quarta-feira, janeiro 28, 2009

meu anjo guardião


Pretenders- Angel of the Morning

There'll be no strings to bind your hands
Not if my love can't bind your heart
And there's no need to take a stand
For it was I who chose to start

I see no need to take me home
I'm old enough to face the dawn
Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away from me
Maybe the sun's light will be dim
It won't matter anyhow
If morning's echo says we've sinned
Well, it was what I wanted now
And if we're victims of the night
I won't be blinded by the light
Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away from me

I won't beg you to stay with me
Through the tears of the day
Of the years, baby

Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away from me
Oh baby, I love you baby, oh baby
Meu anjo guardião, não se vá tão cedo. Fica, protege, inspira ventos luminosos que tornem habitável a escuridão. Ensina-me tua malícia, não desonesta, mas porosa às premências da vida e do desejo. Liberta a alma cativa do corpo e o corpo cativo da alma. Chega de gestos cênicos de liberdade com a bola de ferro na perna esquerda. Chega das prisões auto-impostas. Chega das impotências covardes que fazem do mundo uma traição aos desígnios do Criador e Destruidor Universal: o Tempo.
Meu anjo guardião, excita a coragem de viver, estimula a aventura, traz conforto aos corações machucados pela perda. Traz ressurreição e vida. Aquece com as irradiâncias multicores do Rosto do Filho, eneva os cumes e abismos do Espírito. Mostra o caminho do Pai. Sem esquecer porém das reentrâncias obscuras da Mãe dadivosa e terrível, a Mãe-Mundo. Reintegra os Quatro numa nova Unidade de céus e infernos.
Meu anjo guardião. Te amo. Faz-me um discípulo à altura e à profundeza de tuas doces crueldades. Tira-me a ingenuidade, absolva e reabsorva na inocência. Empresta-me tua espada, quero dar meu sangue por tuas Cruzadas amorosas e libertárias.
Meu anjo guardião, sede combustível de revoltas e convulsões, da vontade de transformação, na renúncia aos sedativos da rabujice paralítica de quem se isola, e abrindo-se a caverna, e bebendo-se da fonte originária o frescor bêbedo do vinho de Dionísio e de Jesus Cristo.
Amém


segunda-feira, janeiro 26, 2009

fungos



Arthur Schopenhauer

O martírio do artista
(Augusto dos Anjos)

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!
Tarda-lhe a idéa! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!
Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra
Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Crianças de farda, adultos de fralda, vidas em fraude, teoremas de Freud. Eros viscosos, eras, artérias, rodadas rotinas, útero de monstros, divinos manjares manjados. Exits sem êxitos, letras mortas, decrepitudes lentas, lentes sem foco, vidros quebrados, o corte, o risco.
Máscaras de pele risonha, faces de gesso tenso. Alô criançada, o bozo chegou. A única desculpa de Deus é não existir.
Enxurrada dos fungos, contato, contágio, o amor contagioso, o hedonista reprimido. Palavras tamponam, esparadrapos de sentido, o não sentido, as botas do embotado. O sublime e o grotesco do amor, o asceta asséptico do hospício fugindo do sexo, não gosta do "secho", ele não faz mais "secho", abstinência de vida, fo-bios, pavor de morrer e de viver. Mas devemos nossa morte, pela mera culpa de estarmos vivos. Culpa? Mal-estar com que se foge de outro, do Outro, mais fundo.
O poeta nos faz ver a floresta com uma só rosa na mão. O canastrão carrega a floresta nas costas, mas não consegue mostrar sequer uma rosa.

sábado, janeiro 24, 2009

ressurreição


"Em verdade, em verdade, vos digo:
Se o grão de trigo que cai na terra não morrer,
Permanecerá só;
Mas se morrer,
Produzirá muito fruto"
Jo 12, 24

terça-feira, janeiro 20, 2009

21 de janeiro, dia da Jaguncinha-Rouxinol mais linda do universo




NascenteFlávio Venturini
Composição: Flávio Venturini e Murilo Antunes
clareia manhã
o sol vai esconder
a clara estrela
ardente
pérola do céu
refletindo
teus olhos
a luz do dia a contemplar
teu corpo
sedento
louco de prazer
e desejos
ardentes

a vida e a arte


Aleister Crowley

"A arte é a confissão de que só a vida não basta."
-FERNANDO PESSOA-
"People say that what we' re all seeking is the meaning of life... I think that what we' re really seeking is the experience of being alive."
-RUDYARD KIPLING-

"'A natureza desassistida fracassa', diziam os antigos alquimistas, e nas escrituras lemos 'Somente o Senhor edifica a casa, o trabalhador trabalha em vão'. Assim o mago, com toda humildade, procura o conhecimento e o diálogo com o seu sagrado anjo guardião –aquele verdadeiro eu, do qual a sua personalidade terrena é apenas uma máscara.
Esse é o objetivo supremo do mago. Tudo o mais, trabalhos e encantamentos, rituais e círculos, espadas, varas e fumigações, tudo isto não passa de meios pelos quais ele chegará com triunfo ao final. Então, tendo-se unido a esse verdadeiro eu –mesmo por um tempo breve-, ele é instruído por esse governante interior na Alta Magia que um dia elevará a sua humanidade à sua divindade e então realizará aquilo que os ministérios verdadeiros vêm declarando ser o fim verdadeiro do homem – a deificação."

-E. W. BUTLER-

domingo, janeiro 18, 2009

nigredo


segunda-feira, janeiro 12, 2009

complexo de Clementine


Kate Winslet como Clementine em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Kate Winslet ganha segundo Globo de Ouro

A atriz britânica Kate Winslet não acreditou ao ouvir seu nome do apresentador Mark Wahlberg, que entregou o prêmio de melhor atriz em um drama."Isso está realmente acontecendo?", questionou Winslet, que venceu o prêmio por "Apenas um Sonho".
Ela agradeceu ao ator Leonardo DiCaprio, com quem contracenou no filme, e ao marido Sam Mendes, que a dirigiu no mesmo longa.
Winslet já havia ganhado o prêmio de melhor atriz coadjuvante por "O Leitor".


UOL- 12/01/09 http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u488851.shtml




Um tempo, esse nosso, de muita espuma pra pouco chopp, muita sexologia pra pouco tesão, muita catequese pra pouco Evangelho. Muito canudo pra pouco mestre. Muita celebridade pra pouco talento.
Neste último caso, é evidente que a indústria cultural inventa mil e um artifícios pra por e repor eternamente nas prateleiras sempre outros e sempre os mesmos engodos: ícones que seduzam corações e bolsos. Iscas para o eternamente insaciado desejo das massas. Eleições e badalações de "melhor jogador do mundo", cerveja número 1, primeira calcinha que a gente nunca esquece, entre outras babaquices que vendem.
Tudo isso considerado, não posso deixar de confessar minha alegria pela alegria de Kate Winslet, maior surpresa da festa do Globo de Ouro deste domingo, com premiação dupla de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante. Alienação americanóide de minha parte? Também rs, mas certamente sob o substrato ideológico da sociedade, há um substrato ainda mais fundo, o dos símbolos do inconsciente coletivo. Para desaguar no (ou emergir do) Rio Tejo dos arquétipos universais, o melhor a fazer é desbravar o riozinho da aldeia de nossos complexos pessoais. E Kate é certamente uma imago poderosíssima nessa hidrografia imaginária do meu Eu. Pelo seu rosto de anjo, pelo seu espírito de daimon em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.
A força divino-demoníaca, o daimon, no homem é a sua mulher interna, a imago feminina inata, a anima, ensina Jung. E a Kate/ Clementine de Brilho Eterno é para mim de uma potência incendiária nesse sentido: evoca muito do que admiro nas mulheres que admiro. Força, personalidade, charme, beleza própria - a Kate matusquela de Brilho Eterno me faz muito mais a cabeça que a esplendorosamente comum protagonista de Titanic.
Clementine não é uma intelectual, nem precisa sê-lo, mas sabe ser "um conceito", como ela própria, a certa altura, se define num desabafo para seu namorado, o personagem de Jim Carrey (esqueci o nome, a memória é caprichosa e interesseira rs). Digo "desabafo", porque não deve ser fácil para ninguém o fardo de não ser apenas de carne e osso, mas também um conceito. Pois conceitos, enquanto linguagem, remetem a expectativas socias, ao olhar alienante do Outro, mesmo quando o conceito -o símbolo- ainda não está reduzido e barateado a estereótipo (ideologia).
Por isso também o conceito e o complexo de Clementine é ainda mais cativante: quase que por um koan brechtiano (vejam o conceito de distanciamento em Brecht), é um conceito que se desconstrói a si mesmo, como que prevenindo a nós homens para a terrível armadilha que são essas mulheres que transcendem a si mesmas e invadem nosso luxuriante imaginário desejante, tragando-nos ao desconhecido. E quando falo em desejo, não reduzo a interesse sexual, trata-se da vontade de viver , o Eros Criador, a caixa de Pandora que nos liga à existência pelo fio ilusório da esperança, por mais cruel que seja a realidade, por mais patético e caricato que seja o desempenho de nossos sonhos no turvo dia-dia mortal.
Corrijo-me, contudo: Clementine, bem longe de prevenir-nos do que quer que seja, antes esfrega na nossa cara, com delicioso e cafajeste despudor rsrs, aquilo que nos fascina e nos vitima sempre e sempre de novo na magia do amor: o véu de Maya e a "Dança do Ventre" existencial que fazem das mulheres, das grandes mulheres, o maior estímulo, consolo e sufoco de estarmos vivos e queimando no caldeirão selvagem da Vida.

sábado, janeiro 10, 2009

epifanias sombrias


Pedagogia do oprimido: fazer da necessidade virtude, da angústia epifania, da solidão saudação. Da tempestade a bebedeira boêmia. Das ruínas o templo. Trem fantasma de rosas e jasmins. A paz do prozac. No hay banda, no hay orquestra: silencio. Equações sem soluções, a sina dos sinos, dobram por mim. O jejum sem pose, a transcendência é ríspida. A luta e o luto. Melodia dos corvos. Podridão dos ovos. Rotas fechadas, derrotas, flechadas. Nas costas. Lento lamento. Conto de fadas. Será que amanhã ele vem? Promessas. Quermesses. Iluminação? Não paguei a conta da light.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

a guerra santa da paz




"Yajna (sacrifício) é uma palavra plena de beleza e poder. Portanto, com o aumento do conhecimento e da experiência, e com o passar do tempo, seu significado pode crescer e se transformar. Yajna literalmente significa culto; daí, sacrifício; daí, qualquer ato de sacrifício ou qualquer ato de serviço. E neste sentido, cada época pode e deve ter seu próprio Yajna particular. Porque a humanidade vive por meio de Yajna, sacrifício.

Yajna significa um ato dirigido ao bem-estar dos outros, feito sem receber ou desejar uma recompensa por ele, seja uma recompensa material ou espiritual. O termo "ato' deve ser tomado em seu mais amplo significado, incluindo pensamento e palavra, e o termo 'outros' deve incluir não somente a humanidade, mas todos os seres vivos. Portanto, não será Yajna sacrificar animais, ainda que com a intenção de servir à humanidade..."


Mahatma Gandhi, Comentário ao Bhaghavad-Gita



Muito tristes as notícias que chegam do Oriente Médio, sobre mais um surto de violência extrema, de ódio e matança. Já no Brasil o rosto da violência segue sendo mais turvo, diluído, caótico, "imotivado" do que para os fanáticos: é uma ex-namorada castigada aqui, é um pobre pedestre passando onde não devia ali...

Em todos os casos, porém, é sempre a mesma cegueira e a mesma ignorância: é o pequeno homem exercendo seus podres poderes sobre um mundo que não lhe pertence, mas no qual tem sido péssimo hóspede, muito mal-educado com Aquilo que o abriga e lhe dá vida.

