terça-feira, março 31, 2009

Jesus Cristo Libertador (Ou: Vigília pela Sexta-Feira da Paixão do Grande Sonho)

"Quando os cristãos se atreverem a dar um testemunho revolucionário integral, a revolução latino-americana será invencível, já que até agora os cristãos têm permitido que sua doutrina seja instrumentalizada pelos reacionários"
Ernesto Che Guevara

Recebi ontem do professor José de Souza Martins (sociologia / USP) e gostaria de compartilhar com vocês o texto abaixo, do grande Dom Pedro Casaldáliga, exemplo, como o querido Dom Paulo Evaristo Arns, de uma Igreja que já soube ser muito melhor do que hoje.
Texto belo, comovente, algo triste também. Adjetivos que me ocorreram igualmente este domingo, ao ver o filme "Che", estrelado por Benício del Toro.
Nos dois casos, o do texto e o do filme, imagens de um sonho -a libertação integral do ser humano e da Terra, libertação existencial, moral, ecológica, política, libertação total-um sonho, eu dizia, hoje em crise, sonho eclipsado, no sentido em que Buber fala em "eclipse de Deus". Hoje é a era do Anticristo, não o de Nietzsche, infelizmente, pois este aliás era mais cristão do que muitos cordeirinhos de Deus; o Anticristo de hoje é o estado coletivo de rebanho sem Pastor e de domínio integral do mundo administrado (Adorno), hegemonia dos maus pastores da alienação.
Não se trata aqui de dar voz a nostalgias tolas, ainda sou novo demais para isso, embora também, por vezes, me sinta demasiado envelhecido, sobretudo por dentro, nas horas, ou , melhor, nas não-horas, no não-tempo, na a-História, no "eterno presente" (tipicamente pós-moderno) da melancolia, do desânimo, nas febres de solidão existencial, nas hemorragias ante um mundo que parece sugar as utopias e impor, com a devida etiqueta de mercadoria que é, a treva e a trava conformista.
O que quero não é o passado, é o agora, tempo do agora, Kairós da revolução, do dar um basta a essa masmorra que é a vida como está, não as coisas como são, lembrando a música de outro grande amigo d' alma que já se foi. Se foi? As pessoas passam, suas idéias e paixões ficam, e quem sabe aqueçam os corações no frio polar da Sexta-Feira da Paixão do Grande Sonho que morreu e ressuscitará.



HOJE NÃO TENHO MAIS ESSES SONHOS»,
diz o cardeal
O cardeal Carlo M. Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milan e colega meu de Parkinson, é um eclesiástico de diálogo, de acolhida, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na Sociedade. Em seu livro de confidências e confissões Colóquios noturnos em Jerusalém, declara: «Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse pela raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensem com mais amplidão; que desse ânimos, especialmente, àqueles que se sentem pequenos o pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos». Esta afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus.
Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a «outra Igreja possível», ao serviço do «outro Mundo possível». E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; o tem demonstrado.
Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, «é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade»; hoje com uma visão e uma ação estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam nossos pensadores, nossos militantes, nossos mártires, nossos famintos...
A grande crise econômica atual é uma crise global de Humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: Trata-se de salvar o Sistema ou se trata de salvar à Humanidade? A grandes crises, grandes oportunidades. No idioma chinês a palavra crise se desdobra em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade.
Na campanha eleitoral dos EUA se arvorou repetidamente «o sonho de Luther King», querendo atualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila, e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto em seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.
Hoje, nós, na convulsa conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais de jeito nenhum podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome a uma grande maioria da Humanidade. E seguiremos rechaçando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC...). Comprometemo-nos a vivermos uma «ecologia profunda e integral», propiciando uma política agrária-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de «alta intensidade».
Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. «Meu Deus, me deixa ver a Deus?». Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo interreligioso não somente é possível, é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de discriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: «Não será assim entre vocês» (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anuncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela «expressão mais alta do amor fraterno» (Pio XI).
Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. «Ainda cantamos, ainda sonhamos». Nós nos atemos à palavra de Jesus: «Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda» (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a Humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro e, em todo o caso, mais uma vez e sempre, «eu me atenho ao dito: a Esperança».
Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: «A velhice é uma espécie de postguerra»; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.

