quinta-feira, agosto 27, 2009

pega-sus, mata e come

Entrei em transe na roda e aos atabaques da macumba do pai Zé Celso Martinez Correa, me juntei à multidão bacante que entoava a um só corpo e voz:

ATUAR
ATUAR
ATUAR PRA PODER VOAR (2X)
MEU CAVALO TÁ PESADO
MEU CAVALO QUER VOAR

segunda-feira, agosto 24, 2009

a saída de Marina Silva do PT



Excelente o artigo do professor José de Souza Martins, sociólogo da Universidade de São Paulo, ontem no Estadão (cf. abaixo). Martins é hoje mal-visto em muitos setores progressistas da sociedade civil, como se tivesse "traído" os ideais de esquerda ao aderir com entusiasmo ao governo FHC, de quem era grande amigo e devedor de uma preciosa indicação para prestigioso cargo na Universidade de Cambridge.
E uma amiga antropóloga bem advertia, numa conversa nesta sexta, que esse tipo de incompatibilidade ideológica acaba legitimando, em muitos casos, o manjado expediente da pirataria intelectual. Já que citar o velho Martins, o professor vindo da fábrica, e outrora engajado nas lutas camponesas e operárias, ficou "feio", ante o novo e "deslumbrado" Martins pós-Cambridge, então por que não lhe roubar as idéias e rebatizá-las como nossa invenção da roda?? Os escritos pró-movimentos sociais, prosseguia minha amiga, estão repletos de argumentos e conceitos de Martins, só que ele, porque agora "persona non grata" na esquerda, tem de ser silenciado... e expropriado!
Se há guinada no pensamento de Martins, ela deve ser investigada mais a fundo, sem a miopia ressentida dos que procuram motivos baixos em tudo. 
Ao meu ver, o Martins de ontem, de hoje, de sempre, segue sendo uma leitura urgente para intelectuais decentes, de "direita" ou de "esquerda" (ahhh, velhos rótulos...). O artigo a seguir mostra bem o porquê. Não é Martins que mudou, mas é a sociedade que se acanalhou, na política, academia, nas igrejas, em todo lugar. Ou será que são instâncias que voltaram a ser o que sempre foram? Quanto ao Vaticano não restam dúvidas. João XXIII e seu legado libertador são uma solitária rosa no asfalto, pisoteada pela cambada de covardes que escondem no nome de Cristo suas taras e mentiras. E assim como na cúpula, na base da religião católica o retrocesso é patente, pela mordaça que vem sendo imposta desde que o hoje papa chamou Boff para a cadeira da Inquisição. O triste é ver que um dos frutos daqueles parênteses de sonho no modo brasileiro de ser apodrece, ou seja, se sarneyza: o PT, traidor de suas raízes populares e religiosas (as belas CEBs, experimento de cidadania) e rendido a uma lógica de eficácia, do sucesso, de perpetuação de poder, às favas os escrúpulos e o imperativo da transformação moral e política.
Nesse cenário, a importância de ouvir Martins se agiganta. Ele, longe de qualquer deslumbramento "neocon", é fiel ao que é definidor do legado cristão-iluminista e portanto esquerdista, ou seja, o espírito crítico, sem hipocrisias (não há cor "legal" pra hipocrisia, seja vermelha, negra ou arco-íris) cobrando com coragem o retorno à dialética histórica autêntica e ao compromisso pela ruptura com o regime da fome de todos, não aos conchavos pela pequena ascensão de imensas barrigas egoístas de uns poucos.
***
Eis a depuração?

