Sunday, June 14, 2009

sobre deuses e espantalhos



Gostaria de compartilhar com os visitantes deste monastério subterrâneo algo que meus emissários da superfície me trouxeram para que eu brincasse com o tédio e o frescor desta friorenta manhã de domingo.
Trata-se do artigo "Vôo cego", de Ferreira Gullar na Folha de hoje. Foi um dos melhores comentários que li sobre a tragédia do vôo do avião da Airfrance (desculpem, pra mim continua sendo "vôo", não vou aceitar até quando puder as mutilações imbecis que estão tentando fazer na minha sagrada língua portuguesa: voo, ideia e outras excrescências).
Acho que Gullar me tocou por tocar também em certos complexos pessoais da minha psique, por exemplo a idéia de Deus como fuga, como necessidade de apaziguar imaginariamente a angústia de existir.
Outro dos expedientes que experimentei, desde a infância, e que me vêm à mente ao ler a crônica do poeta, é uma atitude ante o risco das catástrofes, de todas as escalas: um certo "pessimismo" que, na verdade, gostaria de ser convencido do contrário do que diz. Exemplos hoje amenos, que de amenos nada têm quando sentidos: "ahhh, aquela gata é impossível", ou: "nossa, acordei com um medo de que o Corinthians vai perder": e no instante mesmo desses pensamentos, ir "sub-pensando" (cf. Stanislávski e o "subtexto" no teatro) o contrário do que foi pensado. Esse pessimismo supersticioso joga assim: penso no pior, se acontecer, eu já sabia, se não acontecer, melhor pra mim. É um jeito de nunca ser contrariado pela realidade rs.
Claro que, com o tempo, esses castelos de areia viriam, e vieram, abaixo, tragados por uma realidade que, fui percebendo, não é boa nem má, apenas é como é. Bem e o Mal são valores humanos, conosco nascem, conosco se vão. Ser um obsessivo (ou fóbico) do Mal, do que chamemos de Mal, não impedirá que ele aconteça.
Renunciando às bruxarias psicológicas do pessimismo, emagreço a aura: perco um pouco do egoísmo de achar que minha pena, ante o Mal do mundo, é sofridamente pensá-lo, como se fosse para os outros, os ingênuos, o fardo de vivê-lo.
Sem tantos deuses inúteis ou espantalhos "úteis", a vida segue mais leve e verdadeira seu vôo cego rumo a coisa nenhuma. Vôo cego ao menos aos olhos da razão controladora e utilitária desta espécie pretensiosa, infantil, quando não ridícula, que somos nós.


FERREIRA GULLAR

Voo cego

(Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada, 14 jun 2009)

NÃO SE TRATA de que o que irá acontecer já esteja escrito. Os gregos pensavam assim e, ainda hoje, há quem pense igual: se não é o Destino, é Deus. Mas há quem acredite que coisas acontecem por uma combinação de acaso e necessidade, sendo que o que chamamos de acaso não é mais que uma probabilidade real embora imprevisível. É que a complexa tessitura da existência excede nossa capacidade de abarcá-la e, menos ainda, de prevê-la. Assim, nós, seres humanos, em face da imprevisibilidade da vida, inventamos Deus, que é a Providência, ou seja, aquele que nos protege do imprevisível, do acaso, isto é, da bala perdida. Pois bem, como disse no começo, não se trata de que o que vai ocorrer na viagem de Guto -que neste momento arruma a mala- à Europa esteja escrito. Não está, mas, na intrincada cadeia de probabilidades, dada a ação de tantos fatores que, cegamente, prepararam o futuro, pode a aeronave despencar de 11 mil metros de altura ou simplesmente explodir.Assim, sem de nada saber, fechou a mala, pôs no ombro a sacola e dirigiu-se para o elevador. Atravessou o hall de entrada e caminhou até o táxi. Depois que o chofer guardou-lhe a bagagem no porta-malas, Guto, já acomodado no banco de trás, falou-lhe:- Para o aeroporto Tom Jobim.- Vamos nessa. Quer que ligue o ar refrigerado?- Por enquanto, não.Estavam em Copacabana e o melhor caminho àquela hora era pela avenida Atlântica, mesmo porque Guto preferia ver o mar a sentir-se sufocado em meio a ruas saturadas de tráfego.O táxi entrou, depois, pela Princesa Isabel, passou pelo Túnel Novo e dirigiu-se para o Aterro do Flamengo. Durante todo esse caminho, ele olhava a cidade com uma sensação estranha, como se despedisse dela. Evitou esse pensamento e voltou-se para a enseada de Botafogo, tranquila naquele fim de tarde. Ao fundo, o Pão de Açúcar erguia-se granítico e eterno, o que lhe fez pensar nas tantas e tantas pessoas que, ao longo do tempo, o viram ali e se foram, enquanto ele continua. Para livrar-se dessas ideias, pegou o celular e ligou para Júlia.- Oi, amor, tudo bem com você?... Ainda estou no táxi, a caminho do aeroporto... Ontem à noite foi bom, não foi?Conversaram ainda um pouco, mas ela estava de saída para a casa da irmã, onde passaria alguns dias.O táxi seguia agora pela Linha Vermelha, como sempre engarrafada àquela hora. Mas tinha tempo suficiente, pois, quando viajava, sempre saía de casa com bastante antecedência para evitar estresse. E com razão, pois quando desceu do carro no aeroporto faltavam ainda duas horas para o embarque. Por isso, sem pressa, ainda que estranhamente apreensivo, dirigiu-se para o balcão da Air France, onde teve de enfrentar uma fila de bom tamanho. Finalmente, despachou a bagagem, recebeu o cartão de embarque e caminhou até o restaurante para beber alguma coisa, enquanto esperava a chamada. O restaurante estava lotado, como costuma acontecer ultimamente, tal é o número de pessoas que viajam de avião. Preferiu ir logo para a sala de embarque, onde se acomodou e ficou lendo a revista que levara consigo.Enquanto isso, acima do Atlântico, na zona de convergência intertropical, por onde o seu avião inevitavelmente passaria, armava-se uma feroz tempestade. Nuvens de tamanho incomensurável, como negras montanhas móveis, carregadas de eletricidade e granizo, juntavam-se naturalmente, sem qualquer propósito, movidas aleatoriamente pelas correntes atmosféricas.Sem de nada saber, Guto, ao ouvir a chamada para o embarque, entrou na fila que já se formara à porta da aeronave. Ali estava ele, tomado de estranha apreensão, como nunca lhe ocorrera nas viagens que frequentemente fazia. Nunca ficara tenso, mesmo porque, mal sentava na poltrona, caía no sono e só acordava horas depois, quando a viagem já chegava ao fim. Desta vez, porém, a tranquilidade costumeira mudara-se em tensão, e tenso esperou até que os motores começassem a funcionar e o avião levantasse voo.Não só lá fora, sobre o Atlântico, uma ameaça se armava, mas também no avião, na sua estrutura eletromecânica, alguma coisa inesperada parecia insinuar-se, como falha ou pane. Se na natureza os processos se desenvolvem sem nenhum propósito ou finalidade, no avião, ao contrário, máquina que é, obra humana, tudo cumpre uma função determinada, para fazê-lo voar. Se alguma coisa falha...Só que, para Guto e as outras 220 pessoas que, no bojo daquele Airbus-A330, seguiam para Paris, era impossível sabê-lo, já que, na ausência dos deuses, todo voo é cego. Para o bem ou para o mal.

2 comments:

Kátia Bueno said...

Texto interessante!
É sempre difícil encontrar explicações quando o nosso nível de compreensão está sempre limitado, quando há tantos fatores que sequer imaginamos.
Abraços.

Caduza said...

encontrei tuas palavras. irei come-las.