Pedro Casaldáliga

Circular 2009

domingo, março 29, 2009

meu caixão super-egóico de cada dia


"O mal- Examinem a vida dos melhores e mais fecundos homens e povos e perguntem a si mesmos se uma árvore que deve crescer orgulhosamente no ar poderia dispensar o mau tempo e os temporais; se o desfavor e a resistência externa, se alguma espécie de ódio, ciúme, teimosia, suspeita, avareza e violência não faz parte das circunstâncias favoráveis sem as quais não é possível um grande crescimento, mesmo na virtude? O veneno que faz morrer a natureza frágil é um fortificante para o forte – e ele nem o chama de veneno".
Nietzsche,
A Gaia Ciência
A anedota que se segue, a conheci esses dias numa comunidade orkutiana de que participo. Verídica ou não, é significativa. Uma pequena dose de auto-ajuda (por que não? rs), ou, como prefiro colocar, uma folha a mais que se poderia juntar ao meu manual imaginário de primeiros-socorros psíquicos para suportar o convívio do rebanho humano -esse caixote ou caixão super-egóico feito para oprimir a singularidade radical do Ser e o princípio do prazer de viver:

Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas.O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal:- "Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta."

quarta-feira, março 25, 2009

conto de fadas para a era de Obama


Assistam a Gran Torino! Clint Eastwood em plena forma como o grande diretor que é, sempre capaz de narrativas densas e envolventes do primeiro ao último piscar de sua câmera na alma. Câmera cúmplice e à escuta das culpas, angústias, perplexidades sem respostas do homem que ainda tem o "sentimento de criatura" (Rudolf Otto) mas que já não encontra sinais do Criador nesta Criação sombria e malévola.
Em Gran Torino, outra grande questão é a da alteridade. O protagonista (vivido brilhantemente pelo próprio Clint) é um americano de origem polonesa, veterano da Guerra da Coréia, de nome Walt Kolawski, nacionalista xenófobo e chauvinista do dedo do pé até o último de seus ralos cabelos. Mas a pátria, enquanto comunidade afetiva e efetiva, já não passa de uma abstração, idéia antiquada devorada pelos ventos globais e pela distância entre os homens.
Kolawski remói em silêncio remorso de seus crimes de guerra, sobretudo aqueles mais desnecessários, mais cruéis, quando o inimigo queria apenas se entregar. E descobrirá pouco a pouco a chance de redenção onde menos se esperaria, na sua nova vizinhança, que a princípio ele odeia - afinal, ela é de imigrantes do Sudeste Asiático.
Kolawski acabara de perder sua esposa. Misantropo, ele só encontra ainda amor na relação com sua adorável cadela, e na sua devoção ao carro antigo, o Gran Torino, símbolo do auge de uma vida agora em declínio. A família também já não passa de uma palavra oca. O relacionamento com seus parentes próximos é frio e hostil. Os filhos querem mandá-lo para o asilo. A neta quer o Grand Torino, e joga na cara do velho que a morte deste é iminente. E ela não sabia, mas era mesmo. Kolawski descobre (e num exame não com seu velho médico, aposentado, mas com uma nova profissional, também asiática) que está gravemente enfermo.
Tudo se encaminhava para uma morte inglória, aniquilamento final de uma vida roída por fantasmas do passado, pela miséria espiritual do presente e, ainda por cima, pelo desgosto de ver o bairro tomado por essa gente esquisita, de costumes bizarros.
Mas é como estrangeiro para aqueles estrangeiros, que o ranzinza veterano de guerra encontrará a "família" que já não tinha entre seus parentes de sangue. Família que nasce no amor nas e para além das diferenças, e que vai tão fundo a ponto de se expressar no cuidado paternal que o velho terá por um adolescente que, pouco antes, tentara justamente roubar o Grand Torino. E é movido de afeto ao rapaz, e à garotinha que foi a primeira amiga "nativa" e a "pontífice" (=ponte) da transformação de Kolawski , que ele doará sua vida pelos amigos, como Cristo pediu. A morte de Kolawski, de braços abertos em cruz, no chão, porém sem espalhafato, é evidentemente gesto que lembra o mestre de Nazaré.
É uma morte que conclama por conciliação, não do homem com o incógnito e indiferente Senhor dos Céus, mas dos homens entre si, rito de purificação que envolve também o expurgo dos "pecados" (pecados sociais também=a prisão da gangue que matou o herói e agredira seus pequenos amigos). A pergunta de Jesus vem à mente: quem é minha mãe e meus irmãos? Quem é nossa família? Não mais os acorrentados por obrigações sociais e morais, mas os que se atraem pelo espírito.
Gran Torino, além de belíssimo, traz um significado profundo sobre o amor que não se ensina em sermões. Aliás, a figura do jovem padre do filme também é importante para o todo, e passará por uma conversão à existência; recomendo ao idiota do bispo de Olinda, o do "estupra mas não aborta", que assista com urgência, temor e tremor.
Clint nos oferece, em suma, um conto de fadas, violento como o nosso tempo, mas que nos faz acalentar com sobriedade o sonho de um novo tempo, a América de Obama, multicor, a civilização planetária do Amor.

quarta-feira, março 18, 2009

mal-estar na civilização


Caminhava a pé sob o temporal de ontem na cidade, atravessando da Angélica até a avenida Paulista em meio a muita água, muito vento e muito caos. Um cenário que remete filosoficamente à idéia de Schopenhauer sobre o sublime como o que encanta e ao mesmo tempo nos aniquila, hierofania que revela o quão frágeis e vãos são o ego e o corpo individuais perante o império das forças da vida e da morte.
Mas conceituar é já empobrecer a experiência sensorial primária, intuitiva. E o que a experiência de ontem me trazia era um sentimento contraditório. Como coisa entre coisas, atacada sem dó nem piedade pela tempestade, o que me vinha era uma certa angústia, não necessariamente negativa: era, afora certo regozijo com meu próprio esforço físico de resistência às adversidades, a percepção do quão ilusório e fútil, nessas horas, é pensar em Deus, em Natureza boazinha e amiga, ou esperar alguma coisa de nossas tentativas mágicas de controle, quando tudo é tão maior e tão mais devastador do que o pobre prepotente bicho sapiens e suas brincadeiras de casinha no inóspito mundo selvagem.
Sentindo-me coisa entre coisas, eu me transcendia; mas sentindo-me, ao mesmo tempo, como pessoa entre pessoas, eu me irritava. Aqueles carros passando e espalhando água pelas calçadas, aqueles guarda-chuvas disputando espaço, aqueles ginastas saltitando sonados pelo chão, como que preparando um vôo (foda-se acordo ortográfico) de Diego Hipólito, aquela pseudo-selva urbana despreparada para a selva natural..... tudo isso me trazia profundo desagrado e "transtorno".
Transtorno é a palavra com que a suposta "civilização" urbana e tecnológica costuma se referir às falhas e desconfortos gerados pelos acidentes que fazem emperrar a máquina.
Transtorno é o limbo em que somos jogados quando ficamos perdidos entre a natureza e a cultura, privados do conforto da técnica mas não devolvidos plenamente, contemplativamente, ao regaço do Real, da Vontade primitiva. Não temos muitas possibilidades para a contemplação; não me refiro às yogas de academia, às celebridades zen na revista Caras. Refiro-me à possibilidade de experenciar a vida sem as barreiras e couraças, e de ter acesso e participação mais profundas nos espetáculos sem museu e sem etiquetas (as de preço e as de regra) que nos são oferecidos pelo mundo a cada raiar do sol e retorno da treva, a cada brisa e a cada borrasca.
Evoé, Grande Mãe Terna e Terrível! Que eu possa fazer sempre mais jus ao orgasmo temível e tesudo que me cria e me sustém como um de seus filhos, e que os silêncios falem mais, e as palavras calem mais, para além dos transtornos decorrentes desse excesso de gente e de artefatos que fazem da Terra não, como prometido pelo "saber é poder " de Bacon, um paraíso de progressos humanistas, mas, isso sim, um inferno de antropóides racionais enlouquecidos de tanto quererem ter razão.

segunda-feira, março 16, 2009

nas fronteiras do grande ser-tao

Bertolt Brecht
Lao-Tsé

Lenda sobre o surgimento do livro Tao Te Ching durante o caminho de Lao-tsé à emigração
(Bertolt Brecht)

1
Quando estava com setenta anos, e alquebrado,
O mestre ansiava mesmo era por repouso
Pois a bondade mais uma vez se enfraquecera no país
E a maldade mais uma vez ganhara força.
E ele amarrou o sapato.
2
E juntou ele o de que precisava: Pouco.
Mas mesmo assim, isso e aquilo.
Como o cachimbo, que ele sempre fumava à noite
E o livrinho que sempre lia.
Pão branco sem muito calcular.
3
Alegrou-se do vale ainda uma vez e o esqueceu
Quando pela montanha o caminho enveredou.
E o seu boi alegrou-se da grama viçosa
Mastigando, enquanto carregava o velho.
Pois para ele ia-se depressa o suficiente.
4
Mas no quarto dia, numa penedia
Um aduaneiro barrou-lhe o caminho: "Bens a declarar?"
-"Nenhum."
E o menino, que conduzia o boi, falou:
"Ele ensinou." E assim também isso ficou explicado.
5
Mas o homem, tomado por alegre impulso
Ainda perguntou:"E o que ele tirou disso?"
Falou o menino:"Que a água mole em movimento
Vence com o tempo a pedra poderosa.
Tu entendes, o que é duro não perdura."
6
Para que não perdesse a última luz do dia
O menino foi tocando o boi.
E os três já desapareciam atrás de um pinheiro escuro
Quando de repente deu um estalo no nosso homem
E ele gritou: "Ei, tu! Alto lá!
7
O que está por trás dessa água, velho?"
Deteve-se o velho: "Isso te interessa?"
Falou o homem: "Eu sou apenas guarda de aduana
Mas quem vence a quem, isto também a mim interessa
Se tu o sabes, então fala!
8
Anota-o para mim!
Dita-o a este menino! Coisa dessas não se leva embora consigo.
Papel há em casa, e também tinta
E um jantar igualmente haverá: ali moro eu.
E então, é a tua palavra?"
9
Por sobre o ombro, o velho mirou
O homem: jaqueta remendada. Descalço.
E a testa, uma ruga só.
Ah, não era um vencedor que dele se acercava.
E ele murmurou: "Também tu?"
10
Para recusar um pedido gentil
O velho, como parecia, já estava demasiado velho.
Então disse em voz alta:"Os que algo perguntam
Merecem resposta." Falou o menino: "Também vai ficando frio."
"Está bem, uma pequena estada."
11
E o sábio apeou do seu boi
Por sete dias escreveram a dois.
E o aduaneiro trazia comida (e nesse tempo todo apenas
Praguejava baixo com os contrabandistas).
E então chegou-se ao fim.
12
E o menino entregou ao aduaneiro
Numa manhã oitenta e uma sentenças
E agradecendo um pequeno presente
Entraram pelos rochedos atrás daquele pinheiro.
Dizei agora: é possível ser mais gentil?
13
Mas não celebremos apenas o sábio
Cujo nome resplandece no livro!
Pois primeiro é preciso arrancar do sábio a sua sabedoria.
Por isso agradecimento também se deve ao aduaneiro:
Ele a extraiu daquele.

quarta-feira, março 11, 2009

senda das fendas, fado dos fardos


Vincent Van Gogh, Old Man in Sorrow

"Uma vez que tenha o desejo pelo Ocultismo realmente despertado no coração do homem, não resta para ele qualquer esperança de paz, nem lugar algum de alívio e sossego em todo o mundo... já não encontra sossego ou paz na vida de todos os dias"
(Blavatsky, Ocultismo Prático)

Se o buscador espiritual "não se tornar sábio para o auxílio de todos ao seu redor, então a sua vida é verdadeiramente pior que a vida ordinária"
(Annie Besant, A Vida Teosófica)

"Procura aliviar algum tanto o pesado karma que ao mundo oprime; presta tua ajuda aos poucos braços vigorosos que impedem as potências das trevas de obter uma completa vitória. Agindo desta forma, começarás a participar da felicidade que, em verdade, acarreta um terrível trabalho e uma tristeza profunda, porém que é também um manancial de delícias sem fim".