José de Souza Martins*

A saída de Marina Silva do PT amplia o elenco das perdas identitárias que vem drenando de seus quadros algumas de suas figuras mais emblemáticas: Luiza Erundina, Cristovam Buarque, Heloisa Helena. Na sua diversidade, são nomes expressivos na relação do Partido com setores moralmente sensíveis da sociedade brasileira. Faces visíveis de alguns dos grandes eleitores ocultos, decisivos na trajetória de qualquer partido político.
O PT é uma frente partidária que vem se estreitando. Nasceu como coalizão de tendências políticas e sociais de perfis muito desencontrados. Nasceu dos descontentamentos residuais em relação a partidos e tendências, de esquerda e conservadores. O PT se constituiu numa organização partidária fracionada mas articulada, em cujo interior podem ser identificadas duas grandes facções que são as protagonistas de sua dinâmica e de sua crise atual. De um lado, a facção do poder, dos que, em linhas gerais, procedem da esquerda convencional e do aparelho sindical. De outro lado, a facção religiosa que, mesmo tentada pelo demônio do poder, só tem legitimidade quando expressa o profetismo cristão, particularmente o católico, tão forte em nossa cultura popular.
Nesse embate, o profeta invisível se alça contra o rei, aponta-lhe o dedo, questiona-o em nome da verdade do povo, derruba-o moralmente em nome da utopia de um tempo de fartura, justiça e esperança. Nesses dias, um dos desiludidos com o PT disse que o partido jogou a moral no lixo. Na verdade, no lixo jogou mais do que a moral. Jogou a utopia que lhe deu cerne e estrutura, jogou sua própria alma. O PT oportunista corrompeu a identidade do PT inovador, o dos novos sujeitos da política que nasceram das exclusões cujo sentido se deu a ver durante os tempos repressivos da ditadura militar.
Lula, oriundo do sindicalismo de resultados e não propriamente do sindicalismo de luta, tornou-se um líder carismático porque em grande parte refabricado na mística do grupo de origem religiosa e, também, nos setores de esquerda que estavam ansiosos pelo poder para demonstrar sua competência como gestores não capitalistas do capital. Foi o modo de fazer com que o que era igual parecesse diferente. Seu carisma protegeu-o não só contra os descontentamentos populares em face de desregramentos como o do mensalão, e os possíveis descontentamentos das elites, mas sobretudo contra os descontentamentos no interior de seu próprio partido. A consequência tem sido o fortalecimento de seu absolutismo, o que se manifesta particularmente quando age como porta-voz da convenção partidária que não houve, do seu e de outros partidos, ao indicar Dilma Roussef como candidata à Presidência, Ciro Gomes para o governo de São Paulo e Henrique Meireles para o governo de Goiás. Hoje o PT é governado pelas conveniências do poder.
No entanto, o poder impôs ao PT a missão de transformar-se em partido político, o que tem implicado abrir mão de sua rica diversidade ideológica e suas conflitivas ideologias internas. As expulsões e desligamentos resultam desse processo de depuração, para que o partido faça de conta que continua sendo o mesmo para ser o oposto do que dizia ser. A crise de oportunismo que estamos vendo é a crise de nascimento do novo PT. Se o PT nasceu batizado como partido popular e religioso, está agora passando pelo rito do crisma, tendo como padrinhos Sarney, Collor, Jucá, Calheiros. Renasce modelado segundo as exigências de uma concepção retrógrada e rústica do poder, tendo como referência o reacionário oligarquismo da dominação patrimonial e o fisiologismo que lhe é próprio. Na rendição, ninguém escapa nem Aluísio Mercadante nem Ideli Salvatti cujos radicalismos se perdem na satanização do outro, na incompetência para a radicalidade, a de ir às raízes dos fatos e expô-las. Tornaram-se meros cúmplices.
Parasitando os movimentos sociais, o PT esperava transformar-se num sucedâneo civilizado do populismo rural e urbano. Aliou-se aos partidos e às figuras exponenciais do nosso atraso político na esperança de apossar-se de seu eleitorado. Mas na dialética desse tipo de interação acabou parasitado. Na sessão da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania para ouvir a sra. Lina Vieira, alta funcionária técnica do governo, recém demitida no confronto com a ministra da Casa Civil, a candidata de Lula à Presidência, o que se viu foi o governo do PT sendo defendido na primeira fila pela tropa de choque do oligarquismo e do fisiologismo. O partido substituído e representado por aquilo que foi no passado objeto de sua crítica e de sua contestação. E não faltou um PT policialesco, na retaguarda, inquirindo a depoente como se estivéssemos no tempo da ditadura, como se fosse ela que tivesse que explicar os arranjos que fazem do PT o que ele é hoje. Os ingênuos dos dois lados do embate não se deram conta de que a depoente, sem nada dizer, fê-los engalfinharem-se contra e a favor do que era até então um mero fantasma, o fantasma de Dilma Roussef, dando-lhe corpo e alma. Nem mesmo faltou a palavra inoportuna do presidente da República na tarefa que não lhe cabia, a de defender sua criatura desqualificando a funcionária.
O fato de que Marina Silva já apareça como opção eleitoral antes mesmo de ser oficialmente candidata, dá bem a medida da ansiedade que setores ponderáveis do PT e do eleitorado têm por uma candidatura que represente o retorno aos valores que deram carnalidade a Lula. O fenômeno Marina Silva é o primeiro e poderoso indício de que o carisma de Lula tem sido silenciosamente abalado em seus fundamentos, mesmo que as pesquisas de opinião dêem-lhe altas porcentagens de apreço popular, que não é a mesma coisa que opção eleitoral e partidária. Por outro lado, ao revelar que Ciro Gomes tem o mesmo índice de opções da candidata de Lula, as pesquisas indicam que a perda do seu carisma se desdobra também aí, na imaterialidade política da candidatura de Dilma Roussef, mesmo com as poderosas verbas do PAC. Ou, talvez, por isso.


*Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Dentre outros livros, autor de A Sociedade Vista do Abismo (Vozes, 2008), A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto, 2008), A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008), Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano (Contexto, 2009).

quinta-feira, agosto 20, 2009

20 de agosto, dia de São Bernardo



Recolhi e divulgo abaixo material de internet acerca desta figura extraordinária na história da Igreja cristã, que foi São Bernardo, cuja memória é celebrada a cada 20 de agosto. Se, em seu próprio tempo, a paixão pelo Evangelho se viu culturalmente condicionada a assumir uma forma violenta -Bernardo foi um dos expoentes do movimento das Cruzadas-, ela hoje permite e convida a novos significados e contextos. A intolerância se transmuta na virilidade espiritual, na fidelidade amorosa ao "Nome-do-Pai" que nos protege como a madeira que impede que a boca do crocodilo (a Mãe) se feche e nos engula, para usar a bela imagem de Jacques Lacan. As religiões são elas também criação humana, histórica, portanto ambivalente, sua carga regressiva e repressiva é uma potencialidade má, mas não a única possibilidade; pois seus símbolos arquetípicos, inclusive os de violência, podem ocultar dimensões profundas de paz. Vide o Bhagavad-Gita, cântico sagrado de guerra que, séculos depois, apaixonou e inspirou ninguém menos do que Mahatma Gandhi.
Cristo nos chama, Cristo É chama, fogo sagrado que queima dentro e nos faz insubordinados aos poderes deste mundo. Cristo é um jovem anarquista, é (afora sua dimensão transcendental) um Tolstói da Palestina, ou Tolstói é um Cristo russo, como bem apontado por Nietzsche. Como vemos no filme "Na Natureza Selvagem", o tolstoísmo é extremamente atual e juvenil, não no sentido condescendente que os velhos gostam de nos empurrar goela abaixo ("tadinho, tem ainda as ilusões da juventude, isso passa"). Trata-se isso sim de um espírito libertário essencialmente atemporal, espírito de amor à vida, para além das formas falsas que esta sociedade de merda, e seus papas colaboracionistas, querem -literalmente- vender como verdades eternas. Nessa correnteza libertária das eras entra Bernardo com suas tantas obras e intuições. Com seu ativismo incendiário, que sacudia as estruturas estabelecidas, a Igreja carcomida, e contagiava muitos a seguirem seu caminho novo. Com seu apelo à vida interior -tão necessário em tempos como os nossos, de extroversão doentia na enxurrada de celulares, big-brother, celebridades, msn, orkut, facebook e cacete a quatro. Com seu amor a Deus - para além das idolatrias consumistas que querem nos forçar a pôr no lugar do Criador em nosso coração. E last but not least com sua prática da contemplação espiritual (em sacrifício e superação da subordinação psíquica à mãe pessoal) da Virgem Mãe de Todos.
Bernardo, abençoai-nos e protegei-nos, inspirai sempre novas e mais profundas vocações, amparai-nos como o caule em que podemos nos agarrar sem naufragar, em meio às torrentes e ventanias do tempo em que vivemos.
