quarta-feira, julho 29, 2009

yin e yang de corpo e alma (homenagem ao post 69 do ano rs)



Que te devolvam a alma
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida,
Uiva se quiseres,
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa,
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida
Escancara a tua boca
Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA.


Hilda Hilst
in: Poemas aos Homens do Nosso Tempo

segunda-feira, julho 27, 2009

busca o centro do teu dentro


Técnico Bernardinho


Paulo Leminski, Alice Ruiz e as filhas Áurea e Estrela

"eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não segura
um olhar que demora
de dentro do meu centro
este poema me olha"

Paulo Leminski

"voltando com amigos
o mesmo caminho
é mais curto"

Alice Ruiz


Hein? Teve jogo ontem? Não tô sabendo, Thaila.....ahhh claro, o vôlei né!! rs Ganhar dos caras na casa deles. E nosso time todo renovado, monte de garotos. Sensacional esse Bernardinho, um exemplo não de "brasilidade" ou bobagens desse tipo. O indivíduo, sempre o indivíduo!!! O indivíduo porém não isolado, mas individuado, como propôs o mestre Jung, meu pai-de-santo (embora eu seja um filho nada santo rs). O indivíduo que traz o coletivo em si, mas que está sempre à frente do rebanho, o futuro do rebanho já é passado para nós, não se deixar arrastar nunca. E por isso ser capaz de liderar, inspirar, motivar, sempre em busca da sempre impossível perfeição. Bernardinho é assim, que sejamos um pouco mais "bernardinhos" com os jogos e campeonatos de nossa vida.
Teve mais algum jogo ontem? kkkkkkk Como? Não ouvi direito. Ah é, Campeonato Brasileiro......deixa pra lá né, melhor pra nós dois rsrs.
O que queria hoje é apenas cumprir o que te disse ontem que faria rs.
O indivíduo, Thaila, o indivíduo!! Sem precisar de devaneios, eles são bons pra poesia, não pra vida. A vida não é fantasia, embora alimento de todas as fantasias, mesmo as mais dilaceradas, dolorosas e abstrusas. É a vida falando e sonhando pelos seus abençoados e desgraçados, somos a classe proletária da energia orgônica universal, o sujeito revolucionário da História de nossa própria existência.
Sem acomodações, sem facilidades do tipo "barato que sai caro", sem a tentação de atalhos que dão em lugar nenhum.
Basta ouvir nossos mitos propulsores, e dizer sim a eles, não se deixar jamais aprisionar na pequenez do egozinho que acha que já tá tudo bom do jeito como tá. Viajar aos acordes nirvânicos do Si-mesmo, e o Si-mesmo, disse meu pai-de-santo amado, é sempre uma derrota para o ego.
Dessas derrotas nascem novas rotas. Nasce a liberdade, e dela, para além de toda carência, mas não de todo desejo, certamente nascem os amores e amizades, as que nós precisamos, menina linda, não fiques ansiosa de procurar o que é teu desde sempre. Busca o centro de teu dentro, o resto vem nos tempos e ritmos do mistério que não nos pertence e que apenas somos.

domingo, julho 26, 2009

depois do temporal gnóstico de ontem rs

Madona da Rosa Mística, por Salvador Dalí, 1963

"Senhor, perdoa meu pequeno gracejo contigo

E perdoarei Teu grande gracejo comigo"


