Wednesday, February 25, 2009

dú-vida


Dúvida (Doubt)
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis.
Direção: John Patrick Shanley
Gênero: Drama
Duração: 104 min.
Distribuidora: Buena Vista
Estreia: 06 de Fevereiro de 2009
Sinopse: O ano é 1964 e o cenário é a escola St. Nicholas, no Bronx. O vibrante e carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), vem tentando acabar com os rígidos costumes da escola, que há muito são guardados e seguidos ferozmente pela irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), a diretora com mãos de aço que acredita no poder do medo e da disciplina. Os ventos das mudanças políticas sopram pela comunidade e, de fato, a escola acaba de aceitar seu primeiro aluno negro, Donald Miller. Mas quando a irmã James (Amy Adams), uma freira inocente e esperançosa conta à irmã Aloysius sobre sua suspeita, induzida pela culpa, de que o padre Flynn está dando atenção exagerada a Donald, a irmã Aloysius se vê motivada a empreender uma cruzada para descobrir a verdade e banir o padre da escola. Agora, sem nenhuma prova ou evidência, exceto sua certeza moral, a irmã Aloysius trava uma batalha de determinação com o padre Flynn, uma batalha que ameaça dividir a Igreja e a escola com consequências devastadoras.

Há cerca de um mês este reino Unzuhause já declarou seu amor incondicional por Kate Winslet e a torcida implícita por ela no então ainda distante Oscar. E não deu outra, e minha felicidade por ela é plena rs. Mas hoje é tempo de dar voz aos que não tiveram vez na premiação deste domingo. Penso em um filme em particular.
Já pela sinopse acima pode-se ter a noção do impacto que Doubt (no Brasil, Dúvida) estava fadado a causar. Ainda mais se o embate central do drama é encarnado por dois gênios da interpretação, como Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman, ambos aliás indicados ao Oscar deste ano. Falando ainda em premiações, vale lembrar que o roteiro de Doubt se baseia em peça brindada com o Pulitzer.
Sem descambar para um "filme de tese", isto é, sem se reduzir à chata disputa de idéias disfarçadas em narrativa, Doubt não obstante deixa ver, a uma leitura mais sutil, o conflito entre dois princípios que eu nomearei aqui sob a inspiração do título famoso do livro de Leonardo Boff: Igreja - Carisma e Poder.
Do lado do Carisma, temos o padre Flynn (Seymour Hoffman). O filme se passa em 1964, portanto eram os dias efervescentes do Concílio Vaticano II (1962-65); e Flynn é um retrato agudo dos ventos de renovação trazidos pelo carisma de João XXIII, papa que, com o concílio por ele convocado, abriu a Igreja para o mundo, a recolocou na rota da Vida, falando a língua vernácula do tempo e olhando de frente para uma modernidade cravada de crises e insuficiências mas também marcada por grandes conquistas e pela necessidade sempiterna da palavra do Salvador. Não a palavra sabichona, autoritária, paternalista, atemporal no sentido do fossilizado. Palavra à esquerda da esquerda -esquerda como arquétipo do oculto, do inconsciente-, vanguarda à frente das vanguardas por vir antes delas, por vir das Origens, palavra rebelde, alegre, transformadora, Verbo que se faz Carne no corpo dilacerado e desejante dos homens, que querem e têm o direito de serem, na medida do possível e do precário da condição humana, felizes aqui e agora, não nos paraísos imaginários do recalque.
Contra isso tudo porém, se põe a Igreja do Poder, simbolizada pela irmã Alouysius (Streep). Hierarquizante, dogmática, centralizadora, alicerçada no medo, no controle. Uma cena reveladora da estagnação repressiva, no filme: tanto faz se o papa do retrato está vivo ou morto, o que importa é que o retrato sirva de espelho para a professora observar seus alunos mesmo quando estiver escrevendo na lousa. Irmã Alouysius, presa do inferno de suas próprias dúvidas -que só confessará na cena final, belíssima-, foge delas fazendo-se uma estátua "viva" de verdades, granito moral indevassável, que todavia aceitará usar da mentira como instrumento a serviço de seu Deus da verdade e do amor.
Independente de opções ideológicas (a Igreja é forte e dinâmica justamente por ser múltipla, contraditória), o que me assusta nessa Igreja do Poder é justamente a incapacidade de duvidar, sobretudo de duvidar de si. Isso é sintoma da fraqueza de suas certezas. Quanto menos confiamos no que cremos, mais fanática e intolerante é a defesa dessas crenças, defesa em sentido freudiano, inclusive.
Doubt porém é interessantíssimo também por colocar em dúvida oposições muito nítidas entre bem e mal, inclusive no tocante ao mérito da acusação da freira. Ficamos sem saber ao certo se Flynn é de fato o sacerdote que encarna Cristo no amor generoso pelo aluno perseguido, ou se é o charlatão que esconde sob a batina uma moral pessoal deformada e depravada. Ou se é ambos.
Tivemos recentemente no Brasil um caso que me vinha à lembrança enquanto assistia ao filme. Um padre ícone da Igreja progressista de São Paulo, e que muito fez pelos pequeninos carentes desta cidade selvagem. Estourou uma série de fofocas que são, como diz padre Flynn num de seus sermões, as penas do travesseiro cortado espalhadas, irremediavelmente, pelo vento. Reputações destruídas para sempre, mesmo se ao final as denúncias se comprovarem falsas. Mas a imagem é tudo, diz o slogan de nosso tempo. Escrava dos humores da mídia e da opinião pública do rebanho, a imagem se ergue aos céus tão rapidamente quanto pode se afogar no lodo.
Penso que na raiz da questão da moral afetiva dos padres está o tabu da sexualidade em geral, pessimamente trabalhada pelos dogmas eclesiásticos. Para começar, o celibato dos padres. Instituição não só anacrônica, mas visceramente absurda, ao menos enquanto regra imposta, e não adesão do coração. Muitas vocações profundas podem ser abortadas por causa deste "anticoncepcional" troglodita, a obrigação de castrar o desejo justamente naqueles que Cristo, o Mestre do Amor, chamou para propagar seu evangelho. Mas isto é tema para outro momento.
Voltando ao tema, ou um dos temas, de Doubt: todo saber tem algo de paranóico, até para que a realidade possa se adaptar aos esquemas projetivos, à "grade" artificial, necessariamente inventada, de nossos conceitos e pré-conceitos, radares de nosso estar no mundo. O ego, cria da Vontade, a serviço dela, se vale da ilusão de ser um ente à parte que se depara com objetos que só fazem sentido na relação com o próprio sujeito. O mundo como representação nasce e morre com cada sujeito, só existe "para nós". Um narcisismo adaptativo, uma mania de significado, que todavia não nos condena aos dogmas, às certezas graníticas de uma irmã Alouysius. Despojada do véu de Maya do egotismo compulsivo, a existência se faz de-cisão, escolha entre possíveis, igualmente possíveis e relativos, é a e-moção que se move na ambiguidade e no risco. É abertura. Não percamos isso. Não sejamos algozes de nós mesmos, réus, procuradores e vítimas de nosso medo travestido de truculência. Não temos esse direito, sobretudo os encarregados de cuidar de almas, de fazer alma, de "animar" (alma-anima) a História com a esperança de redenção.

Tuesday, February 24, 2009

ladainha de são Vinícius



Amo as ladainhas. Quando exausto ou sedento de fé, são minha poética predileta. Quando a mente parece que mente a cada suspiro, quando a palavra parece intoxicada de melancolias estagnantes. Quando os dizeres parecem todos uma farsa sem graça alguma, e não há mais saída. Desejo a Lua como Calígula, e sem sair do lugar me afasto dela, e sei disso, e são só sombras, e minha alma é o lobo da estepe que uiva. De saudade e de dor pelo que não sabe esquecer. Alma jazigo, sem as lindas decorações da Consolação. Meu uivo são as ladainhas, ditas ou caladas. Sagradas ou profanas. Dos mantras e terços à batida das músicas eletrônicas. Repetição que não é da ordem da mesmice. As ladainhas convidam ao transe e transcendência. Subvertem pela insistência. Páram a roda da repressão. Quando praticadas com vivacidade e atenção plena ao instante que passa e que volta. Revolta contra a modorra, saída do simulacro. Hipnose que abre, abracadabra que fecha, círculo de banimento, expurgo do supérfluo. Hoje me sinto menos preso por recitar a ladainha de "são" Vinícius de Moraes, padroeiro do amor radical. E da palavra transcendida. Mesmo sem ser sábado.
Dia da Criação
(Vinícius de Moraes)

Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.

De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia. Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Sunday, February 22, 2009

a folia e as formigas

Formiga bulldog-ant

Assim como o Natal e o Réveillon, o Carnaval tem certas características dos rituais de renovação do mundo, tão importantes para o homem desde os primórdios da civilização. São rituais que, de diferentes modos, apontam para uma constatação de cansaço, de exaustão cósmica: o tempo cotidiano se desgastou, enfraqueceu, broxou, ou os homens broxaram nele, e eis que surge uma espécie de Viagra simbólico para, com o perdão do trocadilho, levantar o astral. Se no Natal nossa "alegria" advém do re-Nascimento da Criança Divina, nestes dias fevereiros, ao contrário, somos gentilmente forçados não a sublimar, mas a extravasar.
Cristãos bonzinhos, recatados e familiares, em dezembro, somos agora diabinhos fazendo nossas diabruras, bebendo, pulando, beijando a mulher do próximo ou ao menos a mulher mais próxima. Isso falando-se, é claro, de meu prisma masculino, mas não difere muito do que se exige e do que se espera das mulheres em nossos tempos de "igualdade" de direitos hedonistas entre os sexos: que façam a festa, que corram à farra, moral às favas.
Curiosamente, tanto Natal como o Carnaval são datas que costumam me dar uma certa abatida..... não propriamente uma tristeza, mas, como diz uma amiga inspirada, certo sentimento pardo, ou, diria eu, um clima de "mormaço" interno.
Creio que o tédio, mais do que uma disfunção hormonal a ser suprimida pelos prozacs da vida, é um lembrete fundamental de que alguma coisa não vai bem na vida. Em mim ou no mundo?
Pergunta ociosa, se lembrarmos que a existência humana é ser-no-mundo, ser-aí, Dasein, segundo Heidegger. Não somos átomos (indivisíveis) trancafiados em um mundo privado e isolado, somos fluxos desejantes divididos em nós mesmos e em permanente contato e contrato de existência interpessoal e suprapessoal. Correntezas mais ou menos obscuras de inconsciente pessoal e coletivo agitam e limitam nossos movimentos, e nos fundem aos demais. O sofrimento do mundo, a falsidade do mundo, os artifícios do mundo, tudo isso é também meu e eu.
Neste domingo de carnaval, minha "folia", meu refúgio, meu tonificante paradoxal contra os efeitos mais paralisantes do tédio, foi a companhia do mestre do pessimismo, Arthur Schopenhauer. Destrinchando o capítulo 27 de O Mundo como Vontade e como Representação.
Ao tratar da essência metafísica do Mundo, Schopenhauer mostra que não simplesmente trocou uma palavra por outra, Deus por Vontade, para todavia continuar se fiando num mesmo e já conhecido fundamento totipotente, onisciente e todo-bondoso do universo. Que esse fundamento universal seja a Vontade, é algo de graves conseqüências teóricas -para a história da filosofia- e práticas, para a existência do dia-a-dia.
Uma dessas consequências é descobrir que é natural e eterno o que gostaríamos de ver como anômalo e passageiro: o sofrimento de todas as criaturas. Fetos e frutos da Vontade, nós sofremos porque a Vontade sofre, é cega, é "egoísta", é Una mas ao mesmo tempo dividida contra si mesma, multidão de partículas lutando uma contra a outra, guerra de tudo contra tudo, esforço de conquista e dominação."Assim em toda parte na natureza vemos conflito, luto e alternância da vitória, e aí reconhecemos com distinção a discórdia essencial da Vontade consigo mesma". Schopenhauer antecipou o que em Nietzsche ganharia uma palavra mais específica: o mundo como vontade de poder.
Descobriu também que a Vontade, que "crava continuamente os dentes na própria carne", é subjacente às crueldades que vemos todos os os dias sangrar a Terra: incêndios, tempestades, tsunamis, guerras, ódio, maldade. Natureza devorando natureza, bicho-homem torturando-se em si mesmo ou através de uma vítima outra (que o predador ignora ser um outro eu, e o mesmo Eu). Evidência impressionante da autodiscórdia da Vontade, cita o filósofo, é uma certa formiga australiana, a formiga bulldog-ant, que, quando cortada, começa uma luta entre a sua cabeça e a sua cauda. A primeira atacando com mordidas, a segunda se defendendo com o ferrão. A luta dura cerca de meia hora, até que ambas morrem ou são carregadas por outras formigas.
Nosso corpo e mente, expressões da Vontade, também travam lutas dilacerantes, fratricidas, muitas vezes silenciosas. A neurose e a psicose são apenas expressões mais escancaradas da guerra que nos fere por dentro e nos move para fora.
Essas palavras duras, amargas, que muitos preferirão evitar e trocar pelos anestésicos chacrinhas, eu sinto falarem mais comigo do que qualquer locutor idiota narrando a "alegria" das multidões natalinas e carnavalescas. Alegria que é parte da mentira caracteriológica (Becker) do homem, da falsidade que sustenta, nutre e viabiliza a vida quando irrefletida, alienada.
A Vontade é ridiculamente disfarçada quando lemos, no Natal, o mito de Cristo da maneira como querem que leiamos: como um criancinha boazinha rodeada de bichinhos. Cristo é antes símbolo do homem que sofre por existir, morre para o ego e suas "vontades" e ressuscita para o espírito, para uma individualidade menos cindida, mais integral e amorosa.
A Vontade é ridiculamente disfarçada, também, quando brincamos de carnavalescos beberrões esquecidos do mundo, formigas frenéticas rodopiando em torno do nada, numa "vibe" viagra, caricatura de outro mito, o de Baco, igualmente esmagado pelo clichê.

Thursday, February 19, 2009

preservativos psíquicos contra carnavais banais

"Mas tudo o que é precioso é tão difícil como raro"ESPINOSA, B.
Ética, Quinta Parte

"Pode-se verificar, facilmente, que o valor psíquico das necessidades eróticas se reduz, tão logo se tornem fáceis suas satisfações. Para intensificar a libido, se requer um obstáculo; e onde as resistências naturais à satisfação não forem suficientes, o homem sempre ergueu outros, convencionais, a fim de poder gozar o amor. Isto se aplica tanto aos indivíduos como às nações. Nas épocas em que não havia dificuldades que impedissem a satisfação sexual, como, talvez, durante o declínio das grandes civilizações, o amor tornava-se sem valor e a vida vazia; eram necessárias poderosas formações reativas para restaurar os valores afetivos indispensáveis. Nessa conexão, pode-se afirmar que a corrente ascética da Cristandade criou valores psíquicos para o amor que a antiguidade pagã nunca fora capaz de lhe conferir. Essa corrente adquiriu sua maior importância através dos monges ascéticos, cujas vidas foram quase exclusivamente dedicadas a combater a tentação libidinosa"FREUD, S.
"Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor"

Persona: a máscara, no teatro grego antigo. Per-som: aquilo pelo qual algo de interno (a voz do ator) emergirá e soará para outrem. A máscara não como o que esconde, o que reprime, mas o que dá forma e torna atraente, porque misterioso. O desejo vive no mistério como os Peixes -hoje, 20/02, recomeça o tempo deles no zodíaco- vivem nos oceanos. Me assusta, nessa época pré-carnavalesca, a enxurrada de campanhas pró-camisinha que estimulam o sexo pelo sexo, trepa banal, tola. Como se a densidade da relação sexual, e suas complicações potenciais, coubessem num saco de plástico. Que aliás, convenhamos, é chatérrimo, embora evidentemente necessário. Ainda mais quando querem fazer do povo rebanho crescendo e multiplicando e bebendo e cagando e sobretudo comprando. Mas melhor preservativo é a mente, o discernimento, consciência e amor. Quem apenas trepa, dorme. Encouraçados cansados. Quem faz amor, desperta. Para sonhos a dois.