Na mitologia hindu, a Criação cósmica é um ato divino de sacrifício , vide Bhaghavad Gita, III, 10: "Junto ao sacrifício (Yajna), o Senhor criou a humanidade, dizendo: 'Por meio disto, multiplicar-vos-ei; que isto seja para vós o doador de todos os vossos desejos'".

E a resposta humana, seu existir, é também concebido como sacrifício, conforme medita Gandhi em seu comentário à escritura sagrada. Sacrifício, sacro-ofício de produzir vida e mais vida, sem se apropriar interesseiramente dos frutos do trabalho - aquele que só desfruta, e nada oferece, é um "ladrão" (Bhaghavad Gita, III, 12).

O mito é a linguagem da alma; suas imagens e símbolos são metáforas de processos cruciais de transformação da psique em sua jornada de evolução. E o mito hindu de Yajna, se para bélicas mentes cegas poderia ser respaldo ideológico para a "guerra santa" -matar em nome de Deus, sacrificar seres em nome do Ser-, pode e deve ter sentido oposto, conforme acolhido por uma mente mais esclarecida: compaixão , ação não-violenta que homenageia e respeita o Ser em todos os seus seres.

Claro que o pacifismo deve ser um conceito circunstanciado, relativo, aquele que toma vacina está "matando" ou impedindo a expansão, em seu corpo, de agentes patológicos (o vírus é um ser vivo? esta ainda é uma polêmica entre os cientistas). O assassinato existe na Natureza, é condição ontológica no presente nível de realidade. Não dá para recalcar essa verdade, não dá para nos idiotizarmos com fórmulas de "paz e amor" que neguem o Mal.

Mas a inteligência do homem se faz Yajna quando trabalha para que o nível de mortandade no mundo seja reduzido, e não multiplicado e banalizado. Que interessa aos cadáveres terem sido o corpo de um judeu ou de um palestino? As identificações sociais são, claro, importantes, mas o homem que as assume é poeira cósmica, e ao pó retorna sempre...

Diante disso, o Amor é a melhor política, e a Paz, a melhor "guerra santa". Guerra no melhor sentido do termo: conflito, sim, mas que se dialetiza com vistas à propagação de bem-estar e fraternidade, justiça e liberdade. Conflito que é sobretudo um desafio aos aspectos sombrios de nós mesmos, aos "maus primos" usurpadores do Reino interior. A guerra narrada pelo Bhaghavad-Gita é esta, e é a mais preciosa de todas. Quem busca se conhecer, quem luta pela auto-realização em plenitude faltosa, não tem tempo a perder com as guerras vãs da ganância e as armas iracundas do ódio a si ou ao outro.

Que o espírito de Gandhi, e o espírito de Yajna, tenham mais vez e voz nos silêncios sagrados da vida íntima -porque, da política e dos poderosos de plantão, dos urros e balbúrdia da ignorância, o que é possível esperar, senão mais absurdo?



segunda-feira, janeiro 05, 2009

bênção maldita

"Psicólogos são profissionais da vertigem e mergulham em sua escuridão. As sombras que recolhem não são apenas aquelas de seus pacientes, mas também das almas a sua volta. Frequentam as fronteiras do humano. Muitas vezes abrem as portas do inferno. Tocam em inseguranças e vazios ancestrais que permeiam as relações para além de toda explicação estatística. A literatura, na sua vocação de narrar a efêmera eternidade do humano, nos ensina aqui mais do que qualquer ciência, que apenas banaliza o mal."

Luiz Felipe Pondé
"Vertigem", in: Folha de São Paulo, 05 / 01 / 2009

Esse é apenas um dos tesouros do belíssimo artigo publicado nesta segunda-feira pelo professor Luiz Felipe Pondé na Folha de São Paulo. Eu tenho o privilégio de conviver com Pondé já alguns anos, em diferentes contextos profissionais e acadêmicos e, mais recentemente, em seu grupo de estudos na PUC (Nemes- Núcleo de Estudos em Mística e Santidade).
E reitero aqui a palavra "privilégio", pois realmente é uma experiência magnífica. Pondé resgata do bolor da trivialidade o título –merecidíssímo, no caso dele- de um "mestre" . Inteligente, provocativo, irônico, e ao mesmo tempo de uma gentileza impressionante para com todos quantos acorremos a suas aulas, sôfregos de haurir do divino manjar de sabedoria que ele sempre tem a oferecer.
Ouvi-lo não é só ouvir questões, mas é sobretudo colocar-se, a si próprio, em questão. Como um legítimo filho de longínquas tradições que remontam ao profetismo hebraico e a Sócrates, Pondé é inimigo declarado das acomodações intelectuais, do clichê, da idéia "barateada", como ele gosta de dizer. Em especial certos modismos novidadeiros - não por acaso Pondé, um dos maiores especialistas contemporâneos em questões religiosas e teológicas, declara gostar especialmente das religiões "velhas", antigas; e poucos teriam capacidade comparável à dele para mostrar o quanto, nesse âmbito, o aparentemente "arcaico", a Tradição, pode muitas vezes ser muito jovem, atual, urgente.
E quanto ao barateamento, professor, tens muita razão: as idéias, quando vividas em verdade, são caras, cobram um preço deveras elevado e profundo; as grandes idéias, embora se diga que nascem no cérebro, são de cortar o coração.
E me é caríssima em particular a referência supracitada aos psicólogos, esses profissionais tantas vezes "barateados" por distorções, incompreensões e equívocos, de dentro e de fora do métier.
Que belo, e que fardo, é ser vocacionado (vocare=chamar) a esse sacerdócio! Uma escolha (?) que, é claro, não é movida apenas por razões (?) altruístas, humanitárias; dizendo por mim, penso que muitas vezes o interesse pelo ofício da psicologia é uma das últimas saídas para não pirar de vez rsrs.

Brincadeiras à parte, sem dúvida não é por acaso que se é sensível e atraído a uma prática profissional e existencial de lidar cotidianamente com o humano no que há de mais escroto, atormentado, dolorido, sombrio. Certamente colocamos muito de nós em jogo na tentativa de compreender e auxiliar o sofredor psíquico a que emprestamos o que ele muitas vezes não encontra na vida fora do divã: ouvido e coração.
Escuta sincera, atenta: comunicabilidade restaurada, alívio primeiro para sofredores cujo sofrimento pode começar justamente em só se sentir tratado pelos outros à base de julgamento autoritário, desprezo, preconceito, interesse egoísta, escárnio coletivo, estigma.
Não tenho estômago para posar aqui de bom samaritano, conheço-me demais para sustentar uma auto-imagem maquiada de virtudes; mas posso assegurar que essa "mixture blessing" (bênção maldita) da escuta psicológica do mundo me foi incutida desde muito cedo, talvez junto com e nas fendas da alma que o destino se encarregou de impor-me.

Assim como somos pai, mãe e filho de nós mesmos –refiro-me aqui a figuras arquetípicas inerentes a todos e a cada um-, posso dizer que tenho em mim uma espécie de psicólogo interior. Também ele sofredor psíquico, muitas vezes cativo das dores da existência, as minhas, as dos que me rodeiam, estejam a que distância física estiverem. Um psicólogo que é psicólogo não apesar de, mas porque sofredor ; e que, por tão facilmente se contaminar das pestes psíquicas da condição humana, faz do dia-a-dia, no trabalho, em casa, onde for, um sair desesperadamente à busca de antídotos e anticorpos, "soluções" para si e para outrem, soluções provisórias e hipotéticas, que gravitam no opaco e ambíguo da luta da vida, e não, infelizmente, no mundo mágico e paralelo das "idéias" claras e distintas, por mais geniais que sejam em si mesmas.
Nisto a idéia, que vimos de tanto peso e preço, mostra a sua fragilidade, que é também parte de sua grandeza: obra humana, o precário poderoso, sinal da Contradição e do Movimento que a existência humana instaura na Ordem totipotente do cosmos.

domingo, janeiro 04, 2009

monólogo interior






"(...) a mentira mais freqüente é a tagarelice. Mente-se por horror ao vazio... Mas a tagarelice também é covardia: medo do silêncio, medo da verdade... É palavra amedrontada. E somos todos tagarelas em público, por esse medo. É por isso que a solidão é uma oportunidade: para, pelo menos uma vez, ir até o extremo do seu silêncio. Essa solidão é antes de mais nada solidão, e nós somos solidão, como diz Rilke, tanto no casal como no meio da multidão. (...) Pedagogia do deserto: criar o vazio em torno de si, para encontrá-lo em si. Não ouvir mais ninguém; não dizer mais nada, escutar o seu silêncio... É preciso começar por se calar, para não mais mentir. O inverno é a primeira estação da alma".
André-Comte Sponville
"Em cada habitação há um lugar sagrado chamado 'santuário' ou mosteiro [Monasterion, o lugar onde se trabalha para tornar-se monos, um, unificado]: é lá que, isolados, cumprem os mistérios da vida santa. Nada levam para o santuário, nem bebida nem comida, nem nada do que é necessário ao corpo, mas somente as Leis, os Oráculos dos Profetas, os Hinos e outros livros pelos quais aumentam e aperfeiçoam a ciência e a piedade".
Fílon de Alexandria


Dias de anestesia, de evasão, escapismo, quimeras. Torpor lânguido, preguiça, desânimo. Sensação de mediocridade generalizada. Miséria da condição humana, miséria minha também. Tédio, caminhos repetitivos, balbúrdia, blablablá. Conversa fiada, fingimentos, paranóias, elefantíase do ego, ecolalia. Cansaço, restrições, frustrações, desejo bloqueado. Imaginação delirante, lavagem cerebral, abstenção mental. Multidões eufóricas comemorando a bosta de suas próprias existências desperdiçadas. Filmecos debilóides. Deserto de idéias e de atitudes. A própria intimidade devassada pela impessoalidade, fita broxa de Moebius. Religiosidade aprisionada em fórmulas baratas, impulso de transcendência abastardado. Banalização. Impossibilidade de silêncios realmente significativos. Sujeira, medo, complexos. Truman, "true man". Kate Winslet, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Lola louca. Fiji, fujo, fico. Ulisses zé-ninguém. Ansiedade, o que fazer? O que será que será? Necessidade de ação. Arjuna, Krishna. Fazer guerra aos parasitas e simbioses da merda interior. Consagração de si ao Si, a verdade insatisfeita da busca. Como te chamas? Vyasa. De que fala teu poema? Fala de ti. Para mi solo recorrer los caminos que tienen corazon, cualquier camino que tenga corazon. Por ahi yo recorro, y la unica prueba que vale es atravesar todo su largo. Y por ahi you recorro mirando, mirando, sin alinto. Père-grinatio. Pai, por que me abandonaste? Consumatum est. Vida masmorra, vida mesquinha, vida pacata. Não a vida como está, e sim as coisas como são. Ab-surdo, ab-cego, ab-mudo. Abismoimundo. Opus, namoro estético e intelectual com a vida. Sacrifício / sacro-ofício. Xamanismo, Eliade. Joyce e as quinquilharias do processo mental. Sintagmas e paradigmas. Clichês, mentis butecolis. Abraxas! aahhhhhhhhhhhhhh........nojo, nojo, nojo!

quinta-feira, janeiro 01, 2009

jung my yellow submarine


Yin
Yang
Jung
Yellow
Yes
Young
Yoga
Joga
O jogo
Se joga
Semeia
Sem meio
Sem medo
De tudo
Contudo
Intuo
o Todo
Agora
Ora
Labora
A hora
A onda
Ondina
Ondeio
O mantra
O manto
Omito
Que mito
Soterra
O magno
Magma
Martírio
Mistério
Do tédio
Tedesco