Robert Fost

sábado, julho 25, 2009

inverno inferno interno

Saco cheio dessa cidade invernal e infernal nesses seus dias de chuva, lama, frio lento e relento. Saco cheio de suas aglomerações, da sua poluição, barulho, da sua febre amarela, seus pipoqueiros de mãos sujas, de suas fiascos de fiesps e cut-ículas anêmicas, de suas viradas culturais babacas, de seus centros culturais esvaziados, de seus livros reprimidos, proibidos, de seus camelôs espancados por políticos ignorantes e policiais estúpidos. Saco cheio de conversa fiada cult. Saco cheio da mesma peça em cartaz em todos os teatros. Saco cheio desses bandidos de merda que a merda da mídia adora chamar de "ousados" quando saqueiam apartamentos ou degolam crianças.
Saco cheio das trepas frígidas ou certinhas. Saco cheio das camisinhas. Porra, pensar na merda da autoconservação egóica na hora em que não queria merda de barreira medrosa nenhuma, nem pensar, proteção porra nenhuma, a porra como lixo hospitalar a ser isolado e retirado com dedinhos cuidadosos, quero é me lambuzar, me sujar, me misturar, comer e mastigar devagar e intensamente, devorar todos os sucos e reentrâncias do corpo da minha cúmplice. Merda de deus canalha, deus padreco, deus jumento 16 que goza de envenenar nosso gozo, fica maquinando sempre novos e sempre os mesmos castigos morais e biológicos para o pecado de estar vivo. Saco cheio desses neuróticos ridículos andando de máscara nas ruas, fazendo da pólis um hospital pestilento, espalhando mais vírus de covardia e hipocondria, protegendo seus pulmõezinhos de merda da ameaça do porco demoníaco que não escutam, ou fingem não escutar, em si mesmos.
Saco cheio, sobretudo, de carregar esse saco cheio, arrastar feito um prisioneiro passivo e apático, essa bola de ferro de prisioneiro que sonha liberdades parisienses e tibetanas e acorda todo dia sempre igual, ou pior, um dia mais velho, no pesadelo que é essa merda de inferno e inverno sem Dante, sem dente, doente.

sexta-feira, julho 24, 2009

só para os loucos

Até mesmo um scrap de orkut pode se transfigurar em artefato poético súbito, rebelado contra o destino antipoético corriqueiro ou de simplesmente ser extinto, apagado, ou de se amontoar, e assim desaparecer de outro modo, como sucata verbal.
Pois, resistindo a esses naturais vórtices do nada, me soou poético um scrap enviado esta semana pela amada jaguncinha de mí vida rsrs, vou citá-lo aqui fora de contextos, pelo encanto hipnótico da série das palavras. Pela capacidade dessas palavras de, na extravagância do conjunto e de cada parte, na igualdade fundamental de significado sob tamanha multiplicidade de signos, ser excelente argila de modelagem para esse conjunto também extra e vagante, informe e cíclico, uno e múltiplo, de minhas almas, isto é, de minhas propensões de sentir e de fazer, e para minha paixão e único refúgio possível em meio a esse redemoinho, loucura sem-cura, a palavra. O pa-lavrar o campo do real. O escrever. Escre-ver meu corpo no mundo, encarnar-me em letras, por sons, sentidos e imagens que tornem menos intolerável o ruído da marcha muda da escuridão última. O e-vento do escrever, ventania a céu aberto mas hermeticamente restrita, como o teatro mágico de Hermann Hesse, só para os raros, só para os loucos.

"Evento aberto aos loucos, insensatos, desajustados, doidos, malucos, estúrdios, esquisitos, excêntricos, extravagantes, brumosos, fetichistas, desatinados, alucinados, ensandecidos, desvairados, lunáticos, aluados, avariados do juízo, esconsos do miolo, paranóicos, nosomaníacos, licantropos, desbolados, endemoninhados, exaltados, endiabrados, delirosos, tresloucados, cismáticos, sandeus, desequilibrados, macabros, desesperados, obsessos, hipocondríacos, visionários, quixotescos, bizarros, heteróclitos, fissurados, sonhadores, marginais, esquizofrênicos, patafísicos, aturdidos, sensitivos, hipersensíveis, mórbidos, tantãs, lotófagos, devassos, perdulários, desregrados, pirados, desgraçados, moluscos e, sobretudo, escritores,

por aly"

quarta-feira, julho 22, 2009

o fogo bruxo da alma



Muito interessante a entrevista de Roberto Talma na Folha de domingo passado, a propósito da estréia, esta semana, na Globo, da série "Ger@l.com", de que é diretor.

