ressuscitado, transformado, o tempo das filosofias mortas está morto, já nos comunicou Marx. É tempo de praxis, de ação, de atuação, o que remete ao cântico que abre uma das partes da epopéia Os Sertões, do Oficina de Zé Celso Martinez Correa, epopéia do homem no deserto (também o deserto urbano, "metrô-politano"):
"Atuar, atuar, atuar pra poder voar (2x)
Meu cavalo tá pesado, meu cavalo quer voar"
E, por fim, sem, evidentemente, exaurir todas as possibilidades semânticas dessa imagem arquetípica universal que é o cavalo, temos um exemplo do animal associado aos valores do heroísmo, à santidade da força, da guerra, em um cântico a São Jorge, na Umbanda, religião aliás onde o médium é denominado "cavalo" do espírito que nele escolhe se manifestar:
"Em seu cavalo branco ele vem montado
Calçando botas, ele vem armado
O vinde , vinde , vinde Nosso Salvador
O vinde , vinde , vinde São Jorge defensor
Em seu cavalo branco ele vem montado
Calçando botas, ele vem armado
O vinde , vinde , vinde Nosso Salvador
O vinde , vinde , vinde São Jorge defensor".

Thursday, October 29, 2009

um "a-luno" no te-ato de Marilena Chaui


Marilena Chaui
Minha Nossa Senhora da Filosofia...amo-te tanto, Mulher-colosso, amo-te com a angústia de quem ama, porque quem ama é refém de algo que transborda e escapa de toda reles capacidade de apreensão do amado pelo amador... ao invés de apreender, fico apreendido, fico apreensivo, inquieto, querendo ser Super-Homem o bastante pra parar o tempo, reverter a sina, girar a Terra ao contrário e assim poder estar no banco escolar ou nas barricadas da Maria Antônia, onde fosse, mas ao teu lado, engajado nas tuas lutas, lutas que mais que tuas, são da Humanidade, mas que graças a ti ficam mais belas, mais densas, mais dignas de nosso suor e sangue.

Ao te escutar, me vem à mente um misto de delícia pelo privilégio, mas de carência, que ligo, por livre associação, sem base "científica", à etimologia (que muitos linguistas detestam e contestam) de "aluno" como ente "sem-luz" , segundo o sentido de negação da partícula "a".

Sim, "a-luno" sem luz porque esmagado pelo sentimento de te dividir com sombras de multidões outras de admiradores "alunos"... e como meu amar é egoísta, como meu amar é ciumento e caprichoso!! rsrsrs. Porque os holofotes, não os da vaidade tola, mas os da hosana espinosana da alegria de ser, incidem sobre ti, fazem da tua aula palco, acontecimento, rito, e minha ânsia de ator salta na boca querendo que as coisas que tu dizes se transmutassem em carne, incêndio e ação, e que eu estivesse nesses enredos, enredado ardente nas batalhas e engajamentos que afinal dão sentido e espessura histórica à figura (hoje tão desgastada, banalizada, quando não folclorizada pelo servilismo fácil e chacrinha) do intelectual.
Te assistir é como assistir a Zé Celso Martinez Correa, não é teatro, é "te-ato", me ata, me amarra e me arrasta, mexe com meu corpo, desvela uma cidadania de alma que contudo não é minha, "só" minha, não existe na privatividade do ego privado (privado "de"..., despossuído). Minha interioridade agostiniana sangra no furo da angústia, me descubro fora de mim, numa cena coletiva de que infelizmente nunca dei muita sorte de participar com felicidade, "cidadão" privado que sou num aion pessoal e coletivo de isolamentos, pânicos privados e temíveis massas barulhentas e caóticas de gente e coisas. Entre o estar privado de público e a privada pública, a política é sufocada, degenera na fedorenta politicagem miúda dos pavões apavorados, e com o fim da política se esvai a vocação (chamamento) do ser a se realizar em ato. Te-ato.

Fico então num silêncio e numa virtualidade que correm a descarregar suas tensões no refúgio do mais ler, do mais escrever, calado, até porque qualquer coisa que eu dissesse, no espetáculo de tua presença, seria apofaticamente um desperdício. Fazer "perguntas" a ti numa sala de aula, numa palestra, sempre me parece algo completamente supérfluo, como quem quebrasse o magnetismo do Sagrado. Não por alguma intolerância tua em responder, mas simplesmente porque já nos lançaste, quando chegado o momento protocolar das perguntas, a outra dimensão de questionamentos e perplexidades, que a mera linguagem banal de nossas imaturidades "alunas" só faria apequenar.

