
Chego agora de um profícuo encontro com os novos companheiros de cartel. Cartel, como assim? Não, não estou lançando tentáculos sobre o mercado capitalista, não tenho apetites monopolizadores, nem mesmo o amor pra mim toma essa configuração burguesa-patriarcal da posse de uma mulher como se fosse "coisa" econômica. Claro que há delícias a explorar na sensação de ser coisa que fode, que funde e se funde com outra pessoa "coisificada" -não há relação sexual, segundo Lacan, mas ele fala aqui da completude sonhada, e impossível, entre dois sujeitos -eles nunca, de fato, se entenderão, como bem o sabia Manuel Bandeira, embora as carnes, elas sim, possam se entender, mais que isso, possam se dar e receber uma à outra, num rito criador e destruidor. Verdadeiro potlatch do prazer.
Fujo completamente do assunto que me trouxe aqui hoje, o cartel. É uma espécie de grupo de estudos, reunido em torno de uma questão teórica ou clínica geral, mas que se desdobra em questões de pesquisa específicas de cada pesquisador, escolhidas e desenvolvidas individualmente. Trata-se, por falar em Lacan, de uma das instâncias mais importantes da formação teórica e prática de um psicanalista, segundo o mestre francês, que aliás odiaria o qualificativo de mestre. Minha impressão inicial do grupo foi excelente. Sei que poderei me decepcionar, chega quase a ser uma tendência inevitável: não foram poucas minhas decepções a respeito dos intelectuais, sobretudo ao se passar da beleza das idéias, ou seja, das "coisas" mentais, às complicações das pessoas portadoras de tais idéias.
Confesso que comecei esse texto com outra intenção, disposto a repercutir uma determinada fala minha que surgiu no encontro, mas o raciocínio que esbocei até aqui, prefiro interrompê-lo neste instante, aliás inspirado numa das "esquisitices" geniais de Lacan. Ele criou o chamado tempo lógico como recurso a mais para o analista; este pode interromper uma sessão a qualquer momento, mandar seu paciente pra casa após as primeiras falas, não há o standard de 50 minutos obrigatórios por exemplo, e a sessão pode durar segundos ... embora, é bom advertir meus futuros pacientes rs, custe o mesmo que sempre.
Acusaram Lacan de criar assim uma estratégia para "encaixar" mais pacientes na agenda, e assim engordar mais a conta bancária. Acho essa uma maneira meio "pobre" (sem trocadilho) de encarar esse tão interessante dispositivo não só metodológico, mas também teórico, até mesmo filosófico: uma técnica que convida o analisando a lidar melhor com algo que talvez esteja entre as coisas que o fazem sofrer, por ainda não ser aceita na vida cotidiana: o aspecto necessariamente opaco e incerto do tempo e da palavra, o aspecto angustiante e enigmático do desejo, aspectos esses não plenamente entendidos nunca, mas que podem ser mais bem conectados à consciência se estendidos (mais que entendidos) num tempo relativístico, instável e retroativo, um "só-depois" que avalia o nosso eu pelo que fez e falou, um eu em situação, o eu agente e ator, em suas circunstâncias e em suas consequências. Um eu, portanto, que não se limitará nunca, enquanto durar o véu de maia da vida, a uma mera coisa, por mais que o desejemos.
É isso que passo agora a fazer desses dizeres "impensados" sobre cartel, amor e grupo. Aliás, por que a palavra "grupo" tem em português um sentido possível como trapaça? ("-Ah, isso é grupo, me alertou fulano".)
1 comments:
escrevendo pra dizer q li...
;)
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