A matéria me "pegou" a princípio por algo bem irracional: a foto de Talma, me lembrando o Abujamra da novela "Que Rei Sou Eu" (a última que assisti, e aliás adorei, em 89). Todo de negro, gordão, barbudão: um bruxo. E o bruxo é um arquétipo que me fascina. Nos homens, enquanto poder sacerdotal do espírito. Nas mulheres, pela ligação com a carne, natureza e sensualidade. Embora um amigo bruxo me advirta que o erótico não pode ser um fim em si mesmo para o buscador pagão; acho que esse equívoco era mais um tributo que eu pagava a minha formação cristã rígida, e que me induzia, por contraste, a desejar libertações igualmente quiméricas, como Fausto pedindo socorro de Mefistófeles.

Mas, afora a foto, Talma foi bruxesco na força e irreverência com que abordou temas já bem batidos, como a pobreza da TV. Só que estou acostumado a ouvir aqui sobretudo críticas à indigência intelectual e moral: a TV, com as exceções raras e preciosas de praxe, como um lento hiroshima pedagógico que se abate sobre todos nós, em especial os pequeninos, que estão chegando ao mundo e o interpretarão pelos olhos da telinha que os olha.

Talma porém acrescentou que a TV é, na maioria dos casos, um desastre também para algo que escapa a toda pedagogia da sobriedade: o inconsciente, essa potência bruxesca que levamos conosco e que nos leva a precipícios e paraísos. A fantasia, em sua lógica própria, de desejos e criatividades que se rebelam contra o mundo existente, instaurando o novo. O lúdico, que desacata a "seriedade" das regras, pois o poético está sempre para além das regras, como dizia Bataille.

Separei aqui apenas dois trechos da entrevista ao repórter Audrey Furlaneto, recomendando a todos que corram atrás do texto integral (disponível no UOL para assinantes).

Repito, a novidade pra mim esteve menos no conteúdo do que na forma, ou melhor, no espírito de revolta, sob os limites, é claro, de alguém que participa do sistema que está criticando.

Mas, para evocar o trocadilho de Roberto Piva (quando nossos poetas cairão na vida, e serão menos broxas e mais bruxos?), o fogo bruxo da alma reverte pra cima a gravidade broxa dos acordos e concessões. É o que Talma alcança em seus dizeres, convocando-nos a todos a desnaturalizar o "natural", romper os espelhos da tela da merda, e recusar de uma vez, seja em macroescala (políticas públicas), seja nas decisões de cada um, esse biscoito podre, mastigado e babado oferecido pelas TVs aos seus rebanhos sonambúlicos.
****
TALMA -Qualquer pessoa que bota a bunda de fora é famosíssima. Você conhece a pessoa pela bunda, jamais pelo que ela fez. Aí fica difícil. Uma menina de 15, 16 anos já está na vida. Como é que se cria algo que faça o espectador pensar: "Caramba, que divino! Eles ainda estão tentando [manter a virgindade]". Agora, não. Todo mundo já rodou pra caralho, não tem nada para descobrir.

(...)

FOLHA - A TV não deveria criar produtos infantis mais lúdicos?

TALMA - Se você acompanhar pelo mundo, não tem mais isso. Quando eu comecei a fazer a parte da manhã aqui na Globo, a [roteirista] Mariana Caltabiano tinha uns bonequinhos que eram lindos. Fizemos um projeto que era bom pra caramba. Eram uns velhinhos que se perderam no espaço e tal. Na primeira reunião que tivemos em São Paulo com garotos de 8 a 12 anos, o que a gente sofreu de ver a falta de informação, a agressividade... Quando você usa um boneco, até os cinco anos, a criança aceita; depois dos cinco anos, a garotada toda acha que estamos tentando enganá-los. Eles ficavam possessos num nível assustador, em função de achar que estavam sendo enganados.
FOLHA - Por quê?
TALMA - Porque eles passam o dia com a mãe ligadona nessas emissoras de merda, que estão cobrindo só desgraça. Na cabeça deles, deixa de ter o lúdico, não existe! Volta e meia a gente toma uma porrada [perda de audiência] por causa de novela das seis, das sete, porque são horários, vamos dizer assim, que mexem muito com os [telejornais] locais ["Negócio da China", dirigida por Talma, teve a pior audiência dos últimos anos no horário das 18h]. O que acontece é o seguinte: que novela você tem que fazer para suplantar aquele menino que sequestra a namorada, a amiga da namorada, fica durante uma semana cercado de policiais com 500 mil pessoas, dão um microfone para esse analfabeto de merda e ele se torna ídolo? O que você tem que colocar para brigar contra isso? Com essa realidade dura, crua e nojenta que nós temos no Brasil? Quer dizer, no mundo inteiro é assim. Torna-se inviável! A internet é o mais próximo da realidade, mas ainda pode existir lá uma coisa lúdica.

segunda-feira, julho 20, 2009

eu vi o sinal

I saw the sign
(Ace of Base)

I got a new life
You would hardly recognize me
Im so glad
How can a person like me care for you
Why do I bother
When you re not the one for me
Is enough enough
I saw the sign and it opened up my eyes
I saw the sign

Life is demanding without understanding
I saw the sign and it opened up my eyes

I saw the sign
No ones gonna drag you up
To get into the light where you belong

But where do you belong
Under the pale moon

For so many years
Ive wondered
Who you are
How can a person like you bring me joy
Under the pale moon
Where I see a lot of stars

Is enough enough
I saw the sign and it opened up my eyes
I saw the sign
Life is demanding without understanding
I saw the sign and it opened up my eyes
I saw the sign
No ones gonna drag you up
To get into the light where you belong
But where do you belong
I saw the sign and it opened up my mind
And I am happy now
Living without you
Ive left you all alone
I saw the sign and it opened up my eyes
I saw the sign

No ones gonna drag you up
To get into the light where you belong
I saw the sign and it opened up my eyes
I saw the sign

Para um amante como eu da psicologia profunda, particularmante em sua vertente junguiana, os sinais que vemos nos sonhos são sempre muito valiosos.
Não por alguma superstição teórica, como é irritantemente frequente em certa sub-literatura junguiana, notadamente aquela dos "dicionários de símbolos".
Mas sobretudo como um instrumento de trabalho, um subsídio para a construção, no consultório e na vida, do que Jung chamou de a função transcendente: a união dos conteúdos conscientes e inconscientes de um indivíduo, a passagem a uma nova atitude psíquica e prática, impulsionada pela convergência do que antes era a cisão neurótica entre a luz e a sombra da alma.
Um inconveniente, porém, para meu trabalho com os sinais dos sonhos é meu sono agitado. E em parte como causa, em parte como efeito, essa agitação interna se liga, na maioria das noites, ao hábito ruim de dormir com televisão ligada. Mais recentemente, descobri no meu controle remoto uns canais só de música, de diferentes gêneros, e isso tem "ninado" melhor minha viagem ao reino de Morpheus.
Foi o que aconteceu nesta madrugada, mas só depois de acordar umas quatro da manhã com o barulho de algum canal convencional, acho que meu adorado Sportv, ainda mais adorado quando tem pra noticiar e mostrar mais uma vitória do Coringão, como ontem (2 a 1 contra o Cruzeiro, em pleno Mineirão).
Sei que meu sono subitamente virou fumaça. Levantei, tomei uma coca, voltei, passei de um canal a outro, até a surpresa: no canal Multishow, um programa com videoclipes clássicos, eu pego o finalzinho do clipe do Ace of Base, música "I Saw the Sign" (eu vi o sinal).
Não sou conhecedor profundo desse gênero de música, apenas tenho sintonia com sua época (anos 90) e seu lugar (as baladas de então). Que saudades me deu!! O descompromisso, o estudo pra mim mesmo, a família, o avô e o jogo de xadrez, a avó e a mesada, a gargalhada falando besteira, e móooito beijo na boca das "minas", meninas muito lindas, embora sem lá grande afinidade de conversa. Aliás, tanto melhor: tímido e travado como eu era, meu melhor xaveco, nessas situações imediatistas como a balada, sempre foram os olhos verdes rs, por isso, em nome da visibilidade estratégica, tratava de levá-las da escuridão da pista para, por exemplo, a área das bebidas rs.
Tô mudado, mais idade (embora já sem a barba de dias atrás, chega de parecer velho monástico rs), mais preocupações, compromissos. Faz tempo que não vejo as "minas" dançando ousadas e sensuais esse som de Ace of Base. Sei que as danças continuam, até mais ousadas, mas confesso que não tenho mais o mesmo saco pra ambiente barulhento e apertado, e tampouco sou chegado na vulgaridade, na certa "facilidade" excessiva que o mercado dos prazeres hoje bamboleia e joga na nossa cara.
De todo modo, ou por isso mesmo, repito, bateu saudade. Sono demorou mais pra voltar, mas acordei feliz, corri pro youtube rs, e na boca o "Sign" que eu vi e ouvi da nostalgia, do tempo.

sábado, julho 18, 2009

lobo tenor


O RIO

Ser como o rio que deflui

Silencioso dentro da noite.

Não temer as trevas da noite.

Se há estrelas no céu, refleti-las

E se os céus se pejam de nuvens,

Como o rio as nuvens são água,

Refleti-las também sem mágoa

Nas profundidades tranqüilas.


Manuel Bandeira

quarta-feira, julho 15, 2009

meu romantismo


"vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor."
(Roberto Piva, 20 Poemas com Brócoli, 1981)

terça-feira, julho 14, 2009

para horas de silêncio e solidão

"Permaneça sentado em silêncio e na solidão, incline sua cabeça, feche os olhos, respire mais suavemente, olhe o seu coração através dos olhos da sua imaginação, reúna e passe sua inteligência, ou seja, o seu pensamento, da cabeça para o coração. Ao respirar, diga: 'Senhor Jesus Cristo, tenha piedade de mim' em voz baixa, ou simplesmente em espírito. Esforce-se para afastar todos os pensamentos, seja paciente e retome esse exercício frequentemente".

Relatos de um Peregrino Russo

(clássico do cristianismo ortodoxo do século XIX)

sábado, julho 11, 2009

o caduceu do destino


"Ars totum requirit hominem! (a arte requer o homem inteiro!), exclama um velho alquimista. Justamente é este 'homo totus' que se procura [na psicoterapia]. O esforço do médico, bem como a busca do paciente, perseguem esse 'homem total' oculto e ainda não manifesto, que é também o homem mais amplo e futuro. No entanto, o caminho que leva à totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino. Trata-se da 'longissima via', que não é uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo os opostos à maneira do caduceu, senda cujos meandros labirínticos não nos poupam do terror. Nesta via ocorrem as experiências que se consideram de 'difícil acesso'. Poderíamos dizer que elas são inacessíveis por serem dispendiosas, uma vez que exigem de nós o que mais tememos, isto é, a totalidade. Aliás, falamos constantemente sobre ela - sua teorização é interminável-, mas a evitamos na vida real. Prefere-se geralmente cultivar a 'psicologia de compartimentos', onde uma gaveta nada sabe do que a outra contém."
JUNG, C. G.
PSICOLOGIA E ALQUIMIA