Sunday, February 15, 2009

arquibancadas vazias



O futebol apresentado não foi dos melhores, assim como o resultado: um mero um a um. Mas tô feliz com nosso jogo de hoje contra os bambis: mostramos capacidade de superação para, com um jogador a menos, ir à luta e empatar uma partida que parecia perdida, depois do primeiro gol do adversário. Mas o que sobretudo me alegrou foi a frustração -pelo menos nesse âmbito, do placar do jogo- de mais uma manobra elitista, arrogante e idiota dos dirigentes são-paulinos.
Quiseram exilar do Morumbi a Fiel, nos reservando pouquíssimos ingressos (dez por cento do total), e a preço maior e absurdo (90 reais). Gesto típico de um clube que prima pela inveja do que desesperadamente querem tomar de nós- o amor popular, o carisma. Ato revelador também de um "sistema-futebol" que, como o sistema social em geral, vai cada vez mais se embrutecendo, se fechando em egoísmos, mercantilismo, medo, exclusão, trapaça, na esperteza, na intolerância que quer menos a vitória para si do que a desgraça e eliminação para o inimigo.
Fim da capacidade de conviver, de brincar, de zoar e ser zoado. De ver a torcida do outro (ou, pior, a nossa) ir embora do estádio sob os gritos "carinhosos" do adversário que venceu daquela vez. Mentalidade de Gueto, de Gaza.
Tudo "sério", tudo pesado, homens de cinzas. Pelo fetiche do dinheiro (alegaram não sei que porra de carnês pros jogos dos bambis na Libertadores) preferem matar a magia da paixão. Gente sem graça. Gente ridícula.
Me lembro de meus tempos de criança fanática, frequentando um Morumbi sempre cheio, colorido e espetacular para as disputas entre Corinthians e São Paulo. E, devo dizer, a bambizada nunca foi de nos dar maiores problemas, ainda mais com meu sopro de sorte presencial rs. O que talvez explique também tanto ressentimento contra nós. Um dos primeiros jogos que vi foi também um dos mais inesquecíveis, pela emoção, choro e êxtase: um heróico 3 a 3 de 1987, quando, com a garra de hoje, também fomos buscar um empate impossível (estava 3 a 1 pra eles). Ou ainda o 1 a 0 de 1990, eu vendo quase nada e sentado no chão, de tanta gente que tinha, e o gol glorioso de Tupãzinho decretando nosso primeiro título brasileiro. Gol típico do Timão, sofrido, feio, no sufoco, gol de carrinho, gol "tupãzinho".
E fico melancólico ao fechar esse álbum festivo e afetivo e olhar, por uma gélida tela de TV, o espírito de mediocridade assombrando as arquibancadas vazias do que um dia foi a festa do povo brasileiro e um exemplo de tensão, mas convívio, em suma, de drama dos contrários em prol do épico do Todo.

Wednesday, February 11, 2009

céu e inferno em mim


Mahakala, Tibete, século XVIII


O Céu de Sukhavati, Tibete, século XV

"Nos sistemas budistas, especialmente os do Tibete, os Budas da meditação aparecem sob duplo aspecto, um pacífico, outro colérico. Se você se apegar fortemente ao seu ego e ao seu pequeno mundo temporal, de mágoas e alegrias, querendo preservar uma vida desejada, aparecerá o aspecto colérico da deidade. Esta será terrível. Mas no momento em que o seu ego se desprende e se entrega, aquele mesmo Buda é experimentado como doador de felicidade".

JOSEPH CAMPBELL - O PODER DO MITO

Saturday, February 07, 2009

tempo terra terror

Gustave Doré, Adão e Eva Expulsos do Paraíso


Conta-se, na Índia, que o Uno primordial, o Deus da Identidade, em certo instante fatídico disse: 'Eu sou". E assim que o disse, se apavorou. Porque passou a ser um ente, Do-ente de Tempo. Sentiu-se então solitário e carente, e quis que houvesse outrem a seu lado, então sentiu desejo. E cindiu-se em dois, tornou-se macho e fêmea, e originou o mundo.
Joseph Campbell relata um interessante paralelo psicológico desse Nascimento da Tragédia cósmica:
"Medo é a primeira experiência do feto no útero. Há um psiquiatra checoslovaco, Stanislav Grof (...) que por muitos anos tratou pessoas com LSD. E descobriu que muitos reviviam a experiência do nascimento e, nesse reviver, o primeiro estágio era o do feto no útero e aí surge o terror! Medo é a primeira coisa, a coisa que diz 'eu'. Então advém o terrível estágio de nascer, a difícil passagem através do canal de nascimento, e então... meu Deus, a luz! Você pode imaginar isso?"
Outra variante desse tema poderíamos encontrar na Ode de Ricardo Reis:
"Sofro, Lídia, do medo do destino.
A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.
Tudo quanto me ameace de mudar-me

Para melhor que seja, odeio e fujo.
Deixem-me os deuses minha vida sempre
Sem renovar
Meus dias, mas que um passe e outro passe
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo
Para a velhice como um dia entra
No anoitecer".
O conservantismo psíquico está inscrito nos nossos instintos. E como a planta que se volta para o Sol, a alma busca a Treva, tem o tropismo de Retorno, instinto de Nirvana, como Freud contou, recontando um conto há muito contado e cantado pelos bardos das bordas do Inconsciente Coletivo.
Nirvana, Nada que é Tudo, Mito, Pleroma, dissolução da Thing em No-Thing. Alforria da escravatura da História, transcender a consciência dualista ( a Árvore do Bem e do Mal, a "ex-pulsão" do Paraíso), estado incondicionado, acausal, "a-coisal": rompendo as barreiras transcendentais de tempo e espaço, das ilusões que quadriculam a realidade em coisas percebidas , resta a coisa em si, coisa que não é coisa, ente não mais do-ente, Cura, Curador do Museu Vivo de éteres sutis, in-existentes, existentes no dentro e no seio do Éden do Aberto.

Friday, February 06, 2009

um fantasma manda alô aos tubarões de Wall Street

Karl Marx (1818-1883)

http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=11457&cod_canal=42


Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: “A Era da Revolução: Europa 1789-1848” (1962); “A Era do Capital: 1848-1874” (1975); “A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro “A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.
Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro “Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later” (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).
Nesta conversa, abordamos o renovado interesse que os escritos de Marx vêm despertando nos últimos anos e mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. Nosso colaborador Marcello Musto entrevistou Hobsbawm para Sin Permiso.
Marcello Musto: Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética e das ataduras do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido atenção intelectual pela nova publicação de sua obra, como também tem sido objeto de crescente interesse. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a Marx, com um título provocador: “O pensador do terceiro milênio?”. Um ano depois, na Alemanha, em uma pesquisa organizada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500 mil espectadores votaram em Karl Marx, que obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância atual”.
Em 2005, o semanário alemão Der Spiegel publicou uma matéria especial que tinha como título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (A volta de um espectro), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da rádio 4, da BBC, votavam em Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em uma conversa com Jacques Attali, recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, “são os capitalistas, mais que outros, que estão redescobrindo Marx” e falou também de seu assombro ao ouvir da boca do homem de negócios e político liberal, George Soros, a seguinte frase: “Ando lendo Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz”. Ainda que seja débil e mesmo vago, quais são as razões para esse renascimento de Marx? É possível que sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, para ser apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que não deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “demanda de Marx”, do ponto de vista político?
Eric Hobsbawm: Há um indiscutível renascimento do interesse público por Marx no mundo capitalista, com exceção, provavelmente, dos novos membros da União Européia, do leste europeu. Este renascimento foi provavelmente acelerado pelo fato de que o 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista coincidiu com uma crise econômica internacional particularmente dramática em um período de uma ultra-rápida globalização do livre-mercado.
Marx previu a natureza da economia mundial no início do século XXI, com base na análise da “sociedade burguesa”, cento e cinqüenta anos antes. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no setor financeiro globalizado, fiquem impressionados com Marx, já que eles são necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operam.
A maioria da esquerda intelectual já não sabe o que fazer com Marx. Ela foi desmoralizada pelo colapso do projeto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e econômicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lênin. Os assim chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tiveram uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, individualmente, muitos de seus membros possam estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim do controle humano sobre a natureza que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional compartilharam. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social preconizada por Marx.
Devemos levar em conta também que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a ação direta não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas. Claro, isso não significa que Marx tenha deixado de ser considerado como um grande clássico e pensador, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, que já tiveram poderosos Partidos Comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu seu ápice nos anos oitenta e noventa. Há sinais agora de que a água retomará seu nível.
Marcello Musto: Ao longo de sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém em seu tempo o desenvolvimento do capitalismo em escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises econômicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no verão de 1997; a crise econômica Argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise dos empréstimos hipotecários que começou nos Estados Unidos em 2006 e agora tornou-se a maior crise financeira do pós-guerra. É correto dizer, então, que o retorno do interesse pela obra de Marx está baseado na crise da sociedade capitalista e na capacidade dele ajudar a explicar as profundas contradições do mundo atual?
Eric Hobsbawm: Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como ocorreu com os velhos movimentos socialistas e comunistas, isso dependerá do que vai acontecer no mundo capitalista. Isso se aplica não somente a Marx, mas à esquerda considerada como um projeto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz corretamente, a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.
As pressões políticas já estão debilitando o compromisso dos governos neoliberais em torno de uma globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos, como a China, as vastas desigualdades e injustiças causadas por uma transição geral a uma economia de livre mercado, já coloca problemas importantes para a estabilidade social e mesmo dúvidas nos altos escalões de governo. É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista que procede por meio de crises econômicas auto-geradas com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal havia triunfado para sempre, que a história tinha chegado ao fim ou que qualquer sistema de relações humanas possa ser definitivo para todo o sempre.
Marcello Musto: Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o que poderia ser o socialismo do século XXI, renunciarem às idéias de Marx, estarão perdendo um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade atual?
Eric Hobsbawm: Nenhum socialista pode renunciar às idéias de Marx, na medida que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas sim em uma análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente da era capitalista. Sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planejado socialmente parece razoável, ainda que certamente ele tenha subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em algum sistema pós-capitalista.
Considerando que Marx, deliberadamente, absteve-se de especular acerca do futuro, não pode ser responsabilizado pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o chamado “socialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que os seres humanos pudessem realizar plenamente suas potencialidades, mas foi o que expressou essa idéia com maior força e suas palavras mantêm seu poder de inspiração.
No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, autoritariamente ou de outra maneira, nem como descrições de uma situação real do mundo capitalista de hoje, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Tampouco podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação bem planejada, coerente e completa de suas idéias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de “O Capital”. Como mostram os “Grundrisse”, aliás. Inclusive, um Capital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso.
Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência atual entre os ativistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalização seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. Marx reconheceu isso como um fato e, como um internacionalista, deu as boas vindas, teoricamente. O que ele criticou e o que nós devemos criticar é o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.
Marcello Musto: Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os “Grundrisse”. Escritos entre 1857 e 1858, os “Grundrisse” são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital, contendo numerosas reflexões sobre temas que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte de sua criação inacabada. Por que, em sua opinião, estes manuscritos da obra de Marx, continuam provocando mais debate que qualquer outro texto, apesar do fato dele tê-los escrito somente para resumir os fundamentos de sua crítica da economia política? Qual é a razão de seu persistente interesse?
Eric Hobsbawm: Desde o meu ponto de vista, os "Grundrisse" provocaram um impacto internacional tão grande na cena marxista intelectual por duas razões relacionadas. Eles permaneceram virtualmente não publicados antes dos anos cinqüenta e, como você diz, contendo uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético. Mas não podiam simplesmente ser descartados. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar ortodoxamente ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições dos anos setenta e oitenta, antes da queda do Muro de Berlim, seguiram provocando debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx coloca problemas importantes que não foram considerados no “Capital”, como por exemplo as questões assinaladas em meu prefácio ao volume de ensaios que você organizou (Karl Marx's Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later, editado por M. Musto, Londres-Nueva York, Routledge, 2008).
Marcello Musto: No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário de sua composição, você escreveu: “Talvez este seja o momento correto para retornar ao estudo dos “Grundrisse”, menos constrangidos pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin, feita por Nikita Khruschev, e a queda de Mikhail Gorbachev”. Além disso, para destacar o enorme valor deste texto, você diz que os “Grundrisse” “trazem análise e compreensão, por exemplo, da tecnologia, o que leva o tratamento de Marx do capitalismo para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção não requer já mão-de-obra massiva, para a era da automatização, do potencial de tempo livre e das transformações do fenômeno da alienação sob tais circunstâncias. Este é o único texto que vai, de alguma maneira, mais além dos próprios indícios do futuro comunista apontados por Marx na “Ideologia Alemã”. Em poucas palavras, esse texto tem sido descrito corretamente como o pensamento de Marx em toda sua riqueza. Assim, qual poderia ser o resultado da releitura dos “Grundrisse” hoje?
Eric Hobsbawm: Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que tenham tido um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma releitura ou leitura deles hoje pode ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da sociedade burguesa na metade do século XIX. Não podemos prever que conclusões podem surgir desta análise. Provavelmente, somente podemos dizer que certamente não levarão a acordos unânimes.
Marcello Musto: Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?
Eric Hobsbawm: Para qualquer interessado nas idéias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá sendo uma das grandes mentes filosóficas, um dos grandes analistas econômicos do século XIX e, em sua máxima expressão, um mestre de uma prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual vivemos hoje não pode ser entendido sem levar em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser transformado de maneira efetiva se não for entendido. Marx permanece sendo um soberbo pensador para a compreensão do mundo e dos problemas que devemos enfrentar.


Tuesday, February 03, 2009

viver periGOZOsamente (momento brega rs)


DOIS
(Paulo Ricardo)

Quando você disse nunca mais
Não ligue mais, melhor assim
Não era bem
O que eu queria ouvir
E me disse decidida
Saia da minha vida
Que aquilo era loucura
Era absurdo...
E mais uma vez você ligou
Dias depois, me procurou
Com a voz suave
Quase que formal
E disse que não era bem assim
Não necessariamente o fim
De uma coisa tão bonita
E casual...De repente as coisas
Mudam de lugar
E quem perdeu pode ganhar
Teu silêncio preso
Na minha garganta
E o medo da verdade
Iêi!...Eu sei que eu
Eu queria estar contigo
Mas sei que não
Sei que não é permitido
Talvez se nós
Se nós tivéssemos fugido
E ouvido a voz
Desse desconhecido
O Amor! O Amor! O Amor! O Amor!...
Essa voz que chega devagar
Prá perturbar, prá enlouquecer
Dizendo pr'eu pular
De olhos fechados
Oh! Oh!...
Essa voz que chega a debochar
Do meu pavor
Mas ao pular
Eu me vejo ganhar asas e voar
Oh!...
De repente as coisas
Mudam de lugar
E quem perdeu pode ganhar
Minha amiga, minha namorada
Quando é que eu posso
Te encontrar
Iêê! Iêê! Iêê!...
Eu sei que eu
Ah! eu queria estar contigo
Mas sei que não
Sei que não é permitido
Talvez se nós
Se nós tivéssemos fugido
E ouvido a voz
Desse desconhecido...
Eu sei que eu
Ah! eu queria estar contigo
Mas sei que não
Não, não, não, não
Não é permitido...

entre quatro parênteses (ave fora da multidão)

"L´enfer, c' est les autres"

J.-P. SARTRE