Monday, June 22, 2009

santidade, incêndio e abismo



Monastério budista Taktshang, "ninho do tigre", no Butão; fundado em 1692, completamente restaurado após incêndio em 1998, fica à beira do abismo do Himalaia.
Deus meu, não deixe nunca que a santidade se degrade em pretexto para a couraça afetiva.
Ele, com a Imitação de Cristo fazendo volume no bolso da jaqueta preta (estava todo de preto, sua cor predileta), caminhava absorto na santa avidez de comprar mais e mais livros, quando sentiu se mexer repentino e serpentino outro volume, Imitação do Anti, do demo, na calça, ao deparar com aquela lojista de artigos religiosos (de sua religião do consumo, digo). Ficou zonzo, não sabia para onde ir. A Rocha das seguranças fez-se fenda de angústia e rachou e abriu. Pedaços incendiados despecando no nada. Homem comum enfim. Devorado, mas pelos seus próprios olhos, mastigava, mas suas próprias unhas. Não conseguia parar de segui-la com os olhos, a lojista, que corpo!, parecia hipnotizado, esqueceu das compras, afundava mais pesado nelas. "Por isso os islâmicos prendem e nivelam suas mulheres no véu, dos pés ao último fio de cabelo", suou (como são terríveis esses suores-pensamentos): "para que nem os anjos caiam em tentação e percam e troquem a cabeça aureolada de cima pela suja cabeça de baixo". Outro balbucio de vapor sem sentido: "Deixam as mulheres parecendo fantasia de fantasma".
Deus meu, que tua companhia seja o "synthome" lacaniano da invenção e do laço no buraco e no descompasso, mas não o "sintoma" freudiano que tudo inverte, que tudo distorce, desloca, que se delira projetando a si mesmo nos moinhos de vento a combater, que foge das pechas ridículas que o assombram de dentro. Que mortifica a carne porque o espírito é impotente.
Meu monastério, eu o visualizo nos subterrâneos de Dante e Dostoiévski - sem a tradução estereotipada e de segunda mão dos vieses ideológicos, das camisas-de-força (aliás bem fraquinhas) de quaisquer Dogmas, prefiro o originário polifônico do Inferno. Como toda Árvore da Vida, a cruz dos trabalhos evolutivos se enraíza entre os cactos do Inferno para poder gerar rosas no céu. Nem que o céu, para os pesados filhos do adâmico Ícaro, seja sempre habitação no perigo perpétuo do abismo, drama existencial de que encontrei hoje uma alegoria concreta perfeita nesse fantástico co-irmão monástico do Himalaia (vide fotos). Mosteiro e abismo que, juntos, como os exercícios de contemplação, pelos monges, da caveira de irmãos falecidos, simbolizam também o clássico "memento moris" (lembra-te que morrerás), tão crucial à jornada espiritual.
Mas muitas vezes ele, de preto, suado, com a Imitação de Cristo no bolso, com a Imitação do diabo no corpo, precisa lembrar é que vive. O incêndio do diabo pode ser esse memento mortalmente vital.
Himalaias do desejo, que não sejais "pacificação" forçada da balbúrdia ab-surda para surdos da planície, ruído que esconde polifonias nupciais que acenam aos que têm ouvidos para ouvir, e mãos para fazer, não patas bovinas para aplaudirem-se uma à outra, como os espectadores idiotas se cumprimentando na feira burguesa das "idéias inteligentes" de se comprar e se falar sem viver.

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