quinta-feira, julho 02, 2009

quarta-feira, julho 01, 2009

sofredor graças a Deus


Capa de Corintiano Graças a Deus, livro de Dom Paulo Evaristo Arns

Festa da Fiel
Ao contrário do que mostra a foto acima, seremos poucos hoje no Beira-Rio, que segundo promessa de um ilustre vagabundo da alta cúpula do Internacional, será um "inferno" para nós. O mesmo ilustríssimo que tratou de antecipar o inferno com manobras absolutamente condenáveis para pressionar a arbitragem do jogo de hoje. Mas de Inferno nós conhecemos. Morremos e renascemos tantas vezes ao longo da nossa história, e sempre sob o estigma do Sofrimento. Se Jesus Cristo não fosse corintiano (e é!! rs), apóstolos maravilhosos dele, como Dom Paulo Evaristo Arns, trataram de sê-lo, nada mais lógico. Não por acaso somos a "Fiel Torcida", a "Gaviões da Fiel". Fiéis como os devotos da missa, dos santos. Há time mais "cristão" em termos de identificação com as massas, com os pobres e com a dor de existir? Com a dor da "paixão" ??
Não há redenção possível sem a dor. Felix culpa, disse santo Agostinho: feliz culpa de Adão, que nos tornou necessitados de redenção tão deliciosa como a de Cristo. Feliz culpa de nascer gauche na vida, loser, humilhado e ofendido, fudido mesmo, para merecer tão simbólica remissão no amor ao Coringão. Não como quem goza com o pau dos outros, mas como quem reencontra no inconsciente coletivo a própria fome de fuder reprimida no inconsciente pessoal.
Voltando à foto, ela mostra um instante de êxtase que daria em seguida lugar à perda: ganhamos ano passado o primeiro jogo da final da Copa do Brasil, contra o Sport, por largos 3 a 1. Mas perdemos o segundo por 2 a 0, o suficiente, dizia o regulamento, para o título ficar em Recife. Hoje a decisão não é lá "em cima", é embaixo: num frio e chuvarento Rio Grande do Sul. E o script começou parecido: ganhamos bem o primeiro jogo.
Por que não um repeteco da tragédia hoje? É a questão e o desejo da segunda maior nação do Brasil (a dos anti-corintianos; a primeira é a dos corintianos). Sim, pode acontecer. O time do Inter é fortíssimo, e mostrou isso inclusive na derrota por 2 a 0 aqui no Pacaembu. Mas quer saber? Estou me lixando. Embora inadmissível para os parâmetros lógicos e éticos de nossos dirigentes (como o imbecil do Internacional), o futebol tem que ser visto como processo, como estrutura, não na mera contingência de resultados pontuais. E o Coringão vive hoje um processo bacana, construtivo, após o desastre do rebaixamento. Esse processo, essa estruturação, é o que mais importa, e tem que continuar, independentemente de ganhar ou perder esta noite. E se ganhar, por favor, nada daquela obsessão babaca de Libertadores (para a qual o vencedor de hoje estará classificado). Sem querer cair em contradição com o que acabei de dizer sobre a importância do processo, não do fortuito, penso que ao invés de se prender a cobiças futuras, importa viver o momento, na derrota ou na vitória. Vivê-lo plenamente, ou seja, corintianamente, no gozo doído das vitórias e derrotas. Claro que será legal ser campeão da Libertadores no ano de nosso centenário (2010), mas o objetivo não pode ser inflacionado a ponto de esmagar o percurso. Título algum pode ser maior do que já somos, nada supera a grandeza essencial de ser Corinthians.
Seremos poucos no Beira-Rio, como dizia no início. E seremos vaiados, hostilizados. Um inferno. Mas o inferninho do Beira-Rio é uma boate vagabunda perto do Inferno que é habitual ao time do povo (quando é que o povo também será um "time", terá consciência de classe?). E é de nosso Inferno, a "beira-rio" do Aqueronte, onde até o Redentor desceu quando de sua "paixão", morte e ressurreição, que estamos torcendo por você, Timão. E o esperando de braços abertos, na vitória ou na derrota, depois de mais uma página linda, gloriosa e sofrida de nossa História, a ser contada e vivida hoje à noite.
VAAAI CORINTHIANS!!!!!!!!!!!!!!!!!!