Amo-te Marilena. Que Deus te preserve sempre em saúde e pujança de alma e de corpo, e que eu tenha (ou melhor, hospede) o mais possível tais dons pra ser-te fiel, sempre "aluno" ante ti, mas emissário da Luz que és tu mas que não é só tua, e que eu possa fazer pão e peixes das migalhas de sabedoria que eu mereça recolher de ti e deste banquete socrático de que fazes parte junto ao seleto grupo dos grandes da História.

Tuesday, October 27, 2009

água paralítica



Rio sem Discurso
João Cabral de Melo Neto

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

Friday, October 23, 2009

nas catacumbas


Dom Hélder Câmara (1909-1999), nascido há 100 anos

Os profetas são exceções, assim como o são as eras proféticas: uns e outras são estrelas que surpreendem, com seu apelo e sua prática da justiça e da misericórdia, o céu escuro da pesada Lei histórica, lei da ordem e da mera adaptação, habitat darwinista e maquiavélico, de cargos e verbas e poder abocanhados pelos espertos, covardes e seus conchavos.
Rezo a Deus que me poupe de ressentimentos contra minha Santa e Pecadora Madre Igreja. E que em troca me conceda o dom paradoxal da resignação ativa, o otimismo prático e pessimismo teórico que partem do princípio de que, das altas hierarquias, sempre houve e haverá mesmo muito pouco a esperar. O que nem por isso legitima a preguiça gorda de nada fazer ou pior, de me aproveitar da acomodação com fins de gloríola pessoal. Ao contrário, a situação mais opressiva é aquela, como dizia Sartre, em que o homem mais é livre, e portanto mais responsável por si e por todos.
Um João XXIII só poderia mesmo ser um estranho no ninho na mesma cúpula que, poucos anos depois, se vê ocupada por gente do naipe de Ratzinger.
Os "sinais dos tempos", grito dos oprimidos que nos anos 60 e 70 os profetas -relembrando a tradição judaico-cristã mais autêntica- exigiam que fosse escutado pela Igreja instituída, na verdade falavam, e falam hoje e sempre à Alma em vias de evolução "histórica" interior e exterior.
Falam portanto não às moscas e bozos da praça pública, mas nas catacumbas da História, nos espaços de refúgio e resistência da individualidade e da comunidade, jardins floridos da fé vivencial. Il faut cultiver notre jardin!
E para tanto o profetismo nos ilumina, como memória revolucionária viva. Daí minha vontade de compartilhar o seguinte material com meus irmãos de fé. Vejam bem, não se trata de "irmãos" de credo nem de cruz-credo, mas daqueles que, das ideologias e temperamentos mais diversos, não obstante vivem (tanto mais quanto menos se preocupem em o nomear e conceituar) o espírito de Cristo.
Esse mesmo espírito de Cristo que santo Agostinho exigia daquele que ousa pôr as mãos no Texto Santo, daquele que se aproxima dos tesouros da fé e da Tradição sem a mera "curiositas" parasitária ou a cobiça da apropriação filistina.
O material abaixo, eu dizia, se destaca entre os tesouros da memória revolucionária dos amigos de Cristo de todas as eras.
Que mais que letra morta ou prato de cupim acadêmico, ou ainda consolo comido com a baba água-com-açucar das nostalgias bobas, seja inspiração de fogo que queima e exige ação dos que ouvem o chamado do Redentor nas catacumbas e manjedouras da pobreza em que nasce sempre de novo o Menino-Deus .
Amém - Amem