***
O poder de atração deste santo foi extraordinário. Nascido em 1090 no Castelo de Fontaine, próximo de Dijon, o terceiro de seis irmãos, ainda muito jovem decidiu fazer-se monge em Cister. Tescelino, o bom pai de Bernardo, ficou consternado: um após outro, os filhos abandonavam os confortos do castelo para seguir Bernardo: Guido, o primogênito, deixou até a esposa, que também se fez monja. Nissardo, o caçula, também despediu-se do mundo, seguido pela única irmã, Umbelina e pelo tio Gaudry, que despiu a pesada armadura para vestir o hábito branco. Por último também Tescelino pediu para entrar no mosteiro onde estava praticamente toda a família. Um êxodo tão completo como este não se verificou talvez nunca na história da Igreja. E como outros numerosos jovens pedissem para entrar entre os cistercienses, foi necessário fundar outros mosteiros. Disso foi encarregado Bernardo, que deixou Citeaux abraçando uma pesada cruz de madeira e seguido de doze religiosos que cantavam hinos e louvores ao Senhor.O pequeno grupo, após uma longa marcha, fez uma parada num vale bem protegido. O lugar era bom e decidiram se estabelecer aí, após tê-lo batizado com o nome de Claraval. Experientes trabalhadores, como todos os beneditinos, os monges logo levantaram aí cabanas para rezar, para dormir e para comer. A antiga regra beneditina era aí observada com todo o rigor: oração e trabalho, sob a obediência absoluta ao abade. Mas Bernardo preferia os caminhos do coração à rígida norma fixa. “Amemos – ele dizia a seus filhos – e seremos amados. Naqueles que amamos encontraremos repouso, e o mesmo repouso oferecemos a todos os que amamos. Amar em Deus é ter caridade; procurar ser amado por Deus é servir à caridade.” De Claraval, Bernardo expandia a sua luz sobre toda a cristandade. Embora frágil e nunca em ótima saúde, percorreu meia Europa, orientou concílios, pregou uma cruzada à Terra Santa. E depois de laboriosas jornadas retirava-se à cela para escrever obras cheias de otimismo e de doçura, como o Tratado do amor de deus e o Comentário ao Cântico dos Cânticos que é uma declaração de amor a Maria, pela qual tornou-se até autor e compositor, compondo palavras e música, do belíssimo hino Ave Maris Stella. É sua a invocação: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria” da Salve-rainha. Poucos instantes antes da morte, acontecida a 20 de agosto de 1153, assim consolava os seus monges: “Não sei a quem escutar, se o amor dos meus filhos que me querem reter aqui em baixo, ou ao amor do meu Deus que me atrai lá para cima.”Foi chamado por Pio XII “o último dos Padres da Igreja, e não o menor.”

(fonte: http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=SANTODIA&id=scd0232)

****

Ave, Maris Stella

(São Bernardo de Claraval)


Ave, Maris Stella,

Ave, do mar Estrela

Dei mater alma,

De Deus mãe bela,

Atque semper Virgo,

Sempre virgem, da morada

Felix caeli porta.

Celeste Feliz entrada.

Sumens illud

Ave,Ó tu que ouviste da boca

Gabrielis ore,

Do anjo a saudação;

Funda nos in pace

Dá-nos a paz e quietação;

Mutans Evae nomen.

E o nome da Eva troca.

Solve vincla reis,

As prisões aos réus desata.

Profer lumen caecis,

E a nós cegos alumia;

Mala nostra pelle,

De tudo que nos maltrata

Bona cuncta posce.

Nos livra, o bem nos granjeia.

Monstra te esse Matrem,

Ostenta que és mãe, fazendo

Sumat per te preces,

Que os rogos do povo seu

Qui pro nobis natus

Ouça aquele que, nascendo

Tulit esse tuus.

Por nós, quis ser filho teu.

Virgo singularis,

Ó virgem especiosa,

Inter omnes mitis,

Toda cheia de ternura,

Nos, culpis solutos,

Extintos nossos pecados

Mites fac et castos.

Dá-nos pureza e bravura,

Vitam praesta puram,

Dá-nos uma vida pura,

Iter para tutum:

Põe-nos em vida segura,

Ut, videntes Jesum,

Para que a Jesus gozemos,

Semper collaetemur.

E sempre nos alegremos.
Sit laus Deo Patri,

A Deus Pai veneremos,

Summo Christo decus

A Jesus Cristo também,

Spiritui Sancto,

E ao Espírito Santo; demos

Tribus honor unus. Amen.

Aos três um louvor. Amém.

quarta-feira, agosto 19, 2009

augustos anjos letais




Sonhava nesta madrugada que estava num congresso de teologia, e eu via, juro por deus que via anjos sobre os homens do púlpito, os conduzindo por tênues barbantes na boca e nos braços em suas performances repletas de citações bíblicas. Nas paredes, retratos do papa, sempre os mesmos, por toda parte, mas, não, pera, é a cara do Edir Macedo! Sob as vestes púrpuras e coroa vaticanas! Ele nos olhava de modo austero e profundo.Retratos seus em moldura de ouro, e abaixo de si um crucifixo de madeira podre. Quando um teólogo brilhante chegava ao clímax de um complexo raciocínio que comovia toda a audiência, passo a não mais escutá-lo, um barulho se interpõe entre mim e sua empolgação crescente de telepastor, fui acordado por ruídos do meu pobre apartamento estreito...baratas! muitas baratas! baratas ontológicas, gritei em pânico num estranho dialeto teológico, não sei se ainda sob a influência do sonho e do meu torpor de recém-acordado. Baratas se metamorfoseando em crianças, ou melhor, anões, carecas enrugados, de nariz comprido e mantos cor (e cheiro) de merda, e eles começaram a cantar, a princípio em sussurros, mas logo chegando aos berros. Lambiam-se uns aos outros, lava-pés de salivas!! E depois tiraram os mantos, estavam nus, de pau cada vez mais duro, asas também se expandiram nas costas, asas de barata, maiores que seus corpos! Os anões, escurecidos subitamente, começaram a se beijar e se masturbar uns aos outros, eu me levantei na cama e encostei as costas na parede, horrorizado, eles pouco se importavam comigo, e quando satisfeitos, romperam a vidraça do apartamento e partiram ao céu calado, sepucralmente calado, cortado só pelas asas de barata e pela mesma cantoria de ruídos de antes, compulsiva, incompreensível. Espalharam-se pelo céu da cidade. Eu ainda perplexo, com ânsias de vômito que tentava conter, desabei no chão. Na cabeceira, uma vela acesa, chama escarlate, e amassado, pútrido, meu Augusto dos Anjos aberto na cama, na rasurada página 666:


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PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

#Profundissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância…

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

#Já o verme – este operário das ruínas -

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

#

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

domingo, agosto 16, 2009

jonas e a baleia


Me sinto como Jonas no ventre da baleia: mas sem deuses a que rezar por salvações. Como diz a amiga Bel, Deus sou eu, os eus de D-eus: plenitude e horrores do Ser. A baleia também sou eu: a preguiça no sendo. Todos os confortos que me protegem e embalam são também modos de fugir da vida, da cidade da profecia. Algo em mim quer o pasto do conformismo e do anonimato.
Farejo fora da baleia mas tudo o que minhas narinas vêem é um mar poluído, superpovoado de vazios, repleto de solidões que se acotovelam e ligam suas células e celulares a jogos vãos e esperas estéreis.
Restos de outdoor sorridentes são o único rastro de luz na praça infecta da atlântida arruinada.
Por que quando caminho no desejo sinto dar voltas, no mínimo elipses, em torno a algo opaco, inseguro e insuficiente, em mim, em todas as linhas retas do que eu fale, pense e aspire? Por que um caminho tão instável? Fraqueza do desejo, como quer o padre na margem de cá, ou fraqueza no desejar, como berra o beberrão na margem de lá? E a terceira margem? E o sim sem imagem?
Jonas, sai da baleia, a mãe é mais um orixá! Corta o cordão das bolsas temporárias do Canguru eterno! Lennon já avisou, o sonho acabou, junto com o tempo incestuoso dos sonhadores de Bertolucci, rumo agora são exogamias da alma, tempo de despertar, hora de pegar em armas e lutar.

sexta-feira, agosto 14, 2009

o dia em que a Terra parou

American dream


Foto que se tornaria uma das imagens mais famosas de Woodstock; hoje, 40 anos depois do histórico festival, o casal permanece vivo, unido e amoroso

"Quem diz que se lembra de alguma coisa do que aconteceu em Woodstock, é porque não esteve lá".
(Frase, ou melhor, koan zen-hippie-budista, de um hoje velhinho que ainda vive na cidade de Woodstock, interior de NY)

fonte: TV GLOBO, Jornal Hoje, 14 de agosto de 2009



segunda-feira, agosto 10, 2009

exu-berante Mario Cravo Neto (1947-2009)


Cena de culto no candomblé; "Figura Vodu 1988": imagens do fotógrafo baiano Mário Cravo Neto, morto ontem em Salvador (BA)


"Era preciso aplacar a fome de Exu.

Exu queria comer.

Orunmilá obedeceu ao oráculo e ordenou:

'Doravante, para que Exu não provoque mais catástrofes,

sempre que se fizerem oferendas aos orixás

deverão em primeiro lugar servir comida a ele'.

Para haver paz e tranquilidade entre os homens,

é preciso dar de comer a Exu,

em primeiro lugar."


Reginaldo Prandi (org.),

Mitologia dos Orixás



domingo, agosto 09, 2009

de gripes bubônicas e tamiflus filosóficos

Arthur Schopenhauer

Me lembro de um quadrinho de jornal de uns quatro anos atrás, em que um ratinho branco, limpinho, criado em laboratório, se enfastia da vida "perfeita" que leva ali, equilibrada, confortável mas bocejantemente pacata. Quer o mundo "underground". Foge. E literalmente vai parar no underground, o esgoto da rua, está ansioso por descobertas e aventuras que só entre os malditos poderia alcançar.
Avista logo adiante um rato sujo, de óculos escuros, modos de malaco exxxperto, e considera ter achado o guru iniciático ideal.
Aproxima-se e pede pro rato-malaco que o ensine tudo. O rato-malaco ri e diz que "tem um monte de coisas pra passar", e ri tanto que, mal termina a frase, está tossindo na cara do ratinho branco, que na cena seguinte da tira ficou subitamente estropiado, olhos vermelhos, aspecto doente; o rato-malaco arremata dizendo algo como: "Não falei?".
Será que entre o laboratório e o hospital eu ainda encontro meu lugar ao Sol? Uma via média que não seja o esgoto? Ou será que preciso desse eterno retorno das ilusões e desilusões e convalescências: confirmar minhas piores impressões sobre os humanos, fugir do porre de meu próprio vazio tentando me encher das coisas que os imbecis têm pra "passar" nas pocilgas do mundo e -ator fudido e atordoado-, apelar pra desintoxicação à base dos tamiflus filosóficos?

"E assim como há aqueles que temem bestas ferozes, sem as odiar, assim se passa comigo em relação aos seres humanos. Não alguém que odeia os homens, mas alguém que os despreza, é o que quero ser. Para poder desprezar, como é justo, todos aqueles que o merecem, ou seja, cinco sextos da humanidade, a primeira condição é não odiá-los. Não se deve permitir que o ódio tome conta de nós, pois aquilo que se odeia não se despreza suficientemente. Em contrapartida, o meio mais seguro contra o ódio ao homem é justamente o desprezo ao homem. Mas um desprezo deveras profundo, consequência de uma visão clara e nítida da inacreditável miséria de sua disposição moral, da enorme limitação de seu entendimento, e do egoísmo sem limites de seu coração, que origina injustiça gritante, inveja e maldade tacanhas, que às vezes chegam às raias da crueldade".

"Num mundo em que pelo menos cinco sextos das pessoas são canalhas, néscias ou imbecis, é preciso que o retraimento seja a base do sistema de vida de cada indivíduo do outro sexto restante - e quanto mais se distanciar dos demais tanto melhor. A convicção de que o mundo é um deserto, em que não se pode contar com companhia, deve se tornar uma sensação habitual. Assim como as paredes limitam o olhar, que de novo se amplia tão logo se tenha diante de si campos e descampados, assim também a companhia humana limita meu espírito, e a solidão de novo o amplia. (...) Como os famintos que recusam um alimento estragado ou envenenado, assim também devem proceder os homens que sentem falta de companhia, em relação aos outros homens, considerando-os o que são."

Arthur Schopenhauer

quinta-feira, agosto 06, 2009

Antunes se reinventa de novo


O diretor teatral Antunes Filho

A seguir, reflexões de Antunes Filho a propósito de "A Falecida Vapt-Vupt", sua mais nova montagem teatral, que estréia dia 14 em SP. São palavras que atestam a capacidade inesgotável de mestre Antunes de, uma vez mais, criar, se recriar, se questionar, e assim manter seu enorme frescor e jovialidade como investigador profundo do hoje e do sempre do homem, em seus enredos e enredamentos nos palcos e na vida.

A FALECIDA VAPT VUPT

Sobreposição de Realidades

Dentro de uma realidade dada (um bar), sobreposições de outras realidades ficcionais simultâneas navegam imaginariamente (como as flutuações de Chagal) entre os fregueses e sobre as mesas. Alguém, naquele momento, estará imaginando, criando todas essas personagens que cercam Zulmira, atualizando a virtual história “A Falecida”? Que Autor? A um canto, condenada à sempre solidão, uma figura de Hopper.

Bidimensionalidade

Em outras montagens de “A Falecida” já se propôs uma interpretação junguiana, bem ao contrário do que até então se havia feito com as obras de Nelson Rodrigues, que além de serem sempre rotuladas como comédia de costumes eram calcadas numa visão freudiana. Dentro de uma leitura realizada através de Jung sobre o inconsciente coletivo, utilizou-se espaços profundos (três dimensões acentuadas com luzes apropriadas propiciando incertezas, névoas) que sugerisse estados hipnóticos, inconscientes.
Desta feita, ao contrario, aproveitando o humor do autor, a sua grande verve irônica e cáustica, propõe-se uma aproximada situação documental, popular e cotidiana: chapada, clara, uma dura gravura bidimensional que lembra figurações da Pop Art (Roy Lichtenstein, Andy Warhol, Jasper Johns, Rauschenberg, Claes Oidenburg)

Descentralização
Como em toda pintura clássica, o teatro afunila, centraliza, conduz o olhar do espectador para pontos centrais do palco que são determinados por degraus e patamares na sucessão linear da ação dramática, seja pelos movimentos de falas, atores, luzes e som (músicas, ruídos, etc.). Mas esse procedimento não mais se verifica totalmente na arte contemporânea: pintura, cinema, televisão, vídeo-arte, etc.
Essa nova concepção baseia-se no mundo caótico, hiper-real que se vive. Uma realidade inflada, bombardeando o homem em todos os sentidos, num entra e sai de dezenas de pessoas (como o metrô às 18h). A sociedade de consumo à toda com seus auto-falantes, cruzamento vertiginoso de imagens e sons, publicidade, rádios e toda a sucessiva parafernália eletrônica correspondente. Frequenta-se o “fast-food” por falta de tempo, mal troca-se palavras com o amigo que passa apressado.
As atenções são violentamente solicitadas – vê-se, avista-se, olha-se tantas coisas simultaneamente que tudo se embaralha tornando a vivência rasa, superficial. Uma percepção contemporânea exige uma outra sensibilidade.

Proposta
É essa sensação atordoante e fragmentada que está tentando se introduzir no teatro. Isso é contemporâneo: tornar o olhar e os ouvidos dos espectadores mais espertos, mais aguçados, fruto da fragmentação existente. A sensibilidade do homem está alterada radicalmente: deixou de ser, pode-se dizer, clássica, confortavelmente burguesa, sonolenta. Os tempos agora são outros – vapt vupt!
Seria absolutamente obsoleto, saudosista, arcaico, que se realizasse uma “A Falecida” nos moldes dos anos 80 e 90. Após a chuva, continuar desfilando com roupas vitorianas encolhidas! Esta diferente proposta de encenação , dessacralizada, rasteira, é colocada para que seja discutida a linguagem contemporânea do teatro. Que venham os do contra, que venham os a favor – que se crie novas coordenadas. Não será o momento de questionar através dos espetáculos a hiper-realidade que se vive fora do teatro?


ANTUNES FILHO

chapa, xará, churinga

Caio Fernando Abreu

Encontrei mais do que um xará, encontrei um chapa.. churinga de neon, farol marítimo de um outro Aion, prás noites à luz de velas do desamparo.

segunda-feira, agosto 03, 2009

cidade in-festada


"O sacerdote desvaloriza, dessacraliza a natureza: é a esse custo que ele existe. - a desobediência a Deus, isto é, ao sacerdote, à 'Lei', recebe então o nome de 'pecado'; os meios de 'reconciliar-se com Deus' são, como é de esperar, meios com os quais a sujeição ao sacerdote é garantida ainda mais solidamente: apenas o sacerdote 'redime'... Psicologicamente, em toda sociedade organizada em torno ao sacerdote os 'pecados' são imprescindíveis: são autênticas alavancas do poder, o sacerdote vive dos pecados, ele necessita que se peque...Princípio supremo: 'Deus perdoa quem faz penitência' – em linguagem franca: quem se submete ao sacerdote.-"
FRIEDRICH NIETZSCHE
O Anticristo
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Sacerdote dos tempos modernos: o médico, o terapeuta, o explica-dor. E dor se explica? Tanto faz: eles saem lucrando de todo modo. Sacerdote é o media-dor da dor média, da dor medíocre, da dor de mídia, comunicável na forma de "queixa", da dor tratável na forma de "genéricos" verbais ou químicos. Dor homogeneizada, dor higienizada, generalizada, butim dos exames e enxames de ôtoridades especialistas.
Semana passada, um programa de TV levava um epidemiologista para a balada, para passar sermão nos jovens que se beijavam no rosto, na boca, e assim se "incriminavam" com o risco da gripe suína.
Mandam a gente adiar o teatro. Mandam a gente assistir TV, internet. No tempo de Freud a gente sublimava, no tempo da fraude a gente virtualiza. Mandam a gente cancelar a festa. Festa finada, tudo in-festado, para lembrar o genial trocadilho de Jorge Forbes em conversação clínica com um pobre-diabo apavorado pelos riscos de vida e de morte. Festa que infesta. Beijo que mata. Judas Iscariotes. A vida calvário. Mandam a gente ficar em casa. Lavar bem com água e sabão era, na minha infância, castigo pra quem falava palavrão, agora é penitência a quem cometa a impureza de co-existir no mundo. Enquanto isso, nos explicam os sacerdotes na TV: um novo primo da família dos HIVs na praça. Esse vem dos gorilas. Todo cuidado é pouco.
Uma moça que adoro (que seria de mim sem elas, sem minhas "valquírias", como eram chamadas as mulheres em torno de Jung rs), de apelido Moranga, me dizia esses dias: "Sai desse pesadelo (São Paulo). Vai morar em Natal, Belém, Fortaleza. Vai morar no Sol. Lá você acha que o povo tá neurotizado assim, tá andando de máscara?". Achei tão lindo, tão camusiano isso. A gente se complica demais com tanta explica-dor e media-dor. Mascara-dor. A gente se mediocriza, a gente se mascara. A gente anestesia a dor e as tarefas que a dor aponta. A gente se dissolve e se queima em ácidos infelizes o doce jorro de gozo que a dor mal-comportada comporta.
Ir morar no Sol.. prefiro o Sol à História, ao histórico histérico. O Sol e a Lua: festa alquímica das potências vorazes da alma e do corpo. Que se fodam os sacerdotes da impotência. Fodam mais e expliquem menos. Mas com camisinha, claro, se quiserem até nos dedinhos, melhor se garantir rs.