Saco cheio dessa cidade invernal e infernal nesses seus dias de chuva, lama, frio lento e relento. Saco cheio de suas aglomerações, da sua poluição, barulho, da sua febre amarela, seus pipoqueiros de mãos sujas, de suas fiascos de fiesps e cut-ículas anêmicas, de suas viradas culturais babacas, de seus centros culturais esvaziados, de seus livros reprimidos, proibidos, de seus camelôs espancados por políticos ignorantes e policiais estúpidos. Saco cheio de conversa fiada cult. Saco cheio da mesma peça em cartaz em todos os teatros. Saco cheio desses bandidos de merda que a merda da mídia adora chamar de "ousados" quando saqueiam apartamentos ou degolam crianças. Saco cheio das trepas frígidas ou certinhas. Saco cheio das camisinhas. Porra, pensar na merda da autoconservação egóica na hora em que não queria merda de barreira medrosa nenhuma, nem pensar, proteção porra nenhuma, a porra como lixo hospitalar a ser isolado e retirado com dedinhos cuidadosos, quero é me lambuzar, me sujar, me misturar, comer e mastigar devagar e intensamente, devorar todos os sucos e reentrâncias do corpo da minha cúmplice. Merda de deus canalha, deus padreco, deus jumento 16 que goza de envenenar nosso gozo, fica maquinando sempre novos e sempre os mesmos castigos morais e biológicos para o pecado de estar vivo. Saco cheio desses neuróticos ridículos andando de máscara nas ruas, fazendo da pólis um hospital pestilento, espalhando mais vírus de covardia e hipocondria, protegendo seus pulmõezinhos de merda da ameaça do porco demoníaco que não escutam, ou fingem não escutar, em si mesmos.
Saco cheio, sobretudo, de carregar esse saco cheio, arrastar feito um prisioneiro passivo e apático, essa bola de ferro de prisioneiro que sonha liberdades parisienses e tibetanas e acorda todo dia sempre igual, ou pior, um dia mais velho, no pesadelo que é essa merda de inferno e inverno sem Dante, sem dente, doente.
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