***

A igreja das catacumbas

por Maria Clara Lucchetti Bingemer
http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=13407&cod_canal=47
Neste ano em que se celebra o centenário de Dom Helder Camara, muitas lembranças e recordações do grande Dom, que foi um dos presentes maiores de Deus à Igreja do Brasil têm sido desentranhados e trazidos à luz novamente. Limpos da poeira do esquecimento por nossa às vezes curta e ingrata memória, brilham como estrelas de primeira grandeza realimentando nossa vida espiritual e nossa capacidade ética.Talvez um dos mais importantes seja a re-visita do chamado Pacto das Catacumbas. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, cerca de 40 Padres Conciliares celebraram uma Eucaristia nas catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Após essa celebração, firmaram o "Pacto das Catacumbas" .O documento é um desafio aos "irmãos no Episcopado" - aos bispos presentes, portanto, - a levarem uma "vida de pobreza", a construir uma Igreja que se queria "servidora e pobre", como sugeriu o papa João XXIII. Os signatários - dentre eles, muitos brasileiros e latino-americanos, sendo que mais tarde outros também se uniram ao pacto - se comprometiam a viver na pobreza, a rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral.
O texto teve forte influência sobre a Teologia da Libertação, que despontaria e floresceria nos anos seguintes.Um dos signatários , propositores e mesmo articuladores do Pacto foi Dom Hélder Câmara. O belo texto do Pacto é altamente inspirador para toda a Igreja hoje como ontem. Aqui o transcrevemos do livro "Concílio Vaticano II", Vol. V, Quarta Sessão (Vozes, 1966), organizado por Dom Boaventura Kloppenburg, pp. 526-528.

PACTO DAS CATACUMBAS DA IGREJA SERVA E POBRENós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:
1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.
9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.
10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.
11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:• a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres; • a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria. 12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:• esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles; • suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo; • procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...; • mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10. 13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS. Com essas humildes e fervorosas palavras terminavam os bispos seu pacto. Elas precediam suas assinaturas. Que a mesma prece habite nosso coração e que o pacto das catacumbas, devidamente adaptado a nosso estado de vida, quer sejamos leigos, religiosos ou clérigos, possa ser o norte de nossas vidas.

Monday, October 19, 2009

meeeeeeeengoooooooo !!!!!!!!!



Meu mestre Nelson Rodrigues (vejam bem, não é Nerso da Capitinga) cunhou, em Otto Lara Resende ou Bonitinha mas Ordinária, uma frase célebre e apimentada (vejam bem, não é forçação de barra de quinta categoria, comprada no Paraguai): "O mineiro só é solidário no câncer".
Todo mundo tá CARECA de saber que piada só é engraçada se tiver algum pecadilho. Não sei se no Paraíso dos chatos e dos clínicos trágicos do Mal haveria ainda gargalhadas... suspeito que não.
É que a gargalhada é uma abolição provisória das censuras morais, dos sofrimentos e ressentimentos de que se nutrem e engordam os divãs trágicos dos clínicos trágicos.
É o instante em que nos permitirmos afetos primitivos que nossa própria consciência moral reprovaria.
Posso muito bem simpatizar, e simpatizo, com muitas pessoas que na cama preferem gente do mesmo sexo, mas por serem legais, não pela preferência na cama, que pouco me importa, e posso ser a favor dos direitos dos gays (e grande parte dos gênios da humanidade eram gays) e rir de um esculacho na bicha enrustida e seu modo tradicionalmente agressivo de tratar os outros.
Como bem sabem os clínicos, trágicos ou não, os outros são espelhos distorcidos em que essa bicha pode gostosamente descarregar tragicamente o ódio e inconformismo trágicos que tem contra si própria.
Voltando ao mestre Nelson, e à sua frase deliciosa "o mineiro só é solidário no câncer": expressão bem-humorada de um profundo pessimismo acerca da generosidade humana.
E eu descobri como isso funciona num terreno caro a Nelson: o futebol. Sim, Nelson não tinha vergonha de se assumir do povo, não negava suas raízes num macunaímico delírio de grandeza e autopurificação na água regeneradora da farsa e do cruz-credo trágicos.
Que descoberta futebolística foi essa, caro leitor (sem puxa-saquismos tá? rs) ? Quando do rebaixamento do Timão em 2007, vi espalhada pelo país uma alegria perversa, de todas as torcidas, não só a das BICHAS e dos porcos. Desde então, em retribuição (pois ódio só gera ódio), jurei que, afora a paixão pelo Timão, jamais simpatizaria novamente com esse ou aquele time, um por ser popular, o outro por ser alvinegro, um terceiro por jogar futebol de qualidade e de garra, enfim, por times que lembrassem palidamente, em algum traço qualquer, o insuperável Sport Club Corinthians Paulista.
Mas confesso: não dá. Ainda mais depois da vitória de ontem em pleno Chiqueirão, EU SOU MENGOOOOOOOOOOOO NESSA RETA FINAL DO BRASILEIRÃO.
Pois nós corintianos estamos já de férias, esperando a Libertadores do ano que vem; o campeonato atual já não nos interessa, desde que, claro, não tenhamos a arrogância burra (e todo arrogante é tragicamente um BURRO TRÁGICO) de entrar com pé mole nos jogos e perder até ir para o buraco (deus me livre!) do birrebaixamento.
O Flamengo tem uma linda torcida, tem uma energia fantástica, é síntese do Rio que eu adoro, do sotaque carioca que às vezes eu gostaria de ter rsrs.
Gosto do Andrade, craque da geração dos anos 80 e ser humano de uma extrema humildade, apesar dos preconceitos que ainda incidem em pleno futebol brasileiro contra os técnicos negros (absurdo, não?).
E além disso estou tendo a chance de saldar uma dívida histórico-familiar: por ter um primo flamenguista fanático, eu fui induzido a um sentimento de rivalidade mortal contra aquele que é nosso co-irmão mais parecido, time do povo no Rio, torcida quase tão grande quanto a nossa rsrs. Sempre tive uma tendência altamente competitiva (sobretudo com a cuecada, ou com os machões de calcinha, pois as mulheres eu me contento em amar e admirar, e tanto mais quanto mais lindas e inteligentes forem rsrs). Mas hoje, caro Dennis, superei essas antigas rixas e tô contigo no apoio ao teu querido Flamengo!
Em suma, renegando nesse aspecto e nesse momento a sabedoria de mestre Nelson, SOU SOLIDÁRIO COM VC MENGÃO, VAI COM TUDO, PAU NOS PORCOS E NAS BICHAS!!!

