Wednesday, July 22, 2009

tela de merda



Muito interessante a entrevista de Roberto Talma na Folha de domingo passado, a propósito da estréia, esta semana, na Globo, da série "Ger@l.com", de que é diretor.

A matéria me "pegou" a princípio por algo bem irracional: a foto de Talma, me lembrando o Abujamra da novela "Que Rei Sou Eu" (a última que assisti, e aliás adorei, em 89). Todo de negro, gordão, barbudão: um bruxo. E o bruxo é um arquétipo que me fascina. Nos homens, enquanto poder sacerdotal do espírito. Nas mulheres, pela ligação com a carne, natureza e sensualidade. Embora um amigo bruxo me advirta que o erótico não pode ser um fim em si mesmo para o buscador pagão; acho que esse equívoco era mais um tributo que eu pagava a minha formação cristã rígida, e que me induzia, por contraste, a desejar libertações igualmente quiméricas, como Fausto pedindo socorro de Mefistófeles.

Mas, afora a foto, Talma foi bruxesco na força e irreverência com que abordou temas já bem batidos, como a pobreza da TV. Só que estou acostumado a ouvir aqui sobretudo críticas à indigência intelectual e moral: a TV, com as exceções raras e preciosas de praxe, como um lento hiroshima pedagógico que se abate sobre todos nós, em especial os pequeninos, que estão chegando ao mundo e o interpretarão pelos olhos da telinha que os olha.

Talma porém acrescentou que a TV é, na maioria dos casos, um desastre também para algo que escapa a toda pedagogia da sobriedade: o inconsciente, essa potência bruxesca que levamos conosco e que nos leva a precipícios e paraísos. A fantasia, em sua lógica própria, de desejos e criatividades que se rebelam contra o mundo existente, instaurando o novo. O lúdico, que desacata a "seriedade" das regras, pois o poético está sempre para além das regras, como dizia Bataille.

Separei aqui apenas dois trechos da entrevista ao repórter Audrey Furlaneto, recomendando a todos que corram atrás do texto integral (disponível no UOL para assinantes).

Repito, a novidade pra mim esteve menos no conteúdo do que na forma, ou melhor, no espírito de revolta, sob os limites, é claro, de alguém que participa do sistema que está criticando.

Mas, para evocar o trocadilho de Roberto Piva (quando nossos poetas cairão na vida, e serão menos broxas e mais bruxos?), o fogo bruxo da alma reverte pra cima a gravidade broxa dos acordos e concessões. É o que Talma alcança em seus dizeres, convocando-nos a todos a desnaturalizar o "natural", romper os espelhos da tela da merda, e recusar de uma vez, seja em macroescala (políticas públicas), seja nas decisões de cada um, esse biscoito podre, mastigado e babado oferecido pelas TVs aos seus rebanhos sonambúlicos.
****
TALMA -Qualquer pessoa que bota a bunda de fora é famosíssima. Você conhece a pessoa pela bunda, jamais pelo que ela fez. Aí fica difícil. Uma menina de 15, 16 anos já está na vida. Como é que se cria algo que faça o espectador pensar: "Caramba, que divino! Eles ainda estão tentando [manter a virgindade]". Agora, não. Todo mundo já rodou pra caralho, não tem nada para descobrir.

(...)

FOLHA - A TV não deveria criar produtos infantis mais lúdicos?

TALMA - Se você acompanhar pelo mundo, não tem mais isso. Quando eu comecei a fazer a parte da manhã aqui na Globo, a [roteirista] Mariana Caltabiano tinha uns bonequinhos que eram lindos. Fizemos um projeto que era bom pra caramba. Eram uns velhinhos que se perderam no espaço e tal. Na primeira reunião que tivemos em São Paulo com garotos de 8 a 12 anos, o que a gente sofreu de ver a falta de informação, a agressividade... Quando você usa um boneco, até os cinco anos, a criança aceita; depois dos cinco anos, a garotada toda acha que estamos tentando enganá-los. Eles ficavam possessos num nível assustador, em função de achar que estavam sendo enganados.
FOLHA - Por quê?
TALMA - Porque eles passam o dia com a mãe ligadona nessas emissoras de merda, que estão cobrindo só desgraça. Na cabeça deles, deixa de ter o lúdico, não existe! Volta e meia a gente toma uma porrada [perda de audiência] por causa de novela das seis, das sete, porque são horários, vamos dizer assim, que mexem muito com os [telejornais] locais ["Negócio da China", dirigida por Talma, teve a pior audiência dos últimos anos no horário das 18h]. O que acontece é o seguinte: que novela você tem que fazer para suplantar aquele menino que sequestra a namorada, a amiga da namorada, fica durante uma semana cercado de policiais com 500 mil pessoas, dão um microfone para esse analfabeto de merda e ele se torna ídolo? O que você tem que colocar para brigar contra isso? Com essa realidade dura, crua e nojenta que nós temos no Brasil? Quer dizer, no mundo inteiro é assim. Torna-se inviável! A internet é o mais próximo da realidade, mas ainda pode existir lá uma coisa lúdica.

0 comments: