Monday, June 08, 2009

calendário da pedra

Denise Stoklos em Calendário da Pedra

Delícia te rever ontem, Denise. Teu Calendário da Pedra é um espetáculo de humanismo, se ainda for possível a conjugação do humanismo com esta palavra, espetáculo, sequestrada e desgastada pela sociedade do espetáculo, sociedade que tenta, com suas mãos imundas, fazer do humanismo uma mercadoria a mais, bacana de se depreciar, e exalta o espalhafato que não ousa dizer seu nome, o marketing da grossura, do irritar e parasitar, o personal branding dos neofariseus, cujas bases intelectuais muitas vezes fedem a leituras de orelha de Bourdieu, orelha salgada e mastigada e vomitada por glutões "inteligentes", vendilhões do Templo do Saber ou do Poder ou do Querer-Ter-e -Mostrar-Que-Tem, parasitas de alma oca e alienados de si, desesperados de papaguear alguma fala-falo de "impacto", alferes agoniados, viciados em existir aos olhos admiradores ou do ódio de outrem, de algum séquito escravo, desde que sejam notados, como no conto de Machado de Assis.
Já na tua companhia, e da "fraternidade vermelha" que você encarna, e que junta Milton Santos, Frei Betto, Florestan e tantos outros, que vieram, virão, estão, já nessa companhia, eu dizia, esse samsara podre e estéril fica pra trás. Os tempos são de pedra, monolíticos, paralíticos; os tempos são maus, como dizia São Paulo, e sua peça bem mostra isso. Mas você não goza com isso. Passa do gozo ao desejo. Desrecalca. Diz seu nome. O mundo, graças a gente como você, pesa menos nos ombros, se transmuta alquimicamente, é ainda pedra de Sísifo, eternamente elevada e rebaixada, mas não mais fardo exterior, e sim uma prova e trabalho de reforma íntima. Eternidade do opaco, alumiada por fagulhas de plenitude que passam, mas que marcam. E as marcas de nosso "Calendário da Pedra", não os de tua peça apenas, mas os da vida histórica, são uma temporalidade de eternas repetições do mesmo, contudo arejadas com frestas de transcendência, pontes para o mais-viver, ainda que cada passo de mais viver seja também um passo de mais morrer. Pelo menos deixa-se de morrer petrificado no medo, na covardia, na esperteza. Morre-se, ao contrário, em dinâmica de vida e vida em abundância, como prometeu o Mestre, morre-se em sacrifício, sacro-ofício de renascimento, de transformação da e em pedra filosofal.

1 comments:

Lucila said...

por que suas palavras tiraram a casca, deixando a carne viva, ainda q a tivesse perdido, tb reencontrei denise.
em gratidão,
lucila