Saturday, October 17, 2009

horror

Hélio Oiticica (1937-1980)

Um paciente vem a Lacan com o rosário de misérias que tem a declarar sobre si mesmo. Ele se considera, em resumo, um verme. Mais que tudo se acusa de ser um péssimo marido. E antes de prosseguir o infinito do gozo da auto-vitimização à procura da graça consolatória do mestre, é barrado por Lacan, o anti-mestre: "Sim, e você dizer que é um péssimo marido não impede você de realmente ser um péssimo marido".
Ahhh as artimanhas do escapismo... Adoramos nos xingar para nos aliviarmos da culpa de sermos assim, ou quem sabe pra driblar nossas verdadeiras culpas, e para quem sabe "espaçar" e "temporalizar" um intervalo entre o escroto objeto e o sapiente sujeito deste nosso discurso: mesmo sendo sujeito e objeto a mesma pessoa.
Tudo isso me vem à tona porque uma das coisas pelas quais me culpo é ter investido muito, afetiva e economicamente, nos livros, uma das maiores paixões da minha vida. Mas por que me culpo? Porque acho, como os cínicos à la Diógenes, como Cristo, Buda, como os verdadeiros mestres, que não levaremos nada dessa vida, e quanto mais leve nossa bagagem, ao longo dos trabalhos que são também os modos de cada um evitar e esperar a "indesejada das gentes" e seu barqueiro Caronte, melhor a viagem final que faremos. Mas ainda assim me apego, e acho que a culpa é uma das formas pelas quais magicamente torço para que esse apego não seja arruinado pela desgraça.
Apaixonado pela minha biblioteca, como pelos meus entes queridos, pelos meus bichos, morro de medo da morte. Não só da morte em si, mas de suas pequenas e grandes irrupções no e durante o vivo: as destruições imprevisíveis que também são criações daquilo que somos. Falasser, Falta-a-ser. No caso da biblioteca, o pesadelo maior que me assombra é o incêndio. A perda irracional de alguns de meus "maiores amigos", daqueles sem os quais a vida pra mim não tem sentido: os Livros.
Daí também a dor pela notícia que reproduzo abaixo. Nem preciso dizer que é uma dor "objetiva" por se tratar de grave agressão à memória da cultura brasileira, e isso em plena "cidade olímpica" (ahhh, nem só de pão viveria o homem brasileiro, isso quando tem pão, mas de tantas palhaçadas...) . Como é possível um patrimônio da importância do acervo de Hélio Oiticica estar tão vulnerável, tão mal protegido ante os riscos do absurdo?
Mas, espaço de divã, di -vão livre para associações "livres" , como é este cantinho do Monastério, tenho de confessar que a dor por Oiticica é também dor antecipatória e conjuratória, mas por mim mesmo. Pelos meus fantasmas. Aliás, a dor pelos outros não tem sempre algo de fantasmático? Muito de projeção pessoal, de antecipação da verdade, real e imaginada, -todo fantasma é verdadeiro e ilusório- de que esse mesmo mal nos ameaça? Não poderíamos falar, sem ironia, num certo "egoísmo benigno" da compaixão?

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17/10/2009 - 09h12
Incêndio atinge casa do artista plástico Hélio Oiticica e destrói acervo no Rio
colaboração para a Folha Online

Um incêndio atingiu a casa da família do artista plástico Hélio Oiticica no Jardim Botânico, zona sul do Rio, na noite de sexta-feira (16). Quase todo o acervo do artista ficou destruído.
O fogo atingiu uma sala localizada no primeiro andar da casa, local onde estavam guardadas as pinturas e esculturas do artista.
No momento do incêndio, a família estava reunida do terceiro andar da casa, mas quando sentiram o cheio da fumaça, as obras já estavam em chamas.
"Sinto que eu fracassei porque minha missão, depois que me aposentei, era cuidar da obra dele, da divulgação e da guarda da obra dele", disse a jornalistas César Oiticica, irmão do artista plástico.
Segundo ele, o fogo destruiu 90% da obra, e o prejuízo pode chegar a US$ 200 milhões, de acordo com a Globonews.



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Saiba mais sobre Hélio Oiticica, um dos mais importantes artistas brasileiros
colaboração para a Folha Online
Um
incêndio no Rio que só foi controlado neste sábado destruiu quase todo o acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), segundo sua família. O artista tem entre suas obras mais importantes a "Tropicália", que inspirou e deu nome ao movimento cultural brasileiro que revolucionou a música, o cinema, o design, a moda e as artes do país nos anos 70.
O artista, que compareceu a uma escola pela primeira vez aos dez anos, teve sua formação influenciada pelo pai, José Oiticica Filho --um dos mais importantes fotógrafos brasileiros-- e pelo avô José Oiticica, intelectual filólogo, professor, escritor e jornalista.
Em 1953, Oiticica começou a estudar pintura com Ivan Serpa, após tomar contato com a obra de Paul Klee, Alexander Calder, Piet Mondrian e Pablo Picasso durante a II Bienal do Musel de Arte Moderna de São Paulo. Em 1954, entrou para o Grupo Frente e junto fez a sua primeira exposição no Museu de Arte Moderna.
Nessa época, Oiticica começou a conviver com artistas e críticos, como Lygia Clark, Ferreira Gullar e Mário Pedrosa. Sua obra desse período, entre 1955 e 1957, são pinturas geométricas sob guache e cartão, que resultou em 27 trabalhos nessa técnica, intitulados 'Secos', que foram expostos no Rio de Janeiro, na Exposição Nacional de Arte Concreta.
Em 1959, convidado por Lygia Clark e Gullar, integrou o Grupo Neoconcreto do Rio de Janeiro e passou a realizar pinturas a óleo sobre tela e compensado. São obras monocromáticas que incluem pinturas triangulares em vermelho e branco.
Também em 1959, o artista participou da V Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1960 trabalhou como auxiliar técnico de seu pai, José Oiticica Filho, no Museu Nacional.
A partir do início dos anos 60, Oiticica começou a definir qual seria o seu papel nas artes plásticas brasileiras e a conceituar uma nova forma de trabalhar, fazendo uso de maneiras que rompiam com a ideia de contemplação estática da tela. Surgiu aí uma proposta da apreciação sensorial mais ampla da obra, através do tato, do olfato, da audição e do paladar.
Entre as obras os "Penetráveis", criados para serem vivenciados (ou penetrados) pelo espectador. Nestas obras, o artista passa a criar espaços de convivência que rompem com a relação formal entre arte e observador e pedem presença ativa e distendida no tempo.
Parangolé
Em 1964, o artista aproximou-se da cultura popular e passou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tornando-se passista e integrando-se na comunidade do morro. Vem dessa época o uso da palavra "parangolé" que passou a designar as obras que estava trabalhando naquele momento.
Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como "antiarte por excelência".
Em 1965, o artista começou carreira internacional e realizou a exposição --Soundings Two-- em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinsky, Mondrian, Léger, entre outros.
Em 1967, iniciou suas propostas supra-sensoriais, com os bólides da "Trilogia Sensorial", além dos penetráveis PN2 e PN3 que faziam parte da obra Tropicália, mostrada na exposição Nova Objetividade Brasileira, no MAM, Rio de Janeiro.
Em 1972, usou o formato super 8 e realizou o filme Agripina é Roma - Manhattan. O cinema passou a ser uma referência, e em 1973 criou o projeto Quase-cinema, com a obra "Helena inventa Ângela Maria", série de slides que evocam a carreira da cantora Ângela Maria.
Uma nova série de penetráveis intitulados Magic Square e os objetos Topological ready-made landscapes foram mostrados na exposição Projeto construtivo brasileiro, MAM, Rio de Janeiro, em 1977. Em 1979, criou o seu último penetrável chamado "Azul in azul". Neste ano, Ivan Cardoso realizou o filme "HO", retratando a obra de Hélio Oiticica.
No dia 22 de março de 1980 o artista morreu após sofrer um acidente vascular cerebral no Rio de Janeiro.

Wednesday, October 14, 2009

sincronicidades


Sonhos de um dentro
que soubesse
ser dentro
o suficiente
auto-suficiente
e de um fora
que pusesse
[escrevi errado, era pudesse,
mas gostei do efeito imprevisto do pusesse]
ser fora o bastante.
Pesadelos
Pesadédalos
de um dentro
que nada
faz senão
fugir dos vícios
dos vírus
do fora,
que repetem
o dentro,
os dados
e um fora
que não é
senão
extensão
sem cerca
do pasto
sem pastor
do dentro,
Totalitário
cerco
sem centro
circo
internato
do interno
carente
Totalmente
(o total mente?)
Foradentro
outrora
aurora
do Aberto.

Tuesday, October 13, 2009

travessia e eudaimonia


Desenho feito por Jung, que representa, vestido de verde, um humano (o ego) agachado em atitude de reverência profunda à árvore de fogo (o Inconsciente Coletivo) que brota do solo

"Nicht' raus, sondern durch!"
(não para fora, mas através)

C. G. Jung
***
Eudaimonia - termo grego para a felicidade; deriva de daimon, o gênio interior, o Anjo Guardião dos ocultistas. Bem-aventurados os que vivem em travessia da existência na barca de seu próprio dáimon.
Em sonho hoje à noite, estava eu num culto pagão, com ares de Rosa-Cruz, e uma televisão emitia a voz de um palestrante cristão (muitas vezes, e esta madrugada não foi diferente, eu pego no sono, de fato, com televisão ligada em programas religiosos, como na Rede Vida). O barulho da TV incomoda a todos, tal o clima de silêncio e concentração coletiva que se respira, tento fazer um movimento de apagar o aparelho, como se fosse a minha própria TV da sala, e o "líder" do culto pagão rosa-cruz aprova meu movimento de ir apagar, e diz, sem agressividade mas como quem corrige com vigor seu pupilo, para que eu não fique na beirada entre uma coisa e outra, é preciso escolher!
A cena seguinte me mostra dialogando com uma conhecida, por quem outrora cheguei a ter afetos platônicos silenciados pela timidez e certo complexo de inferioridade; eu no carro dela, ela ao volante, com a firmeza que lhe é habitual, e vou falando da experiência no ritual e também faço as reflexões que registrei acima sobre daimon e eudaimonia. Ela demonstra interesse, mas com o distanciamento de espírito que nunca consegui atravessar, e que ao mesmo tempo que barrava, me excitava e incitava. O percurso, e o sonho, acabam na garagem dela, a porta da garagem se fechando, escuro, eu dizendo de minhas doídas saudades da menina.

Thursday, October 08, 2009

Rainha da Libertação, rogai por nós


Como entre os gregos, é a expiação da hybris (soberba) pela queda do trono e por um novo saber que provém do sofrer; na fé ancestral do povo oprimido, é a esperança dos pobres pela redenção contra as injustiças que mancham a Terra; na sabedoria de Jung, é a enantiodromia, a revolta e a viravolta que jorram feito tsunami do inconsciente para destruir e recriar, semeando novo equilíbrio profundo do Si-Mesmo, na terra devastada que restou do que eram antes as casinhas idiotas, brinquedinhos fúteis e a polícia arrogante e cega do ego obsessivo (obsessio é "ato de sentar-se diante, bloqueando a passagem", ob-cercar).
O Cântico de Maria é o Cântico da Libertação, que age em nossas almas no doloroso transtempo do vivenciar humano da Verdade eterna.
****
"Maria, então, disse:
'Minha alma engrandece o Senhor,
e meu espírito exulta em Deus em meu Salvador,
porque olhou para a humilhação de sua serva.
Sim! Doravante as gerações todas
me chamarão de bem-aventurada,
pois o Todo-poderoso fez grandes coisas
em meu favor.
Seu nome é santo
e sua misericórdia perdura de geração em geração,
para aqueles que o temem.
Agiu com a força de seu braço,
dispersou os homens de coração orgulhoso.
Depôs poderosos de seus tronos,
e a humildes exaltou.
Cumulou de bens os famintos
e despediu ricos de mãos vazias.
Socorreu Israel seu servo,
lembrado de sua misericórdia
-conforme prometera a nossos pais-
em favor de Abraaão e de sua descendência, para sempre!'"
(Lc 1, 46-56)

Tuesday, October 06, 2009

isto é Diógenes

Com alguns dos caros e bem-vindos visitantes deste monastério (há outros visitantes, sinto pelo fedor do olho gordo, nem tão caros assim, e muito menos bem-vindos...), já pude compartilhar e rir desta anedota acerca de um dos grandes filósofos da Antiguidade, Diógenes:
Um dia Diógenes estava deitado no meio de um caminho tomando banho de sol quando dele se aproximou o Imperador Alexandre, O Grande e disse: "Diógenes, pede o que quiseres, eu vou conceder". Diógenes abriu um olho e desde o chão respondeu para ele: "Afaste-se um pouco, porque está tampando o sol" (vide a imagem acima).

Diógenes não tinha muita frescura pra dizer o que pensava, vide a resposta que deu a um indivíduo calvo que certa vez tentou ofendê-lo:

"Não serei desrespeitoso com você,mas devo dar os parabéns para seus cabelos por terem deixado uma cabeça tão suja".

Outra afirmação fulminante do filósofo cínico:

"Os homens são infelizes por causa de sua própria estupidez".

Caro Diógenes, que minhas gargalhadas atravessem os séculos e cheguem a ti como símbolo (palavra que, na Grécia, se referia a uma moeda partida ao meio entre dois amigos, para futuros reencontros) de minha extrema afeição, admiração por ti. És um alento e um exemplo para os vocacionados ao pensar livre e corajoso, ou seja, ao pensar em si, essa arca de Noé espiritual em meio ao mar de merda diarréica do rebanho, dos otários e dos oportunistas (pra quem filosofia é pretexto do business mesquinho com ares de maquiavélico, ou então fingimento "religioso" e congressos da conversa-fiada e da pompa inexpressiva).

Monday, September 21, 2009

o professor pleonasmo

Paulo Leminski

Mamãe dizia outro dia: você bebê se agarrava no meu pescoço e tinha quase um troço, queria a mãe, não "o maternal", achava a escola uma violência descomunal. La-crime-java aflição, perder meu colo, que crime e condenação!

Mamãe, até hoje te reencontro no Saber, não na Escola. E até hoje choro quando me tiram de teu pescoço de palavras, de teu colo de poemas, de teu seio de sentidos, pra me pôr no meio dos chatos e babacas, tendo de mandar ou obedecer os prosaicos, ameaçado de me tornar mero aluno ou pior, "aluno aposentado" , jogador que pendurou a chuteira e tá no banco como professor da bolerada, ou seja, véinho professor blablacento, cagando regra em disenterias sintáticas axiomáticas axiológicas escolásticas, contando o mundo como se não passasse de filmes já assistidos desde sempre e para sempre, assimilando o óbvio, ou melhor, o que já se "sabia" antes de ver, monoglota tradutor das polifonias da existência, lendo certezas com bundão sentado, pipoca de veneno e boca aberta cheia de dentes, e depois estragando a surpresa das pessoas que ainda não assistiram, e talvez nem fossem apenas assistir, mas sim viver, isto é, confrontar o novo, o inédito e o próprio. Sei que isso, viver, é incompreensível pra essa gente, os explica-dores profissionais e suas cartilhas. Queria ser criança de novo, chorando no pescoço de mamãe, sem precisar entrar na Escola e ter de escutar esses prosaicos, escutá-los mais até do que eles mesmos se escutam, maldito dom que Alguém me deu de ser médium dos recalques dos fracos e ressequidos.

-Unzuhause-


"Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente. Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida regular como um paradigma da 1ª conjugação. Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto. Casou com uma regência. Foi feliz. Era possessivo como um pronome. E ela era bitransitiva. Tentou ir para os EUA. Não deu. Acharam um artigo indefinido em sua bagagem. A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conectivos e agentes da passiva, o tempo todo. Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça".

Paulo Leminski