(Luz no Caminho)

E a fenda se fez senda e habitou entre nadas.
E o árduo do fado do fardo da virtude na miséria.
E as coxas morenas torneadas das letras do gozo insublimável.
Ele compulsava compulsivo toda fórmula para a dor e o desejo.
A fór-mula pras mulas ignaras da sofreguidão insatisfeita.
Mil portas fechadas para o rei que se delira mendigo.
Mil sopas geladas, divinas, para o mendigo que se delira rei.
Des-concerto obtuso de maestros absurdos.
Compaixão, essa acre ascese cinzenta sem plumas e paetês.

domingo, março 08, 2009

Fênix Fenomenal


Ronaldo marca nos acréscimos e salva Corinthians de derrota
(fonte: UOL)

Com um gol do atacante Ronaldo aos 47min do segundo tempo, o Corinthians escapou de perder sua invencibilidade na temporada e ficou no empate por 1 a 1 com o Palmeiras, neste domingo, em jogo válido pela 12ª rodada do Campeonato Paulista, disputado em Presidente Prudente. Foi o primeiro gol do jogador em duas partidas pelo clube alvinegro. E justamente de cabeça, um dos fundamentos em que ele tem pouco destaque.
O gol do Fenômeno, já nos acréscimos, não quebra o tabu de, agora, cinco jogos sem vitória do Corinthians sobre o Palmeiras, mas é o primeiro da equipe alvinegra sobre o time alviverde desde o dia 25 de outubro de 2006, quando Marcelo Mattos marcou o tento da vitória por 1 a 0 pelo Campeonato Brasileiro.Após o término do jogo, Ronaldo, eufórico, descreveu o gol de cabeça marcado na partida. "Esquecendo um pouco a modéstia, esse momento [do gol] eu domino com perfeição. Se não soubesse fazer isso, não teria chegado onde cheguei", declarou à TV Globo. Com o empate, o Palmeiras chega aos 29 pontos e mantém a liderança isolada do Estadual. Já o Corinthians, que tem 26 pontos, continua na segunda colocação e manteve a longa invencibilidade em 2009, que já chega a 14 jogos, sendo 12 pelo Paulista, um pela Copa do Brasil e um amistoso.Na primeira etapa da partida, o único lance perigoso foi do Palmeiras. Aos 15min, depois de batida de escanteio pelo lado direito de Cleiton Xavier, o zagueiro Maurício Ramos subiu mais do que a zaga do Corinthians e cabeceou firme para defesa de Felipe, que salvou a equipe alvinegra de tomar o primeiro gol.
Com Jorge Henrique atuando pela direita e dando muito trabalho, o técnico Vanderlei Luxemburgo teve que alterar o posicionamento de seus zagueiros após Marcão cometer três faltas seguidas e receber cartão amarelo. Danilo foi para esquerda e o ex-jogador do Internacional foi deslocado para o meio.Após o susto no Corinthians e a mudança na zaga palmeirense, a postura defensiva dos dois times passou a funcionar e o primeiro tempo acabou recheado de divididas fortes, lances ríspidos e apenas uma jogada de efeito, quando Sandro Silva deu um belo chapéu em Cristian.
Depois, já aos 42min, Chicão acertou uma cotovelada no mesmo Sandro Silva, mas o árbitro Cleber Wellington Abade não viu e nada marcou. As imagens, no entanto, podem complicar o zagueiro corintiano em possível denúncia por parte do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD).No segundo tempo, as equipes voltaram sem modificações, mas com atitudes diferentes. E logo aos 3min o Palmeiras abriu o placar com clamorosa ajuda de Felipe. Keirrison lançou Diego Souza na esquerda, a bola quicou alta e o goleiro corintiano perdeu o tempo da jogada. Na sobra, o meia-atacante palmeirense só teve o trabalho de bater e fazer 1 a 0.O Corinthians reagiu e assustou o goleiro palmeirense Bruno por duas vezes, mas também viu Felipe se redimir com bela defesa em chute de Keirrison. Aos 18min, o técnico Mano Menezes colocou Ronaldo no lugar de Escudero e abandonou o esquema 3-5-2 para atuar no 4-3-3, com Jorge Henrique, Dentinho e o astro do time no ataque.E as mudanças surtiram efeito. Aos 33min, Ronaldo bateu forte e acertou o travessão do goleiro Bruno, que nada poderia fazer para impedir o primeiro gol do atacante com a camisa corintiana. Aos 42min, em nova jogada do Fenômeno pela esquerda, André Santos aproveitou cruzamento e cabeceou no chão. Bruno pulou, defendeu e salvou o Palmeiras.No entanto, aos 47min, após cobrança de escanteio da direita, Ronaldo contou com falha da zaga palmeirense, saiu pouco do chão, mas cabeceou firme para vencer o goleiro Bruno e empatar o jogo no final, coroando sua eficiente atuação neste domingo.Na comemoração, torcida e time viraram um só no alambrado. Foi preciso até mesmo a intervenção da Polícia Militar para evitar que um acidente mais grave acontecesse. O goleiro Felipe, que falhou no gol palmeirense, tirou a camisa, sendo, posteriormente, advertido com o cartão amarelo na comemoração do tento que marcou o clássico e a volta definitiva de Ronaldo ao futebol.

PALMEIRAS 1 X 1 CORINTHIANS
Data: 08/03/2009 (domingo)
Local: estádio Eduardo José Farah, em Presidente Prudente (SP)Árbitro: Cleber Wellington Abade (SP)Auxiliares: Carlos Augusto Nogueira Junior e Nilson de Souza Monção
Público e renda: 44.479 pagantes e R$ 1.349.390,00.
Cartões amarelos: Marcão (PAL), Cristian (COR), Keirrison (PAL), Maurício Ramos (PAL), Escudero (COR), Fabinho Capixaba (PAL), Pierre (PAL), Ronaldo (COR), Felipe (COR)Cartão vermelho: Fabinho Capixaba (PAL)
Gols: Diego Souza (PAL) aos 3min, e Ronaldo (COR) aos 47min, do segundo tempo
PALMEIRAS
Bruno; Danilo, Maurício Ramos e Marcão; Fabinho Capixaba, Pierre, Sandro Silva (Jumar), Cleiton Xavier e Armero; Diego Souza (Willians) e Keirrison (Marquinhos).Técnico: Vanderlei Luxemburgo.
CORINTHIANSFelipe; Chicão, William e Escudero (Ronaldo); Fabinho (Alessandro), Cristian, Elias, Douglas e André Santos; Jorge Henrique e Souza (Dentinho).Técnico: Mano Menezes.

quinta-feira, março 05, 2009

pa-lavrando o tempo



Vincent Van Gogh, A sesta (1889-1890)

"Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu.
Tempo de nascer,
e tempo de morrer;
tempo de plantar,
e tempo de arrancar a planta.
Tempo de matar,
e tempo de curar;
tempo de destruir,
e tempo de construir.
Tempo de chorar,
e tempo de rir;
tempo de gemer,
e tempo de bailar.
Tempo de atirar pedras,
e tempo de recolher pedras;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar.
Tempo de buscar
e tempo de perder;
tempo de guardar,
e tempo de jogar fora.
Tempo de rasgar,
e tempo de costurar;
tempo de calar,
e tempo de falar.
Tempo de amar,
e tempo de odiar;
tempo de guerra,
e tempo de paz.
Que proveito o trabalhador tira de sua fadiga? Observo a tarefa que Deus deu aos homens para que dela se ocupem: tudo o que ele fez é apropriado em seu tempo. Também colocou no coração do homem o conjunto do tempo, sem que o homem possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim."
Eclesiastes 3, 1-11